quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Livro | A Punhalada 4 - Capítulo 10: Anjo da Morte


— Tudo bem, Senhora Dommett. Feliz dia das bruxas — Megan desligou.
Aaron, ao seu lado, no volante, esperava por uma resposta.
— Então?
— Ela disse que o filho foi a uma festa na fazenda dos Fitzgerald como a outra garota, o que significa que temos pelo menos duas das possíveis vítimas indo a mesma festa — Ela remexia as fotos em seu colo. Havia ao menos duas para cada estudante envolvido nos ataques do Roosevelt High. — É a nossa melhor aposta — Concluiu.
Mas Aaron não tinha tanta certeza. A Fazenda dos Fitzgerald ficava a uma hora de onde estavam, seguindo as estradas principais – por ventura, mais seguras. Pela floresta, talvez, pudessem ganhar quinze minutos – correndo o risco de danificar o veículo. E nada disso garantia que chegariam a tempo para evitar algum ataque.
— Por que é sempre em uma casa afastada da cidade? — Não era uma pergunta direcionada à esposa; era apenas uma pergunta.
— Você lembra quando tinha a idade deles?
— Sim.
— Era mais fácil beber e transar em uma festa no centro da cidade sem ser incomodado por policiais ou em um lugar tão distante que apenas jovens chegariam? Você perdeu sua virgindade em uma dessas festas, sabe como funciona.
Aaron fez uma mancheia de caretas que poderiam significar qualquer coisa, menos estar confortável com aquela situação.
— Nós nunca falamos sobre isso.
— Amanda me contou — Ela deslizou o gloss pelos lábios duas vezes. — Mulheres conversam, querido. Sobre tudo.
— Até sobre...
— É claro que conversamos sobre o tamanho. Diga isso a seus amigos na delegacia, seria divertido ver agentes da lei com medo de mulheres.
Até ele estava com medo, sem dúvidas. Era melhor deixar o assunto para outra noite um pouco mais assustadora.
— Tudo bem — Sorriu, derrotado. — O que temos sobre as possíveis vítimas?
— Bem... — Ela puxou uma das fichas de trás do amontoado. — Axel Dommett contatou a polícia há alguns dias afirmando ter recebido um cartão do dia dos namorados ameaçador. De acordo com Matty... — Puxou a outra fixa. — Seu amigo Dylan encontrou uma serra elétrica de brinquedo cravado em uma das fotos da família, dentro de casa. E sobre Lila... — Puxou a última ficha. — Tudo o que sabemos é que ela foi uma das sobreviventes no ataque ao colégio.
— De que forma seus nomes estão relacionados na nossa teoria?
— Axel é uma clara referência a Dia dos Namorados Macabro. Porém, não o original, pois Axel é o assassino. Apenas no remake de 2009 seu personagem ganha uma chance de ser o herói, invertendo os papeis com o herói original. Dylan Hardesty é uma referência a Sally Hardesty, a final girl de O Massacre da Serra Elétrica, de 1974. E Lila... bom, esta é a única que ainda não desvendamos. Só podemos considerar ela e Ruby Donahue possíveis vítimas por estarem juntas no ataque ao Roosevelt. Fora isso, nenhuma delas recebeu qualquer tipo de ameaça.
Aaron pensou por um instante. Estavam indo longe demais, se as possíveis vítimas deixaram de se encaixar no padrão estabelecido pelo assassino. Por outro lado, Bianca morrera para que o assassino colocasse as mãos em informações confidenciais sobre o projeto das investigações; o que deixa claro que nem sempre poderão prever as mortes. Coerente seria pensar que o assassino não deixaria a noite de halloween passar em branco quando a poderia laivar de sangue.
— Vamos pensar um pouco mais. Que filmes estamos esquecendo?
— Eu não sei — Ela deu de ombros. — Trouxe a ficha técnica com todos os filmes de terror dos últimos 50 anos e não há nada.
— E se estivermos falando de um filme ainda mais antigo?
— Você diz, em preto e branco? O único que eu assisti foi Psicose, mas...
Os dois consideraram a ideia em silêncio.
— Megan, qual era o nome da irmã da Marion Crane, que apareceu logo depois da cena do chuveiro?
Megan pegou o celular para checar. Só em ler o nome, sentiu gelar a espinha.
— Lila Crane — Murmurou, claramente receosa.
Aaron virou o carro na estrada de maneira brusca, em meio aos veículos que seguiam na direção contrária.
— Merda! Eles vão morrer! — Gritou.
Estava farto de jogo limpo. Quatro jovens corriam perigo naquela fazenda; por eles, atravessaria todos os sinais vermelhos e dirigiria a toda velocidade.
φ


A escada rangia estridente a cada degrau que Madison subia. Não que pudessem ouvir, devido a música alta. Mas em algum momento, a madeira cederia e um jovem descuidado poderia ficar com a perna presa. Estúpida casa de campo – Pensou.
Quando abriu a porta do banheiro, flagrou Lila em um delicado dilema. Havia uma mancha vermelha no seio esquerdo da fantasia angelical, que se recusava a sair com a água da torneira. Bem, não era problema seu. Fechou a porta e foi para a frente do espelho, o gloss labial preparado.
Achava engraçado a maneira como Lila fingia não se importar com sua presença, quando ter a editora chefe do Roosevelt Today, na sua cola, não tivesse piorado ainda mais. Pensou que talvez quisesse chorar em cima de uma fantasia que não serviria mais – ou que pertencia a outro alguém –, o que a obrigaria a se retirar pacificamente e nada discreta.
E tudo o que Lila desejava era não passar a noite inteira sendo relacionada a mancha vermelha em sua fantasia. Ou então diria que é apenas sangue.
— O que você está fazendo, querida? — Perguntou a jovem.
— Falhando.
— Isso é verdade — Olhou-a de cima abaixo, através do espelho. — Você pode tirar sua blusa, se quiser. É Halloween.
— “Pelada” não é uma fantasia.
— Mas funciona — Madison voltou a olhar seu reflexo, dando um estalo nos lábios. — Eu tiraria a minha se estivesse de sutiã.
Lila estava pensando em duas coisas. A primeira: Poderia usar detergente neutro para retirar a mancha. E a segunda: Madison Summers não tinha limites. E não se importava.
— Preciso dizer — Madison virou. — Sinto muito pela sua perda. Sei que Adia e eu não nos dávamos bem, mas ela não merecia o que aconteceu. Somos americanos, não merecemos morrer.
— Okay... — Lila não sabia se havia entendido. Se não fossem americanos, mereceriam?
— Deixe uma flor para ela no túmulo improvisado no segundo cômodo, aposto que vai se sentir melhor. Tchauzinho — Mandou um beijo com as mãos.
Não precisava se incomodar em homenagear Adia uma última vez; Lila Já se sentia muito melhor apenas em vê-la ir embora.
Do lado de fora, Madison cruzou com Ty Curtis, que observava a festa do parapeito das escadas. A fantasia de bombeiro sexy havia lhe caído bem no começo da noite. Para ela, agora, nem tanto.
— Hey, hey, hey, senhorita — Ele se colocou a frente dela. — Aonde você se meteu?
— Estava beijando minhas amigas no toilet feminino. É isso o que fazemos enquanto vocês pagam a conta — Tentou continuar seu caminho, mas foi segurada pelo braço.
— Não tenha pressa. Já disse que está linda hoje?
— Eu não sou a Adia. Você deve estar me confundindo com alguma líder de torcida sem respeito por si mesma.
— Ela também era linda. Você sabe, antes de ser assassinada.
Madison não queria ouvir mais nada.
— Você está bêbado, me deixe em paz — Disse-lhe, no tom agressivo que ele bem conhecia.
Ao virar, viu três amigos de Ty se aproximando. Um lenhador, um super-herói e um faraó. O lenhador, no meio, fora propositalmente evitar sua passagem.
— Aonde você vai, Tinker Bell? — Sorriu sagaz.
— Vocês não querem fazer isso — Ela os alertou.
Mal podia reconhecer seus rostos. Só sabia que eram jogadores de lacrosse pelo porte físico e o ego gritante.
— Aposto que você quer... — Ty a agarrou por trás.
Os outros riram, como se fosse apenas mais uma brincadeira entre amigos. Para ela, uma mulher, jamais seria.
Ela chutou o lenhador no meio das pernas e arranhou o rosto do faraó. Para impedi-la, Ty a segurou novamente pelo braço, obrigando-a a usar uma força desnecessária para se livrar. Ele a soltou com facilidade, sem que ela esperasse, e ela derrapou sobre os pilares do parapeito até o chão da pista de dança, no primeiro andar.
De agitada, a festa havia se tornado de um silêncio mórbido.
— Ai meu Deus! — Ty desceu as escadas correndo.
Uma roda foi feita em volta dela, cheia de monstros curiosos. O jovem teve que passar por todas elas antes de chegar até ela. Colocou o ouvido em cima de seu peito, em busca de sinais vitais.
— Ela não está respirando! — Gritou, os olhos cheios de lágrimas. Seus amigos observavam tudo do segundo andar.
— Chamem uma ambulância! — Ouviu alguém dizer, na multidão.
Eles nunca chegariam a tempo.
Ty posicionou a cabeça dela para trás, como fora ensinado nas aulas de primeiros socorros, e se aproximou para a respiração boca-a-boca.
Não poderia dar certo, de qualquer maneira. Ty não havia feito da forma correta, e ela não precisava ser salva verdadeiramente. Só estava esperando que tentasse salva-la para dar-lhe um beijo de língua na frente de todos. Viram-na cair, e ele correr desesperado para ajudá-la. Agora o viam sendo enganado pela anfitriã da festa.
— Você facilita demais — Disse a ele, levantando-se do chão. Seu pescoço, ao torcer, fez um crack. Então ela olhou para ele, ainda de joelhos, com seu gloss nos lábios. — Toque em mim outra vez e eu o colocarei no hospital.
Assim a multidão abriu espaço para que ela passasse; linda, loira e poderosa.
Entre os que viram o que antecedeu sua queda, estava Ruby Donahue, que só fez jogar um copo de cerveja no rosto de Ty antes de seguir o mesmo caminho que sua nova heroína. A multidão aplaudiu, a música voltou a tocar e Ty fez sua caminhada da derrota até a porta dos fundos.


       Foi quando Lila apareceu. Sem manchas, sem drama, e sem vontade de beber outra vez.
O celeiro dos Fitzgerald projetava-se a poucos metros da casa principal como uma estalagem pontiaguda e grandiosa de três ramificações. Uma central; a maior. E duas nas laterais. Era de um vermelho vivo e chamativo, com janelas, portas e telhados brancacentos. A pick up alaranjada dos donos ainda estava lá, parada em frente à porta dupla. Lila precisou dar a volta na sequência empilhada de fenos para que pudesse entrar.
— Sebastian? — Não era um grito, nem um sussurro. — Você está aqui?
Havia dois copos de Dry Martini em cima dos fenos. Ele está aqui. Só não quer ser encontrado tão fácil.
— Estamos brincando de alguma coisa? — Quis saber. A cada passo adiante, olhava para ambos os lados e para todas as sombras. — Porque isso não fazia parte do trato.
Mais um passo à frente ela deu. Outro logo depois. E logo depois.
Ela suspirou de cansaço.
Aos seus pés, notou um pequeno objeto vermelho-luminoso, que se destacava por entre o feno. Um chaveiro de hotel, pelo que parecia. De um lado havia o número onze, e do outro, letras em azul formando as palavras “Bates Motel”. Onde já ouvira isso antes? Lhe era estranhamente familiar.
Seu celular tocou logo então. Sebastian, informava o visor.
— Eu estou aqui, onde você está?
— Esperando por você — A voz do assassino a respondeu.
— Você está bem? Sua voz...
— Você deveria se preocupar consigo mesma. Eu já estou morto.
Ela tremulou. O medo a atingiu como uma rajada de vento frio sobre o rosto.
— É você, Sebastian?
— Ele já jogou este jogo e perdeu. Agora é a sua vez. Você quer viver?
— Você não vai fazer isso comigo...
— Diga o nome do filme em que você está agora, Lila Crane.
— Fique longe de mim!
— Resposta errada — Ele decretou.
Por trás dela, levou uma perna-manca até a porta para os trancar do lado de dentro. Ela virou subitamente. E ali estavam os dois.
— Sebastian? — Perguntou num sussurro.
O assassino deu um passo à frente e balançou a cabeça negativamente.
Dando um passo para trás, ela perguntou:
— Você matou Adia?
O assassino avançou mais um passo e balançou a cabeça positivamente, a faca em suas mãos brandida em um feixe de luz metálico.
Lila não podia mais pensar. Correu os passos que faltavam até a alavanca vermelha na parede atrás dela, derrubando duas plataformas de fenos do segundo andar sobre o mascarado. Subiu as escadas de madeira, para a plataforma principal. Todos os fenos a sua disposição serviram como uma barreira para impedir o assassino de subir... mas este não era seu plano. Havia um método muito mais eficaz de faze-la descer, em seus próprios termos.
Havia um acervo profissional de tridentes e ferramentas de jardinagem logo ao lado, no armário da esquerda. Ghostface tomou um em mãos e atravessou-o seguidamente pelo chão de madeira onde ela estava. Cada vez que ela via os três dentes submergirem, um grito de pavor lhe escapava da boca. Estava à direita, depois à esquerda, depois atrás dela, e então à sua frente. Ela caiu no chão de madeira, em uma tentativa de fuga, e o tridente emergiu entre suas duas pernas. Nunca havia gritado tão alto, tão desesperada.
Não demorou muito para que toda a madeira fosse comprometida e o segundo andar viesse abaixo. Ela caiu em um dos cubículos de animais, de onde o assassino tentou acerta-la. Ele foi com o tridente em sua direção, mas ela desviou no momento certo, segurou a arma pelo cabo e o empurrou para trás.
Não havia como sair pela porta da frente, sabendo que não teria forças para levantar a perna-manca sozinha. A única saída era pelos fundos; sem iluminação, em meio a poças de água. Um verdadeiro labirinto sombrio, repleto de animais que gritavam tão assustados quanto ela.
Em uma curva, após os dois primeiros corredores de madeira, o assassino atravessou uma parede podre sobre ela. Eles caíram juntos na água suja do cubículo, sem conseguir enxergar mais do que as frestas de luz os permitiam. Ela sentiu a faca passar de raspão sobre seu ombro, no momento em que se levantava para correr.
Estava diante dela, enfim, a saída. Passou pela porta dupla e olhou ao redor. À esquerda, a festa rolava solta na casa principal. À direita, apenas árvores e escuridão.
— Por favor, me ajudem! — Sussurrou, com as forças que tinha.
Dois passos depois, em direção a festa, sua perna acionou uma armadilha de urso. Sentiu tanta dor que caiu de joelhos e uma mão no chão, que acionou outra armadilha de urso. Era possível ver os ossos do seu braço e da perna entre os dentes de metal. E sangue. Muito, muito sangue.
— Por favor! — Ela gritava. Não podia se mover um centímetro sem ser dominada por uma dor colossal.
O assassino também estava lá. Caminhava a seu redor como se apreciasse a arte de suas armadilhas. Por fim, haviam servido a seu propósito.
— Não, por favor! Não! Não! — Inutilmente ela gritava.
E com uma pena sobre as costas dela, ele a levou de encontro a próxima armadilha de urso.  Ela morreu instantaneamente, com os dentes metálicos cravados sobre sua cabeça.
A festa não estava nem perto de terminar na casa principal. No celeiro, era hora de montar a exposição de cadáveres.
φ


       — Tome — Axel o estendeu uma garrafa de vodka. — Vai esquenta-lo.
Matty não sabia se era uma boa ideia; o que, nem de perto, o impediria de tomar um gole ardente.
— Então, o que aconteceu? — Perguntou.
Estavam a quinze minutos da casa principal, traçando uma rota estreita do centro as extremidades do milharal. A poucos metros de distância estava a floresta escura e densa. Era só até ali que chegavam as luzes holográficas da festa que deixaram para trás.
— Ela disse que tirou uma foto dela mesma sem querer enquanto fazia a ligação e abriu a galeria para deletar — Axel fungou. Caminhava sempre dois passos à frente de Matty, sem poder ver sua reação. — Foi assim que descobriu meu acervo nada elegante de pornografia. Eu entrei em pânico, claro, e comecei a dizer obcessivamente que aquilo não era nada, que provavelmente alguém do time de lacrosse havia colocado aqueles vídeos ali para me pregar uma peça. Ela não acreditou, e eu a beijei a força, para faze-la acreditar — Deu um ar de risos depressivo. — Nunca contei essa história como realmente aconteceu. Você é o primeiro a saber.
— Por que eu?
— Eu não sei — Mostrou um sorriso maroto para ele, numa breve troca de olhares. — Talvez eu ache seu gancho de direita muito inspirador.
Eles riram juntos. A bebida, depois do segundo gole, passou novamente para as mãos de Axel.
— Quer saber? — Matty disse. — Todos nós somos babacas. Na sexta série eu escrevi uma carta de amor para o Paul Dinacov me passando pela garota que ele gostava. No mesmo dia ele foi falar com ela e levou um fora na frente de todas as meninas da sala.
— Por que você fez isso?
— Porque ele sentava na minha frente e não me deixava ver a lousa com aquele cabelo enorme. Você lembra?
Provavelmente todos lembravam. Paul Dinacov era o aluno de intercâmbio que se recusava a cortar os cabelos por causa de sua religião e nunca usava os banheiros do colégio. Ao invés do loiro mecânico, que crescia para baixo, seus cabelos pareciam um black power de tão volumosos. Algo como as esculturas greco-romanas de anjos.
— Eu entendo — Axel chutou um amontoado de folhas. — Deve ter sido uma tortura.
Quando notou a tonalidade das luzes, Matty olhou para trás. O clima havia mudado repentinamente, e já não podia mais ouvir a música.
— Estamos muito afastados da festa.
— Está com medo?
— De você? Não, de você eu dou conta.
— Não se esqueça que eu também estava na biblioteca quando o ataque aconteceu. Eu não posso ser o assassino — Passou a garrafa para as mãos de Matty.
— Se tem uma coisa que eu aprendi com a trilogia de Amanda Rush é que sempre há mais de um assassino. Da última vez foram três, então qualquer um de nós é suspeito.
Axel virou, dando pequenos passos para trás, e o tomou para perto de si, por uma das mãos.
— Você não está correndo perigo... — Sua voz era um sussurro convidativo. — Ou está? — E entre sorrisos o beijou, delicadamente, com as mãos sobre seu rosto.
Matty tão havia sido pego de surpresa que acabou esquecendo que tinha uma garrafa em mãos. Ela caiu diretamente nos sapatos de Axel, quando passou o braço por cima do ombro esquerdo dele. Ele gemeu, então sorriram juntos, e beijaram-se igualmente. Dessa vez, Matty tomou a liberdade de apalpar a parte de trás de sua calça.
— Uow — Axel não sabia se estava assustado ou estranhamente confortável. — Isso é... novo.
— Desculpe, esqueci que você era boca virgem — Matty brincou. — Nosso beijo deveria ser mais especial.
— Não zoa comigo — Ele mesmo parecia se divertir com a situação. — Só fui pego de surpresa — Deu dois passos para trás e topou com um espantalho. Matty estava rindo do seu grito de pavor. — Ai meu Deus! Você tinha visto isso aqui?
O boneco a sua frente estava preso numa tora de madeira com dois metros de altura. Usava um macacão quadriculado nas cores azul preto e marrom e tinha os olhos e a boca costurados com linha negra. Assustador, até para quem sabe que não é verdade.
— Eu vi — Matty confessou.
— E por que não disse nada?
— Porque seria mais engraçado vê-lo tomar um susto.
Se ele não tivesse um sorriso encantador, Axel não estaria tão desencanado.
— Agora estamos quites — Matty tomou a frente. Estavam, de pronto, indo em direção a floresta.
— Pelo que?
— Não me diga que esqueceu da contusão maravilhosa que você e Mason me renderam no meu primeiro dia de treino.
— Eu fazia tudo o que ele mandava... e queria saber até onde você aguentaria. Sabe, como um teste.
Matty olhou para ele.
— É sua maneira sutil de dizer que implicava comigo porque gostava de mim?
— Eu não seria assim tão clichê, mas estaria mentindo se dissesse que você não chamava minha atenção.
— Isso não é papo de bêbado?
Axel entendia porque ele pensava assim. Em qualquer outra ocasião, seria. Mas apenas quando tratasse de garotas.
— Claro que não. Na verdade, quando voltarmos para o colégio, você virá a um encontro comigo.
— Okay... — Matty fez uma careta. — Você não precisa pedir, primeiro?
— Eu vou pedir, só estou adiantando que você dirá sim. Eu sou muito bom nisso quando estou usando minha camiseta da sorte.
— Deixarei você tentar.
Axel olhou por cima dos ombros dele. As luzes da casa principal esvaneciam aos poucos.
— Acho que devemos voltar ou perderemos o melhor da festa.
Matty também olhou. Em contraparte, teve a impressão de que a festa poderia estar acabando.
— É, acho melhor — Concordou.
— Vem. Vamos dar ao bar um motivo para nunca mais ser open.
Por detrás das árvores, o assassino os observou partir. Estava quase na hora.
φ

Dylan percorria os cômodos da casa principal sem nenhum senso de direção. Foi ao banheiro, entrou nos quartos, vasculhou a entrada dos fundos, e nada do que encontrava, graças ao efeito da bebida, se parecia com um jovem usando moletom de esqueleto.
— Você viu Matty? — Perguntava a qualquer estranho que lhe aparecia.
Na pista de dança, topou com Madison e suas amigas em mais uma performance exclusiva para os garotos da faculdade.
— Madison, você viu Matty? — Precisou gritar. Ela nem assim o havia entendido.
— O que?
— Matty! Meu melhor amigo pansexual que é incrivelmente mais bonito que eu!
— Eu já beijei você hoje! Espere pelo próximo halloween!
Notoriamente, conversavam sobre assuntos distintos. Logo após, sobre assunto algum.
Um trio de universitários a tomou pelos braços e a ergueu o mais alto que podia no centro da pista de dança. Rainha das Trevas! — seus gritos soavam como um grito de guerra. Dylan, inevitavelmente, ia da lembrança do beijo de Madison à expectativa do próximo Halloween.
— A festa acabou! — Ouviu alguém gritar.
Olhou ao redor e viu um grupo de policiais atravessando a porta até o salão. Não demorou muito para cessar a música e ouvir os lamentos de quem estava presente.
Aaron Estwood, Dylan reconheceu. Enquanto os jovens se retiravam, caminhou até ele.
— Hey, o que está acontecendo?
— Toque de recolher — Aaron achou ser uma mentira necessária. De fato, estavam terminando com uma festa sem qualquer motivo oficial, numa cidade onde não tinham jurisdição. — Matty está aqui com você?
— Ele estava há alguns minutos. Disse que ia ao banheiro, mas não está mais lá.
Aaron olhou ao redor só por precaução. A maioria deles usava máscaras e se misturava facilmente.
— Está tudo bem? — Dylan não sabia se queria ouvir a resposta.
— Preciso que venha comigo, é para sua própria segurança.
— O assassino está aqui?
— Não sabemos. Mas você é um Hardesty, não pode ficar aqui sozinho.
— Merda... O Massacre da Serra Elétrica está mordendo meu rabo... — Tirou o celular do bolso. — Caixa postal. Matty está por aqui, em algum lugar.
— Continue tentando, vamos iniciar as buscas.
— Deixe-me tentar primeiro. É provável que ele fuja se vir algum de vocês. Não queria que ninguém soubesse que estávamos aqui.
Um dos policiais fez sinal com a cabeça para que Aaron fosse até ele. Dylan foi logo atrás, o celular preso na orelha.
Dois policiais haviam sido designados a investigar o andar de cima e mais dois ao andar de baixo. Os outros membros da equipe adentravam alguns metros no milharal, outros checavam os fundos da propriedade. Apenas Aaron, já sem opções, decidiu checar o celeiro. Era o único lugar onde não haviam procurado.
Aproximou-se da porta sorrateiramente, de arma na mão. Olhou ao redor; nenhum barulho estranho, ninguém por perto. Abriu a porta dupla e olhou para o lado de dentro. Nada. Nem uma gota de sangue, como houvera há apenas uma hora. Exatamente o que ele não sabia.
— Senhor, venha aqui! — Um dos policiais gritou.
Uma mancha de sangue, no sentido oposto ao do milharal, estava em evidência no chão de terra. As marcas de luta e respingo davam a entender que uma pessoa fora arrastada daquele ponto até o interior da floresta.
Isso é estranho, Aaron pensou. Soava até fácil demais para um assassino que conseguiu implantar bombas na Divisão de Homicídios de Seattle.
— O que você acha? — Perguntou ao policial mais velho, que estava abaixado recolhendo amostras.
— Acho que acertamos em cheio. Ele está aqui.
— Ou estava.
Aaron tirou três cartuchos do bolso, carregou suas duas armas e as escondeu separadamente; uma no cinto, outra na bota direita. Tirou o rastreador da base lateral do seu celular e o alocou no bolso da camisa.
Se fosse para seguir seus rastros, faria com cautela.
— Vamos lá.

Capítulo 11: Final Boy (Dia 11 de Janeiro)
O único título inglês da saga, pois não me senti no direito de traduzir nossa velha expressão "Final Girl". Dessa vez é Final Boy, afinal, nova década, novas regras. Torçam muito pelo Matty nesse aniversário, porque ele vai precisar.

Especial: A Punhalada 1 (2011) 
      

       O processo criativo de A Punhalada foi um pouco mais informal do que estamos acostumados a fazer ultimamente. Em suma, não havia roteiro, apenas análises sequenciais que, aos poucos, tomavam a forma de uma narrativa mais complexa. Vide saber que A Punhalada surgiu numa conversa amigável com o Nefferson, em que debatíamos o conceito das novas regras de Pânico 4 e como ele fora mal aplicado.
       Não havia novas regras, ou havia? No final, todos os personagens que deveriam morrer, acabaram morrendo. Todos os que poderiam sobreviver, sobreviveram. As vadias não tiveram chances, do mesmo jeito que as virgens não perderam o poderio. A cena de abertura também não havia mudado. É sempre uma garota sozinha em uma casa, ou duas amigas, totalmente desamparadas. Então, onde estavam as novas regras? A Punhalada surgiu a partir desta ideia.
       Começamos, então, a explorar o oposto do que o filme nos havia feito. Se a abertura sempre mostrava uma ou duas jovens sendo assassinadas, por que não, dessa vez, mostrar a morte de um ou dois garotos? Se as vadias sempre morrem, como seria se elas fossem as protagonistas e sobrevivessem, quando a virgem, que todos imaginam ser a final girl, acaba morrendo no começo da história? Tudo isso nos fez chegar a conclusão de que, se Pânico não tinha coragem de explorar o oposto das regras que imortalizou, cabia apenas a nós fazer o “barro” acontecer para consumo próprio  - e para quantas pessoas pudéssemos alcançar através do Meu Mundo Alternativo.
       Eu trabalhei no livro como o autor principal. Nefferson era mais um consultor, que eu procurava quando tinha alguma dúvida ou precisava de uma ideia nova - de alguém que havia visto uma infinidade de filmes de terror que eu nem passei perto. Foi uma parceria que deu muito certo e tivemos o prazer de repetir em vários outros projetos, mas enfim, estamos falando desta saga em particular. Aqui vão algumas curiosidades sobre a produção, que eu acho que vocês vão gostar de saber.
      Em primeiro lugar, as mortes iniciais. Não sei se ainda lembram, mas as primeiras vítimas de Brandon e Sarah na narrativa do livro foram Jake e Nick, dois jogadores de futebol do New Britain High. Eles vieram para quebrar o ciclo de mortes femininas na abertura de slashers, além de servirem como um easter egg entre eu e o Nefferson. Eles, na verdade, são baseados em nós dois (inclusive a personalidade). Suas mortes possuem duas versões: a do primeiro roteiro, que é a minha, e foca mais em Jake. E a versão oficial, escrita pelo Nefferson, e focada igualmente em ambos. Isso quer dizer que eu escrevi 70% deste capítulo e Nefferson os outros 30%, como meu coautor. Posteriormente, a minha versão foi lançada no blog como “Começo Alternativo”. Vale a pena conferir, se você ainda não leu.
    Os nomes dos personagens deste livro foram escolhidos de forma arbitrária, levando em consideração suas personalidades e o que, na ficção, estes nomes já poderiam representar. Aaron, por exemplo, foi o nome escolhido para o protagonista masculino graças a Mean Girls (2004). Sempre achei que este nome representasse um homem forte e bonito, assim como neste filme, e assim como Aaron deveria ser. O nome Trish (Peterson), a “falsa protagonista boazinha”, foi em homenagem à Trish Jarvis, a mocinha de Friday the 13th: The Final Chapter (1984). Já Erin, a melhor amiga de Amanda e interesse amoroso de Brandon, foi em homenagem a Erin do remake de The Texas Chainsaw Massacre (2003), interpretada pela maravilhosa Jessica Biel. E Ginger, a melhor amiga de Trish, é ÓBVIO que foi inspirada na personagem da Katherine Isabelle em Ginger Snaps (2000), sobre uma garota que se transforma em lobisomem após ser mordida.
       O nome Megan foi uma escolha pessoal do Nefferson, talvez por causa da Megan Fox, que um pouco antes disso, tocou o terror em Jennifer’s Body (2009). Agora Amanda, esta foi uma escolha pessoal minha. Não há nenhuma personagem icônica de filmes de terror que se chame Amanda, mas é um nome que eu gosto muito, desde bem pequeno. Se um dia eu tiver uma filha, este será o nome dela com toda certeza. Mas, de certa forma, vamos considerar como uma leve inspiração na Amanda de Saw (2003). A maneira como Jigsaw pronunciava seu nome me fez perceber que era um bom nome para ser pronunciado por psicopatas, hahaha.
       Agora algo que vai bugar a mente de vocês (eu espero). A equipe original de assassinos não seria formada por Brandon Rush e Sarah Richards, como originalmente. No lugar de Sarah, a gêmea “boa”, a assassina seria... MEGAN. Conseguem imaginar? Em algum universo paralelo, Megan sentiria tanta inveja de Amanda Rush que iniciaria uma chacina ao lado de Brandon para a “purificação” de New Britain. É mole?
     Essa ideia só foi descartada após a revisão do capítulo 7, graças ao Nefferson. Ele disse que Megan era uma personagem icônica demais para morrer no primeiro livro como uma assassina. E não é que ele tinha razão? Ainda bem que mudamos a tempo. Sarah acabou se tornando uma substituta perfeita para Megan, nos dando a oportunidade de desenvolver um tipo de psicopatia similar à de Brandon. No final, ambos eram obcecados por suas irmãs e achavam estar sendo ofuscados por elas em todos os âmbitos sociais.
       Para terminar, uma estimativa. Levei mais ou menos 9 dias para escrever as 126 páginas deste livro. Um record, de fato. Mas fazendo uma breve análise, dá pra perceber que ele não é tão bem trabalhado quanto as sequencias. Há muito o que eu queria mudar, principalmente em relação a narrativa, que agora eu domino melhor. Um dia, talvez, no aniversário da franquia, eu possa relançar os livros totalmente reescritos, mas sem alterar a história principal. É também uma forma de manter A Punhalada vivo por muito mais tempo, agora que estamos chegando ao fim.
     Espero que tenham gostado deste especial. Em breve contarei algumas curiosidades sobre A Punhalada 2, 3 e 4. 
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