terça-feira, 1 de novembro de 2016

Crítica | Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras (2000)



Lendas são imortais. Você não.

Depois do sucesso comercial estrondoso do primeiro filme, não havia dúvidas que uma sequência logo daria as caras; e isso aconteceu o mais rápido possível, no ano seguinte. O impacto deixado pelo filme original ainda era recente na cabeça dos seus espectadores, e muitos esperavam um pouco mais de esclarecimento em torno do caso na possível segunda parte da história. A sequência, no entanto, acabou sendo uma grande surpresa – e não falo isso de forma positiva. Subvertendo todas as expectativas, Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras seguiu na contramão dos eventos anteriores, tornando-se uma das sequências mais odiadas do gênero. Mas será que este filme realmente merece toda essa desaprovação?

Na trama, para capitalizar com a repercussão em torno do primeiro filme, um homem de Burkitsville, em Maryland, começa uma tour chamada "A Caça da Bruxa de Blair", que explora diversas locações do filme original. Um grupo de estudantes decide fazer parte da aventura, acampando nas ruínas da casa de Rustin Parr – conhecido por, no passado, matar várias crianças sob a influência da bruxa. Na manhã seguinte, no entanto, eles percebem que não dormiram e não conseguem lembrar absolutamente nada da noite anterior. Isolados, confusos e cansados, o grupo começa a padecer da mesma histeria que tomou conta dos personagens do filme que eles tanto admiram, deixando a dúvida se há algo sobrenatural realmente acontecendo ou é tudo produto de suas mentes perturbadas.

O primeiro aspecto que deve ser apontado é que Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras pouco pode ser considerado uma sequência do primeiro filme, mas sim uma espécie de spin-off do "mundo real". Seu texto trabalha com a metalinguagem, e o mais interessante em torno disso é que os personagens deste filme são representações dos próprios espectadores que ficaram fascinados com o filme original, acreditando e ficando apavorados com os seus eventos perturbadores. O seu roteiro trabalha como uma espécie de piada interna, desenvolvendo uma metalinguagem realmente inteligente, especialmente por subverter todas as expectativas ao entregar algo que ninguém estava esperando.

Seria muito fácil colocar mais um par de personagens aleatórios carregando uma câmera pela floresta e imitar basicamente a estrutura do primeiro filme, mas a questão é que não seria mais a mesma coisa. Escolher por imitar os elementos do original, seria a mesma coisa que entregar uma cópia mal feita, porque o resultado do primeiro filme nunca mais conseguirá ser replicado. E é justamente por isso que o conceito desta sequência é tão interessante; fico até impressionado com a ousadia do estúdio em arriscar uma franquia que poderia ter rendido diversas sequências ao apostar em uma ideia tão extrema. Como o próprio diretor afirmou durante uma entrevista nos Extras do DVD, Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras é uma anti sequência, onde ele exemplifica que o "terror" só começa depois que o depois que o grupo sai da floresta e vai para um lugar fechado.

É claro que este filme também está longe de ser perfeito. Grande parte dos seus pontos negativos é culpa do próprio estúdio, que fez pressão para que cenas "sangrentas" fossem introduzidas no início da trama através de péssimos flashes que cortam a narrativa. Além de resultar em uma péssima edição, esses flashes são extremamente desnecessários e entregam de bandeja o mistério sobre o que aconteceu durante a noite que os personagens não conseguem se lembrar. Para completar a obviedade, há a inserção de entrevistas individuais com os sobreviventes na delegacia antes da narração de suas tramas chegar a uma conclusão, o que não só entrega quais deles irão escapar com vida, como também torna óbvio quais irão morrer. Essas, em geral, foram algumas das ideias estúpidas, que tiram qualquer tipo de tensão e surpresa da trama.

O enredo pelo menos até tenta desenvolver uma história interessante, principalmente o conceito de que apenas as câmeras contam a história real. Como um dos próprios personagens aponta sabiamente, "Filmes mentem, as câmeras não". E isso faz alusão não só ao primeiro filme em si, que enganou todos a respeito de sua veracidade, como ao próprio enredo, onde acompanhamos personagens agindo de uma forma só para descobrir, mais tarde, através de gravações, que a realidade foi completamente diferente. Foi um conceito interessante, sustentado por um eficiente mistério de fundo. Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras pode não ter sido uma boa sequência, mas não podemos dizer que é um péssimo filme em si. Tem suas falhas, obviamente, mas também um conceito sólido e uma crítica muito interessante costurada através de seu roteiro. A pressão de ser uma sequência de A Bruxa de Blair o afundou negativamente, mas, se fosse um título independente, muitas reações certamente teriam sido diferentes. Talvez agora que a terceira parte da franquia foi lançada, seguindo propriamente não só a trama, como também o estilo do original, esta sequência ganhe uma nova chance, sendo vistas com outros olhos.




Direção: Joe Berlinger
Roteiro: Dick Beebe, Joe Berlinger
Ano: 2000
País: EUA
Duração: 90 minutos
Título original: Book of Shadows: Blair Witch 2

Elenco: Jeffrey Donovan, Erica Leerhsen

 


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