sábado, 2 de abril de 2016

[Livro] The Double Me - 4x11: Woke Up With a Monster [+18]

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4x11:Woke Up With a Monster
Doces pesadelos também são feitos disso”.
  
Um pesadelo o acordou.
Envolto à escuridão, apenas os olhos carregados de sono lhe davam a certeza de que o tempo havia passado. Virou para o lado outra vez, em busca do conforto improvável que nem o estado de inconsciência poderia proporcionar. Então ouviu o barulho da porta se abrir, emanando um enorme feixe de luz sobre o canto do quarto onde havia se alocado. Cinco segundos depois, um balde de água gelada caiu sobre sua cabeça.
— Hora de levantar — Theon lhe disse.
Nate pulou com o susto, sentindo o ardor da água invadindo seus pulmões. Sentou-se no chão, preso a um acesso de tosse, e elevou a cabeça para olhar nos olhos de seu captor. Aquele sorriso arrogante fazia-o desejar que tivesse morrido afogado logo então de uma vez.
— O que você está fazendo?
— São oito da manhã. Não me diga que pretendia passar o dia inteiro dormindo.
— Deixe-me em paz.
— Nada disso — Theon largou o balde no chão e tirou as chaves do bolso. Nate só acreditou que o libertaria de suas correntes quando já estava sendo liberto. — Está um dia maravilhoso lá fora — Desprendeu o braço esquerdo. — E você tem algumas obrigações.
Assim que desprendeu o braço direito, Nate o acertou com um soco no rosto. Teria corrido para o lado de fora, em direção a liberdade, se Theon não o tivesse agarrado pela camisa e imprensando-o na parede, mantendo o braço esquerdo contra seu pescoço.
— Qual é a pressa? — Sorriu para ele. De tão próximos, podia ver a ira refletida em seus olhos verdes e sentir sua respiração ofegosa sobre os lábios. — Preciso mesmo lembra-lo do que está em jogo? Tenho seus dois pais acorrentados como prisioneiros dentro de uma cela; não aqui na mansão, mas em um lugar repleto de mercenários que adoram brincar com facas. Faça algo estúpido como isso outra vez e eu me certificarei de que nunca mais sejam encontrados. Temos um acordo?
Nate ficou em silêncio. Queria vomitar, cuspir em seu rosto, manda-lo para longe, tirar sangue de seus preciosos lábios com a força do punho. Mas ao invés disso, assentiu com a cabeça como um cãozinho obediente.
— Ótimo — Theon enfim se afastou. — Agora tome banho e vista as roupas que eu separei. Não se preocupe, Camille o irá acompanha-lo.
Só então percebeu a jovem secretária parada em frente a porta do quarto. Usava um vestido roxo estonteante em seu decote, abandado a saltos de cano fino e um belo colar de pérolas. O penteado, como sempre, beirava uma elegância fiel a sua raça. Tão linda e tão... Insana. Se estava de acordo com tudo o que Theon fazia, era só o que poderia ser.
Nate caminhou descontente até ela e seguiu seus passos através dos corredores. Passaram pela porta do porão, pelas escadas de acesso, e então pelos próximos dois corredores por onde Nate chegara – possivelmente a única maneira de voltar a mansão. Não havia mais ninguém por perto; nem empregados, nem seguranças. Theon fora tão desleixado a ponto de deixar tantas brechas para fuga ou era só o que queria que pensasse? Ninguém estava casa, mas isso não queria dizer que toda a propriedade estava desprotegida.
— Por aqui, senhor — Camille insistiu para que continuassem.
Enfim no andar de cima, a jovem tomou à frente para que entrassem no antigo aposento de Nathaniel Strauss e abrir-lhe as portas do banheiro. Theon parecia ter pensado em tudo; renovou seus materiais de higiene pessoal desde os sabonetes ao creme de barbear. Também havia toalhas limpas, Ipod’s com fone de ouvido e um traje especial, pendurado no cabideiro, para que não precisasse vestir as mesmas roupas sujas quando terminasse.
— Você tem vinte e cinco minutos, senhor — Camille lhe informou.
Então até seu banho seria cronometrado?
— Tudo bem por mim — Olhou para ela. — Você se importa? — Educadamente pediu por privacidade.
— Estarei do outro lado da porta — E se retirou com o mesmo sorriso de seu empregador.
Agora Nate tinha uma suíte inteiramente a seu dispor para fingir, por vinte e cinco minutos, que só precisava de um banho quente e nada havia de errado. Por um lado, fazer exatamente o que Theon exigia não lhe parecia o tipo de estratégia que o levaria a vitória no fim do jogo. Mas por outro, precisava tanto de um banho que entraria debaixo do chuveiro mesmo que esta não fosse uma ordem. Estava decidido; tomaria banho como ele queria, faria a barba como ele queria, e vestiria as roupas que ele escolheu. A vida depois dos próximos vinte e cinco minutos dependeria exclusivamente do bom humor de seu captor.
Tirou os sapatos, depois a camisa, e enfim as roupas de baixo. A água morna do chuveiro trouxe de volta todo o conforto que precisava após a noite mal dormida no chão de sua cela. Rolou durante duas horas para finalmente pregar os olhos; então os sustos começaram a acordá-lo de meia em meia hora, quase de maneira cronometrada. E quando não eram os sustos, eram os pesadelos. A pior parte eram sempre os pesadelos.
Na última vez que fora assolado por crises noturnas estava em Paris, locomovendo-se com a ajuda de uma carreira de rodas. Todas as noites sonhava com Jensen e com todos os outros. Encaravam-no, ignoravam-no, riam de tudo o que o fazia de incapaz de lutar para sobreviver. Muita coisa mudou desde que seus velhos amigos atormentavam seus pensamentos. Agora tinha um monstro muito pior para temer.
Vinte minutos depois ele estava pronto, assim como designado. Theon lhe havia escolhido uma camisa social quadriculada, um blazer azul-escuro para usar por cima e uma calça toda preta. Era o mesmo conjunto de roupas da noite em que... Theon e Nate dormiram juntos pela primeira vez em um quarto de hotel, ainda em Paris. Devido à chuva que os pegou de surpresa, precisaram comprar novas peças de roupa no primeiro andar. Agora Nate usava uma réplica idêntica ao conjunto que escolhera na noite em que a obsessão de Theon De Beaufort começou.
Está acontecendo tudo de novo.
Theon o esperava no andar de baixo, em posse do lugar privilegiado na ponta da mesa de jantar. Camille levou Nate estritamente a seu encontro, no que seria o primeiro café da manhã de Nathaniel Strauss e Theon De Beaufort há quase um ano.
— Finalmente — Disse Theon enquanto devolvia a taça de suco de maçã à mesa. — Isso é tudo por hoje, Camille. — Dispensou-a então. Em seguida, atentou para seu convidado. — A roupa lhe serviu perfeitamente. Por favor, sente-se.
Nate pairou os olhos sobre os dois seguranças de terno e gravata, posicionados atrás da cadeira de Theon. Era como esperava; seus cães-de-guarda estavam ali para se certificar de que nada estragasse seus planos psicóticos... Ou Nate enfiasse um dos garfos de sobremesa no outro olho de seu anfitrião. De tão tentador, preferiu não pensar nisso — pelo menos enquanto Theon estivesse com seus pais. Caminhou dois passos e sentou-se na cadeira da outra ponta.
— Você deve estar faminto — Theon notou. — Darla, por favor — Chamou a empregada no outro cômodo.
— Não estou com fome. E se estivesse, poderia servir minha própria comida.
— É mesmo? O Nate que eu conheci em Paris não tinha nenhuma objeção quanto a explorar os empregados.
— O Nate que você conheceu em Paris não existe mais.
— Isso não é verdade. Vejo que você ainda insiste em me desafiar, não importa o quão altruístas sejam minhas intenções. E se me permite dizer, ainda é dono de uma beleza extraordinária.
Nate lançou-lhe o olhar fulminante de quem arrancaria sua cabeça num piscar de olhos. Poderia ao menos fantasiar, já que tinha muito a perder.
— O que, exatamente, você espera que aconteça aqui?
— Poderia ser mais específico? — Theon adicionou mais uma porção de torta ao seu prato.
— Você acha que pode sequestrar meus pais, me prender a correntes em um porão escuro e dizer quando devo tomar banho, esperando que eu divida alegremente a mesa ao seu lado e agradeça-o por seus elogios vazios? O que vem depois? Vai me torturar com palitos de fósforos e pedir que eu esqueça sobre minhas cicatrizes para dormir na mesma cama que você?
Theon sorriu impressionado.
— É uma colocação um tanto dramática, não acha? Desde o começo deixei claro que meu único propósito é infringir-lhe dores inimagináveis até que você implore para morrer, mas esteja perdido demais para receber esta dádiva. Tudo o que eu faço, desde escolher suas roupas a servir-lhe um café da manhã, faz parte de sua merecida punição. Você deveria aproveitar momentos como estes, em que sono, comida e higiene ainda não lhe foram privados. Você sofrerá, Nate. Mas se aceitar sua penitência como um homem de verdade, tudo acabará mais cedo do que imagina.
— Você é doente — Nate disparou.
— O termo adequado é sociopata, embora eu discorde da incapacidade empática que os livros tanto mencionam. Eu sei amar, Nate. Mas é através do ódio que eu atinjo meu verdadeiro potencial.
— Liberte-os. Liberte-os agora e você poderá fazer o que quiser comigo.
Theon sorriu outra vez. Saboreava a derrota de Nate como a um creme de baunilha, uma colherada de cada vez, até o sobejar de sua satisfação pessoal.
— O que o faz achar que tem direito a uma barganha? — Levou aos lábios uma garfada de torta recheada. — Você não está mais no controle.
Nate preferiu não responder. Uma ideia lhe veio à mente ao notar seus talheres pela primeira vez. O trunfo de Theon não estava em Judit e Simon, estava em sua dor, em sua humilhação. Se houvesse a possibilidade de não machuca-lo outra vez...
— Você só está esquecendo de um pequeno detalhe. O que acontecerá quando eu for levado a meu limite? Aceitarei meu destino... ou optarei pela saída de emergência? — Nate pegou delicadamente a menor faca de seu acervo. — Todas as vezes em que a perda provou ser maior que a minha vontade, foram as lâminas que me entorpeceram — Deslizou-a sobre o pescoço delicado e vagaroso. — Um corte, com a pressão adequada, e isso tudo estará acabado.
Àquela altura, Theon parecia incapaz de disfarçar sua preocupação. Lembrava dos cortes em seus braços, e de todas as vezes em que mencionara a morte como sua mais fiel aliada. Ela te liberta de tudo o que o atormenta, ouvira-o dizer, certa vez. E então pôde ver a beleza da morte com seus próprios olhos, sempre que estavam juntos.
— Você poderia pedir para que seus cães-de-estimação tirem todos os objetos cortantes de perto de mim, é claro — Nate continuou, agora observando a faca a um palmo do rosto. — Mas a liberdade está em qualquer lugar. Posso encontra-la dentro de uma banheira cheia, enquanto Camille me espera terminar o banho do outro lado da porta. Posso encontra-la nas escadas, quando for a hora de descer para um jantar especial. Se estiver próximo a uma janela do segundo andar, ela também estará lá. E não há nada que você possa fazer.
— Você não machucaria a si mesmo sem se certificar de que seus pais estarão seguros.
— Não hoje — Nate jogou a faca abruptamente em cima da mesa. — Podemos dizer que este é um reflexo da sua hospitalidade. Obrigado pelo café da manhã.
— Você vai descobrir muito em breve que nenhuma de suas estratégias lhe garantirá a vantagem.
— É uma abordagem um tanto arrogante, não acha?
— Eu diria necessária — Theon levantou-se, deixando o guardanapo ao lado do prato. — Permita-me dizer, Senhor Strauss. Você não faz ideia do que virá a seguir.
Como em concordância a ameaça do filho, Tara surgiu em frente a porta da sala de jantar. No lugar da vestimenta provocante que ostentava em seu encontros com Simon, usava um refinado vestido Dior azul e dois brincos de argolas prateados, como uma verdadeira mãe de família da alta sociedade.
— Espero não estar interrompendo alguma coisa.
— Mãe — Theon a cumprimentou com um largo sorriso. — Que adorável surpresa.
— Mãe? — Nate foi do olhar de Theon ao de Tara e de Tara ao de Theon em busca de uma resposta. — Ela é... sua mãe?
— Eu disse que você não fazia ideia do que viria a seguir.
Nate sentiu o sangue ferver; estava certo o tempo inteiro. O único objetivo de Tara era destruir a família Strauss e se apossar de seu patrimônio. Ao lado de Theon, seu amado primogênito, a vitória estava quase garantida.
— Sua maldita vagabunda! — Avançou para cima dela. Se não fossem os dois seguranças que guardavam a porta, Tara estaria em suas mãos. — Me soltem! — Debatia-se nos braços deles.
— Nate, é o bastante — Theon ordenou. E Nate cessou seu ataque de fúria como se por causa de sua ordem. — Não permitirei que se dirija à minha mãe desta maneira, e não tolerarei seu comportamento agressivo. Se acha que é um animal, o devolverei para sua jaula.
— Neste momento, Theon, qualquer porão escuro e imundo é mais hospitaleiro que dividir um cômodo com a família De Beaufort — Olhou para os seguranças. — Me levem de volta. Daremos à mãe e filho a devida privacidade.

Thayer abriu os olhos lentamente à consciência. Na poltrona ao lado, em vez de Kerr, viu que era Mia quem lhe fazia companhia. Uma admirável surpresa para o começo da manhã.
— Hey... — Ela o cumprimentou com um sussurro.
— Você sempre foi assim tão bonita? — Indagou a verdade, mesmo que parecesse que estava apenas brincando.
— Não. Houve um tempo em que meu cabelo tinha pontas duplas e eu usava roupas de segunda mão compradas no Brooklyn.
— Ah é, os tempos sombrios — Ele tentou sorrir. Fez-se um silêncio absoluto dentro do quarto até que resolvesse falar outra vez. — Sabe quando vemos um filme sobre um garoto gêmeo e uma garota gêmea que não têm nada a ver um com o outro apenas porque seria muito trabalhoso encontrar dois atores realmente parecidos? Com vocês não é assim. Podemos ver Mia olhando para Nate e Alex do mesmo jeito que podemos ver Nate e Alex olhando para Mia.
Agora ela estava confusa. Talvez fossem os remédios, ou a lucidez parcial de quem havia acabado de acordar.
— Por que você está me dizendo isso? — Perguntou em meio a um sorriso; contente pelo elogio, em dúvidas sobre o real significado daquelas palavras.
— Porque é verdade. E porque nós dois nunca tivemos a chance de conversar. Estávamos sempre tão... distantes. E agora você está aqui.
— Sim, estou — Mia entrelaçou suas mãos em cima dos lençóis em um aperto de empatia.
Ele passou a mão sobre os olhos para livrar-se das lágrimas presas. Ultimamente era tão fácil chorar... todos os dias, quando deitava para dormir, temia que o pior acontecesse na manhã seguinte. E quando não acontecia, quando percebia que sempre havia alguém ao seu lado, era como se tivesse recebido uma nova chance. 18% poderia ser apenas um número se todos segurassem suas mãos.
— Como eu estou? — Perguntou à Mia.
— Como um guerreiro.
— Está mentindo?
— Eu nunca minto. É por isso que... — Ela levantou. Caminhou dois passos até a cama e sentou-se ao seu lado. — É por isso que decidi contrariar meus amigos e dizer algo que você precisa saber.
— Nossa, é assim tão ruim?
— É sobre Alex... Há dois dias ele deu entrada neste hospital com sintomas de overdose.
— Ele está bem?
— Thayer, ele morreu em cima da mesa, durante o atendimento; precisaram ressuscitá-lo duas vezes com o desfibrilador.
Thayer assimilou a notícia em silêncio. Por fora parecia confuso, como se tivesse perdido uma parte crucial do que ouviu para seu entendimento. Mas por dentro, sem que Mia soubesse, sentia algo se despedaçar uma vez atrás da outra. Ele morreu... E então o trouxeram de volta.
— Ele pode...?
— Os médicos estão esperando ele acordar... — Mia sentiu a voz falhar aos poucos. Queria não ser a pessoa a dar-lhe esta notícia, mas no final, era a única a achar que Thayer merecia saber a verdade. — Até lá, não há nada que possamos fazer.
O silêncio provou-se inevitável; tanto Mia quanto Thayer perderam-se inconscientemente na possibilidade de verem outra tragédia acontecer. A única explicação razoável para tudo aquilo... Não, Alex Bennett não seria capaz de tentar contra a própria vida. Já Alex Strauss...
— Preciso vê-lo — Thayer pediu. — Preciso vê-lo agora.
— Conversei com os doutores no começo da manhã. Permitiram sua visita, contanto que seja breve.
— Respeitarei as regras, apenas leve-me até ele — Antes que seja tarde, quase lhe disse.


Mia foi até a cadeira de rodas e o ajudou a posicionar-se. Então o levou através dos corredores do Liberty County Hospital para a ala emergencial, onde Alex estava internado. Quando o viu deitado em seu leito, inconsciente, respirando através de aparelhos, Thayer soube que tudo estava fora de seu controle. Em um dia Alex estava em seus braços, fazendo planos para o futuro, sonhando em cursar faculdade. E no outro... malmente tivera a chance de estar.
Já não podia mais acreditar em acidente. Uma overdose, para Alex, só seria possível se esta fosse sua vontade.
— Meu Deus... o que você fez a si mesmo? — Tocou em seu braço; era frio como gelo, como se ali nem ao menos batesse um coração. — O que você fez?
— Não sabemos o que aconteceu — Mia lhe disse.
Mas Thayer sabia. Viu todos os motivos em seus olhos na noite em que Alex apareceu no hospital e foi expulso pelo irmão. Havia tanta dor... algo lhe dizia que Alex nunca conseguiria se perdoar.
— Eu deveria ter dito a ele, deveria ter dito a verdade quando tive a chance... — Thayer agarrou a mão dele contra o rosto cheio de lágrimas. — Como pude deixa-lo escapar?
— Thayer, você não pode se culpar por isso.
— Se ele soubesse o que estava acontecendo, teria ficado ao meu lado. Ele é o Alex, ele... deveria ter confiado nele.
Mia resolveu ficar em silêncio. Thayer não precisava de consolo, nem de palavras que o isentavam de qualquer responsabilidade. Só precisava ser ouvido, compreendido. No lugar certo, na hora exata, havia de enxergar. E Mia estaria lá.
— Mia — Kerr chamou da porta. Só então percebeu que Thayer também estava no quarto. — Sinto muito. Eu só... eu trouxe o que você pediu.
— Agora não é uma boa hora — ela lhe disse.
— Está tudo bem — Thayer garantiu. — Preciso de um minuto.
— Não é uma boa ideia deixa-lo só.
— Respeitarei todas as regras, não se preocupe — Thayer prometeu. — Faça o que precisa, estarei aqui quando voltar.
— Volto em vinte minutos.
Assim ela decidiu partir ao lado de Kerr, deixando Alex e Thayer fazendo companhia um ao outro.
Pela primeira vez desde que fora internado, Thayer sentia-se estranhamente protegido contra seu destino. Afastou o pensamento assim que racionalizou a insensatez de suas expectativas, mas de qualquer maneira, estar ao lado de Alex lhe acalmava os nervos. Mesmo que ele estivesse desacordado; mesmo que tudo tenha acabado muito antes daquele reencontro. Se vivesse o bastante para vê-lo melhorar, estaria completamente satisfeito.
As boas memórias também estavam lá; ao menos nelas poderia apoiar-se. Thayer só havia encontrado uma pessoa, em todas as suas divagações noturnas, capaz de mudar o curso de um encontro romântico para leva-lo a um mergulho em um lago congelante do subúrbio de Nova York. Todos sempre queriam conhecer seu quarto de hotel, a hidromassagem de sua suíte, o banco traseiro de seu conversível. Todos, exceto Alex; como se a única maneira de roubar um coração narcisista como o de Thayer Van Der Wall fosse apresenta-lo ao novo mundo que nunca lhe bastou para admitir que existia.
Era tão parecido ao irmão, e tão diferente ao mesmo tempo. Até quando seus lábios se encontravam e sentia seu coração acelerado contra o peito. Quando sorria, e por um segundo fazia o mundo não parecer um lugar tão ruim. E quando corria para encontrar a família e os amigos, porque se importar era o que sabia fazer de melhor. Ele é único, Thayer pensou. Num mundo cheio de Thayer’s, ele é o único de nós dois que merece outra chance.  
 Alex, de alguma forma, parecia ter ouvido suas preces. Seus olhos se abriram lentamente a medida que tentavam se acostumar com a luminosidade; empunhado a uma de suas mãos, Thayer pôde sentir o momento em que seus músculos reagiam a consciência.
— Ele está acordando... — Murmurou para si mesmo. — Ai meu Deus, médicos! — Tentou gritar, mas a voz ecoou como um grunhido ofegante.
— Thayer...? — Alex finalmente o notou.
— Sim. Estou aqui — Thayer o tocou no rosto. Incapaz de conter a emoção, avançou para um beijo de boas-vindas. — Não vou a lugar algum.
— Cameron... Cameron...
— Não, ele...
— Ele tentou... Ele fez algo comigo... por favor... aonde ele está?
Thayer ficou sem reação. Não fora uma tentativa de suicídio? Cameron estava envolvido em seu acidente?
— Alex, o que você...?
— Por favor — Alex implorou, a voz vacilante. — Chame alguém... Ele vai me machucar de novo... por favor...
 Thayer não precisava ouvir mais nada. Deixou-o na cama e correu porta afora em busca de qualquer pessoa que pudesse ajudar. Não sabia como tudo o que ouviu poderia ser verdade, e provavelmente, com o estado de Alex, demoraria a juntar os pontos. Quanto a seu antigo amor trazido de volta dos mortos, estava satisfeito por tudo ter corrido exatamente como o planejado. Agora era apenas uma questão de tempo até que Cameron pagasse por todo o mal que lhes fez... na prisão.
Mia e Kerr estavam no refeitório, um andar abaixo, e longe de todo o drama que foi desencadeado com o despertar de Alex. Na verdade, tinham outra ideia em mente para passar o tempo. Tudo começou quando Kerr recebeu uma ligação de Mia pedindo sua assistência de hacker profissional para que pudessem descobrir uma maneira de expor Frank Ridell. É claro, se fosse tão fácil assim, os The Judges teriam sido descobertos muito antes que pensassem em interferir nas investigações. Era exatamente o que tentava explicar a Mia, diante de sua maleta-notebook.
— Eles são espertos — Disse-lhe. — Seus e-mails, contas bancárias e registros de acesso estão protegidos por um tipo de criptografia que eu nunca vi em toda minha vida. Eu definitivamente não estava preparado para abrir mão do título de melhor hacker que conheço.
— Dê uma olhada — Mia apontou. — Frank foi investigado duas vezes por lavagem de dinheiro junto de 30% dos membros de seu partido. Ele não está limpo.
— Você não entende. Se podemos encontrar registros de processos arquivados contra ele e seu partido, é porque não se importa que estas informações venham a público. O quão estranho seria se um homem tão poderoso quanto Frank Ridell não tivesse alguns processos na justiça ou sequer acumulasse algumas multas de trânsito? Ninguém é tão exemplar na América. Deixando informações comprometedoras ao alcance parcial de espiões faria com que pensassem que não há mais nada para desenterrar, pois a possibilidade de terem descoberto seu envolvimento em um esquema de corrupção é tudo o que a maioria precisaria para acreditar que o trabalho foi feito.
Mia suspirou, derrotada.
— Odeio admitir que tudo isso faz sentido.
— Não mais que eu. Ultrapassar a barreira digital do nosso novo amigo não será apenas uma tarefa difícil, agora é pessoal. Aliás, obrigado por me deixar ajudar. Imagino o quanto deve ter sido difícil ligar pedindo um favor depois do que aconteceu naquela noite...
Mia aproveitou o intervalo da conversa de hacker para sentar-se junto a ele. Àquela hora da manhã, o refeitório já estava em sua capacidade total de lotação. A hora do galo definitivamente era a hora dos doentes e dos fieis trabalhadores.
— Eu não tive escolha — Disse a ele. — Não poderia fazer isso sem você.
— Eu sei. Só estava tentando ser social — Ele sorriu junto a ela. O silêncio que veio depois acabou lhe parecendo o momento perfeito para perguntar. — Foi culpa sua? Você teve algo a ver com o roubo?
— Não. Mas não espero que você acredite em mim.
— Eu acredito em você. Mas também acredito em Dhiego. A única maneira de fazer as pazes com tudo o que aconteceu é se ambos forem vítimas da situação.
Mia fitou as mãos em cima da mesa, depois voltou os olhos para ele.
— Um dia você entenderá que meu problema com Dhiego vai muito além de querê-lo longe de Amber. Ele cometerá um erro. Eles sempre cometem quando estão prestes a conseguir o que querem.
Como Cameron, Mia pensou. Esforçou-se tanto para seduzir Alex e separa-lo de Thayer que nunca imaginou ser pego no flagra em uma traição de nível duplo. Onde quer que estivesse, sabia que sentiria falta de seu prêmio.
— Espere — Ela disparou, quase eufórica. — Cameron, ele é filho de Frank. Se há uma pequena possibilidade de saber no que o pai está envolvido...
— ...podemos dissecar o maldito filho da puta até não restar nada — Kerr concluiu por ela.
 Mia deu volta na mesa e posicionou-se outra vez atrás da cadeira dele, de onde podia ver perfeitamente o trabalho indecifrável do gênio dos computadores.
— Outra criptografia — Kerr informou. — Não é possível que não haja nenhuma brecha. A não ser... O que é isso?
— O que? — Mia aproximou os olhos do monitor.
— Ele usa um programa pessoal de criptografia para falar com alguém. Espere... — pressionou duas dúzias de teclas. — É da Estônia.
— Podemos ter acesso à conversa?
— Estou trabalhando nisso.
Mais alguns instantes e a operação foi concluída.
— Xeque-mate — Kerr comemorou.
Agora estavam diante de dezenas de arquivos de conversa paralelas recuperados graças a ajuda do Black Swan, o mais novo programa de infiltragem de Kerr. Um dia seria devidamente aperfeiçoado para quebrar as barreiras do amigo Frank. Até lá, contentavam-se em descobrir mais sobre a misteriosa pessoa com quem Cameron trocava mensagens.
Pessoa: O papai está em casa?
Cameron: Sim.
Pessoa: Pedi para que não me contatasse quando ele estivesse em casa.
Cameron: Ele não vai descobrir.
Pessoa: Você sabe que ele pode.
Cameron: Mas não irá.
Pessoa: Tome cuidado.
Cameron: É com você que eu me preocupo. Quando nos veremos outra vez?
Pessoa: Eu não sei, preciso ir. Mandarei um cartão postal.
Cameron: Tudo bem. Se precisar de alguma coisa, mande uma mensagem.
Pessoa: Você já faz o bastante bancando o irmão superprotetor. Eu te amo, tome cuidado.
— Cameron tem uma irmã? — Indagou Mia, tentando juntar as peças do quebra-cabeça. — Mas não encontramos nenhum registro de sua existência. Você acha...?
— Acho que finalmente temos a nossa vantagem.
De uma coisa Mia estava certa: Enterraria todos os esqueletos do armário dos Ridell na cova de Frank.

A escuridão manteve Nate em segurança dentro de sua cela pelo resto do dia. Não comeu, tampouco dormiu; o descanso era um luxo com que suas correntes de metal não poderiam arcar — embora seu corpo pedisse por cuidados. Chorou vez ou outra ao lembrar que também não havia uma vida fora daquele porão, e sem represálias a uma breve insanidade, decidiu cantarolar.


You can’t trust a cold blooded man
Girl, don’t believe in his lies
You can’t trust a cold blooded man
He loves you and leave you alive
There’s one thing you must understand...
Estava no último verso quando ouviu a porta se abrir. O feixe de luz que atravessou o quarto, em direção a seus olhos, fez com que erguesse o braço para se proteger. Era o segurança careca número #2 quem ousava interromper sua dosagem de The Pretty Reckless.
— Levante — Ele ordenou. — Hora de tomar banho.
— Primeiro as damas.
Mas ele não estava para piadas. Levantou Nate a força e o colocou para fora do quarto como ninguém o faria a um simples animal. Empurrou-o durante todo o percurso para o andar de cima, até que estivesse dentro de sua suíte.
— Vinte e cinco minutos — Disse-lhe antes de fechar a porta.
 Nate já sabia como tudo funcionava. Tirou as roupas, caminhou até a banheira e ligou o chuveiro. Mais uma vez a água quente lhe trouxe toda a clareza que precisava para tomar suas decisões. O jogo de Theon poderia ficar perigoso de uma hora para outra, disso estava ciente. Conhecendo-o bem, como apenas um amante conheceria, a falsa hospitalidade do primeiro dia de cativeiro conveio para que acreditasse estar seguro. Uma tática bem interessante, considerando a ameaça proferida em seu tom sociopata. “Dores inimagináveis”. Uma tortura psicológica, para um bom conhecedor do assunto em questão.
Quanto aos planos de Tara, Nate achava sensato presumir que tivessem relação com o patrimônio Strauss. Dois bilhões de dólares direto para os cofres dos De Beaufort, como se já não bastasse terem se instalado na mansão que pertenceu a família por mais de quatro gerações. Só precisava saber o motivo para que o pai de Theon não tenha sido incluído nesta equação. Estava de férias? Preso em Paris por violência doméstica? Nate sabia que as cicatrizes no corpo de Tara poderiam ser frutos de uma relação nada satisfatória para o grande minerador europeu. Theon também tinha suas marcas para provar que todos os seus transtornos psicológicos começaram dentro das paredes da mansão De Beaufort.
Havia tanta coisa para decidir em tão pouco tempo. Vinte e cinco minutos passaram num piscar de olhos.
Novamente Theon havia pré-selecionado um conjunto de roupas que recontava a questionável história de amor que viveram em Paris; um casaco marrom, combinado a uma camiseta preta e uma calça da mesma cor — exatamente o que Nate vestia quando se conheceram na galeria de arte, há mais de um ano.
O jogo está ficando cada vez mais doentio.
— O Senhor De Beaufort o espera na suíte principal da mansão — Disse-lhe o segurança quando o viu pronto. — Siga-me.
E assim Nate o fez. Seguiu-o pelos corredores da mansão até que chegassem ao quarto que antes pertencia a Simon e Judit. Encontrou Theon em pé, de frente para a mesinha de cabeceira, tomando champanhe em uma taça de cristal e comendo morangos de uma bandeja. Nada vestia além de uma cueca boxer preta e um roupão aberto na mesma cor, como se tivesse acabado de sair do banho. Seria sexy, de todos os pontos de vista masculinos, se não remetesse à astúcia de um psicopata. O que era aquela maldita ópera tocando nos auto-falantes?
— Senhor — Chamou o segurança, e enfim Theon virou-se para recebe-los.
— Finalmente — Disse. — É tudo por hoje, Jensen.
Assim o segurança se retirou. Por um momento, Nate achou ter ouvido errado.
— Jensen? Esse é o nome de seu segurança?
— Não, é apenas como eu gosto de chama-lo. Decidi nomear cada empregado desta mansão de acordo com as pessoas que você conhece, pois assim estaremos todos juntos. A propósito, Darla agora se chama Gwen, e Vanessa se chama Mia. Tente não confundir as duas, elas demoraram a entender quem deveriam ser no nosso pequeno teatro.
— Você é doente — Nate cuspiu.
— Não vamos arruinar o momento nos elogiando precipitadamente — Theon ergueu uma taça vazia da mesinha de cabeceira. — Champanhe? Morangos? — esperou três segundos por uma resposta. — Deus, como você é difícil de se ganhar.
— Por que eu estou aqui, Theon?
Mentalmente, Theon aprovou todas as ênfases de sua interrogativa.
— Você sabe muito sobre mim, Nate — Virou-se para encher novamente sua taça. — Como um homem de sangue nobre, como o herdeiro milionário de Carlisle De Beaufort, até mesmo como o amante que você escondeu por baixo dos lençóis. — Virou-se novamente para ele, com um morango flutuando em sua taça. — Não posso mentir; usar o que você sabe da forma correta lhe daria poder suficiente para igualar nosso jogo... se não fosse por um pequeno detalhe. O último ano da minha vida continuará um mistério para você. O que eu fiz, quem conheci, quem machuquei, tudo não passará de simples suposições. O que você faria se descobrisse que o homem que abandonou, há um ano, e homem que está diante de você, agora, são duas pessoas completamente diferentes?
Nate preferiu não responder. Felizmente, Theon estava pronto para isso.
— Eu sei o que está pensando — Deu um ar de risos, caminhando pelo quarto enquanto ponderava. — Para você, esta deve ser apenas mais um discurso para provar o quanto você está indefeso sob o meu domínio. O mais engraçado em tudo isso é que há um ano, nossos papeis estavam invertidos. Você era o vilão, o ladrão de heranças, um maldito vingador. E eu era apenas... a vítima.
“Os dois primeiros meses foram os piores. Para ser franco, a morte parecia um destino menos cruel que uma vida inteira sem você. Eu sonhava com o seu retorno a cada dia que passava enfurnado naquele quarto de hospital. Teria perdoado todas as suas traições sem pensar duas vezes, porque a única coisa que importava era estar ao seu lado”.
“Um dia eu descobri que tudo iria embora se eu simplesmente desligasse todas as minhas emoções. Havia um pensamento, uma âncora, a qual eu me prendia todos os dias para não enlouquecer. Eu o fodia na minha cabeça, vinte e quatro horas sem parar. Às vezes jurava que podia ouvir os estalos das nossas peles se chocando, de tão forte que fodíamos. Vivi apenas pelo dia em que poderia realizar todas as minhas fantasias, e em tê-lo só para mim”.
Nate continuou em silêncio, sem saber se acreditava em seu delírio. Não podia estar dizendo a verdade, porque se estivesse...
— Theon, eu sinto muito.
— Eu sei — Mais uma vez foi até a mesinha de cabeceira. — Mas estou farto de tanta conversa. Tire suas roupas, por favor.
— O que?
— Preciso mesmo repetir cada maldita ordem que eu dou? — Theon mostrava-se impaciente. — Tire. Suas roupas. Agora.
Os olhos de Nate brilharam em lágrimas.
— Você não pode fazer isso...
— Tenho seus pais acorrentados em celas imundas como garantia da sua obediência. Vadia, eu posso fazer o que eu bem entender. A não ser, é claro, que você não se importe em receber sua preciosa mãe de volta dedo por dedo a cada feriado.
Àquela altura, Nate já não tinha armas para contra-atacar. Tirou uma peça de roupa por vez, delicadamente, contra sua vontade, enquanto Theon o cobiçava com os olhos. Como podia amar cada parte daquele corpo que estremecia de repulsa só de ouvir seu nome? Não importava. Era seu, era todo seu. Nem Deus se atreveria a tirar-lhe o que conquistou com tanto esforço.
Quando nada sobrou para Nate se proteger, Theon avançou em sua direção e o beijou. Podia ouvi-lo engasgar com seu orgulho como se estivesse prestes a vomitar. Mas não importava. Era seu, era todo seu.
— Como você pode ser tão magnífico apenas em existir? — Sussurrou apaixonadamente, o corpo gelado de Nate estremecendo ao seu toque.
— Por favor, deixe-me ir...
— Não... você precisa me chupar.
Nate estava lá, olhando em seus olhos. E de repente não estava mais. Theon o obrigou a ajoelhar-se em um movimento ríspido, deixando-o na altura da cintura. O volume suntuoso já havia ultrapassado os limites da cueca entre os dedos de Theon e suas coxas musculosas.
— Não — Nate debulhou-se em lágrimas. — Por favor, eu não posso...
— Me chupe. É uma ordem.
— Não me obrigue, por favor...
— Obedeça.
— Não consigo...
— Eu mandei obedecer! — Ele gritou. Tamanha fúria fez com que quebrasse a taça que segurava no rosto de Nate.
Nate caiu para o lado graças ao impacto, o peso do corpo sobre as duas pernas. Tocou na têmpora direita e fitou os dedos; sangue escorria do ferimento exposto, agora impregnado também em suas mãos.
— Faça o que eu mandei.
Dessa vez Nate obedeceu sem pestanejar. Ajoelhou-se novamente em frente a ele, segurou seu pênis com uma mão e encheu sua boca. Ânsias lhe roeram desde o primeiro momento em que sentiu seu gosto, mas a repulsa nunca falaria mais alto que seu instinto de sobrevivência. Em prantos, não sabia se o havia molhado com lágrimas ou baba. Os gemidos de Theon eram a única prova de que estava apreciando sua terrível violação.
— Sim, isso mesmo... — Theon sussurrava.
E de repente não era mais Nate quem tinha o controle. Theon forçava sua cabeça cada vez mais fundo, prestes a sufoca-lo com sua agressividade. Entrava e saia violentamente, então forçava-o em sua garganta para ver até onde poderia aguentar.
— Por favor, não consigo respirar — Nate implorou no único instante em que conseguiu se livrar. Soluçava de tanto chorar sem fazer qualquer esforço.
Não doía fisicamente. Doía em tudo o que o fizera um ser humano.
— Continue! — Insistiu Theon.
Forçou-o segurando seus cabelos a ir cada vez mais fundo, mais fundo e mais fundo. Estava quase lá, só precisava de um pouco mais. Um pouco mais de dor, um pouco mais de agonia, um pouco mais de prazer. Foi ao céu em saboreio a sua explosão. Depois ao inferno, para olhar Nate nos olhos. A criatura patética que soluçava no chão, de boca suja, com sangue escorrendo pelo rosto, já nem se sentia mais como uma pessoa.
Que chorasse como ele havia chorado. Que sangrasse como ele sangrou. Que implorasse para morrer como ele implorou. E que nada mais restasse senão vergonha. Pelo que fez a família De Beaufort, por torturar Amber, por destruir a carreira de Kerr, por desfigurar a própria irmã e interna-la num manicômio, por levar Justin ao suicídio e causar a morte de Carlisle De Beaufort.
— Venha comigo — Theon o levantou pelo braço e o jogou de bruços em cima da cama.
Seus gritos agonizantes de protesto não fizeram a menor diferença. Theon montou sobre ele e o penetrou, usando os dois braços para mantê-lo na posição correta e afunda-lo no colchão.
Nathaniel Strauss perdeu a guerra. Agora o único monstro seria conhecido como Theon De Beaufort.
  

Cameron despertou com um insistente baque em sua porta. Ligou o abajur, sentou na cama e esfregou os olhos. Quem quer que fosse, odiava-o desde já por perturbar seu sono e promover um desfile de carnaval em seu corredor às duas da manhã.
— Já estou indo! — Gritou enfurecido.
Vestiu uma camiseta, saiu do quarto e caminhou até a sala de estar. Assim que a porta foi aberta, um grupo de pelo menos cinco policiais invadiu seu apartamento portando armas de fogo, algemas e um punhado de documentos que não teve tempo de assimilar como mandatos.
— Cameron Ridell, você está preso por tentativa de assassinato — Disse-lhe o detetive enquanto um dos policiais o algemava. — Tudo o que disser poderá e deverá ser usado no tribunal contra você.
— O que? Eu não fiz nada!
 — Você tem direito a um advogado e a uma ligação. Conhece seus direitos?
— É claro! Isso é um engano, eu não fiz nada!
Mas era tarde demais. Entre a palavra de um delinquente com várias passagens pela polícia e a de um jovem herdeiro prestes a ingressar a Yale, a conveniência tendia a ofuscar a justiça dos homens para que fosse feita a justiça Strauss. Inocente até que provem o contrário? Não enquanto Alex estivesse de coração partido.  

Next...
4x12: Into the Inferno (09 de Abril)
Bom, gente, mesmo sabendo que vocês são bonzinhos comigo, acho muito válido explicar algumas coisas sobre este capítulo. Não pensem de forma alguma que estou tentando romantizar o estupro ou fazendo isso por algum tipo de fetiche. Retratar este tema no livro não quer dizer que aprovo, acho bonito ou foi, de fato, necessário. Sou o tipo de autor (e de pessoa) que tenta sempre sair da sua zona de conforto. Já tinha retratado um estupro antes, no primeiro A Punhalada. Porém, não foi com tantos detalhes. Decidi sintetizar a coisa, pois não me achava preparado para escrever sobre isso. Agora sim estou preparado e posso dizer que estupro não é mais um tabu em relação a minha escrita. E claro, nós autores e leitores devemos ter a consciência de que se trata de um ato repugnante. Me senti extremamente desconfortável escrevendo a cena (até fiquei algum tempo rolando na cama, pensando nisso), mas me orgulho do caminho que a história está seguindo. É algo diferente, e para mim, um tanto arrepiante também. Semana que vem teremos um pouco mais de violência do que estamos acostumado. então se preparem. Alguém vai levar muito a sério esse lance de olho por olho.
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6 Comentários

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6 comentários:

  1. Sei que parece clichê dizer isso, mas acredite quando eu digo que, embora há tanto que eu gostaria de dizer, eu não sei por onde começar. Gastei uma incrível quantidade de tempo tentando juntar as palavras de forma que elas fizessem algum sentido.
    Esse foi um capítulo excepcional, sem dúvidas. Bem escrito, bem estruturado e conforme o tempo passa, notamos que a temporada inteira foi bem planejada e construída de forma que pontas soltas não fossem deixadas. Foi um capítulo calmo de certa forma porque focou-se naquilo que mais mexe conosco: o psicólogico. Não nego que sou fã de momentos de ação e perseguições, mas jogos mentais são os meus favoritos. Apesar de rápido, o capítulo mostrou para que veio e nos deixou com aquela velha sensação de "quero mais". Sou apaixonado pela primeira temporada, foi ela que me conquistou, mas a quarta já se tornou a minha favorita há tempos.
    Eu acredito na lei do retorno. Acho que as pessoas devem mesmo pagar por aquilo que elas fizeram e pelo mal que causaram. Sempre foi assim. Você colhe o que planta. A vingança é a base de TDM. Nathaniel voltou para fazer com que aqueles que o destruíram pagassem pelo que fizeram com ele antes que ele fosse para Paris, entretanto, em meio a essa retaliação, Nate perpetuou o sistema da Lei do Tabelião. Tudo o que vai volta. E vai de novo. E volta de novo. É um ciclo. Não havia como ele sair impune pelo que ele fez e pelo mal que ele causou, principalmente a Theon. Todos os outros sofreram, mas mereceram o que lhes aconteceu, Theon, por outro lado, não. Theon o amava e Nate o traiu. Nate se tornou o que se tornou depois do seu acidente, mas também transformou Theon no monstro de agora. Essa jornada de Nate custou muito mais do que apenas um olho para o príncipe, custou sua sanidade. Depois de encerrar o ciclo com seus frenemies de NY, chegou a hora de Theon ter o seu acerto de contas. E quem pode julgá-lo? Por mais que doa dizer, Nate merece a retaliação, é o preço. E que retaliação, não é mesmo? Morte de Quentin, perseguição, encarceramento dos pais, o estupro... Devo dizer que esse último me surpreendeu muito. Lembro que quando eu dizia que tinha a esperança de que Nate e Theon fizessem uma espécie de sexo violento na base do amor e do ódio, você sempre se abstinha de comentar. Não era isso que eu tinha em mente, tá? Hahaha. A cena foi forte e eu nunca imaginei ver Nate em tal situação. Não quero debater o estupro ou a necessidade dessa cena, pois é um caso delicado se se lidar, mas não te julgo, devemos mesmo sair da nossa zona de conforto. [Continua]

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    1. Lei de Talião*, Corretores... Hahaha.

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  2. [Continuação] Tara foi uma porrada. Eu jurava que ela era mais nova e que ela era uma boa pessoa. MAS ELA É A MÃE DO DESGRAÇADO. VOCÊ É TERRÍVEL. Mais uma vez minha cara foi ao chão.
    Quando eu pensei que não teria mais surpresas, Alex me dá um soco na cara. O. QUE. FOI. ESTE. FINAL. MEU. PAI. DO. CÉU. Eu estranhei quando ele acordou perguntando pelo Cameron. Juro que cogitei voltar no capítulo em que ele causa a overdose só pra ver se havia perdido algo, pra ver se Cameron estava envolvido naquilo e eu deixei passar. Alex tá se saindo um ótimo Nate, mas ao contrário do irmão, que realmente havia tentado se matar lá na segunda temporada, Alexinho tinha a intenção de fazer Cameron pagar. VINGANÇA NA VEIA DOS STRAUSS, GALERINHA.
    E o que foi essa cena de Thalex? Enquanto a Mia dizia pro Thayer não se culpar quando ele disse que poderia ter falado da doença antes, tudo o que eu dizia era "é verdade, devia mesmo, a culpa é sua" hahahahaha. Espero que esses 18% prevaleçam sobre os outros 82%. Thalex é endgame no meu coração. #DyingForTheNext, nem precisa dizer, né?

    PS.: Algo me diz que Theon vai estar muito fodido quando Nate der a volta por cima. Ele não vai deixar barato.
    PS.: Esse comentário ficou parecendo uma review, gente, hahahaha.
    PS.: Algo que me confundiu foi a linha do tempo. Faz mesmo só um ano que Nate deu o golpe no Theon? Tudo isso desde a primeira temporada aconteceu em um ano só? Mas gente, chocado estou.
    PS.: Essa dinâmica da Mia com o Kerr. ��
    PS.: Pra ver como a série evoluiu, eu me lembro constantemente da cena em que os personagens estavam reunidos num restaurante (?) comentando sobre a volta do Nate. Já posso ser o fã n°1? Hahaha.
    PS.: Lembro que quando a segunda temporada estava sendo lançada — na época em que eu apenas lia e permanecia anônimo —, haviam dias em que os capítulos atrasavam e ficávamos semanas sem TDM. Era terrível. Se isso acontecesse nessa temporada, podiam me internar junto com a Gwen Strauss. #SaudadesPuta.

    — Hazza.

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    1. Hazzaaaaaaa, que comentário lindo. Já disse o quanto eu amo comentários longos? Às vezes no Nyah o povo comentava em duas linhas e eu ficava pensando "Escrevi 6 mil palavras e só ganhei duas linhas de resposta, okay" hahahaha. Mas enfim, não sei se você curte respostas longas, então vou tentar ser breve pra não tomar muito do seu tempo.
      Eu sempre vi The Double Me como uma história consistente, sabe? Se avaliarmos as séries de TV atuais, percebemos que elas mudam drasticamente no decorrer das temporadas, e quase sempre esquecem de fazer jus a sua proposta inicial (que muito provavelmente foi o que fez os fãs se interessarem por elas). Eu tomei todo cuidado para que The Double Me não se transformasse nisso. O tema principal é a vingança, é ela que move os personagens, gera os conflitos e intensifica os dramas. Portanto, eu não poderia simplesmente abrir mão dela para explorar outras narrativas com os mesmos personagens. Por isso a melhor maneira de continuar seria explorando o ciclo que você mencionou. Uma vingança não é apenas uma vingança, ela não afeta apenas você e seu objeto de destruição. Ela pode afetar todos ao seu redor, e com um pouco de incentivo, qualquer uma dessas pessoas que fez parte deste ciclo (e foi lesada, de certa forma) pode vir a acertar as contas.
      Não me leve a mal, Theon continua sendo um vilão. O que Nate fez a ele não justifica 10% de tudo o que ele está fazendo. Mas como você mesmo disse, é a lei do retorno. Nate machucou muitas pessoas além do Theon, agora está pagando em nome de todas elas. De forma injusta, claro, mas não deixa de ser um wake up call pro personagem. Não há como você embarcar numa vingança sem destruir a si mesmo. No final do Livro 1, Nate estava apenas na metade do caminho. Agora ele precisa enfrentar todos os seus demônios, inclusive os que ele mesmo criou, para quem sabe, se redimir.
      Sobre a cronologia, sim, apenas um ano se passou. Nate roubou Theon em uma noite e na manhã seguinte estava de volta a Nova York (que foi quando Alex chegou). Em 6 meses os eventos das duas primeiras temporadas aconteceram, e depois do final do Livro 1, no natal, 6 meses se passaram.
      Juro que fiquei com medo que vocês desaprovassem a atitude do Alex no final hahahaha. A vingança está no sangue dos Strauss mesmo. Até no de Alex e Mia, que não cresceram da mesma forma que o Nate. Por isso é bom Cameron, Frank e Dhiego começarem a se preparar. Eles mal sabem o que vem por aí rs. E é claro, Mia ganhará mais destaque, por ser a única dos três que não têm pendências e está livre para retaliar do seu jeito.
      PS: Como eu disse no começo, The Double Me nunca vai deixar de focar na vingança, então vocês já podem esperar que isso continuará em alta no Livro 3. É um ciclo, né? Um se vinga do outro, até que estejam todos saciados. No final dessa temporada vocês verão como isso pode se desenvolver. Novos personagens, novo motivo, uma nova vingança. Mas não se preocupe, ela fará todo sentido e estará relacionada a tudo o que acontece agora, pois não sou muito fã desses erros de continuidade e nunca faria isso com vocês. Estamos apenas a duas temporadas do final da saga, Ufa! =D

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  3. Eu realmente não tenho palavras pra descrever o quão chocante foi esse capítulo. O Theon tornou-se uma surpresa pra mim, porque, apesar de saber do seu desejo de vingança, eu não imaginava a forma como ele iria executar isso. Por esse motivo, fiquei tão desconfiado quanto o Nate quando ele começou sua punição com caprichos, do tipo banho quente e jantar na mesa. Depois de um tempo a gente entende que o Theon encenava (mais para si mesmo) a ideia de uma vida que ele nunca teve, de forma que o sequestro e o sexo à força fossem apenas "detalhes". Não sei se essa foi sua ideia, mas eu traduzi a psicopatia do Theon dessa forma — alguém que está em busca do que perdeu e faz qualquer coisa pra alcançar isso.
    Achei a cena do estupro perfeitamente bem escrita, com pontos bem colocados e sem exageros desnecessários, porque, afinal, não é algo fácil de se imaginar.
    Passando agora pro Alex, eu realmente não sei o que esperar dessa atitude dele. O personagem está em sua pior fase agora, é algo bem delicado e que provavelmente vai acarretar em problemas pra ele. Só uma dúvida: a overdose do Alex foi proposital? Ele fez isso pra incriminar o Cameron ou só usou desse artifício de última hora?

    P.S.: "Thayer, ele morreu em cima da mesa, durante o atendimento [...]" Ok, confesso que entrei em pânico quando li isso, mas assim que li o resto meu coração desapertou.
    P.S.²: "Alguém vai levar muito a sério esse lance de olho por olho" MEDO

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    1. Jairo, você sempre me impressiona com seus comentários. A maioria dos leitores precisa esperar que eu narre a conclusão de certas tramas nos próximos capítulos, mas às vezes parece que você entra na minha cabeça e compreende a história do mesmo jeito que eu hahahahaha.
      Você está repleto de razão. Theon realmente enlouqueceu depois do que o Nate fez e agora ele quer ter, a força, a vida que ele achava que teria ao lado dele. Isso explica tudo de uma forma bem completa mesmo. Sou apaixonado por psicopatas (não sei se você leu minhas fics de terror que postei aqui no blog), é sempre um prazer escrever sobre eles e desenvolver a concepção distorcida que eles têm da realidade. Por mais que eu tenha me sentido desconfortável com algumas cenas que escrevi, arrisco em dizer que Theon foi o melhor psicopata que já criei e ele com certeza é o grande vilão de toda trilogia.
      E sim, mesmo eu não tendo deixado isso tão claro neste capítulo, a overdose do Alex foi proposital. Vocês provavelmente devem ter pensado que ele se redimiria agora que tudo foi por água abaixo, mas a verdade é que a traição do Cameron só fez com que ele sentisse mais necessidade de ser parecido com o irmão. Agora ele entende porque Nate colocava sua vingança em primeiro lugar, agora ele entende essa necessidade (talvez até biológica) de fazer as pessoas pagarem. Por isso o plano é: Cameron tem que pagar pelo que fez a ele e Thayer, e nada melhor que na cadeia.
      Falando nisso, Nate parece ser o único dos três irmãos que não está nessa de vingança. Quem diria? Hahahaha.

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