sábado, 19 de março de 2016

[Livro] The Double Me - 4x09: Now I'm Lying on the Cold Hard Ground [+18]

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4x09:Now I'm Lying on the Cold Hard Ground
“Todo paraíso tem uma serpente”.
  
— Leve-as até o carro, por gentileza — Judit pediu.
Boris pegou suas malas e partiu, deixando Judit e Alex sozinhos no quarto, sentados lado a lado em beira à cama.
— Alex, chamei-o aqui para conversarmos antes da minha viagem. Está tudo bem? Nate me contou o que houve.
— É claro que contou — Alex debochou com um ar de risos. Se Nate estava mesmo usando a mãe como arma, é porque sua própria munição havia acabado. — Se não fosse ele, seriam os tabloides.
— Eu não o julgo — Segurou a mão dele em cima da coxa. — Cameron não faz parte da nossa família, e eu não serei a matriarca conservadora que vê um romance entre o filho e o enteado como algo inconcebível. Só estou tentando me certificar de que isto é o que você realmente quer.
— Entendo sua preocupação, mas garanto que nenhum de nós está fazendo algo contra a vontade.
— Thayer está ciente de sua decisão?
E novamente debochou com um ar de risos. Judit sabia sobre Cameron, o término com Thayer, e possivelmente tudo o que aconteceu naquele estacionamento, quando Nate fez Cameron sangrar por motivos que já não importavam. Quem precisava de um site de fofocas quando se tinha a lábia de um irmão menosprezado, pronto para contar sua própria versão da história?
— Thayer deixou perfeitamente claro que está tudo acabado entre a gente quando bateu a porta na minha cara. Não acho que devo satisfações a ele, e você não está em posição de questionar isso.
— Alex, não estou questionando, estou apenas preocupada. Nas últimas semanas mal trocamos uma palavra. Agora descubro que você e Cameron estão juntos, e nem foi por você.
Alex virou o olhar, totalmente desinteressado no assunto.
— Não ficarei aqui ouvindo de outra pessoa o quanto eu mudei — Olhou-a outra vez. — Você não tem um avião para pegar?
Ele tinha razão. Havia um jatinho particular rumo a Portugal, esperando-a para decolar. E só agora havia percebido o quanto estava perdendo para garantir que a Strauss International não caísse em mãos erradas.
Como mãe, seu instinto lhe induzia a contar toda a verdade para que Alex tivesse a chance de reparar seu erro. Mas então como ficaria a promessa que fez a Nate ontem à noite? Não conte a ele sobre Thayer, pediu o filho. Dessa maneira, Alex só voltará atrás em sua decisão para fazer a coisa certa, não porque é o que diz seu coração.
Aonde estava o coração de Alex? Olhava para ele e via apenas o que Nate costumava ser; talvez de forma ainda mais dura, com olhos azuis desafiadores e prontos para retaliação.
— Embora não receba tanta credibilidade, sei mais do que você pensa — Disse ela, enfim. — E não apenas por ter conhecido o mundo antes que vocês tivessem a chance.
— Pretende chegar a algum lugar com essa história?
— Tenho-o observado desde que passou por estas portas pela primeira vez, Alex. Sei que tudo o que quer é se encaixar neste novo mundo e finalmente ter uma família. Embora suas intenções sejam nobres, nem mesmo você está isento de conhecer o que há de pior em ser nós mesmos. É com este tipo de atitude egocêntrica que você espera ganhar o amor e o respeito das pessoas ao seu redor?
— Amor? Quem disse que isso tem a ver com amor? Não preciso que eles me amem, só preciso que eles me fodam.
Alex saiu pela porta após a última cartada, a cada passo mais orgulhoso de tudo o que o fez incontrolável. Podia sentir nas costas os olhos arregalados de sua mãe e a enorme desaprovação que colidia com suas vontades. A boa notícia era que estaria em outro continente em algumas horas e não teria tempo de interferir na vida de seu filho do meio – e nem influenciar a quem Alex não havia decidido se chamava de pai ou sogro.
Agora sim estava livre para fazer o que queria.
Desceu as escadas, pegou seu carro ao lado do chafariz e dirigiu até o edifício Tarrigan, no centro de Manhattan, em busca de mais uma dose de sexo matinal e café da manhã. Mas só o que encontrou foi um porteiro careca afirmando que o jovem do apartamento setenta e dois havia saído ás oito da manhã com seu carro, ao lado de uma moça.
Cameron e seu timing, sempre causando dores de cabeça.
Mesmo assim, Alex pegou as chaves do apartamento e subiu para espera-lo. Tirou comida na geladeira, sentou na poltrona e ligou a televisão. Um programa matinal de desenhos animados prometia prender sua atenção pelo tempo que Cameron levasse para voltar – se pudesse ignorar a insistência de suas preocupações e o calor.
Uma parte de si ainda perguntava como poderiam estar todos os seus amigos. Será que Nate e Jensen estavam felizes? Será que Thayer havia melhorado do que quer que o tenha deixado doente? Ou, se fosse tudo uma mentira, será que havia cansado e aceitado que tudo acabou? Como Mia estava lidando com a reabilitação e o romance com Amber? Para onde fora Simon quando lhe permitiu que fugisse sem pagar por seus crimes? Seu celular seria bem útil para matar a curiosidade; até olhou para a foto de Thayer e Nate na lista de contatos, esperando alguma reação positiva. Se ao menos o orgulho não estivesse em seu caminho...
Não, era tarde demais para isso. Guardou o celular de volta no bolso e decidiu que a TV era a única que merecia sua atenção. Quanto mais ignorasse o mundo a sua volta, menos falta ele faria no fim do dia.


— Respire fundo — Pediu a Doutora Mills.
E Thayer obedeceu com prontidão.
Ao seu lado, de braços cruzados, Nate observava cada movimento que era feito com o estetoscópio sobre sua pele. Novas manchas vermelhas haviam aparecido no quadril, na nuca e próximo a axila direita, como se fossem hematomas de uma terrível briga corpo a corpo. Não estavam assim quando o encontrei inconsciente em seu apartamento, Nate observou. Seriam efeitos colaterais do novo tratamento ou um sinal de agravação?
— Agora outra vez — Disse a doutora. Thayer pareceu dar o melhor de si no próximo suspiro.
— E agora?
 — Só mais uma vez, Thayer. Respire fundo.
— Não é tão difícil com você por perto — Ele gracejou.
Os olhos de Nate semicerraram em sua direção. Mais desconcertante que vê-lo cantar uma mulher era ver o sorriso bobo que recebeu em resposta.
— Agora abra a boca e coloque a língua para fora — Pediu a Doutora enquanto Thayer abaixava a camisa. Do bolso havia tirado uma pequena lanterna com um palito de madeira para verificar se não há inflamações em sua garganta. Uma vez concluído, guardou-os de volta e sorriu uma última vez para seu paciente favorito. — Muito bem, vejo-o daqui a três horas.
— Até lá — Ele disse.
E ela partiu logo então.
— O que foi isso? — Nate perguntou.           
— A cantada? — Thayer recostou-se novamente no travesseiro, com as pernas esticadas. — Aparentemente, nem o câncer é capaz de me segurar.
— Fico feliz que esteja levando sua condição tão a sério.
— Você esperava que eu precisasse de um ombro para chorar? Sinto muito em decepcioná-lo.
— Cale a boca e coma seus vegetais — Nate jogou uma vasilha de plástico para que agarrasse.
Agora nem mesmo a versão otimista de Thayer Van Der Wall parecia receber de bom grado sua nova dieta. Olhava para os vegetais fazendo uma careta de desgosto, que representava de maneira devota a opinião de seu estômago.
— Obrigado por me ajudar a comer como um invertebrado — Cedeu as duas primeiras mordidas, totalmente contra sua vontade. Nate já estava de volta a sua poltrona quando um fato inusitado de sua infância lhe veio à mente. — Uma vez fui a casa de campo de um amigo do colégio. Juro por deus, essa comida tem o mesmo gosto da grama molhada que eu comi quando caí do cavalo.
— Pensei que soubesse cavalgar.
— Não quando o volume da calça apertada do Senhor Richter decide chamar tanta atenção.
— É claro — Nate sorriu.
Por que não estava surpreso? Por baixo daquele macacão quadriculado ainda era Thayer Van Der Wall, medalhista de ouro nos jogos de Guadalajara e herdeiro do império editorial nova-iorquino. Pelo menos enquanto tivesse sua coroa de cabelos e o charme britânico da família. Depois disso... A única certeza de Nate era um borrão de expectativas.
— Então, Travis virá hoje? — Perguntou-lhe.
— Já deve estar a caminho. Ele vem todos os dias, não acho me perderia o momento em que eu... Bom, ele virá.
— Andy e Mia também estarão aqui.
— Tem certeza que irão permitir a entrada de todos vocês ao mesmo tempo?
— A única forma de nos impedir é nos denunciando por formação de quadrilha. Então estaremos aqui.
Antes que pudesse responder, Thayer fechou os olhos e engoliu em seco. Sentiu o estômago ir a garganta e voltar, como se estivesse forçando sua saída.
— Nate, você precisa ir — Contorceu-se na cama e colocou as pernas para fora. — Acho que vou vomitar.
— Não vou deixa-lo por isso — Nate ficou de pé e caminhou até ele. — Quer que eu chame a enfermeira?
— Não, isso acontece de vez em quando. Preciso ir ao banheiro...
— Tudo bem, eu te ajudo.
Nate rapidamente o envolveu com um de seus braços para colocá-lo de pé. Da cama ao banheiro particular eles caminharam, cada passo mais cauteloso que o anterior. Nate teria entrado junto dele se não tivesse fechado a porta na sua cara antes de pensar em contestar.
— Okay, vou esperar aqui fora — Nate avisou. Realmente não tinha escolha.
De onde estava podia ouvir os soluços angustiantes de Thayer ao colocar tudo para fora. Isso acontece de vez em quando, ele havia dito. Ou talvez acontecesse com mais frequência do que o orgulho o deixava admitir.
— Está tudo bem? — Nate insistiu em perguntar.
— Sim— Thayer respondeu lá de dentro, ainda em soluços. — Você pode ir embora, talvez eu fique aqui por algum tempo.
— Não tenho medo de um pouquinho de vômito. Esqueceu daquela noite em Paris em que eu estava bêbado e você cuidou de mim? — Ouviu finalmente o barulho da descarga. — Thayer?
— Estou bem, só preciso que você vá embora. Demora um pouco para que meu estômago esteja bem outra vez.
— Não estou indo a lugar algum, posso esperar com você — Nate rebateu. Sentou-se no chão, de costas para a porta, e escorou a cabeça na madeira.
O silêncio que sucedeu seu pequeno ato de protesto acabou levando-o um lugar distante. De vez em quando ouvia Thayer soluçar, do outro lado da porta, e então se perdia novamente em seus pensamentos.


— Você ainda está aí? — Nate perguntou.
— Não precisamos conversar.
— Tudo bem — Hesitou por um instante, e então teve outra ideia. — Sabe, Jensen e eu terminamos.
— Vocês o que? — Ouviu-o exclamar. Agora havia prendido sua atenção.
— Depois do meu acidente de carro, naquela noite, seus pais decidiram que a única madeira de evitar que o ocorrido o afetasse de forma negativa era mandando-o para terapia. Abigail Phillips, a psiquiatra, acabou gravando algumas das suas sessões. Você não acreditaria nas coisas horríveis que ele disse naqueles vídeos.
Thayer hesitou por um breve momento, apenas em nome de uma verdade que não percebeu vindo à tona.
— O Jensen de quatro anos atrás... aprendi a esperar qualquer coisa dele.
— Ele disse que mudou por minha causa, mas isso só aconteceu depois que eu me tornei... você sabe. Tudo o que eu queria era que ele me amasse quando eu não era ninguém, porque foi quando eu mais precisei. Acho que nunca saberei o que teria acontecido com nós dois se Nathaniel Strauss fosse apenas uma sombra de seu próprio nome.
— Ele atravessou em frente a uma bala para salvar sua vida.
— Não, ele atravessou em frente a uma bala para salvar a si mesmo. De alguma forma, a vida sem a única pessoa que lhe amava era o pior pesadelo do homem que não é capaz de amar alguém.
Outro silêncio oportuno fez-se entre eles. Ambos tinham tanto a dizer, que no final, acabaram optando pela conveniência da quietude. Só havia uma última coisa que Nate precisava saber.
— Por que Alex não está aqui? — Perguntou.
— Você sabe porquê.
— Não... por que Alex não está aqui? Por que desistir de fazê-lo enxergar?
— Gosto de dizer a mim mesmo que é para protege-lo, mas talvez eu só esteja me protegendo. Alex foi a melhor coisa que aconteceu na vida de Thayer Van Der Wall; e em poucas horas, este homem será só uma lembrança. Como eu poderia olhar em seus olhos e ver o momento exato em que se arrepende de ter me amado? Sem a beleza de tudo o que tivemos, seria como se eu nunca tivesse existido.
Nate abaixou a cabeça; já tinha ouvido o suficiente.
Quando Thayer finalmente abriu a porta, fez seu melhor para levantar com rapidez e encarou seus olhos vermelhos.
— Me sinto melhor agora — Thayer lhe disse. — Estou pronto.


O tempo novamente venceu Alex em seu jogo de espera. Da televisão à geladeira, da geladeira à varanda, da varanda ao sofá, Alex decidiu que havia esperado o bastante por Cameron. Deixou a lata de refrigerante em cima da mesinha, jogou o controle remoto para o lado e pegou a mochila. Seu movimento rápido acabou derrubando o abajur a sua direita, junto de todas as cartas não lidas que o namorado deixava acumular.
— Perfeito — Resmungou enquanto tentava juntar tudo.
O abajur não teria mais qualquer utilidade com sua estrutura despedaçada; quanto aos envelopes, talvez sobrevivessem a poça de suco da noite passada que caíra junto do copo. Dívidas e mais dívidas... Era apenas isso que os Ridell sabiam fazer? Estava impressionado.
Mas isso não era tudo.
Alex notou um pequeno envelope vermelho que fora escondido – talvez propositalmente – dentro de um livro. Tratava-se de um cartão postal, com uma mensagem carinhosa que apenas um familiar poderia escrever.
“Sinto sua falta. A Estônia é um país maravilhoso, mas não sem meu irmão” — Ele dizia.
Cameron nunca havia mencionado uma irmã antes, tampouco fizera Frank em todo esse tempo que se conheciam. Apenas não tiveram a oportunidade ou estavam escondendo algo? Não, Alex pensou. Se fosse verdade, Cameron teria lhe dito com antecedência.
Deixou o envelope no mesmo lugar onde encontrou e saiu pela porta. Caminhou estritamente até os elevadores, no fim do corredor, mas outra vez foi obrigado a parar. Medo e angústia misturavam-se de maneira obscura enquanto encarava sua caixa de lembranças com portas metálicas. Claustrofobia, estresse pós-traumático, síndrome do pânico, agorafobia... Alex sabia o nome para cada uma das possíveis causas de seus medos irracionais. Brett não apareceria de repente para mata-lo se entrasse no elevador, então por que era tão difícil? E por que foi capaz de superar apenas quando precisava desesperadamente ver Thayer?
Não, Alex freou novamente sua paranoia. Não havia mais espaço para nada que lhe fizesse mal.
Deu meia volta no corredor onde estava e abriu a porta para o vão de escadas. Mal chegara no quarto degrau e o elevador estava apitado. Ouviu-o abrir as portas um instante depois, seguido da voz abafada de Cameron dialogando com outra pessoa. Eram apenas sussurros indecifráveis até abrir a porta novamente e voltar ao corredor.
Cameron estava acompanhado de um homem com casaco preto e longos cabelos loiros que se assemelhavam aos de uma linda mulher.
— Tem certeza que seu pai não está? — Ouviu-o perguntar.
— Relaxa — Disse Cameron. — Ele nunca vem aqui. O apartamento é todo nosso.
— Você sabe exatamente o que um cara gosta de ouvir.
Aproximaram-se para um beijo ardente, e então bateram à porta.
Alex recuou três passos para o vão de escadas. Escorado na parede, seus olhos foram de um lado para o outro conforme o quebra-cabeças era formado. Conhecia aqueles cabelos loiros e aqueles olhos azuis cintilantes. Viu-o pela primeira vez há duas noites, quando decidiu pesquisar sobre o paparazzo responsável pela divulgação das fotos comprometedoras entre ele e Cameron. Fotos estas que Thayer usou para terminar seu relacionamento acusando-o de traição.
Era ele, Max Dashner, fazendo uma visita extraoficial ao suposto cidadão cuja vida havia explanado nos tabloides. O plano de Cameron nunca esteve tão claro: Comprar um paparazzo para ajudá-lo a forjar um falso flagrante que o separasse de Thayer. Desde os pequenos flertes a sua declaração de amor precipitada, tudo não passava de um jogo?
Alex não queria ficar para descobrir. A cada segundo no corredor de Cameron, no edifício de Cameron, perto de Cameron, poderia ser um adeus para o qual ainda não estava preparado.
Saiu correndo pelas escadas, sem olhar para trás, carregando uma consciência pesada de tudo o que a mentira lhe havia custado. Por um momento, mostrou-se disposto a nada além de caminhar sem rumo sob a brisa soturna de Nova York. Mas então a noite chegou, e não havia mais casa para retornar. Não havia mais Nate, nem Thayer, nem Judit, nem mesmo Cameron. Havia apenas lugar algum em meio a tanto anseio por pertencer.
Quando as primeiras gotas de chuva começaram a cair do céu, colocou o capuz sobre a cabeça e deixou que seu instinto lhe guiasse. Acabou parado em frente a boutique de Mia, no Upper East Side, com as duas mãos no bolso e a cabeça baixa. Sua irmã quase não reconheceu a pessoa por trás das roupas encharcadas que a encarava do outro lado da vidraça.
— Alex! — Correu para abrir a porta. — O que você está fazendo aqui? Entre.
Era uma boa pergunta. O que estava fazendo ali, se não era bem-vindo em lugar algum?
— Você deve estar congelando. Sente-se, vou pegar algumas roupas — Mia correu para os fundos. Voltou um minuto depois com uma toalha, roupas secas e uma xícara de chocolate quente.
Alex, porém, só estava interessado na toalha e na xícara de chocolate.
— Obrigado — Disse a ela.
Sentaram-se frente a frente na elegante sala de estar da boutique; Alex no sofá maior, Mia na poltrona branca.
— O que aconteceu? — Ela perguntou.
— Não sei se quero falar sobre isso.
Bullshit. Você está aqui por uma razão, não é?
Alex lançou-lhe um olhar angustiado, como os de quem não pode mais encontrar uma saída. Mia o reconheceria em qualquer lugar, para aonde fosse, em qualquer reflexo de si mesma.
— Eu estraguei tudo — Ele finalmente disse.
— Eu sei, Nate me contou o que houve.
— Essa não é a história toda.
— Eu não preciso ouvir a história toda para entender. Só preciso saber o que você fará a respeito.
— Não há nada a fazer. Essa é a minha realidade.
Mia assentiu com um suspiro. Estava tão perto de dizer-lhe a verdade, tão perto...
— O que você quer?
— Eu quero os últimos meses da minha vida de volta... — Ele virou o olhar, perdido em lembranças. — Para então fingir que nada disso aconteceu.
— Só há um problema. Isso não é mais sobre Alex Bennett. Havia pessoas contando com você, e nenhuma delas está disposta a esquecer.
— Por que você fala como se tudo fosse culpa minha?
Mia estava impressionada com sua audácia.
— Você não faz ideia do que está acontecendo, não é?
— O que está acontecendo? Por que todo mundo continua me dizendo a mesma coisa? Vocês fazem parte de uma seita ou algo do tipo?
— Não importa — Ela levantou, tomando posse de sua bolsa. — Preciso ir agora. Quer uma carona para casa?
— Não — Ele também ficou de pé. — Conte-me agora o que está acontecendo. Já chega desse maldito jogo.
Mia hesitou em busca de uma saída. Precisava lembrar da promessa que fez a Thayer e Nate, precisava lembrar que não era um segredo seu para compartilhar com quem nunca deveria.
— Você já sabe. Nate disse que Thayer estava doente e você não deu a mínima.
— Sim, ele me disse — Alex franziu a testa, incapaz de ligar os pontos. — Mas eu pensei que não estivesse falando sério. Se ele está doente...
De repente, Mia sentiu o corpo inteiro sucumbir à vontade irresistível de contar a verdade.
— Ele não está apenas doente, Alex. Ele tem leucemia, está morrendo a cada dia naquele quarto de hospital.
— O que?
— Os médicos disseram que ele tem apenas 18% de chances de sobreviver — Mia abaixou o tom de voz. — Eu sinto muito...
Alex estava visivelmente em estado de choque. O mundo a sua volta já não era mais o mesmo; aonde houvera vida e calor, agora predominava uma afrontosa ruína. Cada escolha imprudente, cada palavra não dita, cada mentira contada... todas realizaram arduamente seu papel em nome da injustiça. Se a solidão não era o bastante, tirar-lhe o que mais importava era o grande trunfo de suas consequências.
Leucemia, a palavra se repetia em eco dentro de sua cabeça. Agora as noites de suor gelado, os sangramentos e os acessos de vômito faziam todo o sentido. Como pôde se recusar a entender os sinais durante todo esse tempo?
— Leve-me até ele — Pediu à irmã.
— Não posso, ele não o quer por perto.
— Não dou a mínima para o que ele quer. Leve-me até ele.
— Não, Alex! — Ela exclamou. — Está acabado. Volte para casa.
— Você não espera que eu apenas ignore tudo isso, não é?
— Na verdade, eu espero. Você fez isso durante todo esse tempo, não deve ser tão difícil agora.
Alex decidiu não responder. Enquanto a via partir, repassava para si mesmo todas as informações que já tinha em busca do melhor plano. Mia disse que Thayer estava em um hospital; isso quer dizer que seu registro de internação já deve estar no sistema. Se pudesse acessar os registros dos principais hospitais de Nova York, o encontraria sem nenhuma dificuldade.
Kerr o havia ensinado corretamente. Ou pelo menos era com isso que contava.
Primeiro correu para a biblioteca pública mais próxima. Através de um dos computadores, conseguiu acessar o programa hacker que Kerr havia deixado na nuvem para algumas emergências. Uma vez instalado, tudo o que precisou fazer foi procurar pelo nome de Thayer Van Der Wall. Há três dias fora internado no Liberty County Hospital, a quarenta minutos do local onde se encontrava. Isso não seria um problema.
Alex pegou o primeiro trem na estação e esperou. Thayer, por outro lado, estava cansado de esperar. Sentou-se na cadeira branca a sua frente e respirou fundo. Travis, Nate, Mia, Andy, Kerr e Amber, todos estavam lá. Mas seu coração acelerado passou a compreender apenas o barulho angustiante da máquina de cortar. Não posso chorar, disse a si mesmo. Se eu chorar, todos verão o quanto estou apavorado. Que tipo de amigo eu seria se os deixasse mais preocupados do que já estão?
— Estou pronto — Disse ao doutor.
E então despediu-se para sempre de Thayer Van Der Wall.
As mechas começaram a cair paralelamente sobre seu corpo, uma atrás da outra, criando um véu de cabelos negros na capa hospitalar e ao redor do assento. A esquerda, nos lados, e então a direita; perdia mais fios a cada movimento circular da máquina sobre sua cabeça. O zumbir o deixava louco; era como sussurros vangloriando-se de sua derrota e questionando-o sobre a necessidade de lutar.
Está tudo bem, dizia a si mesmo. Grande parte de suas mechas já havia lhe deixado, e nada parecia ter mudado em seu ponto de vista. Era uma esperança ingênua, construída sob uma barreira que ele sabia estar prestes a desabar. A sensação de estar despido não demorou a cintilar sobre seus pensamentos mais otimistas, deixando-o cada vez mais desconfortável e os olhos cheios de lágrimas presas. Podia sentir que Thayer não estava mais lá; outra pessoa fora designada a travar sua última batalha, com apenas 18% de chances de não ver o pior acontecer.
Afinal, o que era pior? Viver o bastante até não conseguir reconhecer a si mesmo no espelho ou ir em paz, com a certeza de que o pior já passou? Aos olhos de Nate, qualquer realidade em que sobrevivesse era boa o bastante para se agarrar. Chorava junto dele, como sabia que o faria, e sem perder suas esperanças. Nenhum deles se atreveria a perde-las no momento exato em que Thayer não pode contar com elas.
Quando decidiu que vira o bastante, Nate olhou para o outro lado. Ainda podia ouvir o soluçar de Thayer, o coração acelerado de Travis, a respiração ofegante de Mia, o barulho ensurdecedor da máquina de cortar, que difundia seus pensamentos. Todos estavam quebrados, de uma forma ou de outra. Alguns tinham isso no olhar, outros escondiam por dentro. E presos em um estado de total impotência, o medo tinha um significado muito mais sombrio que qualquer outra coisa que já haviam sentido.
Acabou no próximo instante, ao cessar do ruído, mas não antes de fazer de Thayer alguém que ele reconhecia.
— Levem-no para o quarto — ordenou o doutor.
— Eu faço isso — Travis se ofereceu. Não havia qualquer objeção a suas vontades. — Tudo bem — Ajudou o irmão a se levantar. — Estamos aqui, para tudo o que você precisar — E o posicionou na cadeira de rodas trazida por Amber.
Conforme Nate esclarecia suas dúvidas com os doutores presentes, Thayer foi demonstrando uma singela melhora. Já não parecia descer a suas emoções; manter o controle, acima de tudo, tornou-se sua grande motivação.  
— Tudo bem, muito obrigado — Nate agradeceu antes de saírem.


Caminhavam lado a lado em direção aos aposentos quando Alex finalmente os encontrou. Seu olhar pairou sobre Thayer, mas não o mesmo que encontrara da última vez. A doença avançou até deixa-lo excessivamente magro, sem cabelos, movimentando-se através de uma cadeira de rodas, com olheiras e manchas espalhadas pelo corpo. Seus olhos vermelhos... havia tanta dor que sentia as costas mais pesadas apenas em encara-los. Era como se refletissem uma vida que não tinha mais forças para estar ali.
Alex sentiu os lábios trêmulos e a cabeça latejar. Sem poder reagir, colocou uma mão sobre a boca e simplesmente desmoronou. As lágrimas deslizavam dos olhos as bochechas, das bochechas aos dedos, e então desapareciam no chão. O que eu fiz? Perguntava a si mesmo. Eu sou um monstro.
— O que ele está fazendo aqui? — Nate gritou, avançando para cima do irmão. — O que você está fazendo aqui?
Andy e Kerr foram rápidos para impedi-lo.
— Eu sinto muito — Alex murmurou.
— Seu namorado estava morrendo com câncer enquanto você fodia com outra pessoa! — Nate gritava, debatendo-se nos braços dos amigos. — Você não merece estar aqui! Você não merece sentir muito!
— Por favor...
— Nate, já chega! — Kerr lhe ordenou. Era como imaginava, nada seria capaz de detê-lo naquele estado.
— Olhe para ele! Olhe o que você fez!
Alex novamente encontrou os olhos de Thayer. A única coisa que queria, a única maneira de ver justiça, era estar em seu lugar.
— Tirem Thayer daqui! — Andy pediu ao restante do grupo.
Travis, Mia e Amber tomaram posse da cadeira de rodas e levaram Thayer para longe da confusão. Alex, tentando segui-las, acabou dando de encontro com o irmão.
— Alex, vá embora! — Pediu Kerr.
— Eu não posso... — Alex soluçava.
— Alex, por favor!
— Fique longe da gente! — Nate gritava. — Fique longe!
Alex sabia que não tinha escolha. Ao invés de lutar, decidiu apenas aceitar a merecida derrota. Correu pelos corredores do hospital, tropeçando em tudo que atravessava seu caminho, até encontrar novamente a tempestade do lado de fora.
E gritou. Gritou o mais alto que pôde, perdido em passos arrastados na calçada e outra realidade. As luzes confundiam-no; eram pessoas, carros ou estrelas? Estavam por toda parte, com buzinas, trovões e vozes incompreensíveis. Só queria ir para casa. Só queria um pouco mais de tudo o que lhe entorpecia. E da inconsciência que não o permitia pensar.


Alex chegou ao apartamento de Thayer uma hora depois. A chuva já havia passado do lado de fora; e com ela, toda sua vontade de resistir. Olhou uma última vez para tudo o que lembrava o que um dia tiveram. Sentiu o aroma pela última vez de suas roupas e seu perfume. Uma última vez, permitiu-se agarrar em sua mais bela lembrança.


Thayer não era muito bom com eletrodomésticos. Naquela tarde de vídeo games, acabou transformando a lavanderia em uma piscina de espumas que cobria suas cabeças. Talvez ainda pensasse que o motivo da fuga de Alex fora o beijo inesperado, mas estava enganado. No momento em que fecharam os olhos e os lábios se encontraram, Alex soube que poderia se apaixonar perdidamente pelo nadador campeão que nunca vencia uma partida de Mortal Kombat. Era o bastante para saber que estava novamente em perigo.
Agora parecia uma grande ironia, daquelas capazes de lhe roubar um sorriso bobo sem que ao menos percebesse. Estava feliz por isso, de fato. Mesmo que tenha deixado as coisas irem longe demais.
Jogou-se no sofá, de pernas abertas e fitou o teto. Se a memória não lhe falhava, Thayer sempre deixava uma pequena poção da cocaína de Kerr escondida embaixo do estofado.
Não poderia estar mais certo.
Pegou uma caneta vazia, o pequeno espelho e o pó mágico para coloca-los em cima da mesa. O espelho foi usado como recipiente; com os dedos, espalhou o pó por toda a extremidade do objeto. E então sugou-o de uma vez, com a caneta no nariz. A sensação provou-se abrasadora desde o primeiro segundo. Uma leve coceira interna, como borboletas na barriga, regada de entusiasmo repentino e cobiças sexuais.
Em acedência a sua liberdade, fechou os olhos e ergueu a cabeça para o alto; um espasmo no tórax o havia pego de surpresa. Levando dois dedos ao nariz, notou o sangue que escorria para os lábios como cachoeiras vermelhas.
Seja rápido, ordenou ao universo. No próximo instante, jazia inconsciente no chão frio e úmido.

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Comentários
2 Comentários

Comentário(s)

2 comentários:

  1. Uau, de repente todo o palácio do Alex desmoronou. Olha, não vou mentir, adorei.
    Nossa, muito comovente essa cena do Thayer. O personagem tá passando por uma fase tão difícil, e que não tem "volta", infelizmente. Não sei qual será o futuro dele, mas desejo que o tratamento dê novas esperanças.
    Esse Cameron é um cretino, nossa. Mas não esperava menos dele, sempre teve cara de que iria mostrar as asinhas no futuro.
    Enfim, o comentário foi curto porque o episódio não focou em plots diversificados, mas acrescentou muita coisa à trama, adorei.
    Aguardando o dia em que os personagens vão conquistar uma vitória, porque até agora foi só tombo.

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    1. Verdade, Jairo. Esse capítulo foi inteiramente dedicado a Thalex. Nada mais justo que isso, já que ambos estão vivendo dramas importantíssimos nessa temporada.
      Pra falar a verdade, senti que minha missão foi cumprida quando terminei de escrever sobre o palácio do Alex desabando. Era uma coisa que eu sabia que precisava acontecer e vocês sabiam que iria acontecer. Gosto de mostrar como o carma pode atingir os personagens de The Double Me onde mais machuca (porque muitas vezes eles também merecem).
      Bom, é claro que Alex não vai morrer com essa overdose, então posso dizer que até o final dessa temporada é possível que compense todo mundo pelo que fez e TALVEZ (com caps lock sim) se vingue de Cameron. Imaginem, hahaha. Não digo mais nada sobre isso porque não posso dar ideias G_G
      E não se preocupe, em breve teremos algumas vitórias para comemorar. Só não posso prometer que virão cedo, porque antes teremos alguns conflitos para resolver xD

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