sábado, 10 de setembro de 2016

Crítica | Demônio de Neon



A beleza é perversa.

Geralmente não dou muita atenção para esses filmes que seguem uma vibe mais alternativa, mas Demônio de Neon surpreendentemente chamou minha atenção; seja pelo tema ou pela fotografia radiante, pensei dar uma oportunidade e sair da minha zona de conforto. Particularmente, eu assisto de tudo; não vivo apenas de sangue, violência e correria dos filmes trash. Sei apreciar suspenses psicológicos com uma pegada mais dramática, que costumam apresentam um ritmo relativamente mais lento. Isso não me incomoda quando bem conduzido – algo que eu não posso afirmar sobre este filme. Demônio de Neon traz algumas cenas interessantes e uma fotografia muito acima da média, mas em geral apresenta uma narrativa pela metade, movida por personagens apáticos que aparentemente vivem isolados em seus próprios mundos.

Na trama, Jesse é uma jovem aspirante a modelo que se muda para Los Angeles na esperança de construir um nome para si mesma. Seu beleza, ingenuidade e frescor logo despertam atenção de nomes importantes da indústria. Toda a atenção em torno dela também atrai a inveja da concorrência, que não conseguem admitir que os seus holofotes sejam movidos na direção de outra pessoa. Neste mundo superficial, a beleza não é tudo o que importa; ela é a única coisa. E as pessoas irão tentar roubar o seu brilho; irão tentar tomar para elas. Agora, Jesse não irá demorar para perceber que este mundo de beleza pode esconder algumas facetas horrorosas da psique humana, e algumas delas estão dispostas a ir longe demais para conseguir a atenção que deseja.

Acredito que toda essa desconstrução a respeito da importância da aparência foi justamente o que mais me chamou atenção em torno do projeto. Há alguns outros filmes independentes que se descararam muito com este tema, como, por exemplo, American Mary, que se aprofunda no submundo das mudanças corporais. Relatos sobre os horrores que jovens passam ao perseguir uma carreira de modelo são acessíveis facilmente na internet, e até mesmo reality shows como America's Next Top Model, que tentam vender o glamour da profissão, não cansam de afirmar como o mundo da moda é brutal. Demônio de Neon poderia ter seguido por tantos caminhos para nos apresentar aos horrores deste mundo, mas o roteiro mal toca sua superfície, tendo o seu terceiro ato focando nas consequências da inveja alheia – o que particularmente não é tão interessante quanto os abusos, sofrimento e a quebra do espírito humano que poderiam ter sido desenvolvidos.

O mais importante a se ressaltar a respeito deste filme é que ele é movido através de conceitos. Uma única cena pode ter vários significados e simbologia ocultos, o que certamente é algo interessante para fazer os seus espectadores refletirem. No entanto, aqui tudo é conceito. Por ser usado em excesso, o filme vira apenas uma sucessão de cenas desconexas, com tons diferentes e um show visual vazio; não há tempo para processar sua mensagem enquanto somos bombardeados com diversas coisas que não fazem o menor sentido, o que rapidamente se torna cansativo. O filme só apresenta metade da história, deixando para os seus espectadores criarem o resto em suas próprias cabeças. Não é um formato que me agrade, particularmente. Sempre costumo pesquisar outras visões antes de escrever meus textos – por vezes, elas conseguem complementar minha própria visão da trama –, e a sensação, neste caso, é que até mesmo as pessoas que adoraram a obra estão perdidas no meio de tanto conceito.

Os personagens são completamente apáticos. Nenhum deles age de forma natural, o que é irônico se considerarmos que o diretor abordou a atriz Elle Fanning para revisar os diálogos femininos com o objetivo de torná-los mais autênticos. É como se cada personagem vivesse em seu próprio mundo, e por isso são incapazes de reagir a presença dos outros ao seu redor. Claro que isso é um reflexo do próprio mundo superficial que o diretor quer abordar, mas não funciona a favor da trama. Umas das grandes questões deixadas pelo enredo, ao final do filme, é se a personagem da Elle Fanning foi transformada pelo universo podre em que foi introduzida ou ela sempre foi daquele jeito e foi este universo que a permitiu revelar sua verdadeira face. Acredito que tenha sido esta segunda opção porque desde o começo ela mostra pequenos sinais que a distanciam da inocência que ela quer transparecer. Talvez eu negue a primeira hipótese justamente porque o roteiro falhou em criar um desenvolvimento crível da personagem, o que também é uma forte possibilidade.

Como já adiantei, um dos pontos mais fortes do filme é a sua estética. A fotografia é incrível em algumas sequências, especialmente as cenas que abusam das cores fortes e neon – honrando o título. Aliás, o que é o demônio de neon? Na minha interpretação, o demônio é o próprio mundo da moda. Um mundo que parece brilhante como neon, mas esconde um lado muito perverso; um mundo que atrai jovens com suas promessas e consome tudo o que há de bom, original e novo nelas. O filme é muito mais longo do que o necessário, e o seu terceiro ato se apoia em cenas "chocantes" que em geral não tem uma finalidade maior do que essa; chocar os seus espectadores. A tão comentada cena no necrotério foi um improviso da atriz Jena Malone – que, apesar dos pesares, estava incrível em seu papel –, assim como tantas outras cenas, inclusive o próprio desfecho. Nada disso funcionou para mim, e por isso não recomendo o filme. É tão superficial quanto a superficialidade que tenta vender (espera, seria isso brilhante?).




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Comentários
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1 comentários:

  1. Sua crítica é sem dúvidas a melhor que esse filme pode ter, ainda não tinha lido nada com tanta imersão, ele é exatamente o que vc escreveu. Sim, ele vendeu a superficialidade de uma das, se não a, profissão mais superficial que existe e você comprou. Pergunto: isso torna o filme ainda por do que ele é ou uma obra de arte ?

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