quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Livro | A Punhalada 4 - Capítulo 12: Sangue Frio


A garota ensanguentada no chão de mármore não tirava os olhos dela. Cabelos negros e longos, que quase lhe chegavam a cintura. Um vestido preto decotado, com uma abertura lateral esquerda. E um olhar inexpressivo.
Não era humana, para todos os efeitos. Mas vinha a ser deslumbrante.
— Sinto muito por isso — Ruby lhe disse. Guardou o celular na bolsa compacta, empunhou um batom vermelho e encarou seu reflexo no espelho.
Atrás dela, via cabines manchadas de sangue inocente. À esquerda, no chão, escorada a parede, a desconhecida que minutos atrás esfaqueara e roubara as vestes. À direita, a porta de entrada, que fora estrategicamente bloqueada. Ninguém as havia incomodado no banheiro do restaurante desde que Ruby as prendeu em seu filme de terror particular.
— Não é nada pessoal — A assassina continuou a dizer. — Observei você desde que entrou e não consegui parar de imaginar como este vestido ficaria em mim. — Olhou para a vítima de relance. Aos poucos ela morria, por mais que não aceitasse. — Em dois minutos você terá sangrado o suficiente para seu corpo entrar em colapso — Voltou a atenção a seu reflexo, o batom deslizando sobre os lábios. — Não sentirá mais dor, se isso a preocupa. Mas estará morta.
— Meu Deus, me ajude... — A moça conseguiu sussurrar, sufocada em sangue.
Ruby guardou o batom de volta na bolsa. Escorada na pia, olhou para ela.
— Deus? — Caminhou até ela. — É, eu até gostei — E a apunhalou mais três vezes na área dos seios. Sua cabeça caiu sobre o ombro, e Ruby a colocou reta outra vez. — Qual era mesmo seu nome? — Falava com o cadáver. — Stacy? Stella? Bem, você tem um ótimo gosto.
A assassina respeitava sua fé, genuinamente. Só não tanto quanto respeitava a morte. Agora, graças a Dylan, também respeitava o que lhe era belo.
Admirou-se no espelho uma última vez, em toda sua glória. Não através dos olhos, onde podia encontrar os resquícios da antiga Ruby Donahue. A beleza estava em seus longos cabelos negros, sua pele sedosa, sua cintura magra; nos braços, nas pernas, e na curva que fazia seus lábios sempre que sorria maliciosamente. Estava também dentro dela, nos seus pensamentos, e em tudo o que dizia respeito à vida que teria depois que tirassem Amanda Rush do caminho.
Um milhão de dólares – podia até sentir o aroma das notas. O que viria depois, ao lado de Dylan e do terceiro membro da equipe, era um plano adiáforo.
Se nada desse errado.
— Deus... — Deu um ar de risos para o espelho, apalpando os cabelos. — Deusa — Era como se sentia. Finalmente.
Deixou o banheiro sem demora, direto para o conversível vermelho que a esperava no estacionamento. Quando o corpo da jovem esfaqueada foi encontrado por uma cliente, Ruby já estava a meio caminho da mansão alugada de Amelia Grey, onde seu marido, Robert, oferecia um banquete aos novos investidores e fazia novos aliados ao monopólio da indústria do entretenimento. Não estariam esperando por ela, é claro. Por isso Dylan se certificara de pagar uma boa quantia em dinheiro aos trabalhos, para que deixassem a mansão assim que chegasse a última convidada.
Ao estacionar nos portões, foi recebida por duas garçonetes uniformizadas, que ficaram responsáveis pela coleta da quantia em dinheiro enquanto seus colegas abriram os portões. Só após sua partida Ruby recebeu sinal verde para fazer sua entrada triunfal à sala de jantar; como se de tudo realmente fosse dona.
Todas as expressões, em volta a longa mesa, pairavam entre a surpresa e a curiosidade.
— Boa noite, damas e cavalheiros — Sentou-se na outra ponta, o lugar privilegiado. — Sei que vocês devem estar um pouco confusos, mas prometo que serei breve.
— Me desculpe, mas quem é você? — No segundo assento da esquerda, Amelia indagou.
— Perdão. Me chamo Ruby Donahue. Oficialmente, não fui convidada para esta reunião, mas tomei a liberdade de comparecer para agracia-los por seus feitos. Fico muito feliz que tenham decidido se reunir aqui em Seattle, neste exato momento, para uma comemoração. É uma oportunidade única que eu e meus colegas de trabalho não poderíamos perder.
— Como você entrou? Isso é um absurdo! — Amelia tirou o celular da bolsa. — Estou ligando para a segurança.
— Como? — Ruby esperou alguns segundos até que ela descobrisse estar incomunicável.
— Não está funcionando — Foi até o telefone fixo da mansão, em cima do armário a sua dianteira. Mudo, também.
— Eu sei — Ruby sorriu. — Isso também faz parte do show. Talvez você queira sentar-se, Senhora Grey, ou então perderá boa parte dele — Com a mão direita, deixou uma desert eagle em cima da mesa.
Os convidados se entreolharam, assustados. As esposas tomaram as mãos de seus maridos, em cima da mesa. Os cavalheiros solitários engoliram em seco.
— Tudo bem — Amelia voltou ao seu lugar.
— Sabe o que eu mais gosto no seu programa? A maneira como você faz a mentira soar tão capitalista. O que importa se a carreira de um ator chegue ao fim, contanto que Amelia Grey seja campeã de audiência? Eu mato pessoas com uma faca, mas você as mata para o resto do mundo. Acho que não somos tão diferentes assim.
Os olhos de Amelia foram de Ruby ao seu marido, dele aos convidados, depois de volta a linda garota com os dedos no gatilho.
— Você é a assassina?
— Bem, isso depende — Ruby fingiu estar pensando no que dizer. — Se você está perguntando se eu sou a garota que vestiu uma fantasia de fantasma e começou a perseguir os adolescentes do Roosevelt High, então a resposta é sim. Mas se estiver perguntando se eu sou a única assassina, a resposta é não. Garotas não precisam de ajuda para conseguir o que querem, a não ser que encontrem as pessoas certas, com o mesmo objetivo. É por isso que estou aqui. Quer saber quem é meu parceiro?
Amelia estremeceu.
— Por favor, não nos machuque — Uma das moças implorou.
Ruby atirou na cabeça dela em cheio. Seu sangue respingou em todos os outros convidados; mais precisamente em Amelia, que sentava ao seu lado. Seus olhos negros fizeram-se em lágrimas escorridas nas bochechas, num traçado negro de maquiagem.
— Façam silêncio, ou serão os próximos — A assassina alertou. — De novo, Amelia. Quer saber quem é meu parceiro? — Esperou apenas dois segundos sem resposta. — É você. Tecnicamente, não é uma parceira. Pense em você, a partir de agora, como a mente por trás de todos esses crimes. Quanto uma apresentadora de TV lucraria se desvendasse, em primeira mão, uma onda de crimes tão hediondos? Talvez muito, se ela mesma se certificou de que haveria um crime. Aliás, como está o caviar? — Perguntou aos outros convidados. Desde que começaram o discurso, já havia notado sua inquietação. — Já se passaram cinco minutos... — Conferiu em seu relógio de pulso. — Já devem estar sentindo os primeiros efeitos da paralisia e queimação estomacal. O que vem agora é um pouco mais repugnante do que eu gostaria. Vômito, espumação, sangue. Pelo menos isso termina com a morte.
À frente dela, os convidados arranhavam a garganta desesperadamente. Listras de sangue formavam-se por baixo das tiras de pele que arrancavam freneticamente com unhas. Alguns caíram de seus assentos sobre o tapete; outros morreram em frente à mesa, de rosto em encontro ao prato. Mas todos, com exceção da grande anfitriã, terminaram como cadáveres roxos com o globo ocular ensanguentado.
— Ai meu Deus! — Amelia gritava. — Faça isso parar! Por favor! — Foi quando começou a sentir os primeiros efeitos da comida envenenada. — O que está acontecendo? — Seus olhos embaçavam.
— Eu te disse — Ruby levantou, a arma de volta no bolso.
A cada palavra, Amelia perdia o controle sobre uma parte de seu corpo. A paralisia começou pelas pernas, depois estendeu-se aos membros superiores até chegar ao pescoço, quando já não podia mover-se um centímetro para longe daquela matança.
— Você é a assassina — Ruby deu a volta por trás dela. — É o que as manchetes dos jornais vão dizer amanhã. E querida, você nem precisa estar viva para isso — Puxou-a pelos cabelos e deslizou o punhal por sua garganta.
O sangue de Amelia jorrou da ferida aberta sobre suas pernas, inundando-as num círculo vermelho.
Ruby sentia-se como em um céu duradouro, ou na mais encantadora estância do inferno. Suspirou fundo, de olhos fechados. Deixou-a cair sobre o prato que comia, antes que provasse uma gota de seu sangue direto do punhal. Estava acabado.
— Sou eu — Disse ao celular, enquanto passava pela porta de entrada.
— Ela está morta? — Dylan perguntou.
— Sim, mande a limpeza. Está tudo pronto.
φ

Não tão longe de onde Ruby deixara o cadáver de uma jovem moça para ser encontrado, Amanda, Grant e Elena localizaram o principal cartório da cidade. O casal, a pedido de Amanda, fora designado a encontrar os documentos que precisavam no salão de arquivos, enquanto a mesma contava a Megan pelo celular tudo o que haviam descoberto a partir da estação de metrô.
Aaron, por algum motivo, não atendia suas ligações. E Matty ainda não fora encontrado.
Saiu do salão de espera, com o celular no bolso, e trancou-se no banheiro. Não havia ninguém por perto, exceto pelos invasores noturnos que estavam tentando solucionar um crime. Era bom saber disso agora que não conseguia mais conter as lágrimas. Lavou o rosto pelo menos duas vezes, tentando enganar o próprio reflexo no espelho. Nada adiantava.
Não sentir, durante tanto tempo, sempre vinha no final da noite como sentir demais.
Tudo era muito mais fácil quando seus pais estavam vivos. Não poderia contar com eles para curar um coração partido, mas sabia que no dia seguinte alguém a esperaria voltar do colégio e comemoraria as notas do seu boletim. Encontraria roupas lavadas no armário, comida posta à mesa e as chaves do carro no gancho da porta sempre que quisesse sair. Não era a maneira que Brandon lembrava, e sabia que, de uma forma ou de outra, ter sido a filha preferida lhe foi mais um infortúnio que uma bênção. Mas havia uma maneira categórica de valorizar as boas lembranças sem as más influências.
Sentia falta deles, diariamente. Morreram cedo demais, para os que haviam sobrevivido à loucura de Brandon Rush. E mataram-na primeiro, ainda vivos, porque era assim tão difícil. Amanda não os julgava; dezesseis anos depois, ainda era assim tão difícil, quase a ponto de desistir. Por nunca tê-lo feito, o mérito era todo de seu filho.
Há seis anos, durante o período de residência no Saint Augustine Memoral Hospital, a carga horária era tão intensa que chegava a fazer plantões de quarenta e oito horas ininterruptas – o que sempre a levava a dormir no hospital. Entre um chamado e outro, sobrava apenas a quantidade usual de tempo para ser uma pessoa normal, e isso já era demais avante seus pensamentos intrusivos. Foi numa noite de bebedeira importuna que descobriu o poder de colocar para fora. Havia ligado, sem querer, para o número antigo de seus pais, e deixou a mensagem mais sincera de sua vida. No outro dia, seu mundo simplesmente ficou leve.
Era uma tradição que suas noites de insônia insistiram que seguisse.
— Oi pai, oi mãe. Sou eu, Amanda. — Disse ao celular. Sentou-se no chão do banheiro, escorada na parede lateral. — Seattle ainda está em clima do dia das bruxas. Estou bem longe da época em que distribuíamos doces para as crianças da rua, mas não significa que esqueci. Eu tenho um filho agora. Aquele que vocês disseram não ter direito de nascer ou então nossa família nunca superaria a vergonha. Ele é um ótimo garoto; joga lacrosse, gosta de assistir filmes e se interessa por meninos e meninas. Algo que vocês não teriam desaprovado, como os pais liberais que sempre foram — Deu um ar de risos.
“Hoje ele faz 16 anos e a vida dele corre perigo, como eu temia anos atrás. Ter desistido dele, agora, faz tanto sentido quanto ter pensado que ele não deveria nascer. Eu o amo de uma maneira que eu nunca fui amada, e tudo o que eu quero é poder dizer-lhe isso pela primeira vez. Eu quero que ele me conheça, que saiba quem eu sou, de onde vim, o que eu amei. Quero que ele conheça vocês; o melhor lado de vocês, e descubra que pode ter quantas famílias quiser”.
“Uma vez, Brandon me disse que não havia sobrado amor para ele em lugar algum. Eu morreria antes de deixar que o mesmo acontecesse a Matty”.
“Eu os amo e sinto saudades. É assim que eu sei que preciso lutar por isso. Obrigada, mãe e pai”.
À última palavra, Amanda ouviu Elena chamar seu nome do lado de fora. Estava na hora. Os três voltaram ao carro, com apenas um destino em mente: A fazenda dos Fitzgerald.
— Encontramos isso — No banco de trás, Elena mostrou-lhe o arquivo que segurava. — Duas semanas atrás, uma mulher chamada Melissa Carter invadiu o Hospital Psiquiátrico de Fort Lawder, alegando que uma das enfermeiras era sua amiga e permitiu que visitasse a mãe em segredo, fora do horário de visitas. No dia seguinte três enfermeiros e um paciente, Kyle Fuller, foram encontrados mortos na propriedade, além do assassino ter deixado uma clara mensagem nos computadores de acesso.
— Isso nós sabemos.
— O que não sabíamos é que Robert Grey foi o principal financiador da casa onde Melissa vive hoje.
Amanda analisou os documentos à sua frente. Era verdade.
— Nós pegamos a nossa assassina? — Olhou para Grant, na direção.
— Não tenho tanta certeza. Parece fácil demais.
— Isso faz sentido — Elena argumentou. — Melissa entrou clandestinamente em Fort Lawder com seu veículo, talvez com o assassino no porta-malas. Quem pode garantir que ela não seja uma cúmplice e tenha saído da jogada com uma propriedade em seu nome? Deveríamos ir à polícia agora mesmo.
— Não se precipite — seu noivo pediu. — Até onde sabemos, Amelia e seu marido podem estar sendo incriminados. Precisamos considerar esta possibilidade.
Amanda concordava. Elena, nem tanto.
Escorou-se no banco de trás, pensativa. Seu celular tocou como se fosse salva pelo gongo.
— Ai meu Deus, é do buffet — Disse ao noivo. — Alô? Sim, é Elena. Agora é um péssimo momento, poderia ligar mais tarde? — Esperou alguns instantes. — Tudo bem, eu entendo.
Grant olhou para ela pelo retrovisor. Estava muito, muito preocupada.
— Algo errado? — Perguntou-lhe.
— Não é nada, é só algo que eu preciso fazer.
— O que?
Ela pulou no volante, por cima dos ombros dele. Grant e Amanda só tiveram tempo de gritar antes que o carro capotasse três vezes, deslizando quinze metros sobre o asfalto, de cabeça para baixo. Elena fora arremessada para fora na primeira emborcada; Amanda e Grant, que usavam cinto de segurança, permaneceram dentro do veículo o tempo inteiro.
A estrada assim fez-se em um cenário caótico cheio de cacos de vidro e pequenas extensões de chamas. Apenas um, da fileira de carros que circulavam atrás deles, se dispôs a parar. Dele desceu uma mulher de cabelos loiros que aparentava estar nos seus quarenta e tantos anos e vestia um uniforme verde escuro de missionária evangélica da Bridgeton Church
— Ai meu Deus... — Ela olhava horrorizada. Aproximou-se de Elena, a qual tinha mais acesso. — Você está bem?
Elena respondeu cravando a faca na lateral de seu pescoço e empurrando-a de volta contra o próprio veículo.
— É você quem não está bem — Cuspiu.
A mulher engasgava no próprio sangue, de olhos arregalados. E segurando Elena por um braço, tão forte quanto queria viver, ela apagou.
Amanda assistia tudo à distância, presa ao cinto de cabeça para baixo. Com Grant inerte, ao seu lado, decidiu sair do veículo antes que Elena a alcançasse. E a assassina já estava em seu encalço. A atacou antes que ficasse de pé em dois movimentos rápidos com a faca em diagonal. Amanda desviou da primeira, malmente da segunda. Bateu de costas na lataria do carro capotado, o ombro ferido.
Na próxima estocada, Amanda conseguiu segura-la pelos dois braços antes que a faca atingisse seu peito. Investiu uma joelhada em sua barriga, em seguida no rosto. Elena cambaleara para trás, sangrando pelo nariz, quando foi surpreendida por um gancho de direita que a derrubou no chão. Amanda também estava só começando.
A assassina levantou, já sem a faca, e avançou para o ataque. Amanda caiu de costas nos cacos de vidro, ela por cima. Amanda só tinha os próprios braços para se proteger contra a sequência de socos disparados.
You fucking bitch! — Elena praguejava.
Não havia muitas opções, senão a que Amanda cogitou desde a primeira vez em que a vira ao lado de Grant. Puxou firmemente seu rabo de cavalo e levou seu rostinho angelical – de noiva perfeita – ao encontro dos cacos de vidro no chão. Com isso bastou empurra-la para lado, podendo então engatinhar até a faca que a assassina deixara cair. Mas nem de tão pouco que havia avançado, já tinha sido agarrada pela perna esquerda. O desequilíbrio a fez cair de peito sobre os cacos de vidro – e perto demais das extensões de chamas que as circulavam.
Chutou uma vez, duas, três, quatro. Na quinta, acertou em cheio para sua liberdade. E esperava que a marca de seu salto alto também deixasse uma pavorosa cicatriz.
Caminhou em pé, em direção a faca. Quando virou, certa de que a veria enfraquecida, Elena a surpreendeu com um empurrão. A tomou pelos cabelos, como Amanda fizera antes, e a atirou contra a lataria do carro em chamas. Acertou-a duas vezes no rosto com os punhos e uma vez na barriga com os joelhos. De tão violento, Amanda cuspiu uma bola de sangue. Bateu sua cabeça contra a lataria do carro, como um golpe de misericórdia.
Amanda não tinha mais controle sobre o que aconteceria. O mundo girou ao seu redor à medida que sons e ruídos faziam-se indistinguíveis. O que Brandon a diria naquele momento, se aparecesse novamente? Lute, Amanda – se bem o conhecesse. Sempre torcia por ela. Se não fosse por ele, Amanda Rush não tinha o direito de morrer por ninguém mais.
Matty lhe veio à mente como um despertar.
Ela abriu os olhos, totalmente lúcida. Golpeou Elena com as costas da mão, seguido de uma cotovelada no nariz. A assassina cambaleou para trás ao receber o próximo golpe, direto na barriga. E no final, um chute certeiro no peito.
 Elena caiu quase inconsciente no chão.
— Não sei porque está fazendo isso... — Amanda tomou a faca em mãos. — Mas você não vai sair dessa.
Teria lhe acertado em cheio uma facada no globo ocular, se Ruby não atirasse um tranquilizante diretamente em seu pescoço. Amanda caiu, ao lado da porta quebrada do carro. E Elena levantou, sozinha, como desejara ter acabado com Amanda Rush.
— Não precisava da sua ajuda — Disse à comparsa.
— De onde eu estava, parecia que você estava prestes a morrer.
— E você acha que eu me importo? — Passou por ela.
Ruby havia chegado de conversível ao local do acidente após notar uma estranha movimentação ruas abaixo de onde o GPS do celular de Elena informava que estaria. Agora tinham Amanda Rush, exatamente como Dylan havia pedido.
— De nada — Ruby provocou de volta.
E Elena fez somente ignorar.
No banco de trás do conversível havia dois galões de gasolina – que antes poderiam ter outro propósito, mas agora a ajudariam a eliminar as provas de que um dia estiveram ali. Elena fez questão de ser ela a espalhar a gasolina e acender o palito de fósforo que incendiaria seu noivo.
— Sinto muito, querido. Eu não aceito — Atirou primeiro o fósforo, depois a aliança por entre as chamas.
— Um minuto de silêncio pelo seu amor verdadeiro?
— Vamos embora — Deu-lhe as costas.
Atrás delas o carro foi consumido pelo fogo, por cima entre os pneus e por fora entre os destroços. E de pouco em pouco foi o que salvou a vida de Grant. Estava esperando a oportunidade perfeita para sair do veículo sem chamar atenção; então não havia momento melhor. O fogo foi capaz de mascarar sua fuga pelo outro lado, enquanto se arrastava em direção à floresta.
Com Amanda amarrada no banco de trás, as assassinas partiram. O carro explodiu logo em seguida; Grant, por sorte, escapara do espetáculo de destroços pela intercepção das árvores que o rodeavam.
Agora precisava manter a calma. O acidente o rendeu dois ferimentos graves; um no tórax, outro na perna esquerda. Todo o resto fazia-se apenas em dores musculares e arranhões ao longo do corpo. Se logo alguém chegaria para apagar o fogo, ele não poderia estar ali e correr o risco de ser mandado para o hospital. A prioridade era encontrar Amanda e se livrar das duas assassinas que achavam estar morto. Como?
Ouviu duas sirenes distintas, uma de cada lado da estrada. Sua deixa para fugir.
Havia um posto de gasolina, do outro lado da floresta, que há cinco minutos encontrava-se cheio de curiosos tentando ver algo além da fumaça. Agora ele estava tão bom quanto vazio para que Grant passasse despercebido. Só teve problemas na lojinha de conveniência para esconder os ferimentos visíveis e pagar pelo quite de primeiros socorros no caixa. Depois disso, não havia mais ninguém para incomoda-lo.
Trancou-se no banheiro do posto e tirou as roupas. Costurou ele mesmo seus ferimentos, com uma agulha curva para tecidos esterilizada na chama de um isqueiro. Pôde gritar o quanto queria; estava sozinho. Também chorou, durante as pequenas pausas em seus curativos, só de imaginar o que viria a seguir.
Elena, Elena, Elena.
Seu coração palpitava em frenesi. Precisava ter certeza antes de fazer qualquer coisa.
Havia uma conta conjunta, criada no dia em que a pedira em casamento, onde depositaram todas as suas economias no último ano. Grant preservara grande parte da herança de seu pai nesta mesma conta, para que tudo o que fosse dele, também fosse dela, como diziam seus votos de casamento. Precisou pegar um táxi na beira da estrada e ir ao caixa eletrônico mais próximo.
Em nome do amor que sentia por Elena, dar-lhe-ia o benefício da dúvida. Uma última vez se deixaria levar pelas emoções.
Saiu do táxi, caminhou mancando até o caixa, inseriu o cartão e esperou. De vinte e dois milhões de dólares, o saldo foi a zero. A própria Elena havia forjado sua assinatura para retirar o dinheiro e fechar a conta.
Ele fechou os olhos pausadamente. Não se preocupou em retirar o cartão, apenas se afastou gradativamente do monitor. Seu trajeto fez-se através de ruas escuras e vazias rumo a lugar algum.
Elena, Elena, Elena. Tira-la da cabeça seria mais difícil que matá-la.
Sentou no chão de uma esquina, escorado numa parede tijolada e os joelhos a altura do pescoço. Não sabia o que fora fazer ali, se uma conta no banco nunca mudaria o que vira depois do acidente. Estava cnsciente quando Elena atacou Amanda. Assistiu-as lutar, de cabeça para baixo, ainda preso ao cinto de segurança. Era uma assassina, sua noiva. Tentou matar a melhor amiga do casal que o acolheu após a morte de seu pai. E a havia conhecido há três anos.
Elena, Elena, Elena. Sentia sua cabeça latejar.
Levantou do chão, foi até a avenida e tomou outro táxi. Já em seu quarto de hotel, colocou uma camiseta e recarregou a arma. Olhar para ela, em toda sua plenitude objetiva, o fez ter certeza de apenas uma coisa. Elena nunca escaparia de sua mira.
φ

Seus olhos abriram-se à claridade. O mundo era apenas um burlo indistinto a sua volta, cheio de cores cintilantes. Ouvia vozes; três delas, que não sabia distinguir. Elena, lembrou de súbito. A última coisa que lhe acontecera.
— A serra elétrica na fazenda dos Fitzgerald foi uma ótima ideia. — Um homem dizia a alguém.
— Ficou com medo? — Uma das mulheres perguntou.
— Eu não diria isso. Diria que você é uma vagabunda engenhosa.
Amanda ergueu a cabeça vagarosamente. Numa ponta da mesa estava ela, com as mãos algemadas através da madeira. Na outra, de costas para a enorme janela, estava Matty. A direita da mesa, o casal Hilliard chorava por entre as mordaças. Era o último banquete de suas vidas. Cortesia do terceiro ato.
— Ela está acordada — Ruby notou.
Amanda olhou para cada um deles. Elena Mills, Ruby Donahue e Dylan Hardesty. Talvez estes nem fossem seus nomes verdadeiros, era apenas como os conhecia.
— Agora podemos começar a festa — Dylan se aproximou. — Em nome de todos os assassinos sanguinários da nossa franquia de grande êxito, Amanda Rush, eu lhe dou às boas-vindas.
— Essa é a sua ideia de terceiro ato? — Ela debochou. — Está levando a sério demais seu sobrenome.
— Tecnicamente, este não é meu sobrenome verdadeiro. Foi apenas algo que Carter inventou para que pudesse me direcionar. Veja bem, eu não gosto da ideia de matar as pessoas aleatoriamente. Sou um grande fã dos padrões pré-estabelecidos e dos joguinhos mentais. Só é divertido quando há alguém tentando descobrir quem será o próximo.
Amanda notou que empunhava um revolver em uma mão e uma faca de açougueiro na outra. As outras duas, no final da sala, empunhavam uma faca de açougueiro cada.
— Perdão — Dylan fingiu estar confuso. — Não tive a elegância de informa-la onde estamos. Que tipo de anfitrião isso faz de mim? Enfim, estamos na cabana de inverno de Carter Van Der Hills, uma das inúmeras propriedades adquiridas ao redor do mundo que a polícia nunca descobriu. Meu mestre era um homem podre de rico, não é à toa que temos tantos recursos para fazer esta vingança acontecer.
— Vingança? — Amanda decidiu insistir. Quanto mais o fizesse falar, mais tempo Aaron teria para encontrá-la. O rastreador fazia tik tok em sua bota direita, para ninguém ouvir.
— É sempre sobre vingança, Amanda. Ruby, por exemplo... — Apontou com a faca. — Passou a vida inteira sendo hostilizada pelos colegas de classe e a única solução que encontrou foi faze-los sangrar. Agora ela é linda, e eles estão todos mortos. Já Elena, bem... — Olhou para ela de relance. — Talvez seja a única a não se encaixar neste arquétipo. Ela está nessa pelo dinheiro, exclusivamente. Mataria até o próprio noivo em troca de alguns milhões de dólares.
— Exatamente como eu fiz — A assassina confirmou.
Se pudesse, Amanda teria arrancado sua jugular com os dentes.
— Que bom, agora somos milionários — Dylan colocou a arma sobre o rosto, como quem colocaria um dedo para contar um segredo. — Se ela não me matar antes e ficar com todo o dinheiro. Melhor não dar ideias.
Ao recobrar a consciência, estas foram as primeiras palavras que Matty ouviu. De súbito se debateu na cadeira, tentando vencer as algemas.
— Olha quem acordou — Dylan foi até ele. — O aniversariante.
— Me solta! — Matty gritava. — O que você está fazendo?
— Relaxa, não vou te dar os seus pais para comer, embora esta seja uma ideia excelente. Estamos aqui para comemorar seu último aniversário.
— Pense nisso como uma pós-festa de halloween — Ruby avançou três passos em direção à mesa. — E seu nome está na lista.
Matty não tinha certeza se a conhecia. Aqueles olhos, aqueles traços... era tudo familiar demais.
— Ruby?
— A desajustada do colégio — Dylan gargalhou como um lunático.
— Não tão desajustada agora — Sentou-se na beira da mesa, de frente para Matty. — Você me acha bonita? — O esbofeteou, de súbito, e segurou-o pelo queixo — Diga que sim.
— Sim... — Da forma mais agressiva havia lhe dito.
— Perfeito. Você sabe reconhecer uma mulher atraente quando a vê.
A essa ideia, Dylan só tinha mais uma coisa a acrescentar:
— Não se esqueça dos rapazes. Nosso amigo sempre teve uma quedinha pelo mórbido e imoral, talvez por ser filho de quem é — Chegou perto o bastante para sussurrar-lhe. — Poderia mata-lo por isso, se não tivesse outro motivo tão razoável.
 — Eu nunca fiz nada contra você.
— Você, não. A vadia da sua mãe, sim— Apontou o revolver para ela. — Quantas pessoas precisaram morrer para que você estivesse aqui, Amanda, desfrutando da sua herança milionária? Minha mãe com certeza não merecia morrer.
— Sua mãe? — Aí estava a primeira questão.
Quem era ela? Uma de suas amigas assassinadas? Por alguns instantes tentou juntar as peças do quebra-cabeças. Não havia muito o que fizesse sentido, exceto...
— Você não pode ser...
— Quem você acha que eu sou, Amanda? Conte-me.
Ela lembrava perfeitamente da história contada por Nina Marshall, há mais de quinze anos. Na noite em que Brandon invadiu a casa de seus pais biológicos, eles não estavam sozinhos. Suas duas filhas, Kelly e Nina Marshall, foram igualmente atacadas, estando, Nina, grávida de quase nove meses. Brandon deixou seus corpos à beira de um lago para se desfazer das evidências e nunca mais voltou ao local do crime. Foi Carter Van Der Hills quem a socorreu e direcionou na mesma trilha do primeiro assassino, no que viria ser primeira sequência que sucedeu aos assassinatos de Brandon Rush e Sarah Richards.
Nina afirmara que seu bebê tinha morrido durante o ataque, tendo sido este o principal motivo para que estivesse tão empenhada em terminar o trabalho do irmão bastardo. Agora Amanda já não tinha tanta certeza.
— Jamie — Sussurrou. Este era o nome escolhido para o bebê que achava nunca ter nascido.
— Em alguma outra vida, este seria meu nome. Jamie Marshall, filho de Nina Marshall e Calvin Walsh, morto no Vietnam. Agora é apenas Dylan Hardesty, assassino e órfão — Virou para Ruby. O sorriso que ostentava no rosto era assassino como o dele. — Gostei disso. Lembre-se de escrever na minha lápide.
— Não... — Matty discordava. — Eu conhecia seu pai, dormia na sua casa. Você não é órfão.
Este era o plano de Carter desde o começo. Dylan, o assassino fora de suspeitas. Quem desconfiara do melhor amigo desacerbado do grande protagonista?
Dylan adorava vê-lo em negação.
— O que você acha que sabe, Matthew, é apenas o que pode ver. E o que você pode ver, é exatamente o que queríamos. O Senhor Carter Van Der Hills planejou este filme inteiro, nos mínimos detalhes, antes mesmo de eu completar três anos de idade. Fui criado para isso, treinado para isso. E claro, tive a ajuda que precisei depois da sua morte. Aquele homem que você conhece como meu pai é um advogado correspondente que Carter conheceu em um dos seus esquemas de lavagem de dinheiro. É claro que ele não poderia viver anos consecutivos nessa mentira, então combinamos em tê-lo como piloto de aviões; o que explicaria sua ausência sempre que precisasse. Ele terá três milhões só para ele quando isso terminar. É óbvio que não diria não.
Matty assentiu, derrotado. Não conseguia olha-lo nos olhos, pois os seus de tal modo estavam prestes a chorar.
— O que é isso nos seus olhos? — Dylan debochava. — São lágrimas? Você está chorando? Quanta sensibilidade. E eu aqui achando que você seria um oponente a altura depois daquele gancho de direita, no colégio. — Esperou Matty encara-lo de volta. Sabia o que estava pensando, e usaria isso contra ele. — Eu estava lá, Matty. Eu mesmo coloquei o corpo de Dodger no campo de lacrosse. Eu segurei as tripas de Adia nas minhas mãos enquanto você corria para se salvar....
— Deixe-o em paz! — Amanda exigiu, num grito.
De volta, Dylan gritou:
— Cale a boca! — Apontava a arma para ela. — Isso é tudo culpa sua! Você está fazendo isso com ele, como fez com todos os outros. Você fez isso a Brandon, a Kyle, a Erin e a Chloe. Você fez isso a minha mãe, aos pais de Carter, todos que perdemos. Então por que não começa a assumir responsabilidade?
— Eu já ouvi esse discurso antes, e todos terminaram comigo cortando a cabeça do desgraçado.
— Como você fará isso algemada a esta cadeira?
— Este será seu segundo erro, me subestimar. O primeiro continuará sendo ter me encontrado.
— Não esperaria menos da mulher que matou Carter Van Der Hills. Se fosse assim tão fácil, não seria tão divertido — De um lado para o outro, ele começou a caminhar. — Na verdade, Carter me alertou sobre o perigo que você representa. Você é uma sobrevivente, Amanda, foi feita para acabar comigo. Por isso eu deveria estar sempre um passo à frente de você. Acha mesmo que Aaron ou Megan vão salva-la agora? Talvez tenham uma chance, se passarem pelas armadilhas que deixei nos arredores desta propriedade. Se não, já podemos considera-los tão bons quanto mortos.
O semblante de Amanda havia mudado de uma hora para a outra. Ela encontrou o olhar assustado de Matty, na outra ponta da mesa. Queria poder dizer-lhe que tudo ficaria bem, sem que um dos assassinos percebesse que estava trabalhando em um plano B, que não incluía Megan, Aaron, ou qualquer outra pessoa que estivesse fora daquela cabana.
A verdade é que Amanda nunca contou com a morte de Carter para essa história ter um fim. Sempre haveria um novo assassino, uma nova sequência, até que a linhagem de Brandon Rush fosse completamente dizimada. Dylan, como o último deles, era a prova de que havia se preparado para um inevitável acerto de contas.
Por anos ela treinou uma maneira eficaz de se livrar de amarras, correntes e algemas. Geralmente precisava quebrar o polegar momentaneamente, para que suas mãos passassem por completo por entre a brecha. Com elas atrás da cadeira, nenhum dos três assassinos podia ver sua artimanha. Era com sua falta de destreza que contavam para mantê-la ali, sob suas rédeas.
Um trovão ecoou do lado de fora.
— Você está fazendo tudo isso... — Se continuasse falando, mais tempo ganharia. — Tudo isso por uma mãe que nem sabia que você estava vivo?
— Não sou ninguém para questionar os planos de Carter. Sua ideia era me manter longe de tudo isso para que eu tivesse a chance de uma vida normal. Mas depois que você queimou minha mãe em uma garagem, o jogo mudou. Carter precisou assumir o papel principal e eu virei o plano de contingência, caso viesse a falhar.
— Ele o tirou da própria mãe e mentiu dizendo a ela que você havia morrido.
— Não! Ele me deu a chance de ser algo além do melhor amigo virgem de qualquer outro garoto melhor que eu. Nina só precisava concluir a missão para ficar comigo. Matty e eu, em outra vida, poderíamos ter vivido como Jamie Marshall e Matthew Marshall. Foi isso que você tirou de mim, então é isso que tirarei do seu filho.
— Você não vai machuca-lo!
Dylan sorriu com desdém.
— Ele não, querida. Não agora. Mataremos papai e mamãe primeiro. 

Capítulo 13: Nêmesis [SERIES FINALE] (Dia 25 de Janeiro)
Acertaram os palpites? Não vou comentar muita coisa sobre a revelação agora, pois ainda temos o especial de A Punhalada 4 para o último capítulo, semana que vem. Só preciso saber se aprovaram, entenderam e quem vocês acham que vai matar qual assassino (ou ser morto por um deles). 

Lembrando que o capítulo da semana que vem terminará com uma grande surpresa! Não é nada que dê a entender que pode haver uma continuação, mas é uma revelação importantíssima com a qual teremos que lidar sem um AP5. Esperem e verão. Fiquem agora com o especial de AP3.

Especial: A Punhalada 3 (2014) 
      
      A Punhalada 3 é uma viagem ao futuro. 5 anos se passam na cronologia da saga, a partir de 2012, para que Amanda, Aaron e Megan encontrem o assassino outra vez. E se há neve, quer dizer que estamos em dezembro de 2017. É claro, esta data já passou, mas estava bem longe em fevereiro de 2014, quando o livro foi lançado oficialmente no Meu Mundo Alternativo.
Esse período de 2 anos, entre a segunda parte e a terceira, foi um período de descobertas para mim. Tenho orgulho de dizer que minha escrita melhorou consideravelmente (graças a arte de George R. R. Martin) e que acabamos emplacando um novo sucesso para quando A Punhalada nos deixasse órfãos. The Double Me; Os trigêmeos Strauss em uma história sobre vingança, corrupção e disputas de poder. Mas, para falarmos sobre este terceiro livro, teremos que nos focar na vingança. Foi ela que moveu A Punhalada desde seu início para a conclusão desta trilogia. Brandon e Sarah contra suas irmãs. Nina contra todos os que não mereciam a benção de ter um bebê. E agora Carter Van Der Hills, contra tudo o que Amanda Rush representa. E como o progenitor de todos os outros assassinos.
Eu sempre tive a impressão que este terceiro volume tinha um tom diferente dos demais. Embora o quarto tenha despertado, em alguns leitores, a sensação de estar acompanhando algo totalmente novo e eficaz, é nesta terceira parte que a história criada por mim em 2011 encontra sua própria identidade. Não que já não tivesse uma, é apenas um comparativo de paralelos. De todos os 4, este com certeza é o que mais se distancia do universo de Kevin Williamson e Wes Craven. Saímos do New Britain High para a New Britain University, e da New Britain University para o mercado de trabalho, que justificaria todas as fases vividas por estes personagens. Mas se você ainda não sabe como ser um adulto, como vai escrever sobre a vida real? 
Este foi o meu primeiro desafio. O segundo foi entender o porquê do público detestar evoluções de caráter e passagens de tempo. Muitos até preferem que um esquema parecido como o de Friday the 13th seja criado, para que, a cada volume, uma protagonista diferente seja apresentada e assim nenhuma delas envelhecerá diante de seus olhos. Tive muito medo que a vida adulta desses personagens representasse uma quebra de ciclo para os fãs, do mesmo jeito que me tirou da minha zona de conforto. Bem, foi só um susto. Vocês confiaram em mim no final e elegeram este como o melhor de todos (até então).
Para entender como foi esse processo de escrita, preciso primeiro que entendam como é ser um escritor que é fã de livros e filmes ao mesmo tempo. Exatamente, é como se tudo o que eu escrevo tivesse que funcionar tanto para o cinema quanto para a literatura, o que dá um pouquinho de trabalho, confesso. Algo em que pensei durante o caminho inteiro foi na fotografia. Eu não queria algo parecido com os filmes Scream. Na verdade, eu queria algo muito mais melancólico. Queria escuridão, queria neve. Pela primeira vez, neve, debaixo dos sapatos do assassino e caindo sobre o rosto dos personagens. Foi algo que deu tão certo para o livro que tenho certeza que daria certo se saísse do papel.
Eu também não queria me aproximar de Pânico 3, por mais que houvesse algumas semelhanças. Gosto de pensar que A Punhalada é a história que Kevin Williamson nunca poderia contar sem sair de sua zona de conforto. Por isso existem extremo opostos que devemos considerar. O primeiro, e o mais claro, é o isolamento de Amanda. Sidney fez isso em Pânico 3, mas ao contrário dela, que se manteve presa à melancolia, Amanda se tornou uma rainha de gelo fria e calculista, agora de cabelos loiros. É bom saber que as duas responderam de formas diferentes a este isolamento.
Outro oposto seria entre o casal principal, Megan e Aaron. Na franquia de filmes Dewey e Gale ficaram indo e vindo até chegar o pedido de casamento no final do terceiro. Mas na nossa saga, Megan e Aaron namoram desde o segundo volume, estando até noivos no livro seguinte. É muito importante ressaltar isso para que as pessoas não pensem que a franquia de filmes me entregou tudo de mão beijada – inclusive o número de sobreviventes. Por mais que ainda sejam fanfics, popularmente falando, há muito mais de original em A Punhalada do que encontraríamos na internet. Talvez este seja o grande diferencial.
A partir desta terceira parte, o Nefferson deixou de ser meu consultor assíduo. Se não me engano, ele opinou sobre uma cena de perseguição (a de Chloe no edifício da Denver Above, em que seu amante morre) e depois só foi me acompanhando. Ele lia, é claro, só não precisou me encher de sugestões como das outras vezes. Deve ser algo bom poder dizer que ele só aprovava minhas ideias sem questionar. A evolução estava aí, apesar da minha insegurança.
Não se enganem. Chloe Field estava cotada para morrer desde o começo do livro. Sabia que precisava de uma morte chocante para validar o terceiro ato e a vingança dos mocinhos, quando finalmente vestem a fantasia de fantasma para caçar os assassinos. Não vou dizer que fiquei feliz com isso, não sou tão sádico. Mas continuo afirmando que foi necessário. Chloe nunca nos deixará de verdade, espero que saibam disso enquanto terminam a leitura.
Sobre Kyle, posso dizer que foi uma decisão de última hora adiciona-lo ao clube dos assassinos. Essa era a minha grande dúvida durante a escrita. Kyle deve ser o assassino? Kyle deve ser inocente? Kyle deve ser culpado de alguma coisa, não necessariamente de todas aquelas mortes? Pois é, eu acabei optando por mostra-lo como um dos assassinos. Neste caso, serviu como uma boa quebra de clichê. Nunca um sobrevivente do filme anterior havia se tornado o próximo assassino. Imagina Dewey Riley como o Ghostface de Pânico 3? Seria um choque. Logo, eu precisava disso para tornar esta terceira parte inesquecível.
Todas as cenas de alucinação da Amanda com o irmão foram minuciosamente planejadas. Achei muito importante fazer com que Brandon aparecesse nos momentos certos, para não virar um daqueles filmes dramáticos que tenta explorar o psicológico e acaba errando na dose. É algo que acontece também em séries, como The Originals, em que é muito comum os personagens conversarem com outros personagens mortos para aliviar uma dor física, por exemplo. Nunca tive a intenção de transformar este plot importantíssimo em apenas mais uma ideia recorrente. Amanda vê Brandon graças ao trauma, não porque o roteirista aqui acha legal. Isso realmente existe, e eu tentei me aproximar ao máximo de como isso seria empregado na vida real.
Também separei algumas homenagens para este especial, já que são muitas. Delilah, a protagonista da morte inicial, é uma clara homenagem à personagem de Jordana Brewster em The Faculty (1998). No filme, ela fazia uma líder de torcida egocêntrica, que foi uma das primeiras do grupo a ser possuída por um alien. Taylor, sua irmã, é uma homenagem a Taylor Momsen, voltada principalmente a era Jenny Humphrey de Gossip Girl (2007-2012).
Cassidy, a filha egoísta do falecido marido de Amanda, é uma homenagem à Briana Evigan e seu papel icônico em Sorority Row (2009). Francine, no começo interpretando a assistente atrapalhada de Megan, e depois a assassina, não é bem uma homenagem; está mais pra referência cultural mesmo. Lembram da ruiva que morre em Wrong Turn (2003)? Então, ela se chamava Francine. Desde aí fiquei fascinado pelo nome, embora não goste da personagem que me apresentou a ele. Carter, o grande assassino (essa vocês vão gostar), é inspirado no personagem de Kerr Smith em Final Destination (2000). Kerr interpretava esse sujeito valentão e babacão que puxava briga com o protagonista a todo momento. Desde então tenho Carter como um nome de homens fortes e sexys, como o nosso assassino deveria ser.
A perseguição de Megan, no capítulo 9, foi inspirada em uma cena da série Harper’s Island (2009), que passava no SBT. No penúltimo capítulo, a personagem de Katie Cassidy foi perseguida na floresta usando um vestido de noiva. Foi uma cena tão linda, visualmente falando, que me deixou apaixonado. Assim foi criada a perseguição icônica de Megan, que muitos dizem ser a melhor do livro (e melhor entre os 3 primeiros).
Esqueci de alguma coisa? Acho que não. Espero que tenham lido até aqui para entender mais sobre como funciona essa cabecinha. Semana que vem teremos o último especial, logo depois do último capítulo EVER de A Punhalada. Preparados?
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2 Comentários

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2 comentários:

  1. Nossa. Muito bom esse cap. Muito surpreendente a reviravolta envolvendo Dylan, nunca que eu imaginava. Doido para a próxima semana, uma pena que vai acabar.

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    1. Matty e Dylan melhores primos hahaha. Ta acabando sim, mas garanto que é pra preservar o bom trabalho que tive com essa franquia. Melhor terminar por cima a correr o risco de ficar ruim igual a certas "séries" de tv né? haha
      Até semana que vem, anônimo!

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