sábado, 23 de abril de 2016

[Livro] The Double Me - 4x14: Internecine [+18]

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4x14:Internecine
“Adj; a destruição mútua”.
  
Theon o mantinha deitado de bruços sobre a mesa, com as pernas para fora. Uma mão ia em sua cintura enquanto a outra pressionava sua cabeça contra a madeira. Nos olhos de Nate, apenas o vazio perdurava.
Os primeiros sete dias foram os mais difíceis. Depois de um tempo, seu corpo aprendeu a se entorpecer durante a violação. Já vai terminar – dizia a si mesmo para se manter intacto, embora soubesse que Theon demorava a se satisfazer por completo. Às vezes permitia que bebesse algumas doses de whisky antes de leva-lo para o quarto. Estes, talvez, fossem os dias menos desagradáveis, enquanto esperava ter acesso integral a adega da mansão. Mas às vezes apenas a imaginação poderia impedi-lo de quebrar.
Aonde estariam todos? Estavam felizes? Costumava imagina-los sorrindo, em um jantar de amigos, trocando histórias engraçadas e falando sobre suas aventuras sexuais. Então os anos passariam, e eventualmente, todos seguiriam com suas vidas. Mia criaria sua própria grife; Alex se formaria em Yale para trabalhar como advogado; Após Dartmouth, Jensen se tornaria um grande cirurgião, como sonhava desde que assistiam juntas séries médicas na TV. Nenhum deles precisava de Nathaniel Strauss; este, talvez, fosse apenas o lado reconfortante em não ser mais alguém.
Em nunca mais ser alguém.
Veloz em seus movimentos, Theon aliviou-se dentro dele. Beijou-o no pescoço, cheirou seus cabelos e o estapeou na bunda.
— Ótimo trabalho — Disse. Vestiu o roupão preto e pegou um copo de whisky. — Camille?
A jovem assistente apareceu na porta do quarto, de sobretudo cinza e salto altos. A Princesa Lunática, Nate passou a chama-la. Pelo menos tudo já havia terminado.
— Leve-o para o chuveiro, por gentileza — Theon pediu.
Não havia um dia sequer em que não mandasse Nate para o chuveiro após obter seu prazer. Não suportava vê-lo maltratado; porque de Nathaniel Strauss, cobiçava apenas a perfeição.
Nate atravessou o quarto ao lado de Camille e deixou-se guiar até seu antigo quarto. Ao adentrar o banheiro, sentiu o corpo inteiro responder tardiamente a seus traumas
— Nate, você está tremendo — Camille segurou suas mãos; frias como gelo. Nos olhos via lágrimas presas, incapazes de ruir.
— Está acontecendo de novo... — Sussurrou ele.
— Tudo bem, vai ficar tudo bem.
— Não, ele vai me estuprar de novo...
— Quanto mais você lutar, pior será — Deslizou a mão sobre seu rosto. — Está quase terminado. Tudo o que você precisa fazer é aguentar firme.
Nate fitou-a sem entender. Era possível que partilhasse das mesmas crenças de Theon? Se submetia a todas as suas vontades por acreditar que assim morreria o monstro? Se o brilho de seus olhos negros resplandecia sua fidelidade ao empregador, então era tão louca quanto ele sempre foi.
— Agora tome banho — Ela pediu. — Estarei do outro lado da porta.


Era melhor não contestar. De qualquer forma, Nate já estava cansado de todo aquele teatro. Bastou que ela saísse para deixar de lado sua falsa tremedeira e abandonar a expressão lastimosa. Pelo visto não só Theon, como também Camille, haviam comprado sua atuação. E quem não compraria, tendo-a embasado sorrateiramente durante semanas?
Para alguns, a dor é o caminho mais curto para a insanidade. Mas para os que já conhecem a escuridão, não há melhor ingrediente para sucumbir a uma doce vingança.
Avançando dois passos, limpou o embaço do vapor no espelho para encarar a si mesmo. Estava lá outra vez, seu olhar destemido e livre de remorsos, pronto para a batalha final. Theon, este é seu último jantar, pensou consigo mesmo. Hora de ir para o inferno.


O salão ressoava com risadas amistosas e canções refinadas de uma norma clássica. Entre políticos recém elegidos, membros da elite nova-iorquina e o comitê de imprensa, Julianne Foster sentia-se em casa, esbanjando elegância em seu vestido Lanvin cor de Jade. De terno e gravata, Kerr e Dhiego acompanhavam-na outra vez em nome de toda a família Foster.
— Estou aqui — Amber avisou. Fazia tanto tempo que pedira licença para ir ao toalete que o irmão cogitou a possibilidade de ter saído pela porta dos fundos.
— Você demorou. Se sente melhor?
— É só uma enxaqueca, vai passar em um minuto — Tomou em um só gole todo o champanhe de sua taça.
Logo então Jullianne despediu-se do casal com quem tão amigavelmente conversava. Seus olhos pairaram sobre filha, tão desconfortável quanto elegante na vestimenta que escolhera.
— Querida, que bom que está aqui. Gostaria de apresenta-la a...
— Agora não, mãe — Amber interrompeu. — Não estou no clima de ser apresentada a futuros esposos — E afastou-se aos poucos, os saltos ressoando em seu total desinteresse.
Julianne forçou-se a sorrir para evitar uma cena desnecessária, mas o olhar implorava ao filho que fizesse uma intervenção.
— Eu falo com ela — Kerr prometeu.
Tomou em mãos uma taça de champanhe e seguiu a irmã através da multidão. A verdade era que Amber não sabia para onde estava indo, ou porque deveria. Olhou para todos os lados em busca de uma distração, mas nada encontrou. Pelo menos, nada que a deixasse livre de uma interação social. Não queria conversar, não queria sorrir. Tudo parecia demais perto da ideia de voltar para casa e rasgar seu vestido.
Kerr conhecia aquele olhar; queria ficar sozinha, e era exatamente por este motivo que não deveria.
— Está tudo bem? — Perguntou a ela. Estavam parados em meio ao salão, no vai e vem de convidados e serviçais.
Ela suspirou.
— Sim. Eu só não deveria estar aqui.
— Você sabe o quanto esses eventos são importantes pra mamãe, e você nunca reclamou antes.
— Você entenderia se eu dissesse que este é só mais um dia ruim?
— Tente “ano ruim” — Ele assentiu, tomando um gole de champanhe em seguida. — Está tudo literalmente fodido.
Amber concordou em pensamento. Nate viajou para a América do Sul sem se despedir; Cameron foi preso, e Alex o acusava de tentativa de homicídio; Mia não atendia mais suas ligações, e Thayer, mesmo depois de um tratamento arriscado, continuava definhando em uma cama de hospital. Não saber até onde os The Judges estavam dispostos a ir para machucar sua família outra vez não melhorava em nada suas expectativas.
Em contrapartida, ainda havia pessoas com quem poderia contar. Kerr, Dhiego, suas tias. Talvez até Julianne tivesse algo a oferecer, caso trabalhasse na desconstrução de seu egocentrismo materno. Estaria tudo bem outra vez, daqui a algum tempo. Ou muito antes do que esperava.
Havia uma coisa que Amber Foster precisava saber sobre os Strauss. Até quando são deixados para trás, sempre estarão um passo à frente de todos os outros. Na maioria das vezes fazem seu caminho ao topo em ternos Armani, a preço de sangue; mas desde que a família aumentou, tornou-se comum ver a retribuição desfilando em vestidos, Chanel e saltos altos. Mia nunca aceitaria a derrota sem uma luta justa onde pudesse usar suas próprias armas. E era exatamente o que Dhiego Foster estava prestes a descobrir.
Observou a família discretamente desde de sua chegada; viu-os cumprimentar os convidados, deleitar-se nas bebidas e posar para fotos. Dentre eles, apenas Amber mostrava-se indisposta. Estava linda em seu vestido cor de amaranto, e os cabelos formando uma trança única, caída sobre o ombro direito.
Precisava dar certo, independente das artimanhas de Dhiego.
Quando os convidados iniciaram a salva de palmas em recepção ao locutor, Mia preparou-se para o que estava por vir.
— Hora do show — Sussurrou, um sorriso sagaz brotando em seus lábios.
Agora Amber finalmente tinha a distração que pedira.
— Parece que vai começar — Disse ao irmão. — Tem interesse em alguma coisa? Me pouparia o trabalho de comprar presentes para o seu aniversário.
— Eu não sei — Kerr fez-se desentendido. — Há algum jovem negro com 1,80 de altura para ser leiloado?
— Interracial? É exatamente o que mostra o histórico do seu navegador.
— Eu não sou constante, você se surpreenderia.
E riram juntos, como não faziam há muito tempo. Três semanas se passaram desde que Mia se fora; depois do que enfrentou, Kerr não sabia dizer o quanto era gratificante ver aquele sorriso outra vez.
— Vamos começar, sim? — O locutor ponderou após seu pequeno discurso. — A primeira peça desta noite é uma belíssima escultura moderna feita pelo artista Jean De Borneau. O lance inicial é de seis mil dólares.
Ao todo, pelo menos quatro pessoas disputaram o item para que fosse adquirido pelo preço de onze mil dólares. Amber e Kerr levantaram sua placa duas vezes, apenas para irritar os possíveis interessados.
— A próxima peça é o Baccarat Mille Nuits 8 Light Chandelier, de Crystal Classiscs. — O lustre foi mostrado no telão em destaque. — O lance inicial é de dezesseis mil e quinhentos dólares.
Finalmente Mia via algo que a interessava. Quando tudo estivesse terminado, faria questão de ter um em seu apartamento. Até lá, que o asiático de cabelos curtos da primeira fileira fizesse bom proveito do seu, já que o lance de arremato chegou a vinte e nove mil dólares.
— O próximo item é... — O locutor franziu o cenho ao ler uma informação incorreta em seu pequeno cartão. Dois segundos depois, sua assistente trouxe-lhe um novo. — Perdão pela interrupção. O próximo item trata-se de uma aquisição de última hora, ministrada pelo jovem Dhiego Foster. Eis o colar Anastasia de diamante safira — O objeto surgiu no telão. — O lance inicial é de Trinta e três mil dólares.
Mia foi capaz de presenciar um punhado de reações distintas que agradaram seus olhos. Julianne em estado de choque, Dhiego apavorado, Amber e Kerr sem palavras.
— Ai meu deus, este é o meu colar! — Murmurou Julianne, de modo que apenas as poucas pessoas ao seu redor pudessem ouvir. — Dhiego, você...?
— Eu não sei o que está acontecendo! — Ele se defendeu.
Amber e Kerr se aproximaram em busca de respostas.
— Dhiego, o que está acontecendo? Aquele era o colar da minha mãe? — Amber perguntou ao primo.
— Eu não sei, deve haver algum tipo de engano. Juro que não sei o que está acontecendo.
Agora Mia estava pronta para sua entrada triunfal. Ao lado de dois grandalhões de terno e gravata, desfilou ao encontro do drama da família Foster como uma rainha.
— Desista, Dhiego — Disse a ele. — Seu jogo termina aqui.
— Eu sabia que não era coincidência. Você é a responsável por isso.
— Obrigada. Mas que tal falarmos sobre seus feitos agora? Deve ter dado muito trabalho encontrar um comprador para a joia que você roubou, por isso compreendo sua surpresa. Não que esta seja sua primeira vez, é claro. Conte-nos, o que você fez com as joias que roubou de Magda Lambert antes de fugir da Inglaterra?
— Mia, isso é um absurdo! — Amber tomou a frente. — Você tem ideia das acusações que está fazendo?
— Não tenho nada a esconder — Dhiego enfrentou sua inimiga com o olhar. — Não serei intimidado por suas mentiras.
Era exatamente o que Mia esperava que dissesse. Havia uma jogada antecipada guardada especialmente para seu momento de negação.
— Se nenhum de vocês acredita em mim, talvez devam ouvir da própria Magda — Afastou-se alguns passos, revelando uma jovem loira de cabelos amarrados e uma barriga enorme entre os dois homens.

Esta era Madga Lambert, a herdeira milionária da famosa franquia de chocolates de Londres. Deixara sua mansão a cargo de empregados em outro continente com apenas um propósito: Encontrar o homem que a deixou plantada num altar para fugir com todas as suas joias de família.
— Olá, Dhiego — Deu-lhe um tabefe no rosto. — Você não sabe quanto tempo eu esperei por isso.
— Magda, por favor...
— E agora você implora. Você tem ideia da humilhação que me fez passar na frente de todos os meus amigos em cima daquele altar? Até hoje se referem a mim como “A espera de um milagre”, inclusive nos cartões postais. Espero que tenha feito proveito das minhas esmeraldas, porque no lugar para onde você vai, o único verde será o do capim. Cavalheiros.
Em um estalar de dedos os homens de terno de gravata tomaram Dhiego pelos braços.
— Não, isso é um absurdo! — Ele gritava. — Eu não fiz nada!
— Não viríamos aqui sem ter provas, pequeno príncipe — Mia tomou seu celular em mãos. — A polícia localizou há uma semana um galpão abandonado para onde os móveis da família Foster foram levados. Adivinha quem aparece nas câmeras de segurança, conversando com o suspeito número um do crime? — Ergueu a tela do aparelho para que todos vissem.
A quem duvidava, ver o Dhiego realizando transações misteriosas com um criminoso no vídeo era prova o suficiente.
Dhiego suspirou fundo, de olhos fechados. Estava acabado.
— Ai meu Deus! — Julianne exclamou. — Dhiego, o que você fez?
— Nada que um homem desesperado não faria. Estava debaixo dos seus narizes, vocês só foram estúpidos demais para perceber.
— Okay, é o bastante — Disse Mia. — Madga, ele é todo seu.
O único problema em sua deixa era que Amber precisava dar um último recado.
— Hey, Dhiego — Chamou-o de volta, fechou a mão direita em um punho e acertou-lhe um soco no meio do nariz.
Dhiego caiu no chão, sangrando pelos lábios e pelo nariz. E só então foi levado para o lado de fora como um indigente sob as rédeas dos primos de Magda, que mais pareciam dois seguranças de porte invencível. Se já não havia sido humilhado o bastante, suas promessas gritantes de vingança terminaram o serviço.
— Ai meu Deus... — Julianne levou a mão ao peito, os olhos arregalados. — Não acredito no que acabou de acontecer. Michaela, eu sinto muito.
— Sou eu quem precisa pedir desculpas. Traí a confiança de Amber uma vez, e isso foi o bastante para que tudo recaísse sobre mim.
— Mas conseguiu dar um belo show — Kerr cumprimentou-a com um sorriso.
De todos eles, Amber era a única em silêncio. Como pedir perdão a amiga para o que provou-se imperdoável?
— Na verdade, ainda tenho uma última surpresa — Mia levou o celular a orelha. — Tudo pronto, você pode entrar.
Amber olhou para os dois lados, sem conseguir disfarçar a curiosidade.
— O que está havendo? — Perguntou.
E no instante seguinte testemunhava o retorno de Donato Foster a alta sociedade de Nova York, de barba feita, cabelos cortados e usando um elegante terno preto. Sua reação fora a que sempre imaginou; correu para seus braços como uma garotinha indefesa e o agarrou com todas as forças. Kerr fez o mesmo logo em seguida, segurando as lágrimas nos olhos.
— Eu senti tanto a sua falta — Amber sussurrou, em prantos. Não importava o quanto o abraço triplo a sufocasse, nunca mais o deixaria ir.
Julianne, ainda no mesmo lugar, olhava para Mia como se tivesse recebido o presente mais valioso de sua vida. No fim das contas, talvez fosse mesmo seu presente mais valioso.
— Obrigada — Agradeceu-lhe com um sorriso simpático.
Uma família feliz livrava-se de um golpista e se reencontrava. O trabalho estava feito.
Mia guardou seu celular dentro da bolsa e caminhou até a entrada. Passando pelo trio do abraço de urso, Amber acabou notando-a por cima do ombro do pai. Mia não poderia ir embora sem que pudesse agradecer.
— Pai, eu volto logo — Disse a ele, correndo para o lado de fora.
Mia estava prestes a fazer sinal para o próximo taxi quando ouviu sua voz chamando-a da portaria.
— Você não vai ficar? — Amber perguntou.
— Não. Alex precisa de mim no tribunal.
— Não vai nem me deixar agradecer?
— Eu sei que você está agradecida pelo que fiz, mas isso não é sobre nós. Fiz o que achei certo, fiz o que precisei fazer para limpar meu nome e reparar os erros que Nate cometeu. Nada disso vai mudar o fato de que não demos certo.
Amber virou o olhar por alguns instantes, e então tomou coragem para encarar seus olhos outra vez.
— O que isso quer dizer?
— Eu estava tão sozinha que nem percebi que precisava mais de uma amiga que de uma amante... mas agora eu sei. Sinto muito que isso tenha ido longe demais.
— Eu entendo — Amber assentiu. — Mas amanhã precisarei da minha melhor amiga.
— Ela estará lá. Eu prometo.
— Ótimo — Sorriu com os olhos cheios de lágrimas. — Eu sentia a falta dela...
Ela se foi antes que Mia pudesse responder. Mesmo assim, sussurrou para a brisa que também sentia sua falta. Agora até a noite sabia.


Kerr foi guiado pela voz alterada de Alex até à varanda. Encontrou-o sentado em uma mesa gourmet, rodeado por vasos de plantas e cadeiras de balanço que formavam o pequeno santuário verde de Lydia Strauss. Longe da cidade grande, qualquer visitante poderia desfrutar da vista maravilhosa; exceto Alex, e a nuvem negra que pairava sobre sua cabeça como uma auréola irritadiça.
Havia acabado de encerrar uma chamada quando Kerr fez sua aparição.
— Eu não acredito... — Largou o telefone descuidadamente em cima da mesa.
— Precisa de ajuda? — Kerr ofereceu.
— Para enterrar minha irmã? Nós dois sabemos que isso é pedir demais.
— Não é algo que você precisa fazer sozinho.
— Mas eu sou o único Strauss que está aqui.
Ou o único Strauss que restou, não resistiu a ideia. A cada dia que passava, a viagem de Nate para a América do Sul perdia o sentido. Judit e Simon? Nem mesmo o melhor detetive particular que o dinheiro pode comprar conseguia entregar-lhe uma boa pista. Lydia não tinha mais idade para lidar com este tipo de estresse, e desde que Mia voltara da Estônia, mal trocaram duas palavras.
Gwen estava morta e não havia ninguém para lamentar.
— Eles contaram como aconteceu? — Kerr sentou-se na cadeira em frente a ele.
— Ela pulou de uma janela do segundo andar. Os médicos disseram que fingiu estar sedada e nocauteou dois enfermeiros para que conseguisse fugir. Fui reconhecer seu corpo hoje de manhã... é algo que vou demorar a esquecer.
Kerr assentiu. Se não fosse agora, nunca teria outra chance de dizer.
— Eu vim aqui porque precisava conversar com você. Sei que muita coisa está acontecendo agora, mas é importante que você me ouça.
— Tudo bem — Alex soou preocupado.
— Eu sei o que você está fazendo com Cameron.
— O que você quer dizer?
Kerr tirou o celular do bolso e posicionou-o sobre a mesa. Agora Alex encarava o registro da Black Swan sobre sua conta fantasma.
— Esta é a conta que você tem acessado nas últimas semanas. Quer me dizer de onde tirou esse dinheiro?
— Kerr... — Hesitou, desconcertado. — Isso não lhe diz respeito.
— Então diga-me que estou errado. Diga-me que você não está usando esse dinheiro para subornar testemunhas e que Cameron é realmente culpado.
Alex nada disse. Em compensação, seu silêncio deu todas as respostas que Kerr precisava.
— Alex, por que você está fazendo isso? Um homem inocente está prestes a ser condenado.
— Cameron é tudo, menos inocente — Alex deixou claro. — Ele mesmo se colocou nesta posição.
— Por isso ele deve pagar por um crime que não cometeu? É a América, ele pode passar o resto da vida na cadeia.
— Não se aceitar o acordo da promotoria. Se confessar o crime, pode pegar até vinte anos de prisão e sair depois de quinze por bom comportamento.
— Ouça o que está dizendo. Você quer fazê-lo perder quinze anos de sua vida por uma vingança boba.
Alex debochou com um ar de risos. Vingança boba. Era uma pena que pensasse dessa maneira quando havia muito mais que a condenação de Cameron em jogo.
— Ele destruiu minha família, meus relacionamentos, meu verdadeiro eu. Thayer só tem alguns meses de vida, e quando ele se for, tudo o que vai me restar é a lembrança do que Cameron fez. Perdi meses de sua luta para acreditar nas mentiras de Cameron quando deveria ter ficado ao seu lado desde o começo. Cameron precisa pagar pela vida que não me deixou salvar, e nada melhor que fazer isso acusando-o de assassinato. — Após seu discurso, Alex ficou de pé. — Você dirá o que sabe?
— Eu não sei — Kerr respondeu. — Você quer que eu escolha um lado?
— Quero que você fique fora disso. Você sabe, para o caso de suas atividades como hacker e traficante vierem à tona. Foi ótimo conversar com você.
Assim Alex partiu, deixando-o sozinho para digerir a ameaça. Correu para o banheiro, trancou a porta e escorou-se na parede. Cada célula do seu corpo lhe dizia que o círculo estava se fechando. Quanto tempo alguém poderia passar atrás das grades por perjúrio? Não havia feito seu dever de casa, e agora já não podia voltar atrás em suas decisões.
Estou fodido, pensou. E então ouviu o bipe de seu celular.
“Aonde você está?” — Dizia a mensagem mandada por Regina.
Como pôde ter esquecido de sua audiência? Eram sete e quinze da noite; Gwen e Kerr haviam tomado demais do seu tempo.
Guardou o celular no bolso e correu para o quarto atrás de seu blazer azul. Deixou o apartamento às sete e vinte para chegar ao tribunal às sete e quarenta e cinco. Todos já haviam se posicionado para o próximo interrogatório. Melinda VS Alex Strauss. Vai dar tudo certo, pensou ao sentar-se na cadeira. Tudo o que eu preciso fazer é seguir com o plano.
As primeiras perguntas foram fáceis de manobrar. Em sua busca por contradições, Melinda beirou a decadência, contribuindo para que Regina apreciasse o espetáculo. O que Alex não sabia era que o melhor estava sendo guardado para o final.
— Senhor Strauss, posso compartilhar alguns dados de nossas análises? — Melinda o indagou, os cabelos ruivos como fogo ardente sob a luz.
— Sim — Alex permitiu.
— Há três dias foi realizada uma nova busca no apartamento do réu, visando encontrar provas de seu envolvimento com o tráfico, como nos foi implicado durante o julgamento. Nenhuma droga ilícita constava no levantamento final da perícia, mas foi possível localizar a caixa de anfetaminas de onde provieram as pílulas ingeridas pelo senhor. Um detalhe inusitado nos chamou a atenção durante a análise: A caixa se encontrava semi intacta; isso significa que, possivelmente, tenha sido adquirida um dia antes ou no mesmo dia do incidente, e para este fim. Então, com a ajuda do GPS, seguimos os passos do meu cliente nas últimas quarenta e oito horas que antecederam o crime.
Alex sentiu o coração acelerar a cada palavra. Fique calmo, pediu a si mesmo. Vai dar tudo certo.
— Aparentemente, Cameron não mudou a rotina de seu dia a dia — Melinda prosseguiu. — Da casa para o apartamento, do apartamento para o restaurante, do restaurante para o clube. Foi isso o que testemunhamos assistindo seu trajeto através de câmeras de segurança. Seria impossível para meu cliente adquirir uma nova caixa de comprimidos enquanto seguia com o seu dia. Mas e você, senhor Strauss?
— Isso é uma acusação?
— Longe de mim acusa-lo, senhor. Só preciso que me responda algumas perguntas. Em seu depoimento, o senhor afirma que passou duas horas com seus amigos do grupo de abstinência após ser expulso do hospital onde Thayer Van Der Wall estava internado. Mas de acordo com as informações no GPS de seu carro, você dirigiu do estacionamento do edifício Dalesource a Ocean Hill, no Brooklyn, onde permaneceu estacionado por quase meia hora. Aonde você foi, Alex?
— Eu...
— Deixe que eu respondo para você. Você estacionou no Brooklyn, entrou em um restaurante nada sofisticado, saiu pela porta dos fundos e foi até a farmácia mais próxima pedir uma caixa de anfetaminas — Com apenas um clique as imagens foram liberadas na TV de plasma à esquerda. — A não ser que este jovem apanhado pela câmera de vigilância do estabelecimento não seja você.
A multidão foi ao alarde em um único instante. Mia, Andy, Regina, Claire, Cameron, todos estavam lá para testemunhar a derrota de Alex Strauss.
— Esse não... É meu irmão... É Nate — Ele gaguejava.
— Não. Seu irmão passou quase a noite inteira ao lado de Thayer no Liberty County Hospital, como mostram as filmagens.
 — Não, ele não...
Agora tudo o que Melinda precisava fazer era dar o xeque-mate.
— Talvez o senhor não esteja familiarizado com esta história, já que havia contado uma totalmente diferente as autoridades. Então permita-me esclarecer. Cameron o manipulou para que você e Thayer se separassem e finalmente ficassem juntos. Mas algo deu errado, você descobriu sobre sua traição e, de repente, percebeu que não havia nada a perder.
— Não...
— Você mesmo comprou uma caixa de anfetaminas e misturou-as com cocaína para provocar uma overdose.
— Eu não fiz isso...
— Comprou as testemunhas, plantou provas falsas e perjurou em frente a este tribunal para obter a condenação de um homem inocente, no que eu chamaria de a mais repugnante, imatura e inconsequente das disputas colegiais de uma geração que perdeu todos os seus valores. Cameron sairá daqui como um homem livre, e por isto, dou graças a você.
Alex já havia aguentado o suficiente. Bateu com as duas mãos sobre a madeira e levantou de seu assento.
— Esse maldito filho da puta não é inocente! — Gritou para que todos ouvissem. — Ele precisa ser condenado! Precisa pagar pelo que fez a nossa família!
— Senhor Strauss, silêncio — Ponderou a juíza.
— Você mentiu para mim! — Apontou para Cameron. — Você estragou minha única chance de estar ao lado de Thayer!
— Senhor Strauss!
— Você é um monstro! Eu teria mil overdoses só para que pudesse condena-lo!
— É o bastante, levem-no.
Dois policiais aproximaram-se para detê-lo, cada um tomando-o por um braço. Alex foi escoltado para fora do tribunal aos gritos, dando a imprensa, ao júri e aos convidados o grande espetáculo que estavam esperando. Cameron percebeu todas as emoções distintas que sucederam a sua saída. Mia preocupada, Andy de olhos arregalados, o júri perplexo, Claire sorridente, Melinda realizada. Quanto a ele, um sorriso satisfeito parecia bastar.
Graças a Alex, ninguém saberia o quanto era culpado. Bem, este era um segredo que precisava manter. 


A noite sucedera fria e nebulosa. Nada obstante a sua rotina, Jensen dirigiu até a mansão Strauss e estacionou entre as árvores da estrada principal. Podia ver, através do binóculo, que Theon preparava-se para um jantar especial, com direito a velas, castiçais e vinho importado. A decoração já não era a mesma que ostentava na noite passada; as pinturas deram lugar à uma arte sutil de pássaros e galhos de árvores, e substituindo as cortinas vermelhas, agora haviam as brancas.
Nate não estava em lugar algum; quase não tivera a chance de vê-lo desde que sua tocaia começou, há três semanas. De dia, Theon saía de limusine para a Strauss International, e apenas os funcionários podiam ser vistos perambulando pela mansão. À noite jantava, mas nem sempre acompanhado. Não havia um padrão que definisse os dias em que Nate era convidado para sentar-se à mesa, ou um motivo para que não estivesse presente em todos eles.
Afinal, aonde ele estava, quando não dividindo a mesa com Theon?
Seu celular começou a tocar.
— Andy? — Disse ao entender.
— Aonde você está?
— Jantando com meu pai. Agora não é um bom momento.
— Então faça ser um bom momento. Alex foi preso.
Jensen finalmente decidira dar-lhe atenção.
— O que?
— Descobriram que ele estava tentando incriminar Cameron e o prenderam durante o julgamento — Andy discorreu. — Está tudo uma loucura, precisamos de você aqui.
Jensen pensou em dizer sim, em nome de sua amizade com Alex. Então Nate surgiu na sala de jantar da mansão Strauss, escoltado por dois seguranças de terno e gravata. Alex teria Kerr, Andy e Mia lutando por ele. Mas Nate... Nate não tinha mais ninguém.
— Vou tentar terminar isso rápido, ligarei se não puder — E assim encerrou a chamada.
Quando olhou de novo, Nate já estava posicionado em seu lugar. O que não podia ver eram as amarras que prendiam seus pulsos a cadeira, impossibilitando-o de se opor aos caprichos de Theon. Estava tudo bem, como havia dito a si mesmo desde que abrira os olhos para o novo dia. Porque tudo terminaria ali.
Durante três semanas, Nate teve tempo para estudar o comportamento dos seguranças, o ambiente da sala de estar e as reações de Theon a tudo que lhe diz respeito. Depois que é trazido à mesa, um dos seguranças deixa a sala de jantar, como acabara de acontecer, e Theon permanece com apenas um homem a seu dispor. A troca de turnos acontece de meia em meia hora. Nesse meio tempo, a sala fica livre de seguranças por cinco minutos, o tempo que o atual leva para se firmar em seu novo posto e o próximo necessita para chegar à sala de jantar. Às vezes contava três ou quatro minutos antes de um deles aparecer. Bem, isso realmente não importava. Só precisava de trinta segundos para virar o jogo a seu favor.
Enquanto isso, fez-se satisfeito em assistir Theon saborear seu vinho importado sem ao menos saber o que lhe esperava. Olhe para ele, tão seguro de si, sua voz ecoava em pensamento. Pelo menos tivera o recato de mudar a decoração para agradar aos olhos de seu convidado.
— Você está quieto hoje à noite — Theon notou.
— Adorei o que você fez com as paredes.                 
— Esta seria nossa sala de jantar se tivéssemos casado. Você viu em uma revista depois da gente... — deu um ar de risos ao resgatar o ocorrido de sua memória. — Você lembra?
— Sim, eu queria um apartamento e você queria uma casa no subúrbio. No final escolhemos o apartamento. Sempre fazíamos o que eu queria.
— Isso é verdade.
Por um momento, ouviu-se apenas o tinir dos talheres de Theon no prato de porcelana. Nate mal lembrava a última vez que provara um filé de bife. Como era mesmo o gosto da carne envolta a azeite, com cebola e tomates? O energético servido por Theon tinha tudo, menos gosto de comida para seres vivos.
— Continuarei aqui assistindo você comer?
— Há algo que queira fazer agora? — Theon quase sorriu.
— Sim. Comer.
— Para comer, você teria que utilizar as mãos, e isso implicaria em usar talheres. Nós dois concordamos que você tem um talento admirável para transformar qualquer objeto afiado em uma arma que machuque a mim ou a você mesmo. Se ao menos tivéssemos estabelecido uma relação de confiança... aposto que deve estar morrendo por um pedaço de carne depois de três semanas. De qualquer forma, você ainda tem suas sopas, seus vegetais e seus energéticos. De fome não morrerá.
Nate sorriu cheio de cinismo.
— Agora sabemos o marido terrível que você seria.
— Já conversamos sobre isso — Theon voltou sua atenção novamente aos talheres. — Não se esqueça que o homem que está vendo agora é um reflexo dos erros que você cometeu.
— Você quer mesmo que eu acredite que a dor que eu causei transformou você em um monstro? Não, é apenas quem você é. Quem você culparia pelos crimes que cometeu se não tivesse me conhecido? Sua mãe? Seu pai? A babá? E eu realmente achava que você estava pronto para assumir responsabilidade pelos seus atos.
Theon suspirou, levando o guardanapo a boca.
— Alex, por favor, acerte um soco no rosto do Senhor Strauss — ordenou, e o segurança obedeceu com prontidão.
Nate sangrava pelos lábios, com a vista desorientada, mas não hesitou em desafiar Theon com uma gargalhada.
— Pensei que você mesmo fazia seu trabalho sujo — cuspiu.
— Você sabe que só admito violência durante o sexo, não no meu cotidiano.
— E eu achando que você estava a cada dia mais parecido com seu pai.
Theon só precisou fazer um sinal com os dedos para que seu segurança golpeasse Nate outra vez.
— Até quando você pretende continuar com isso? — Cruzou as mãos, os cotovelos sobre a toalha da mesa. — Seria divertido ver até onde pode aguentar.
Nate cuspiu uma bola de sangue no chão. Agora até seu nariz sangrava graças a força bruta do vassalo de Theon.
— Você me subestima. Eu não desisto fácil.
— Em outra ocasião, admiraria sua força de vontade. Mas agora temo que esteja apenas sendo estúpido.
— Sim, nós já conversamos sobre isso — Nate mostrou um meio sorriso avermelhado, os dentes cheios de sangue. — Diga-me, qual a sensação de ter se transformado em seu pai?
Theon empunhou sua garrafa de vinho e arremessou na parede. Nate e o segurança estremeceram com o susto.
— Já chega! — Theon decretou.
— É hora da troca de turnos, senhor — O segurança lhe disse.
— Faça o que precisa fazer.
Assim ele partiu. Game on, Theon.
— Poderia me trazer um guardanapo? — Nate pediu. — Estou sangrando.
— Você fez por merecer.
— Não pedirei desculpas. Estou fazendo o melhor que posso com o pouco que você deu. Agora estou sagrando e preciso da sua ajuda.
Ainda que estivesse furioso, Theon resolveu ceder ao pedido. Caminhou até ele e passou delicadamente o guardanapo sobre seu rosto. Primeiro abaixo do queixo, depois nos lábios e no nariz.
Livre de qualquer traço de sangue, Theon perdeu-se sem querer no brilho de seus olhos verdes. Seu mundo fora neutralizado unicamente para que pudesse apreciar as regalias de sua proximidade. Além de seus instintos, mal conseguia pensar.
E então um copo de vidro se quebrou atrás da porta. Theon olhou para trás, como em um reflexo, e Nate lhe acertou com uma cabeçada. Enquanto Theon derrapava sobre a mesa, Nate tomou impulso com os pés e jogou-se de costas no chão, quebrando a cadeira que o prendia com o impacto. Theon tentou reagir, mas foi acertado com um soco que o derrubou no carpete.
Nate livrou-se das amarras, correu até o armário de pratos e o empurrou para selar a porta. Agora nenhum segurança poderia entrar.
— O que você está fazendo? — Theon perguntou, a voz vacilante de dor.
— Estou matando o monstro, seu maldito filho da puta!
Ouvindo o alarde, os seguranças correram até a porta. Nada além de uma fresta se abriu para que vissem Nate virando o jogo.
E agora era Theon quem avançava para o ataque.
Caíram os dois sobre a mesa, contra as pinturas na parede e os móveis da sala de jantar, distribuindo socos e arruinando a nova decoração. No final pairavam sobre os destroços, e Nate saía como o vitorioso. A satisfação em fazer Theon sangrar com os próprios punhos e vê-lo arrastar-se pelo carpete acabou roubando um sorriso de seus lábios, como aqueles que já havia esquecido.
— Machuca, não é? — Nate apanhou duas garrafas de vinho do acervo e arremessou-as no chão. — Agora você sabe como é ser impotente, como é estar à mercê dos seus próprios monstros — Depois foi a vez de se desfazer das garrafas de whisky que estavam na mesinha de bebidas. — Agora você sabe o gosto da retribuição.
— Você não pode... — Theon gaguejou. — Você não pode fugir. Eu tenho os seus pais.
— Quem disse que irei fugir? — Apanhou o castiçal da mesa de centro e o jogou no chão.
Chamas surgiram do tapete a janela, cercando-os por todos os lados. O calor fez o coração de Nate acelerar como nunca havia.
— Estou indo para o inferno, Theon! — Gritou. — E eu vou arrasta-lo comigo!
Theon ficou de pé novamente. Colocou o braço na tentativa de se proteger do calor, mas nada havia para combater a fumaça. Em poucos instantes o fogo tomou conta do salão, e tudo o que se via eram chamas.
Enquanto seguranças e empregados deixavam seus postos para correr até o portão, Jensen pulava o muro para adentrar a propriedade. Correu pelo gramado o mais rápido que pôde e invadiu a mansão. A porta para a sala de jantar estava emperrada. Esse era o plano de Nate? Trancar-se ao lado de Theon para que os dois morressem? Não deixaria que tudo terminasse assim.
Correu até a sala de ferramentas e empunhou um machado. Bateu contra a porta; uma, duas, três, quatro, cinco vezes, até abrir uma rachadura que lhe permitisse tirar a estante do caminho. Encontrou Nate desmaiado no chão, em meio as chamas, e Theon do outro lado da sala. O calor era insuportável, quase fatal. E a fumaça cobria a maior parte do seu campo de visão.


Era um momento decisivo, não apenas para eles. Enquanto Jensen vencia o fogo com uma cortina e carregava Nate para fora da mansão, Alex chorava em uma cela de prisão, esperando para saber o que seu destino lhe reservava. No hospital, Thayer tinha a terceira parada cardíaca, dando início ao procedimento de ressuscitação. Judit e Simon davam as mãos, cada um em sua cela, como se soubessem o que aguardava sua família.
— Afastem-se! — Uma médica gritava perante o corpo de Thayer.
— Por favor... — Alex rezava.
E Nate... Nate já não respirava.
A mansão explodiu atrás deles, fazendo-os cair no gramado. Nate continuava sem reação.
— Acorde! Acorde! — Exclamava Jensen.
Batia em seu tórax, fazia respiração boca a boca, massageava seu abdome. Nada era o suficiente para traze-lo de volta.
— Afastem-se! — A médica gritou novamente, o desfibrilador em mãos.
E Travis chorava descontroladamente pela vida do irmão.
Na corte, Mia olhava-se no espelho, as mãos trêmulas. O que estava acontecendo? O que estava acontecendo? Seu coração lhe dizia o pior, e sua mente já não estava mais lá.
— Nate, por favor! — Jensen insistia.
Nate não estava mais lá. Thayer não estava mais lá. E Alex, até onde sabia, faria qualquer coisa para também não estar.
Por alguns instantes, Jensen permitiu-se chegar o mais perto de desistir que alguém poderia chegar. Não porque queria; porque seu corpo inteiro precisava lamentar.
Chorou o que podia ao lado dele, amaldiçoou o universo e si mesmo, e então voltou a tentar. Socos no tórax, respiração boca a boca, massagem no abdome. Soco no tórax, respiração boca a boca, massagem no abdome.
— Você não vai me deixar assim! — Ordenava. — Acorde! Acorde!
E tão quanto implorou, Nate atendeu seu chamado num abrir de olhos.
— Estou no inferno? — Perguntou, totalmente desorientado.
Jensen respondeu com o abraço apertado que achou ter perdido para sempre.
— Você está bem, você está bem — prometeu a ele.
Outra explosão emanou da mansão. E assim Nate lembrou tudo o que havia lhe levado a inconsciência.
— Vem, vamos sair daqui — Jensen pediu num sussurro.
Era uma ótima ideia.
Com um braço em volta do seu ombro, Nate teve forças para ficar de pé e caminhar, mesmo mancando, para fora da propriedade Strauss. No hospital, Thayer emanava os primeiros sinais de batimentos cardíacos para o monitor. Mia conseguira pagar a fiança, finalmente, e agora Alex estava livre outra vez.
— Ele é um lutador — Uma enfermeira disse.
Eram todos. Por mais que não soubessem.


Eu vou conseguir, Theon estipulou. Podia ouvir as sirenes de ambulância cada vez mais próximas da propriedade. Tudo lhe doía; seus braços, suas pernas, seu rosto. Sentia-os arder como se ainda estivessem em chamas.
Seja forte, disse a si mesmo, arrastando-se pela grama em direção ao chafariz. Água potável, alívio imediato. Era sua única salvação.
Só mais um pouco, estava quase lá. Conseguiu tocar a água esticando um braço, depois apoiou o corpo com o outro braço para avançar o que restava. Podia ver a água cristalina emanando da escultura até a instalação no fundo do mármore, onde o céu e as estrelas refletiam brilhantemente.
 Estou salvo, pensou... mas era cedo demais. À sua retaguarda ouviu o engatilho de um revolver, obrigando-o a virar vagarosamente para encarar seu carma. Cabelos ruivos, maquiagem pesada, olhos verdes hipnotizantes.
— Ivy Vlasak — Sussurrou seu nome como se fosse um cumprimento de felicitações. — É claro que é você.
Ivy engoliu em seco. Não podia olhar diretamente para ele, não podia encarar suas terríveis queimaduras. Tinha-o na mira de seu revolver, tudo o que precisava fazer era atirar.
— Morrer pelas mãos da mãe dos trigêmeos... — Disse Theon. — É isso que eu chamo de justiça poética.
Uma lágrima escorreu penosamente pelo rosto de Ivy.
— Essa foi a última vez que você machucou meus filhos — E disparou sobre seu peito até que não restasse mais balas.
Theon De Beaufort nunca mais.

Next...
4x15: A Thief, a Whore and a Liar (30 de Abril)
Não, a história ainda não acabou. Ainda temos mais dois capítulos gostosíssimos para finalizar o livro. The Judges vêm aí, com força total!

Mas agora eu quero saber a opinião de vocês. Este capítulo é um dos meus maiores orgulhos. Inclusive, a cena da mansão explodindo, foi escrita como eu imaginava que seria na série de TV, mostrando os dilemas de todos os personagens de uma só vez. Espero que não tenham se perdido, hahaha. Mas então, podem dar meu veredicto.
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2 Comentários

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2 comentários:

  1. Olá! Primeiramente eu gostaria de pedir perdão pelo meu desaparecimento. Não gosto de deixar ninguém na mão e comentar TDM é um grande prazer pra mim. Respondendo ao seu questionamento anterior: Sim! Eu adoro respostas longas tanto quanto comentários longos sobre aquilo que escrevo; amo discutir com meus leitores e falar dos personagens como se eles fossem reais. Minha vida esteve uma loucura essas últimas semanas, então eu li os capítulos que saíram, mas não tive tempo de comentá-los. Eu sinto muito!!! Quero dizer que estou extremamente chocado. TDM já havia sambado bastante na minha face, mas acho que nunca como os episódios dessa temporada fizeram. O nível só aumenta e é lindo acompanhar seu crescimento como escritor. Você deve ter tido algumas aulas com Shondanás, só pode, gente!!! Acredite, doeu não poder comentar da forma como eu queria :(
    Okay, first things first:
    Acredita que eu não tenho uma opinião formada sobre Alex? Tudo bem que eu gostava dele quando ele era a boa e velha mocinha mexicana que todos amam odiar, mas essa mudança (muito bem construída, por sinal) me surpreendeu bastante, não sei o que pensar. As vezes eu sinto raiva, pena, compaixão, ódio mortal novamente... Alex está perdido, isso é fato. Ele passou por muito desde que chegou em NY (sequestro e o escambau) e isso moldou esse novo Alex que é quase um Nate 2.0. Repare, eu disse QUASE, porque ninguém chega os pés de Nathaniel, né nom? A única coisa que eu consigo extrair desse plot de Alex é que isso vai gerar um novo ciclo de vinganças. Se bem que ele falhou no planinho de vadia vingativa (numa cena que me lembrou um episódio de HTGAWM) e quebrou a cara feio. Não consigo ver o caminho dele, espero me supreender. Ele chegou meio perdido e até agora não se encontrou.
    Falando em sofrência, coitado de Nate, né? Me doeu demais esses momentos dele na mansão, principalmente em relação ao abuso sexual. A surpresa da vez foi que a imagem de traumatizado era só um disfarce dele pra pôr o plano em prática. Long live the Queen!!! Hahaha. Gostei bastante do desfecho, mas eu tava com tanto ódio do Theon, que queria que Nate tivesse arrebentado ele mais um pouco. A vingança dele foi extremamente pesada e nada justa. Doeu em mim quando ele fez aquela espécie de palestra doentia pra mostrar as repercussões das ações de Nate <3 Ele já se arrependeu, poxa! São todos amiguinhos agora. O fim de Theon foi triste pra cacete, mas era óbvio que tudo ia acabar bem. Bem mal. Salvo pelo príncipe Jensen Maravilhoso, agora eles podem trabalhar numa possível reconciliação, por favor!!! Você tem toda razão de ter esse capítulo como seu orgulho, estava impecável!!! Adorei o momentos final, feito pra parecer como cenas de série, principalmente porque tava tocando Riverside (Revenge <3) Ficou bem claro, não dava pra se perder.
    Quando eu achei que não aguentava mais, a morte de Gwen veio e me derrubou mais uma vez da cadeira. Gente, eu me sinto tão mal com a história dela... Esperava que ela retornasse ou se recuperasse, mas acho que os danos que Nate causou foram irreversíveis. Bem triste.
    Nem posso acreditar que essa temporada está no fim. Fico feliz e triste ao mesmo tempo. O desfecho da melhor temporada de TDM está chegando ao fim e eu preciso da 5ª urgente!!! Quero ver como vai se dar a resolução do plot dos The Judges, afinal, não é mais vingancinha de adolescente, é coisa séria e bem maior do que eles já enfrentaram. Esperando ansiosamente o lançamento do capítulo de hoje!!!

    PS: Amei que você usou minha piadinha da saudade das lentes de contato hahaha.
    PS: Amo captar as referências também! Sou apaixonado por títulos e com TDM não seria diferente. Gritei especialmente quando li o título de "Catholic Boys in Trouble" — se for isso mesmo que eu estou pensando — hahahahahahaha. Ops! Naughty you.
    PS: Notícias sobre Thayer, por favor!!!
    PS: Essa é a temporada mais poderosa e mais sombria. Amo.
    PS: Mia chutando o rabo magro do Dhiego. <3 Chega pra ficar, Strauss Girl.
    PS: Falando em rainhas, Lydia é a diva-mor dessa estória, não é verdade?

    — Hazza.

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    Respostas
    1. Hazzaaaaa, senti sua falta, pessoa. Fiquei até um pouco preocupado, porque da última vez que um comentarista semanal desapareceu foi porque estava internado no hospital. Tenso, né. Mas enfim, vamos ao que interessa.
      Essa relação de amor e ódio dos leitores com o Alex é uma coisa que eu vi crescer semana após semana, mas não só no que diz respeito aos leitores. Eu mesmo me senti enfurecido com ele em certos momentos (principalmente por lembrar uma fase da minha vida). The Double Me é isso, no fim das contas. As muitas faces que eu tenho, as consequências que as pessoas da minha vida trouxeram consigo em suas atitudes, e é claro, as referências às séries de tv e filmes. Por isso defendo o Alex. Eu sei como é estar perdido e tomar todas as decisões que só fariam a situação piorar. A história dele no próximo livro pode ser sobre redenção ou piora, quem sabe? Mas garanto que ainda neste livro haverá uma surpresa que vocês podem ou não ter visto chegando.
      Falando em surpresa, não tinha como esperar que essa vingança do Theon se transformaria em uma tortura monstruosa né? Eu decidi isso apenas recentemente (acho que depois de assistir a primeira temporada de Jessica Jones na Netflix). A maneira como foi desenvolvido o cativeiro dela meio que me encantou, aí eu pensei "E se eu fosse além do que uma série de super heróis teria coragem de mostrar?". E realmente, eu consegui. Foi algo horrível de se escrever (acho que também de ler), mas contribuiu muito para que essa temporada se firmasse como uma das melhores. Modéstia a parte (e humilde sempre haha), é minha preferida justamente por todos esses eventos catastróficos. Câncer, sequestro, estupro explícito, tortura, assassinato... Olha só até onde The Double Me chegou. Ainda temos um livro inteiro pra continuar essa história, então vem muita alegria por ai, e pelo menos caminho que vem a sofrência.
      Eu disse pra não terem muita esperança sobre a Gwen, mas né, leitor é leitor. Tenho certeza que fazer do jeito que vocês queriam o Livro 3 ficaria ótimo. Bem, prometo me esforçar o bastante pra não decepciona-los.

      PS: Catholic Boys In Trouble é exatamente o que você está pensando. Naughty me xD

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