segunda-feira, 4 de julho de 2016

Crítica | Sereia Negra


Autor: Vinícius Grossos
Editora: Selo Jovem
Lançamento: 2014

Resenha:

"A cor da minha alma? Não sei. Deve ser preta e arredia; como sinto que meu interior é. Também, como poderia ser diferente? Nunca tive ninguém para acrescentar um pouco de cor à minha alma."

Todo mundo sabe que as praias brasileiras estão entre algumas das mais bonitas do mundo, mas o que vocês não sabem é que elas também são o lar de uma sereia chamada Inês. Nossa própria sereia brasileira! Sereia Negra é o primeiro livro publicado do autor Vinícius Grossos, que investe em uma aventura debaixo d'água, com direito a uma mitologia forte e personagens carismáticos? O que mais chama atenção na história? Com certeza a quebra dos paradigmas sociais e a inversão de conceitos que foram impostos a nós. Ainda irei elaborar essa questão, mas primeiro vamos saber exatamente sobre o que se trama o enredo. Prendam a respiração e me deem as mãos.

Na trama, durante o seu aniversário de quinze anos, Inês tem todos os seus sentimentos de revolta aflorados de forma implacável; seu pai a abandonou assim que ela nasceu, sua mãe morreu no parto, ela nunca teve amigos, nem nunca se sentiu atraente o suficiente para o meninos com quem tivera contato. É então que Inês decide que sua vida deve ter uma mudança radical – mais do que ela imaginava. Numa tempestade repentina e sobrenatural, Inês tragada pelos mares – tragada de seu mundo. Inês é uma sereia. E mais do que isso, ela é uma lenda viva – um ser aguardado por todas as sereias e tritões de Atlanta, um dos vários reinos que existem abaixo do mar sem o conhecimento dos humanos, como a grande salvadora deles. Inês é a Sereia Negra, a única sereia de cor negra de toda a história! Agora, enquanto tenta processar sua nova condição, a mais nova sereia dos mares irá aprender que nem tudo é luz debaixo dos mares, e trevas espreitam por perto.

A história é ambientada em Búzios; local que eu já fui diversas vezes, o que me trouxe uma sensação bem legal de submersão com a história, e é narrada em primeira pessoa, pela Inês. Confesso que não fui muito com a cara da personagem no começo do livro, o que dificultou um pouco a leitura. A protagonista é bem imatura, reclama bastante e é uma assassina de peixes dourados (!). Mas, uma vez que ela é tragada para o fundo do mar, Inês mostra outros lados de sua personalidade que até que são bem interessantes, lados esses que ela mesma não conseguia explorar na superfície. Apesar disso, é inegável a evolução da personagem no decorrer da trama. Inês, uma vez que aceita sua nova condição, é uma personagem admirável, que não não foge da luta e faz de tudo para proteger os seus amigos.

Através da narração da protagonista, acompanhamos como era sua luta diária; o preconceito que sofria. É é muito bacana como o enredo consegue subverter o conceito por trás do tom da pele da Inês. Sua pele negra, uma vez motivo de chacota, se tornar algo raro, algo que devia ser admirado, único. A história também introduz personagens gays, dois dos melhores amigos tritões da Inês, que querem para ficar juntos, mesmo que isso seja considerado intolerável em Atlanta. Basicamente um espelho da sociedade atual, que tem sido rebatida através de diversas campanhas focando no amor, independente de sua forma. Queria ter visto mais desses personagens, até porque, eles ficaram um tanto apagados na segunda metade da trama.

Esse, por acaso, é um dos pontos negativos do livro; ele é muito curto. Talvez por ser o primeiro do autor, mas tudo acontece rápido demais. A história que ele criou, toda a comunidade submarina que apresentou, carecia de mais páginas para serem devidamente desenvolvidas. Há toda uma mitologia, guerras antigas, diferentes tipos de sereias e, claro, uma profecia, que mereciam um ritmo menos frenético para serem devidamente analisadas. Este ponto pode ter sido prejudicado pela narração em primeira pessoa, limitando-se a visão da Inês, que por vezes é bastante limitada. Mas devo deixar claro que esse universo que ele criou é forte e poderia muito bem ser explorado em possíveis continuações. A trama tem todos os elementos certos para sustentar sua própria saga.

Enfim, Sereia Negra é um livro de leitura fácil, com narração fluida, e uma história que te envolve cada vez mais a medida que a trama avança. Infelizmente, não consegui me conectar muito com o desenvolvimento do romance da protagonista, mas agradeci pelo enredo não ter investido em um famigerado triângulo amoroso. Por fim, não posso deixar de destacar o terceiro ato, que conseguiu me surpreender bastante justamente por causa das consequências sangrentas da prometida guerra. Não esperava eventos tão sangrentos, mas fiquei extremamente satisfeito com a ousadia do autor, que não contornou a situação pensando em futuros livros, e investiu com tudo em um confronto glorioso. Fico muito feliz por ter dado uma chance à trama, e recomendo a todos, especialmente a quem estiver buscando por uma fantasia leve para passar o tempo.
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