quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Livro | A Punhalada 4 - Capítulo 4: Detenção


— Ela está aqui! — Um policial gritou.
Amanda ergueu a cabeça em direção às luzes das lanternas que se aproximavam a cada passo. O resgate, ela supôs.
Levantou do chão, jogou a furadeira em cima da maca e caminhou em seu próprio ritmo para abrir a porta. Havia pelo menos uma dúzia de policiais uniformizados do outro lado, seguidos por três detetives de terno e gravata e quatro paramédicos da ambulância local.
Sem que lhe chamasse a atenção, alguém atravessou a multidão e envolveu seus ombros com um cobertor marrom.
— Você está bem? — Ela não tinha certeza de quem havia perguntado. — Está machucada?
— Onde está Megan?
— Está na ambulância — Uma voz feminina lhe disse. — Foi ela quem nos ligou. Está tudo bem agora.
Amanda já tinha ouvido isso antes.
— Procuramos por todos os lugares — Disse um policial recém-chegado a um dos detetives. — Ele simplesmente desapareceu.
— É algo que fazem muito bem.
— Detetive, você precisa ver isso! — Outro policial gritou, na direção contrária a seu companheiro.
A multidão o escoltou através do corredor até a área dos elevadores. Amanda, que seguira os policiais, sob os protestos dos paramédicos, aproximou-se lentamente da parede para qual todos estavam olhando. Havia uma faca cravada a um metro e oitenta do chão, mantendo a foto de um jovem rapaz em destaque.
— Isso é evidência — Um dos detetives alertou quando a viu erguer uma mão. Mesmo assim, Amanda arrancou a foto por entre a faca em um movimento ligeiro.
— Quem está na foto? — O detetive de cabelos ruivos perguntou.
Amanda suspirou fundo.
— Meu filho. É uma ameaça.
Mas ela estava errada. Antes mesmo de ser atacada no Hospital Saint Mary Eunice, Matty já havia ficado cara a cara com o assassino e vivido os momentos mais aterrorizantes de toda a sua vida.
φ

Quarta-Feira: 15:55 do dia 27 de outubro.
Sete horas antes do ataque no hospital, Matty e Dodger foram dispensados de sua última classe e juntos foram até os armários. Adia, em seu uniforme vermelho de líder de torcida, falava ao celular apenas a alguns metros de distância.
— Então o que vai acontecer? — Dodger perguntou. Ele organizava seus livros bem a sua frente. — Vocês vão ficar algumas partidas sem jogar ou algo do tipo?
— Não acho provável. Colocar os melhores jogadores do time no banco de reserva causaria mais perdas do que poderia ensinar uma lição. Talvez a detenção de hoje seja o bastante para o Treinador Hitch e a Diretora Fellows.
— Você sabe que não é bem uma detenção, não é? Você faz algo de errado, e como punição, é colocado para trabalhar na biblioteca do campus no turno da noite, que é justamente quando as portas são abertas para o bairro. Isso é trabalho escravo.
Matty sorriu.
— Não deve ser tão ruim. Ouvi dizer que o turno da noite é o menos movimentado.
— Então será apenas você, seus inimigos mortais e o fantasma do Capitão Roosevelt. Agora parece mais uma festa do pijama — Ao soar da campainha, ela checou seu relógio de pulso. — Falando em trabalho escravo, tenho que ir. Promete que só vai socar o Mason quando eu estiver por perto?
— Prometo.
— Okay, te vejo hoje à noite — Ela bateu continência e saiu pela porta dupla.
Caminhando pela calçada, envolta a brisa do fim de tarde, chegou a pensar ter ouvido passos indo em sua direção, fazendo o mesmo trajeto que ela. Olhou para trás, por um breve momento, e nada viu além de estudantes fazendo seu caminho de volta para casa, pelo lado contrário. Estava oficialmente fora da propriedade escolar, em frente a rua principal, quando ouviu novamente os mesmos barulhos de passos. A partir daquele instante, tudo pareceu suspeito. As árvores que foliavam ao vento, os pequenos animais que atravessavam a rua, a buzina de uma van, os estudantes ao longe.
Algo estava ali, ela podia sentir.
Matty, ainda em frente aos armários, precisou digitar sua senha novamente para pegar o celular. Junto a ele vieram os fones e o carregador portátil que, definitivamente, teria que aprender a levar consigo onde fosse. Adia, ao seu lado, parecia um pouco menos sorridente que antes.
— Não, tenho detenção agora — Disse a Bethany, sua capitã substituta das líderes de torcida. Foi a única coisa que Matty a ouviu dizer antes de ligar sua música.
— O que você fez?
— Um serviço de utilidade pública mal interpretado. Nada de mais.
— Então estou indo para casa. Quer que eu passe para busca-la depois?
— Isso seria ótimo — Adia tinha uma preocupação a menos agora. — Meus pais vão ver essa peça de teatro e não podem me buscar. Algo sobre pessoas brancas chorando por terem que trabalhar. — Escorou-se no armário e olhou brevemente para Matty. A primeira ideia de um plano maligno lhe surgia a mente, despretensiosamente.
— Acho que todos estaremos nos divertindo hoje à noite. Agora preciso ir, chegarei assim que puder.
— Okay — E encerrou a chamada com um clique.
Abriu mais uma vez a galeria de fotos, para checar as últimas selfies, então guardou o aparelho no bolso da saia e abriu a porta do seu armário. A primeira coisa que notou, e que não havia como não notar de imediato, foram as marcas de quatro garras na lataria da porta, que se assemelhavam a algo que apenas um animal selvagem faria.
Muita coisa lhe passou pela cabeça; alguém abriu seu armário escolar, protegido por senha. E alguém usou um material forte o bastante para riscar a lataria. Por quê?
— Matthew Hilliard, Adia Thompson — Ouviu chamar a Senhora Valentine.
Ambos olharam para ela ao mesmo tempo.
— Sigam-me, por favor.
Para Adia, era a oportunidade perfeita para esquecer o que vira. Fechou a porta do armário e seguiu a liderança da Senhora Valentine. Matty fez o mesmo, já com o aparelho dentro dos bolsos para não chamar atenção.
A Senhora Valentine era a funcionária mais antiga do Roosevelt High e trabalhava na instituição desde que levava o nome de Seattle Private School. Estava nos seus oitenta e dois anos, e por isso acumulava uma antipatia e intolerância radical ao desrespeito às regras de várias gerações. Quando um aluno era mandado para a famosa detenção revolucionária do Roosevelt High, ela era pessoalmente designada a reunir os estudantes, aonde quer que estivessem, e faze-los sentir como se valesse a pena nunca mais cometer pequenos delitos no campus – só para evitar um encontro nada agradável com esta velha senhora.
Naquela tarde, O Roosevelt integrara pelo menos cinco no programa de detenção da biblioteca do campus. Matthew Hilliard, Adia Thompson, Lila Blackwell, Axel Dommett e Ruby Donahue. Os motivos? Cada um deles tinha o seu, e cada um deles se achava inocente.
— Eles são todos seus — Disse a Senhora Valentine.
A tocha fora passada para as mãos de Sharon Deville, a bibliotecária de quarenta e poucos que parecia estar sempre de bom humor. Agora que é recém-casada, poderiam dizer que ela também tinha seus motivos para estar feliz.
— Obrigada, Senhora Valentine — Sharon lhe respondeu.
Os alunos, então, se dispersaram entre as mesas. Haviam seis, no total; organizadas em fileiras de três. Matty sentou na primeira mesa da primeira fileira; Adia e Lila sentaram juntas na terceira mesa da segunda fileira; Axel sentou sozinho na primeira mesa da segunda fileira, atrás da mesa de Matty; e Ruby sentou-se na última mesa da última fileira, completamente isolada dos outros garotos.
— Os estarei supervisionando de hora em hora. Façam o que a Senhora Deville pedir e mantenham silêncio — Ela viu Sharon sussurrando shh com o indicador sobre a boca e quase revirou os olhos. Não havia uma grande diferença entre ela e os alunos que precisava instruir — Isso é tudo. — E se retirou.
— Abriremos as portas ao público daqui a uma hora, então tudo o que vocês precisam fazer até lá é ficar sentados e esperar. Alguma dúvida? — Viu Adia levantar a mão. — Pode falar.
— Você está grávida?
Os alunos tiveram que prender um riso, sem tanto sucesso.
— Alguma dúvida sobre a detenção ou o trabalho na biblioteca? — Sharon perguntou, dessa vez com as palavras certas para evitar desentendimentos. Ninguém havia se manifestado. — Bom. Se precisarem de mim, estarei atrás do balcão.
— Meu Deus, até o barulho dos saltos dela é irritante — Adia zombou. E justo quando Lila estava se esforçando para não rir.
Nem cinco minutos haviam se passado e Matty se mostrava impaciente com o relógio na parede. Podia ouvir música pelo celular durante a detenção? Ele não tinha certeza. Pegou a caneta da mochila e começou a brincar em cima da mesa. E quando cansou, tirou o celular para checar as redes sociais. Qualquer coisa seria chamado a atenção, o que não parecia tão ruim para quem já estava com grandes problemas.
— Isso é mesmo necessário? — Lila perguntou à amiga. — Tinha boliche em família marcado para hoje à noite.
— Pare com esses problemas de gente branca, isso conta como estágio. Todos nós teríamos que fazer alguma coisa para nos formar.
— Mas eu já sou uma líder de torcida.
— Definitivamente é um bom motivo para não merecer a detenção — Axel gracejou, na mesa de trás.
Lila o lançou o melhor olhar de repugnância que tinha.
— Cala a boca, Axel. Continue usando o wifi da biblioteca para baixar seus vídeos da Sean Cody e me deixe em paz.
Matty sorriu sem querer. Boa resposta, Lila. Boa resposta.
— E por que vocês duas estão aqui? — Axel perguntou.
— Eu dei um tapa em Madison Summers — Disse Adia, um tanto orgulhosa. — E Lila mandou a Professora Airald aparar os pelos dos sovacos.
— Adia! Não diga nada, ele vai contar para o time de lacrosse inteiro!
— O que foi? Aquela mulher nunca viu uma gilete em toda a vida dela.
— Silêncio — Pediu a Senhora Deville.
Axel olhou para Ruby a duas mesas de distância, na mesma fileira.
— E você, chaveirinho. O que fez para vir parar aqui?
— Cortei meu cabelo na classe — Ela respondeu, enrolando sua pequena franja no dedo indicador. — E você?
— Esse olho roxo que você está vendo não é o bastante? — Apontou. — Muito obrigado por isso, Hilliard.
E falando em olhos roxos, aonde estava Mason? A detenção fora decretada para os três alunos que brigaram em campo, não apenas para dois. Matty, inutilmente, ainda checou cada ponto do complexo dentro de seu campo de visão, só para ter certeza.
— Aonde está Mason? Ele não deveria estar aqui?
— O filho do homem mais rico da cidade, na detenção? — Adia mostrou um sorriso debochado. — Isso nunca vai acontecer — Olhou para Axel logo em seguida. — Pena que ele não se preocupou em também livrar o melhor amigo.
— Então aonde ele está agora?
φ


Quarta-Feira: 17:44 do dia 27 de outubro.
Cinco horas antes do ataque no hospital, Mason estacionava seu Lamborghini Aventador na garagem da mansão Harding. As luzes se acenderam automaticamente assim que ele entrou, e a primeira coisa que fez foi jogar seu casaco e as sacolas de compras no sofá branco da sala. Subiu as escadas para o seu quarto; dessa vez o serviço de limpeza havia terminado antes de chegar em casa. Ótimo.
Tirou a camiseta, depois a calça comprida. O grande espelho na lateral da parede do banheiro lhe concedia uma perfeita visão do busto, o que incluía, principalmente, os cabelos moldados por pomada e spray e os músculos do abdome e dos bíceps. Era sempre um bom momento para checar se tudo estava certo e no mesmo lugar; algo bem próximo de ritual antes e depois do banho do qual nunca abriria mão.
Foi para de baixo do chuveiro logo depois, e lá permaneceu por longos vinte minutos. Quando saiu, só de toalha, ouviu o celular apitar dentro do bolso de sua calça, no chão. Fez só vestir uma bermuda leve, de algodão, para ir checar. Novas atualizações nas redes sociais, novas atualizações de aplicativos, novas mensagens que nunca iria responder, e novos convites para eventos. Entediante, entediante, entediante e entediante.
“Novas histórias no snapchat” — Mostrava a última notificação. Finalmente algo para passar o tempo.
Ele deitou na cama, de lado, com o celular em mãos. Algo que não deveria estar ali acabou sendo pressionado contra o cotovelo que ele usava para se equilibrar.
— Mas que porra...? — Balbuciou, colocando a mão por baixo do lençol.
E para sua surpresa, tratava-se de um disco de hóquei adesivado com o logotipo dos Avalerion’s, um time do Colorado. A única explicação era ter sido fruto de um descaso das empregadas. Sempre elas.
De qualquer forma, aquilo não era importante. Colocou o disco em cima do criado mudo e voltou a atenção ao celular. Viu primeiro as histórias públicas que seus amigos compartilharam na plataforma, fosse testando novos filtros ou fazendo humor, no caso de sua prima Ashley, do Canadá, que adorava pregar peças no namorado. Depois deslizou a tela para as histórias privadas que haviam lhe enviado desde a última vez em que checara o aplicativo. De todas que observou, apenas uma lhe chamou a atenção: A foto de uma usuária chamada vallie.gif, que mostrava apenas a área dos seios de uma jovem ao lado de uma abóbora de Halloween. Na legenda, ele leu “Gostosuras ou Travessuras”, com uma série de emojis retratando o feriado.
“Gostosuras, eu suponho” — Ele digitou pelo chat.
Sem delongas, ela respondeu.
“Isso significa que você quer ver mais?”
“Sim”.
“Estou trabalhando nisso”.
A próxima mensagem veio junto a uma foto da mesma garota, com a bunda ao lado da abóbora.
Eu sabia que você era uma garota má” — Ele digitou.
“Agora me mostre algo seu”.
“Não sei. Posso confiar em você?”
“Não precisa mostrar o rosto. Não é nisso que estou interessada”.
Mason levantou da cama e ergueu o celular ao mesmo tempo em que puxava a calça com outra mão, para que aparecesse um pouco mais da sua virilha recém depilada.
“Eu amo esse jogo” — Escreveu por cima da foto.
“Que garoto... Grande”.
“Aonde você mora?” — Correu para o closet em busca de uma camiseta. Na pressa, pegou a primeira que encontrou na cor preta, assim como era a sua bermuda.
“Oh querido, vamos para o colégio juntos todos os dias e você nunca me nota. Pensei que deveria fazer algo a respeito disso”.
“Quer vir aqui em casa?” — Ele mordeu o lábio a espera de uma resposta.
“Tudo no seu tempo. Quer ver o que está perdendo?”
“Mostre”.
A primeira foto enviada mostrava a garota completamente nua, de perfil. Mason a devorou pelos olhos, com direito a zoom nas pernas e no formato dos seios. Assim as próximas fotos começaram a chegar, uma atrás da outra. Agora a mesma garota aparecia de costas, vestida apenas com um fio dental. Depois aparecia mordendo os lábios – o que lhe permitia, também, mostrar um pouco mais dos seios em foco. A próxima era uma surpresa feita apenas para ele. A garota aparecia morta, de formas tão sangrentas quanto criativas. Em uma delas, viu-a coma garganta cortada. Em outra, viu-a de olhos abertos, com as pupilas totalmente dilatadas. Na seguinte, ela aparecia de costas, cheia de marcas de facadas. E na última, sentada no sofá de sua casa, com o tórax aberto de cima a baixo e as tripas sobre as coxas.
Mason estava sem palavras.
“Que brincadeira de halloween bizarra” — Escreveu para ela.
“Não é uma brincadeira” — Ela garantiu. — “Eu matei essa vagabunda”.
Mason sentiu a tensão irradiar pelo corpo. Mesmo não querendo, mesmo que pensasse ser apenas uma brincadeira, era uma das piores coisas que já tinha visto.
“Não tem graça. Quem está fazendo isso?”.
“Uma admiradora secreta. Me perdoe, não consigo resistir a você quando veste preto”.
O celular quase escorregou de sua mão quando leu a última linha. Olhou pela parede de vidro do quarto, que lhe garantia uma visão nada agradável da floresta noturna de Seattle. Não havia ninguém ali. E se nenhuma luz automática acendeu, não havia ninguém nos perímetros da mansão.
Ele saiu do quarto às pressas e abriu o aplicativo de segurança no seu celular. Todas as portas e janelas estavam seladas, do mesmo jeito que deixara assim que saiu da garagem.
Para alguma outra pessoa, isso seria um alívio. Mas era inevitável se sentir tão exposto. A mansão Harding era conhecida como a única residência da região a ostentar um design predominantemente envidraçado; o que quer dizer que, em alguns cômodos, por alguns ângulos, era possível ver exatamente o que as pessoas do lado de dentro estavam fazendo. Se havia alguém lá fora capaz de ver o que estava vestindo, esta pessoa também poderia vê-lo se locomover pela casa.
Era, realmente, sua principal preocupação. Então ele fechou as cortinas do quarto e depois as da janela do corredor, para que ninguém seguisse seus passos. De certa forma, sentiu-se mais seguro assim, embora também achasse estar exagerando. Não sabia de onde aquela garota misteriosa havia saído. Até onde poderia ser verdade, um de seus amigos estava tentando lhe pregar uma peça do dia das bruxas. Não Axel, por ainda estar na detenção. Mas qualquer outro membro engraçadinho do time de lacrosse. Se este fosse o caso, seu medo só daria mais munição às armas que eles usavam.
Não importava mais. Guardou o celular no bolso e desceu até a cozinha. Abriu a geladeira, tirou uma garrafa de vitamina e despejou o necessário dentro do primeiro copo que encontrou. Enquanto bebia, riu de si mesmo por ter caído no velho trote da garota gostosa que estava morta. Isso era feito há décadas, desde que a internet começou a chegar nos lugares mais remotos do planeta. Se abrisse um aplicativo no celular, poderia encontrar centenas de vídeos de homens que também caíram nessa.
— Aqueles desgraçados... — Sussurrou para si mesmo. Por algum motivo, os rostos de Ty e Jimmy lhe vieram à mente.
E então ouviu o telefone tocar. Para não ter que voltar a cozinha depois de atender, terminou a bebida em tempo record.
— Alô?
— O Doutor Malcolm Harding, por favor — Uma voz sombria o respondeu.
— Ele não está em casa.
— Quem está falando?
Apenas isso bastou para deixar o garoto impaciente.
— Olha, se quiser deixar algum recado, pode ligar para o seu escritório e falar com a secretária.
— Mas eu esperava que você desse o meu recado.
E de um segundo para o outro, as luzes da mansão inteira apagaram. Mason olhou para todos os lados; era medo, dúvida. Algo estava prestes a acontecer.
— Sabe Mason, não parece uma boa noite para estar sozinho em casa — O assassino o provocava.
— Quem está falando?
— Você não assiste filmes de terror? Quando os pais saem à noite, é a oportunidade perfeita para um assassino psicopata fazer uma visita aos seus filhos desamparados.
— Estou ligando para a polícia — Mason discou 911 no instante em que encerrou a chamada. Enquanto tocava, ele caminhou até a parede de vidro da sala, em busca de alguma confirmação de que não estava sendo observado. Nada havia na floresta além do vento batendo contra as folhas.
— 911, qual sua emergência?
— Olá. Acabei de receber fotos perturbadoras em um aplicativo e agora minha casa está sem energia. Não sei bem o que está acontecendo.
— Achou que seria tão fácil? — A voz do assassino o surpreendeu na linha.
— Como você fez isso?
— Se pensa que a polícia pode ajudá-lo, então você já está morto.
Mason só fez encerrar a chamada e jogar o telefone sobre o sofá. Ele tocou, tocou e tocou. A tv foi ligada, sem nenhuma explicação, assim como o projetor de filmes. Depois foi a vez da lareira.
— Ai meu Deus! — Ele correu para conter o fogo. Foi quando viu, na sua tv, a frase “Atenda o telefone” piscando em letras vermelhas. — O que você quer comigo? — Com uma mão segurou o aparelho, com a outra empunhou um dos agitadores de brasas do acervo ao lado.
— Eu quero jogar um jogo. E se você disser não, farei muito mais que apenas acender sua lareira. Tenho total controle de cada mecanismo tecnológico de sua casa. Não há como fugir.
— Como você está fazendo isso?
— Neste jogo sou eu quem faz as perguntas. Tudo o que você precisa fazer é dizer o nome de um filme de terror para cada ano que eu citar.
Ele vai me matar, Mason pensou. Preciso sair daqui, preciso sair daqui. Suava frio e sentia o corpo estremecer.
— Não sei jogar esse jogo. Por favor, só me deixe em paz.
— É claro que sabe. Vi seu acervo de filmes dentro do closet do seu quarto. Você é um fã assíduo do terror, principalmente os clássicos.
— Não, eu não sou.
A partir de agora, seria viver ou morrer.
— 1976 — Disse o assassino.
— Carrie, A Estranha — Mason respondeu rapidamente.
— 1974.
— É... O Massacre da Serra Elétrica.
— Muito bem. 1973.
— O Exorcista — Por mais nervoso que estivesse, estava indo bem.
— 1997.
— É... Eu sei O que Vocês Fizeram No Verão Passado.
— Diga o nome de outro.
— Okay... Alien: A Ressurreição. O Mestre dos Desejos. Mutação.
— 1981.
— Sexta-feira 13: Parte II
— 1985 e 1989.
— A Hora do Espanto e... e... e... Cemitério Maldito.
— E 1992.
Mason congelou. Sexta-feira 13 não havia feito uma sequência naquele ano? A Hora do Pesadelo? Halloween? Qualquer franquia?
— Eu sei, eu sei — Ele continuava dizendo. — Tem que ter algum, tem que ter algum...
— O tempo está acabando — O assassino mostrou uma contagem regressiva na tv.
Dez. Nove. Oito.
— Por favor, me dê mais tempo!
Sete. Seis. Cinco.
— Por favor! — Seu coração palpitava desenfreado.
Quatro. Três. Dois. Um.
— Não!
A tv desligou ao som de seu grito.
— Tempo esgotado — O assassino informou. — Você perdeu.
Com a chamada finalizada, Mason tirou o celular do bolso e abriu a pasta de criptografia. Já que o assassino interceptava suas ligações, faria com que a chamada fosse impossível de ser desviada.
— 911, qual sua emergência? — Uma voz feminina lhe atendeu.
— Estou na Rua Forwell 39 com a 42, alguém está tentando me matar.
— Fique calmo senhor. Há algum lugar onde você possa se esconder?
— Eu não sei onde ele está — Ele olhava todos os lados, dando pequenos passos para trás no corredor. Mal sabia que o assassino já havia aberto uma das portas e estava caminhando em sua direção, sem fazer qualquer barulho.
Então a ligação caiu. E o assassino atacou.


Mason e ele derraparam sobre as costas do sofá, direto à mesinha de centro. O jovem levantou rapidamente e correu para trás do móvel. Ia para a esquerda, depois para a direita, tentando encontrar uma brecha para enganar o mascarado e correr na direção contrária. No final, Ghostface acabou por pular sobre o sofá e chegar até ele de forma mais incisiva. Caíram os dois no chão, sobre um criado mudo agora estilhaçado.
Mason Teria escapado ileso do primeiro ataque se não fosse a rapidez do outro em esfaquear sua panturrilha no momento em que se erguer. O garoto reagiu com um chute certeiro na máscara de fantasma, com a outra perna, e correu mancando até a porta de entrada.
Acesso negado – o mecanismo de segurança alertou em vermelho. Nenhuma senha era validada, não importava quais variações tentasse. O único jeito de fugir, nessas condições, era através das escadas.
Ele subiu para o segundo andar, apoiado na parede na direita, até chegar ao corredor principal que levava ao seu quarto. Estava tão concentrado em escapar que só notou o assassino em seu encalço quando era tarde demais. Inicialmente, levou duas facadas nas costas. Virou para ver o assassino, ainda em movimento, e levou uma facada no tórax. Quase caiu, graças ao atrito, mas estava concentrado demais em tentar escapar para compreender o quão logo iria morrer.
No corredor formou-se um rastro de sangue vermelho e negro que jorrava dos ferimentos e da boca. Nas paredes, deixou marcas de mãos ensanguentadas. Sua cabeça girava contra seus pensamentos, e sua vista embaçava a cada passo dado. Logo suas pernas se tornaram preguiçosas, como se seu corpo inteiro pedisse para que simplesmente se deixasse morrer.
Quando adentrou seu quarto, levou mais uma facada nas costas, o que o fez desabar próximo a janela.
— Me ajudem! — Batia na vidraça com as mãos cheias de sangue.
Mas não havia ninguém.
Ele virou para assassino a tempo de conseguir evitar uma facada certeira em seu coração. Ficaram medindo forças, com a faca apontada para seu peito, ainda que o vencedor já tivesse sido escolhido. O assassino chutou sua barriga duas vezes e o esfaqueou no estômago como um golpe de misericórdia. O jovem só fez olhar para seu ferimento, depois encarar a máscara de fantasma. Pensou “Por quê?”, com lágrimas nos olhos, antes de levar um chute no peito e atravessar a vidraça da janela.
O assassino viu seu corpo rolar do topo das escadarias principais da mansão ao último degrau, onde a propriedade encontrava o segmento da rua. Seus olhos, ainda abertos, iriam contar muitas histórias ao infeliz que o encontrasse... se os vermes não o comessem antes.
φ


Quarta-Feira: 19:25 do dia 27 de outubro.
Três horas antes do ataque no hospital, Matty e seus colegas improvisaram um esquema de tarefas para que cada um tivesse uma função específica na biblioteca. Matty ficou encarregado de organizar os livros nas prateleiras mais altas do primeiro andar, com a ajuda das escadas; Axel, a organizar os livros das estantes de altura regular do primeiro andar; Ruby ficou encarregada dos carrinhos, que levava de lá para cá, de acordo com a necessidade dos seus amigos; já à Adia e Lila, foram designadas as estantes do segundo andar.
Ruby tinha acabado de descer pelo elevador quando A Senhora Deville pediu para que levasse as enciclopédias de “A” a “Z” para Matty. Quando ela chegou, encontrou-o no quarto degrau da escada vermelha, com o fone de ouvido exalando as batidas de Pumped Up Kicks tão alto que era capaz de ouvir. Precisou cutuca-lo na perna duas vezes para que a notasse ali, com os livros nas mãos.
— Desculpa — Ele tirou um dos fones de ouvido e desceu para dar uma olhada no acervo.
A pedido da Senhora Deville, as enciclopédias deveriam ser organizadas em ordem alfabéticas e de acordo com as cores. Quanto a ordem das cores, em si, cabia apenas ao organizador.
Matty pegou o primeiro punhado de livros e subiu três degraus.
— Então, como isso funciona? Essa... detenção? — Ruby perguntou, a voz tímida e quase inaudível. Se não tivesse sem um dos fones, Matty não teria ouvido.
— Pelo que entendi, a escolha é do aluno. Se você comete alguma infração... — Hesitou, o peso dos livros sobre apenas um braço. — Você escolhe seu tipo de detenção. Pode passar uma manhã inteira de sábado com outros infratores, fazendo trabalhos escolares que não valem nota, ou pode se candidatar para o programa bibliotecário. A única diferença é que, no programa bibliotecário, sua contribuição consta no histórico como estágio, o que o torna uma opção mais viável que a concorrente.
— Como você sabe de tudo isso?
— Quando comecei o ensino médio, percebi que estava convivendo com pessoas que me faziam querer soca-las diariamente, então busquei saber o que aconteceria comigo caso cedesse a esses impulsos.
Ruby mostrou um lindo sorriso, o mesmo que a fazia pensar ser um desastre. E que jamais viram.
— Entendo perfeitamente.
— Pessoal! — Chamou a Senhora Deville. Todos os alunos pararam o que faziam para prestar atenção. — Está na hora da minha pausa. É muito importante que vocês permaneçam na biblioteca e continuem seus trabalhos, pois a Senhora Valentine em breve fará outra checagem.
— Podemos ir ao banheiro, pelo menos? — Matty perguntou.
— É muito urgente?
— Eu tomo muito refrigerante.
— Todo bem, mas seja rápido. Quanto ao resto de vocês, fiquem aqui. E tentem não fazer coisas do tipo... se beijar, ou se agarrar.
Adia e Lila prenderam um riso. Era o último aviso antes do jantar especial de uma mulher recém casada com ela mesma em um refeitório vazio.
 Quando a viu deixar a biblioteca, ao lado de Matty, Adia teve certeza que não teria outra oportunidade.
— Eu tenho um plano, mas você precisa confiar em mim — Cochichou; baixo o bastante para que apenas Lila ouvisse.
— Que plano?
— Venha comigo e eu mostrarei. Madison vai pirar — Tentou puxa-la pelo braço, mas a garota se recusou a sair do lugar.
— O que você está fazendo? Ela disse para ficarmos todos aqui.
Adia deu um ar de risos.
— E você vai fazer o que ela diz? Ela não voltará pelos próximos trinta minutos, é a nossa chance.
— Não, Adia. Tem câmeras aqui — Lila apontou. — Eles verão se sairmos.
— Tudo bem, apenas fique aqui. Se alguém chegar antes de eu voltar, diga que também fui ao banheiro. E sei lá, diga que Matty é gay para que não pensem que estamos nos beijando ou nos agarrando por aí.
— Okay — Estava dada por vencida.
Aquela era Adia Thompson. Difícil seria impedi-la de fazer o que bem entende, quando nem uma lei governamental provou-se capaz. Por isso o nome. Adia também era o furacão que passou por Seattle há quase vinte anos e não deixou vítimas fatais, embora tenha destruído boa parte das moradias ao leste.
Viu-a a correr para fora da biblioteca, em passos curtos e silenciosos, como se fosse realmente fazer alguma diferença.
— Aonde ela foi? — Axel perguntou, de sua estante.
Sem saber o que dizer, Lila apenas soltou:
— Matty é gay.
E a resposta de Axel formou-se em um silêncio constrangedor. De alguma forma, ficar sem entender parecia uma ótima escolha.
Adia perambulou pelos corredores do colégio sem ter muita certeza do que encontraria a cada virada. Ligou a lanterna do celular, no que agora parecia um calabouço escuro e desabitado, e seguiu para a área de computação e informática. Pelo menos torcia para que fosse parar lá, não voltar ao mesmo lugar. Naquelas condições, era muito fácil se perder pelos corredores e confundir os nomes dos professores nas portas.
— É por aqui... — Falou consigo mesma, apenas para manter o foco.
Em um momento de distração, acabou dando de encontro com Matty, justamente quando ambos tentavam dobrar o corredor.
— Que susto! — Disse ela. Por pouco não havia gritado o mais alto que seus pulmões permitiam e entregado a Senhora Deville e a Senhora Valentine sua exata localização.
— O que você está fazendo aqui?
— Eu saí escondida depois que vocês saíram. Você lavou as mãos?
— É claro. Agora precisamos ir — Matty tomou a frente. — Não vai demorar para a Senhora Valentine fazer a checagem.
— Espere! — Ela o esperou virar para continuar. — Estou aqui em uma missão. E preciso de um parceiro.
Ela tinha razão, Matty poderia ajuda-la. O que nem longe queria dizer que ele estava interessado. Encontraram juntos a sala de informática, depois ligaram o monitor principal.
— Você quer que eu hackeie o jornal do colégio para escrever um artigo próprio sem autorização? — Sentado na cadeira, de frente para o computador, tudo em que Matty pensava era em ir embora e evitar dois anos de detenção diária.
— Quando você coloca desse jeito, parecemos dois criminosos.
— Bem, não seremos criminosos se sairmos agora e fingirmos que nada aconteceu.
Adia sorriu debochada.
— Não estou fazendo isso porque gosto de burlar as regras. Estou fazendo isso em nome de todos os alunos que tiveram uma experiência terrível no ensino médio graças a Madison Summers. Lembra quando ela espalhou um boato de que você usava cueca de ursinho e os garotos do time de lacrosse não o deixavam em paz no vestiário? Agora é sua chance de fazer seu reinado acabar.
— Arruinando a reputação dela?
— Não, apenas fingindo que você não teve nada a ver com isso. Se a vingança é uma vadia, teremos que escolher outro nome para mim.
Matty suspirou fundo. O que aconteceria a seguir talvez mudasse a hierarquia social do Roosevelt High para sempre. Não era uma ideia tão terrível... se ninguém soubesse quem estava envolvido.
— Nós definitivamente vamos para a cadeia — Disse a ela. — É melhor que faça a valer à pena — E com alguns cliques, o acesso a conta editorial do Roosevelt Today foi permitido.
Matty cedeu o lugar a ela e esperou em pé, em frente ao computador seguinte na fileira. Não podia ver as modificações que ela fazia, exceto pelo que podia imaginar de acordo com cada expressão facial. Primeiro ela inseriu um pen drive no leitor USB, provavelmente em busca de arquivos para anexar. Depois se prontificou a reescrever o artigo.
Levou apenas dez minutos.
— Terminei — Seu suspiro de satisfação dizia tudo. — Quer ver minha obra de arte? — Caminhou até a impressora no fim da sala.
— Isso é uma boa ideia? — Mesmo não querendo, Matty seguiu seus passos. — Não sou muito bom em guardar segredos.
— Eu confio em você.
— Por que?
— Porque você é o único que, além de mim, odeia que sejam os ricos e poderosos a ditar nossa vida acadêmica — No qual a luz verde surgiu no visor, Adia retirou as duas folhas impressas; uma para ela, outra para seu cúmplice. — Amanhã vai ser o grande dia. Kim Kardashian deve estar orgulhosa de mim.
Matty focou no título da notícia. “Madison Summers: A Fraude Acadêmica e o Affair Misterioso”.
— Pesado — Assim como poderia esperar de Adia Thompson.
Lendo o texto, isso só piorava. Adia tinha provas anexadas de que Madison havia colado nos principais exames acadêmicos, além de uma dúzia de fotos comprometedoras em que a jovem aparecia aos beijos com um homem mais velho. Casado, por sinal, como mostrava a aliança em seu dedo.
— Eu sei — Adia concordou. — Você pode achar que eu gosto de ser a pessoa que contará a verdade ao mundo, mas eu não queria estar nessa posição.
— De verdade?
— Sim. O que me faz estar aqui é saber que ninguém mais estará, e que ninguém merece ficar para trás enquanto pessoas como Madison ganham todos os holofotes. No ano de formatura, ela pode estar usando métodos desonestos e ocupando a vaga de um estudante afrodescendente que fez um caminho árduo para conseguir tudo o que a ela foi dado de mãos beijadas. Não é justo que ela tenha tanto e ainda tire o pouco que temos.
Matty sorriu cortês. Estava impressionado, ou um pouco mais que isso. Estava encantado.
— O que foi? — Ela sorriu de volta.
— Essa é a primeira vez que eu vejo a Adia por trás da líder de torcida empoderada e obcecada com o sucesso.
— É isso que as pessoas pensam de mim?
— Mais ou menos. Precisei omitir a última parte para não ouvir um comentário machista saindo da minha boca, fosse em qualquer contexto.
Ele dizia a verdade, pelo pouco que ela conseguiu observar. O único, em quatro anos de ensino médio, que não tinha medo de dizer o que pensava. Não era como as garotas do seu círculo de amigas que esperavam as outras amigas irem embora para que lhe faltassem com respeito. Também não era como os outros garotos competitivos, capazes de brigar por um título. Matty deveria ser especial de maneiras que não compreendia para ser tão diferente dos moldes da sua geração.
— Não sei você, mas essa foi a melhor detenção da qual eu fiz parte. Se você me conhece bem, sabe que eu já participei de muitas.
— E essa é a minha primeira vez.
— Espero que estejamos falando sobre detenção.
— Nós estamos.
Eles se beijaram entre as palavras, lento e delicadamente. Três segundos depois e Adia já havia se afastado; seus olhos cheios de dúvidas.
— Espere um pouco. Há alguns meses, surgiu um boato de que você gostava de meninos.
— Mas eu gosto de meninos.
— Okay — Ela levou um segundo para autenticar a informação. — Mas você também gosta de meninas?
— Sim, bastante. São apenas gêneros, quem se importa?
Era exatamente o que ela esperava ouvir. Se aproximou para o próximo beijo, com as mãos sobre o peitoral dele, e ela envolvida por completo em seus braços. Aquele beijo abrasante, entre sorrisos e suspiros, que inevitavelmente os deixava sem ar. Ou, neste caso, até que o toque do celular os separe.
— Desculpa — Matty tirou o aparelho do bolso. — É Dodger. Acho que ela quer saber porque me atrasei para o nosso programa.
— Tudo bem, pode atender. É sua melhor amiga, e amigos vêm primeiro.
— Já volto — Lhe deu um último beijo antes de sair pela porta. No meio do corredor, sentiu-se solitário o bastante para atender a chamada. — Hey Dodger, desculpe pela demora. Nosso turno só termina depois das oito.
— Olá, Matthew — Uma voz sombria o respondeu.
Matty fez uma careta involuntariamente. Não poderia ser a voz de Dodger, ou de qualquer ser humano normal.
— Oi... está tudo bem?
— Diga-me você.
— Esse é o celular da Dodger, não é?
— Ela não pode falar agora, mas quer que você saiba que ela sente muito.
— Okay, já entendi — Ele sorriu. — É uma pegadinha de halloween e eu só tenho que ir na onda, tudo bem. Agora diga-me, senhor voz misteriosa, de que tipo de tragédia estamos falando? Você sequestrou minha amiga ou está em frente à casa dos meus pais para matar meu possível irmão imaginário?
— Você sabe o que acontece nos filmes de terror. Pessoas vivem, pessoas morrem. E certamente, você e todos os seus amigos estão na minha lista.
A risada de Matty lhe foi inevitável.
— Então eu sou o próximo, é isso que você está dizendo?
— Apenas se você perder o jogo. Sozinho em um corredor escuro e longe de todos os seus amigos, na detenção, que chances você acha que tem?
— Como você...? — Antes que terminasse a frase, ouviu o som de algo parecido com uma bola quicando à retaguarda.
Tinha razão, era mesmo uma bola, de basquete, e quicava os degraus da escadaria em sua direção. Só parou quando chegou a sola dos seus pés, fraca demais para seguir em frente.
Matty a tomou em mãos e olhou para a escadaria. Algo sombrio havia tomado conta do ambiente sem que tivesse escolha. E não havia ninguém por perto para explicar o que acabara de acontecer.
— Você está aqui? — Matty perguntou.
— Estou mais perto do que você imagina.
— Okay, a bola foi um ótimo truque. Agora você já pode aparecer e se vangloriar da piadinha de halloween.
— Quem você espera? Um de seus amigos?
— Se você não é um dos meus amigos, quem é você?
E o assassino gritou:
— O homem que estuprou a vagabunda da sua mãe até que você nascesse!
— The man who raped your whore of a Mother ‘til you were fucking born!
A chamada foi encerrada logo então, ele sem dizer uma palavra.
Olhou ao redor, pensativo. Depois deixou a bola de basquete no mesmo lugar onde havia parado. Talvez não fosse Dodger fazendo uma brincadeira. Talvez nem mesmo Dylan, com seu senso de humor constantemente incompreendido. Uma brincadeira sem graça, era isso. Feita por um maldito doente e desocupado; um dos valentões do time de lacrosse, que ainda estava inconformado com a derrota. 


Ele voltou para a sala de informática; Adia ainda estava à sua espera. Quando o viu, ela pulou da mesa redonda. Algo estava errado, era impossível não notar.
— Hey — Ela disse. — Está tudo bem?
— Não era a Dodger, era só uma brincadeira de mau gosto. Acho que levei a sério demais — Ele passou por ela e retirou o pen drive. — Não podemos esquecer isso.
Adia parecia ter levado um susto e estar agradecendo aos céus ao mesmo tempo.
— Você salvou minha vida — Sorriu, aliviada.
Pelos ombros dela, Matty viu uma figura de fantasia negra e máscara de fantasma adentrar à sala, brandindo uma faca de açougueiro em direção a eles. Não houve tempo para pensar; ele empurrou a jovem para cima da outra mesa no qual desviava também de um ataque. A faca do assassino atravessou o teclado de um dos computadores, mas com a mesma rapidez, ele a libertou dos mecanismos emborrachados e partiu para cima de quem estava mais próximo. Matty.
O garoto lutou bravamente, desviando dos ataques e utilizando os objetos que encontrava como arma. Foi ferido no ombro esquerdo, com um corte de faca na horizontal, e em seguida salvo por Adia, que pulou nas costas do assassino na tentativa de desequilibra-lo. Ele balançou, golpeou e se debateu, até que ela não tivesse mais forças para segurar e derrapasse por cima de uma das mesas, diretamente para o chão.
Matty, então, pegou um por um dos monitores e arremessou em sua direção, do mesmo jeito que fora ensinado a fazer durante o treino de lacrosse. Todos acertaram, ainda que o assassino tenha se protegido com as mãos. Já quando não havia mais monitores, agarrou a cadeira mais próxima para arremessar. Teria acertado em cheio, se o mascarado já não estivesse perto demais e arrancasse o objeto de suas mãos com força bruta.
 Matty desviou de mais uma facada e caiu sobre uma cadeira. A faca, direcionada a ele, acabou fincada entre a mesa de madeira. Então o assassino puxou sua camiseta com a outra mão e o arremessou por cima da mesa da frente.
A essa altura, Adia já havia corrido para abrir a porta adicional da sala – que a levaria a sala seguinte. Estava trancada. E para chegar à porta principal, que dava acesso ao corredor, teria que passar pelo assassino.
— Por favor, alguém nos ajude! — Ela gritava, uma mão na maçaneta e a outra indo de encontro com a madeira incessantemente. — Por favor! Por favor!
O assassino só fez pegar sua faca de volta e correr em direção a ela. Adia deu um último grito no instante em que a lâmina penetrou os órgãos de seu abdome. Não morreu de súbito, como chegara a desejar; viu-se apenas fraca demais para resistir. Mais facadas acertaram seu tórax, continuamente, no que a fazia sentir como se o próprio corpo se desfizesse aos poucos sob as mãos de outra pessoa. Para finalizar, Ghostface bateu sua cabeça contra o círculo de vidro da porta e pressionou seu pescoço contra os cacos que permaneceram na base.
Matty ouviu tudo de onde estava, por isso levantou a cabeça cuidadosamente sobre a mesa. Viu o assassino deixar o corpo sem vida de Adia desmoronar ao longo da porta e virar para ele, ainda com os intestinos dela em mãos, escorrendo numa cascata de sangue e repugnância. Naquele momento, soube que seria o próximo.
Pôs-se em pé, se apoiando nos joelhos e na mesa a sua frente, e depressa saiu. O assassino o alcançou ainda em frente a porta, imprensando-o contra os armários. Matty lhe deu duas cabeçadas, depois um murro certeiro, que logo o deixou desnorteado.
Aproveitou o momento de distração do assassino – concentrado em sua dor – e correu disparado pela mesma direção pela qual chegara. De repente, os autofalantes foram ligados em uma transmissão desconhecida. Agora Matty –  e  todas as pessoas nas instalações do campus – ouviam uma versão ainda mais macabra de uma música que poderia ter assombrado a infância de qualquer um deles. “Daisy, Daisy, give me your answer, do. I’m half crazy, all for the love of you”. Tinha certeza que a canção o estava tentando enlouquecer.
Finalmente na biblioteca, entrou sem fazer cerimônias. Olhou para a porta, cheio de receio, assim como olhara todos os cantos em busca de qualquer coisa para bloquear a entrada. Todos os presentes ficaram em alerta.
— O que está acontecendo? — Ouviu a Senhora Deville perguntar.
— Matty? — Lila chamou seu nome.
Ruby e Axel trocaram um olhar temeroso. Matty, sem nota-los ali, derrubou a estante mais próxima em frente a porta.
— Ai meu deus! — Lila gritou.
— O que você pensa que está fazendo? — Sharon finalmente usava seu tom de voz agressivo. Aproximou-se alguns passos, com as mãos na cintura.
Matty nem sabia por onde começar. Estava pálido, gelado, e com a respiração demasiado ofegante.
— Tem alguém tentando me matar! — Conseguiu dizer. — Ele matou Adia, está vindo para cá. Precisamos sair daqui!
— Hilliard, isso não tem graça! — Lila se impôs.
— Cara, fica calmo — Axel disse. — Talvez seja uma pegadinha de halloween.
E como em uma ironia despretensiosa, o assassino quebrou o círculo de vidro da porta dupla e começou a esfaquear a madeira. Ninguém mais duvidava do que Matty dizia. Ninguém mais se sentia seguro. As garotas gritaram, os meninos arregalaram os olhos, e Matty... não achava que iria sobreviver.
— Isso não vai aguentar por muito tempo, precisamos sair daqui! — Ele gritou.
Axel olhou ao redor.
— As janelas! — Assim como ele, todos correram para ver.
— É muito alto! — Disse a Senhora Deville. — Estamos no segundo andar.
— Eu não posso pular — Lila estremeceu. — Tenho medo de altura, não posso ir.
— Vão! Agora! Todo mundo! — Matty gritou.
Não havia outra saída.
Axel foi o primeiro a pular, e logo após ajudou a Senhora Deville a chegar a salvo no primeiro andar. Ruby foi a próxima, caindo de joelhos e as mãos contra o gramado. Quando Matty olhou para Lila, tudo o que via era uma garotinha assustada chorando compulsivamente. Ela tem medo de altura e acha que vai morrer, ele pensou.
— Está tudo bem, você consegue — Disse para incentiva-la.
— Eu não posso...
— Eu não vou deixa-la para trás.
— Não consigo. Vá com eles! Vá com eles! — Ela correu em direção às escadas da biblioteca.
Novamente, não havia outra saída.
Matty olhou para baixo, de relance. Ninguém o havia esperado. Olhou para o andar de cima e viu Lila se escondendo entre as estantes. Então olhou para porta, para entender porque o barulho havia cessado. Ele desistiu? – chegou a pensar. Foi quando o assassino, jogando-se contra a madeira, estilhaçou a porta em dezenas de pedaços. 
Devido o susto, Matty desabou da janela e caiu de costas no sobre o gramado. Ele levantou, ainda que pensasse ter quebrado alguma coisa. Bastou olhar para cima para ver o assassino em frente à janela. Era como se o amaldiçoasse através da máscara por ter escapado. Como se, em algum momento, planejasse voltar para terminar o que havia começado.
Matty apenas correu, sem direção alguma.
No andar de cima, Lila espiou o assassino por trás da estante. Ele olhou para cima, pensando ter ouvido alguma coisa, mas ela foi rápida ao recuar. E só por precaução, tapou a própria boca com as duas mãos trêmulas. Pôde sentir as lágrimas escorrendo sobre os dedos, assim como ouvia, alto e em bom tom, os batimentos acelerados do seu coração. 
O assassino foi embora instantes depois. Não era a hora dela. Só seria se tivesse sido vista.
Matty, do lado de fora, corria para longe do complexo cada vez mais. Estava completamente sozinho, justo naquela noite. Nem sinal da Senhora Valentine, ou os seguranças que rondavam o campus. Nem Axel, nem Ruby, nem a Senhora Deville, que desapareceram assim que estavam a salvo. Tudo o que tinha era seu celular. Distante da biblioteca, como julgava estar, não havia melhor oportunidade para chamar a polícia.
— 911, qual sua emergência? — Uma voz masculina o atendeu.
Havia chegado no campo de lacrosse, próximo às arquibancadas. Os holofotes, um a um, começaram a acender, como se estivessem contemplando sua chegada.
— 911, qual sua emergência? — O atendente repetiu, mas Matty havia congelado.
No centro do campo era possível ver o corpo de uma jovem moça de cabelos ruivos, vestida de preto à moda do século passado e também suja de lama. Matty sabia exatamente o que lhe estava diante. O celular escorregou de suas mãos, deliberadamente, no seu caminho até o cadáver. Temia cada passo, cada batimento acelerado de seu coração.
O último holofote acendeu no momento exato em que parou de caminhar. Entendia agora que não estavam ali por ele, e sim por sua querida amiga, Dodger. Seus olhos se encheram de lágrimas.
Caiu de joelhos no chão molhado e a tomou nos braços. Alguém havia maquiado seu rosto e escolhido religiosamente um vestido que lhe desse uma aparência mais teatral do que ela teria permitido. A mesma pessoa que matou Adia e tentou mata-lo ainda há pouco? Tudo fazia sentido. Tudo, exceto a morte que segurava nos braços.
— Parado! — Ouviu alguém gritar.
Havia policiais para todos os lados; na floresta, nas arquibancadas, em um helicóptero que sobrevoava o campo.
— Afaste-se do corpo! — Um deles o puxou severamente pelo colarinho da camisa. De pé, começou a ser algemado. — Você está preso por suspeita de assassinato. Tudo o que você disser poderá ser usado contra você no tribunal.
— Não! Eu não fiz isso! — Matty gritava.
— Você tem direito a um advogado. Se não puder arcar com os custos, o estado o designará um defensor público.

Assim eles o levaram. Quanto ao verdadeiro assassino, estavam muito longe de encontrar.

Clique na imagem para ampliar
Curiosidades:
- Este é o capítulo mais longo de toda a saga, contando o equivalente a 21 páginas e meia. Por ventura, também é meu capítulo preferido do livro.
- A música Daisy, Daisy, que toca na série Scream, foi adicionada na última revisão para fazer uma pequena referência. Espero que tenham gostado!
- O poster ao lado é em homenagem ao segundo livro. A Punhalada 2 foi lançado em 2012 aqui no blog, dando continuidade ao que viria a ser uma quadrilogia, no futuro. Novamente por não encontrar fotos adaptáveis ao conteúdo, tive que improvisar uma nova roupagem pro poster, fugindo um pouco do que a franquia de filmes costuma fazer.

Nina Dobrev como Amanda Rush. Gaspard Ulliel como Aaron Estwood. Julianna Guill como Megan Bower. Alexander Ludwig como Kyle Fuller. Ashley Benson como Chloe Field. Chace Crawford como Craig Fuller (Irmão de Kyle. Não está no poster). E Katherine Langford como Zoe Pierce (Irmã de Gabriel, um dos assassinos. Não está no poster)

Capítulo 5: Autópsia (Dia 05/10)
Matty acaba de descobrir a verdade sobre seu passado e confronta os pais adotivos. No dia seguinte, Aaron e Megan assistem a autópsia de Mason Harding, onde fazem uma grande descoberta.
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Comentários
6 Comentários

Comentário(s)

6 comentários:

  1. *gretchenchocada.gif*

    MEU DEUS, QUE CAPÍTULO FODA!!!! Nunca pensei que a Adia e a Dodger morreriam assim tão cedo, tô chocado ainda. Logo agora que eu tinha gostado dela. Você é mal, João!

    E Matty bi, se eu amei??? Quero logo o próximo aaaaa!!

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  2. Hahaha, eu disse que seria sangrento. Mas relaxa, ainda sobrou muito personagem pra ser perseguido nos próximos capítulos xD

    Aliás, o Matty não é bi, ele é pansexual. Não há muitos filmes/livros que exploram este tema, então este seria o diferencial. Eu também sou pansexual, aí fica mais fácil exemplificar.

    Até semana que vem, João! Temos um encontro com o cadáver de Mason Harding.

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  3. ''são apenas gêneros, quem se importa ?'' pô que merda eim, mais merda ainda é a cutucada sobre contas de afrodescendentes

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    Respostas
    1. Não acho que os leitores deveriam se importar com a orientação sexual dos personagens, pois esse nem é o foco da narrativa em questão. E também não entendo como algo tão simplório pode estragar a experiência de leitura de algumas pessoas. Não sei se você esperava ler um livro em que o autor ignora a existência de LGBT's ou não trata LGBT's com normalidade, mas acho que você tem direito de ler o que quer. Aqui, por exemplo, você não vai encontrar livros em que os personagens acham "merda" ser pansexual. Mas você ainda pode opinar, é claro, é para isso que serve a função de comentários do blog.

      Sobre a questão das cotas, esta foi apenas uma opinião expressada por uma personagem em particular, o que nem de longe serve como imposição ideológica para os leitores. Adia é uma jovem negra e vive sob um regime capitalista que a prejudica na escola onde estuda, ela tem todo direito de acreditar no que acredita sem ofender os leitores. Novamente, não sei que tipo de livro você esperava ler, mas basta saber que as opiniões expressadas pelos personagens não são obrigatoriamente as opiniões dos realizadores e nem servem como wake up call para causas sociais.

      De qualquer forma, obrigado por comentar.

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  4. Achei bem inteligente colocar ''Daisy, Daisy, give me your answer, do. I’m half crazy, all for the love of you''.
    Já que é meio futurístico, gostei

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    Respostas
    1. Essa música é atemporal né? Eu acho que ela ainda pode assombrar os pesadelos de muitos jovens nas próximas décadas, hahaha. E eu também queria algumas referências a série de TV, só pra ter uns easter eggs bacaninhas. Ainda bem que vocês notaram =D

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