sábado, 6 de fevereiro de 2016

[Livro] The Double Me - 4x03: I Wanna Make This Clear, My Dear, That Heads Will Roll [+18]

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4x03:I Wanna Make This Clear, My Dear, That Heads Will Roll
Como um rato em uma armadilha, sua cabeça entra no caminho”.
 

O mundo por trás das cortinas vermelhas era um sofisticado ambiente de mesas e jogos de luzes. À esquerda da entrada, descendo os pequenos degraus para a pista, uma multidão de homens esfomeados ovacionava as cinco mulheres com roupas country que se apresentavam no palco-passarela. À direita, podiam vislumbrar as tendas de cortina laranja para todos os clientes dispostos a pagar por um pouco mais de privacidade. Um bar ao lado da fileira de mesas do primeiro salão e a Sweet & Hurt estava completa.
— Como você me convenceu a vir a este lugar? — Jensen perguntou, a voz abafada pela música.
— Não deveria fazer promessas enquanto goza — Nate olhava ao redor sem muito interesse
— Bem lembrado.
Sentados em frente ao bar, Amber e Andy fizeram um sinal com as mãos para que identificassem sua posição.
— Ali estão eles — Nate apontou com a cabeça. — Vamos.
Caminharam juntos da entrada principal até os amigos, passando por garçonetes com fantasias minúsculas de criadas, mulheres tatuadas no pole dance e um par de lésbicas que assistia ao espetáculo com o mesmo interesse que os outros homens.
— Finalmente — Disse Amber quando eles se aproximaram.
— Aonde Mia está? — Nate olhou ao redor.
— Falando com as dançarinas nos bastidores — Andy respondeu. — Ela disse que que nos encontra aqui em alguns minutos.
Uma salva de palmas e palavrões distorcidos ecoaram pelo salão enquanto as dançarinas country deixavam o palco. A próxima atração foi anunciada para entrar em cinco minutos.
— Tudo bem — Disse Nate. — Estamos no horário. Fiquem no bar e observem. Seguiremos com o plano.
— Não deveríamos esperar por Alex? — Jensen indagou.
Alex surgiu do outro lado do balcão, com um uniforme preto e branco, os cabelos tingidos de preto e lentes de contato castanhas. Era o tempo inteiro o garçom que limpava copos de frente para a adega desde que chegaram.
— Isso não será necessário. Agora, o que vai beber? — Apoiou seu peso nas duas mãos em cima do balcão.
Jensen estreitou os olhos brevemente.
— Algo me diz que essa ideia não foi sua.
— Você sabe o que dizem, confie no seu instinto — Nate tomou o restante da bebida de Amber com um só gole e foi em direção às cortinas laranjas. — Fiquem atentos.
— Espera! — Amber levantou. — Aonde você está indo?
Nate virou, recuando em pequenos passos para não interromper seu trajeto enquanto falava.
— Deixar meu pai orgulhoso — E seguiu seu caminho.
Embora precisassem de respostas, seus amigos se contentaram com as probabilidades que faziam jus ao sorriso maldoso com que ele se despediu. Amber sentou-se novamente e Jensen escolheu um dos lugares vagos. No trio que se formou em frente ao balcão, Andy era o integrante do meio.
— Pronto para fazer seu pedido? — Alex olhou para Jensen.
— Faça uma mistura. Eu pago para nós três a primeira rodada.
Alex pegou três copos no guardador e os organizou em fileira, em cima do balcão. Pegou duas garrafas, fez um malabarismo insano e despejou o conteúdo nos copos, sem se preocupar em derramar bebida para os lados. O mesmo foi feito com as próximas duas bebidas que completavam a mistura. O trio em frente ao balcão estava sem palavras.
— Onde você aprendeu a fazer isso? — Amber perguntou.
Cherry Bomb, três vezes por semana, primeiro ano do ensino médio. Minha mãe precisava do dinheiro e eu tinha uma amiga que trabalhava no bar.
— Vodka dupla com gelo — Um dos clientes pediu.
— Certo — Alex pegou a garrafa, fez outro malabarismo e despejou a bebida no copo. A azeitona e os cubos de gelo vieram logo depois. — Aqui está.
O homem agradeceu com uma nota de dez dólares. Alex só precisou de um instante para registrá-la no caixa e voltar a atenção para os amigos. Todos aqueles olhares impressionados ainda estavam lá.
— Vocês vão pedir bebidas a noite inteira só para me ver fazendo isso, não é?
Amber, Andy e Jensen trocaram olhares entre si. Nada melhor que seguir a sugestão de Alex em troca de um pouco de diversão.
Quanto a Nate, pouco havia encontrado nas tendas privadas. Comprara a de número um, quase escondida por trás de uma parede. Havia um sofá de couro vermelho, uma cadeira, um cinzeiro e apetrechos sexuais pendurados em ganchos na parede e organizados em fileiras horizontais. Devido a marca de suor que o último usuário deixou no estofado, decidiu acomodar-se na ponta esquerda, para o bem de sua higiene.
A dançarina exótica passou pelas cortinas alaranjadas logo então. Usava uma peruca loira e roupas de enfermeira que deixavam em evidência sua tatuagem em forma de ilha afrodisíaca em cima do umbigo. Os saltos altos e o batom vermelho serviam como um bem adicional a sua personagem. Pietra, Nate lembrou. Seu nome é Pietra.
— Que garoto grande e bonito — Ela disse. — Está machucado? — Fez um biquinho.
— Não mesmo.
Ela pareceu ignorar sua resposta.
— Precisa se cuidados? — Sentou-se em seu colo.
Com apenas um movimento dos dedos, livrou-se dos botões da roupa e esfregou os seios avantajados no peitoral de Nate. A curiosidade levou-o a olhar fixamente para seus atributos.
— Isso é... Ótimo — Disse, como se estivesse surpreso com a constatação.
— Você gosta? — Ela virou para o outro lado, encaixou suas cinturas e deixou-o fungar seu pescoço. Nate passava as mãos por suas curvas sem que pudesse decidir. Ou talvez seu corpo decidisse primeiro. — Você gosta disso?
Ele suspirou em resposta. Apalpou com cuidado a parte da frente da dançarina e descobriu que não havia nada por baixo da saia. O choque obrigou-o a voltar a realidade.
— Isso não vai dar certo...
— Diga algo sexy — Ela sussurrou para ele enquanto se remexia.
— Prefiro ouvir o que você tem a dizer.
— Terei que fazer tudo por você?
— Basta me dizer a verdade. Há quanto tempo trabalha aqui?
Pietra o encarou com a testa franzida.
— O que?
— Conversa me excita.
Ela deu de ombros e voltou a concentração para a dança outra vez. Nate aproveitou para formular a próxima questão.
— Parece ótimo trabalhar aqui... Você deve conhecer um número incontável de homens por noite — Ele esperou, mas a resposta não veio. Pietra estava ocupada demais mordiscando carinhosamente suas orelhas. — Há clientes que vêm em grupo ou...?
— Espera — Ela o olhou nos olhos, ainda sentada em seu colo. — Você é um policial?
— Policiais não pagam por informação — Nate levantou uma nota de cem dólares entre o indicador e o anelar.
Pietra foi dos seus olhos a nota em suas mãos, e da nota aos seus olhos.
— É sobre Madalena?
— É sobre tudo o que você sabe. Responda honestamente e eu prometo ser generoso.
— Preciso ir embora — Ela levantou no mesmo instante e correu para pegar suas roupas no chão.
— Não seja tão dramática.
— Vai se foder.
— Você provavelmente não sabe quem eu sou — Pôs-se em pé. — Se soubesse, tomaria cuidado com o que diz.
Pietra levantou com o olhar desconfiado, segurando suas roupas contra o peito. Nate era o homem mais bonito que havia encontrado desde que chegara à Sweet & Hurt, mas seus olhos verdes não lembravam ninguém.
— Você é um espião?
— Meu nome é Nathaniel Strauss. Sou o herdeiro e o presidente recém elegido da Strauss International. Coopere com minha causa e eu garanto que nunca mais precise trabalhar como dançarina exótica para sobreviver.
Pietra olhou pela brecha da cortina alaranjada. Nada além do movimento corriqueiro do clube podia ser visto.
— Sou apenas uma dançarina, como eu poderia ajudá-lo?
— Seu papel neste dilema é um pouco mais involuntário. Na função de dançarina exótica, deve conhecer todos os rostos que vêm e vão.
— Cada um deles — Ela garantiu, em tom sombrio. — Os homens voltam para casa, mas seus rostos me seguem durante a noite.
Nate hesitou em desconforto. Olhou para baixo por um breve momento e tentou recuperar as palavras que lhe fugiram repentinamente. Ela também tem demônios, refletiu. Olhe para ela. Como poderia não ter?
 — Estou procurando por um grupo de três ou mais pessoas que frequenta o clube há mais ou menos um mês. Há uma grande possibilidade de serem novos na cidade.
— Eu não sei... — Ela fitou o nada, pensativa. — Há muitos forasteiros todas as noites.
— Talvez um com quem você tenha entrado em contato; um que apresente sotaque de outra localidade.
— Tem esse cara... 1,80 de altura, barba por fazer e os olhos verdes. Ele está sempre com um grupo de caras estranhos que parecem ter dinheiro. Katy, a dançarina de verde. Ela teve um problema com um deles. Parece que tentaram beijá-la a força.
— Por que você acha que ele é o meu cara?
— O jeito que ele fala. Mal sei dizer se ele é do nosso país.
Nate sorriu satisfeito. Por não compreender, Pietra afastou os olhos e recuou meio passo.
— É tudo o que eu preciso saber — Nate tirou uma caneta e um talão de cheques do bolso e os posicionou em cima do sofá, a ponto de escrever. — Qual o seu sobrenome?
— Meers. É Samantha Meers. Pietra é apenas um pseudônimo.
— Muito bem, Samantha Meers... — Sussurrou ao escrever seu nome. Arrancou a primeira folha e estendeu a ela. — Pegue seu dinheiro e nunca mais apareça por aqui.
Pietra levou um choque quando notou o valor descrito no talão.
— Trinta mil Dólares? — Quase exclamou. — Você...? Trinta mil dólares...?
— Não se sinta especial, coração. É apenas porque você me lembra Bella Thorne — Nate beijou um lado de suas bochechas. Pietra ainda encarava o talão com um sorriso incrédulo. — Agora cai fora daqui — Ele ordenou, e ela obedeceu de imediato.
Com a cortina afastada, Nate pôde observá-la partir. Agora estava tão próximo do assassino de Quentin quanto Samantha estava de uma vida normal. Era disso que se tratavam os discursos de Quentin? Do privilégio de se conseguir o quer fazendo uma boa ação? Até ver o sorriso contagiante da pobre garota, apenas a chantagem e a ambição lhe faziam sentido. Infelizmente não era o bastante para se sentir melhor. Descobriria a identidade do assassino e o faria pagar, mas nada poderia trazer Quentin de volta.
Nate deixou a tenda com a cabeça fervendo em pensamentos. O homem de barba e olhos verdes era a primeira pista concreta que haviam encontrado desde que tudo aconteceu. Os The Judges começaram sua trajetória de crimes em Nevada, no oeste do país. Poderia ser este o sotaque que Pietra reconheceu em um momento de breve interação... ou poderia ser apenas mais um sotaque imigrante dos que atravessavam a fronteira do país ilegalmente.
De qualquer forma, ainda havia a questão do grupo que o acompanhava nas noites de farra. Apenas Katy seria capaz de descrevê-los com mais precisão, sendo ela uma vítima da conduta abusiva deste grupo em específico.
Quando deu por si, estava em meio a multidão extasiada que esperava a próxima apresentação. Amber apareceu repentinamente ao seu lado com dois copos de cerveja em mãos. O da direita, sem marca de batom, foi oferecido ao amigo.
— Encontrou o que estava procurando? — Ela perguntou, a voz abafada pelos gritos incessantes da audiência.
— Mais do que isso — Nate tomou um gole. Distraído como estava, Amber nem se preocupou em dizer qualquer outra coisa. — Aonde Mia está?
— Eu não sei...
As luzes do ambiente mudaram de azul para vermelho intenso. Enquanto os jatos de fumaça artificial rodopiavam pelo palco-passarela, o telão lateral iniciou uma contagem regressiva narrada por uma voz feminina cheia de luxúria. O próximo espetáculo estava batendo em suas portas.


Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. E o clube inteiro foi contagiado pelas batidas de Supermassive Black Hole. Em cima do palco havia uma mulher usando um voluptuoso traje de policial, que ia de botas de couro até os joelhos ao famoso chapéu de cadete. Em um segundo estava do lado de lá, e no outro havia passado por debaixo da barra de ferro em horizontal.
— Ai meu deus... — Nate sussurrou. — Essa é...?
— Mia? — Amber concluiu a ideia.
— Minha irmã?
Mia deu dois passos à frente e inclinou o corpo para que todos vislumbrassem suas curvas pela parte de trás. Enrolou uma mecha do cabelo nos dedos, desfilou até a extremidade do palco e abriu a jaqueta, no exato momento em que as batidas da música eram intensificadas, ostentando o tempo inteiro seu olhar confiante e audacioso. A lingerie preta e a tatuagem de coração no seio esquerdo estavam ao alcance dos olhos de todos, como um efeito hipnótico que a erguia ao centro das atenções.
— O que você está fazendo? — Leu as palavras nos lábios risonhos de Amber. Nate, ao lado dela, compartilhava do mesmo olhar impressionado.
Aplausos e gritos eufóricos seguiam a apresentação à medida que ela se livrava das últimas peças de roupa. Em outro momento de ênfase nas batidas musicais, agarrou o fio que pendia sobre a lingerie e libertou várias notas de dinheiro com um puxão. Não era sobre ganhar; era sobre resgatar seu próprio eu. A verdadeira Mia por baixo do dinheiro implorava para ver a luz outra vez.
— Essa é a minha irmã! — Nate gritou. Talvez para si mesmo, talvez para a plateia.
E Amber nada ouvia. Seus sentidos foram designados a identificar apenas uma coisa: A linda mulher diante de seus olhos.
Mia era uma verdadeira assassina em cima dos palcos. E todos imploravam para morrer.
— É ele, pegue-o! — Um homem careca ordenou.
Seus capangas apareceram silenciosamente e agarraram Nate. De cima do palco, tudo o que Mia pôde fazer foi assistir o irmão sendo escoltado para os fundos do clube enquanto Amber ficava para trás. Siga com o plano, disse a si mesma. Se souberem que somos irmãos, irei fazer-lhe companhia aonde quer que o levem.
A apresentação prosseguiu sem que percebessem sua hesitação.


O jantar foi marcado para às sete na residência Van Der Wall. Da uma às seis, Thayer manteve-se incomunicável em seu apartamento para saborear um pouco mais a solidão; mas nem mesmo o vice-presidente de uma companhia milionária estava isento das vontades de sua tia Monica. Estavam todos lá, se bem conhecia sua família. Pai, mãe, Travis, Tia Monica, seu marido Brad, a pequena Juliet e o primo Sebastian que não via desde que... talvez nem devesse lembrar.
Tudo estava pronto para o reencontro familiar, exceto a ilustre presença do herdeiro. Thayer havia encontrado seu primeiro impasse na porta da mansão, frente a frente à madeira. Mãe, eu estou doente, imaginou-se dizendo. Mãe, eu preciso de ajuda. Pai, há algo de errado comigo. Pai, eu tenho... Ainda não estava pronto para pensar nesta palavra.
Passou-se vinte minutos e ele continuava no mesmo lugar, procurando a melhor maneira de contar a verdade. Talvez eu devesse esperar, disse a si mesmo.
E a porta abriu-se diante de si.
— Senhor Thayer? — Perguntou Terry, a empregada de tranças negras e pele morena. — Há algo errado?
— Não, eu estava prestes a entrar.
— Tudo bem — Ela afastou-se junto da porta para que ele pudesse passar.
Uma vez do lado de dentro, não havia como voltar atrás.
Terry o levou até a sala de estar, onde toda a família estava concentrada. Theodor, Sophie e Travis estavam acomodados no sofá maior; Monica e Brad na poltrona do outro lado; e Sebastian junto da irmã no outro sofá. Já era de esperar que apenas Juliet não estivesse com uma bebida em mãos. A tradição Van Der Wall regia o direito a um drink amistoso antes de qualquer jantar.
— Thayer, querido! — Monica levantou, os cabelos ruivos duros como pedra em um corte pequeno cheio de laquê. — Dê um abraço na sua tia.
Thayer esperou que ela o alcançasse com seus braços rechonchudos. Da última vez que a vira, tinham a mesma altura. Agora ela parecia uma criança sob sua proteção.
— Ai meu Deus, quando você ficou tão alto? — Olhou para ele com um sorriso admirado. — E bonito? Não consigo imaginar do que as garotas são capazes de fazer umas com as outras para ganhar sua atenção.
Sebastian prendeu um riso. Thayer parecia ter sido o único a notar.
— Filho, estávamos esperando por você — Theodor levantou. — O jantar pode começar agora? Estou faminto.
— Primeiro vamos à sala de jogos — Disse Sophie, a elegante dama Van Der Wall. Thayer não deixou de reparar seus cabelos recém tingidos de loiro-acinzentado como disse que nunca mais faria.
— Sim, vocês prometeram — Monica enfatizou com um sorriso.
— Querido, voltamos em cinco minutos — Sophie deu um beijo na bochecha de Thayer e partiu liderando a pequena excursão de pais para o segundo andar. Juliet seguiu-os como uma sombra, deixando a sala de estar para os três primos.
Enquanto Travis e Sebastian conversavam nos dois sofás, Thayer tentava inutilmente contatar o namorado pelo celular através de mensagens. “Oi, é o Alex. Você sabe o que fazer após o bip” — Disse a secretária eletrônica. Thayer aproximou-se da janela para ter privacidade.
— Hey, sou eu — Sussurrou, observando a lua e o jardim do lado de fora. — Sei que você não pode atender agora, mas eu só queria ouvir a sua voz. Se este jantar for prolongado, talvez eu tenha que apelar para a secretária eletrônica novamente — Deu um ar de risos depressivo. — Te vejo no apartamento — E encerrou a chamada.
Um segundo em um silêncio desconfortável e as mesmas dúvidas de sempre começaram a se instalar. Por que não contar à Alex? Por que contar primeiro à sua família? Por que simplesmente não contar à Alex para que pudessem passar por isso juntos? Ele vai me abandonar, pensou. Ninguém amaria algo que está morrendo... Havia um longo caminho para entender os limites de cada um que permitiu-se amar.
Um deles era Travis. O irmão que nunca notou, a família que mais amou. Olhou-o de relance, curioso, e acompanhou seus passos até a frente da mesinha de bebidas. Travis estava aprendendo pouco a pouco a descontar suas frustrações num copo de whisky. Tal pai, tal filhos.
— Hey... — Thayer chamou, já ao seu lado. Fingiu estar preparando uma bebida apenas por precaução.
— O que? — Travis tomou a dose inteira em um só gole e deixou o copo em cima da mesa para servir-se outra vez.
— Pensei que não viria.
— Estou bêbado, mas não o suficiente para contrariar uma ordem de Theodor Van Der Wall.
Thayer assentiu calado. Pensaria bem em todas as suas respostas antes que o irmão pensasse em usá-las contra ele.
— O que você quer? — Travis perguntou-lhe.
— Travis, precisamos conversar. Todos nós.
— Você pode ir se foder — Tomou outra dose inteira em um só gole. — Não tenho tempo para seus esquemas — Olhou de relance para trás, bem a tempo de ver Sebastian interessado na conversa. — Nosso primo é apaixonado por você. Assim como todas as outras pessoas...
— Por favor, não faça isso.
— Fazer o que? Dizer a verdade?
Ambos já podiam ouvir as vozes de seus pais no corredor.
— Não estou pedindo para sermos amigos, estou pedindo uma chance para fazer o certo dessa vez — Disse Thayer.
— Uma chance seria muito mais do que um dia você me deu.
— Crianças, venham jantar! — Sophie chamou do corredor, atenta apenas a conversa dos pais.
Sebastian levantou do sofá, caminhou até a mesinha de bebidas e beliscou sorrateiramente a retaguarda de Thayer.
— Não chegue atrasado para a sobremesa, primo — Sussurrou em seu ouvido antes de passar pela porta.
Thayer soltou um gemido constrangido em resposta. Com o susto, acabou derramando whisky sobre seus sapatos.
— Isso foi bastante sutil — Travis tomou outro gole. — Pergunto-me se você ainda seria vice-presidente se nossos pais soubessem do que gostavam de brincar quando eram crianças...
— Isso não é justo. Eu sou culpado de muitas coisas, mas a vice-presidência não é uma delas.
— É isso o que você diz a si mesmo para dormir à noite? Que não roubou a vice-presidência das minhas mãos?
— Eu estava preparado para jogar limpo quando você começou a contar vitória. O motivo para eu ter entrado no jogo foi porque você já estava nele.
— E agora você está tentando provar que é mais íntegro que eu. Parabéns, Thayer. Você quase conseguiu me convencer de que o mundo gira ao seu redor.
— Eu sou o filho mais velho!
Travis deu um ar de risos depressivo. Aquilo havia doído mais do que gostaria de admitir.
— Vai ser sempre assim, não é? Você é o filho mais velho, você é o grande herdeiro, você é o único homem digno de carregar o nome da nossa família. O problema, Thayer, é que nenhum deles te conhece como eu conheço.
 — Meninos, venham para a mesa! — Era o segundo chamado de Sophie.
Uma fulminante troca de olhares e os irmãos estavam prontos para o jantar. Travis, talvez, mais que qualquer outro.
A mesa foi dividida entre as duas famílias; Monica, Brad, Juliet e Sebastian do lado esquerdo; Sophie, Thayer e Travis do direito. Como anfitrião, Theodor ficou na ponta no fim da mesa. O primeiro prato foi servido assim que todos se acomodaram.
— Hmm, coq au vin — Os olhos de Monica brilhavam. Só então Thayer e Travis entenderam porque havia sido apelidada de Tia Roliça.
— Está uma delícia, Tia Sophie — Sebastian disse após a primeira garfada.
— Marta é um gênio na cozinha — Sophie garantiu, em tom entusiasmado. — Comeríamos pizza no café da manhã se não a tivéssemos encontrado.
— Recentemente contratamos uma chef italiana — Monica revelou. — Vocês precisam provar seu Gnocchi, é divino.
Theodor resolveu opinar:
— Por que não trouxe ela para o país? — Bateu na barriga inchada. — Um homem precisa comer!
A mesa sucumbiu às gargalhadas. Travis, de todos eles, parecia ser o único a não apreciar o jantar. Mantinha a expressão dura o tempo inteiro, como se estivesse prestes a levantar e arremessar um prato na parede.
Thayer, por outro lado, decidira manter o humor sob a nova perspectiva. Talvez a vida não lhe tenha reservado muitos jantares. Talvez fosse a última vez em que a família Van Der Wall se reunisse para celebrar o simples fato de estarem vivos. Viver era tão importante... E mesmo assim, precisou de vinte e um anos e uma doença degenerativa para descobrir.
Thayer estava certo de que não poderia arruinar o momento perfeito... mas Travis tinha outros planos.
— Atenção! — Chamou, batendo a colher na sua taça de vinho. A tagarelice ao redor da mesa cessou em um instante. — Dizem que toda ocasião especial merece um brinde. Hoje, fomos agraciados com a visita de nossa Tia Monica e sua adorável família, e eu faço questão de ser o primeiro a dar-lhes as boas-vindas — hesitou enquanto os presentes pegavam uma taça. — Não sou bom com as palavras, então perdoem-me pela simplicidade do meu discurso. Mas meus pais me ensinaram que a família é o bem mais precioso que podemos ter. Amor está nas atitudes, nas decisões, no caráter, mas também está no sangue. É por isso que eu digo obrigado, Tia Monica. Obrigado por juntar-se a nós esta noite. Obrigado por todo o amor e dedicação que você depositou nesta família. Mas acima de tudo, obrigado por ter gerado seu bastardo infeliz que me proporcionou o melhor sexo da minha vida. Thayer também está agradecido por isso, não é, irmão?
Fez-se um mórbido silêncio em volta da mesa. Uma troca de olhares entre os familiares fora a única reação.
— Eu sei o que vocês estão pensando — Travis continuou. — Eu devo ter bebido demais e comecei a dizer coisas que arrependerei completamente amanhã. Bem, talvez eu não seja tão inocente. Deveria ter contado a vocês na primeira vez em que Travis me obrigou a vigiar a porta enquanto ele e Sebastian brincavam de “Esconde Minha Pica”, mas eu não era forte o suficiente, e tudo o que queria era a aprovação do meu irmão mais velho — Olhou para Thayer. — Como você dizia? “Fique na porta ou vou te jogar na piscina”?
— Já chega! — Theodor levantou do assento e bateu com uma mão em cima da mesa. — Não permitirei que você...
— Não permitirá o que? Estávamos fodendo nosso primo debaixo do seu nariz e você nem desconfiava. Você é apenas um porco brincando de milionário enquanto a vida está acontecendo lá fora.
Thayer estremeceu em seu lugar. Fitava o irmão com lágrimas presas, completamente impotente diante da verdade.
— Você já conseguiu o que queria. Pare agora.
— Não, é a sua vez de ouvir.
— Travis, você está passando dos limites! — Sophie alertou.
— Passando dos limites? — Uma expressão agonizante tomou conta do seu rosto enquanto ele prendia as lágrimas. Olhou para o irmão de imediato; era ele quem precisava ouvir. — O que é passar dos limites, mãe? Dizer a verdade ou convencer seu irmão a transar com você?
Suas palavras atingiram Thayer como uma bala. Fora de seu controle, uma lágrima escorreu pelo rosto. O silêncio cortava mais profundamente que qualquer coisa que ouvisse.
— Nós éramos duas crianças, mas você sabia que era errado, você sabia o eu aconteceria se o papai descobrisse e mesmo assim... Mesmo assim... — Travis caiu em prantos.
Thayer olhou para cada um dos presentes. Julgavam-no, crucificavam-no, odiavam-no. Ele mesmo passou a se odiar quando percebeu o que havia feito. Tinha onze anos, Travis apenas nove... Deveria saber melhor. Deveria protege-lo, não arruína-lo.
— Eu sinto muito... — Foi tudo o que pôde dizer antes de sair correndo pela porta.
Seguiu pela sala de estar e pelo jardim até encontrar a garagem. Suas mãos trêmulas mal conseguiam encaixar a chave na ignição, e mesmo assim estava disposto a se arriscar nas estradas. Qualquer coisa para não olhar nos olhos dos pais outra vez, qualquer coisa para se afastar do irmão. Contanto que estivesse distante, nunca poderia machucá-lo outra vez.
Girou as chaves e pisou no acelerador. Jack, o porteiro, implorou para que diminuísse a velocidade, mas Thayer decidiu ignorá-lo. Dirigiu em linha reta com o carro e arrombou os portões. O resultado de sua imprudência foi um corte na testa, um pneu furado e a inutilização da vidraça frontal. Estava livre agora, assim como Travis deveria estar.
O carro sobreviveu por cinco minutos antes de parar arruinado em um acostamento. Thayer saiu cambaleando e arrastou-se pela grama na tentativa de levantar. Conseguiu dar alguns passos, tremendo dos pés à cabeça, embriagado de uma dor insuportável.
Permitiu-se gritar o mais alto que pôde, mas nunca haverá uma resposta para aqueles que andam sós.

Nate foi levado através de corredores malcheirosos, portas decrépitas e ambientes escuros até chegarem ao que deveria ser o porão da Sweet & Hurt. Nada do que viu no trajeto até ali fazia jus ao enorme escritório diante dos seus olhos. As paredes eram de um carmesim aprazível, recheadas de quadros e tapeçarias de uma era antiga. O tapete no chão, da mesma cor, ostentava conforto e sofisticação. Nate fora colocado na poltrona preta em frente a mesa central, e a ela também só tinha elogios.
Da porta marrom ao lado da estante de livros, surgiu uma mulher de meia idade com um elegante traje empresarial e os cabelos negros e curtos como um homem usaria. Havia arrogância em absolutamente tudo a seu respeito; desde o sorriso vermelho no rosto a maneira como as pernas de bailarina projetavam seu doce caminhar. Madalena Fedrizzi, em carne e osso.
— Nathaniel Strauss — Sussurrou enquanto se acomodava na poltrona detrás da mesa. — Qualquer um em meu lugar diria que é uma honra.
— Minha reputação me precede? — Ele rebateu, tão cínico quanto sua anfitriã.
— E acima de tudo, lhe cai bem. Mas o que você acha de deixarmos as cortesias de lado e irmos direto ao ponto?
— Se assim preferir, não irei me opor.
Madalena o analisou.
— O que o trouxe ao meu clube?
— Isto é um impasse, Senhora Fedrizzi. Se eu mentir, você saberá. Se eu disser a verdade, não irá acreditar. Neste caso, talvez eu deva apenas me ater aos fatos.
— Pedirei que seja mais específico, Senhor Strauss — Seu tom de voz aveludado parecia proferir uma canção. A caneta que retirara do estojo e apertava obsessivamente servia como um adicional a seu comportamento metódico e territorial.
Theon e ela têm isso em comum, Nate notou. Mas não era a hora de trazer suas lembranças à tona.
— Tenho bons motivos para acreditar que os responsáveis pelos ataques criminosos a meus irmãos frequentam o seu clube.
— Ataques criminosos? — Madalena ficou na defensiva.
— The Judges.
A resposta a fez hesitar. Aquele nome significava mais para ela do que Nate jamais poderia imaginar.
— Posso perguntar o que o levou a esta conclusão? — Cruzou os dedos debaixo do queixo, apoiando os cotovelos na mesa.
— Um deles invadiu o apartamento do meu cunhado e conseguimos implantar um rastreador. Seguimos seus passos até um galpão abandonado onde encontramos um grande número de materiais carbonizados. Tentaram se livrar das evidências de que estavam lá, mas aparentemente, nem todas — Nate deslizou por cima da mesa o cartão que Mia e Kerr reconstruíram.
Madalena observou com cautela na palma de sua mão. O logotipo da Sweet & Hurt parecia se destacar dado a circunstância — e graças ao programa de computador que conseguiu identificar as partes não carbonizadas.
Um sorriso debochado escapou de seus lábios quando percebeu a ironia.
— Não se fazem mais criminosos como antigamente — Arremessou o cartão de volta à mesa.
— Ou crimes perfeitos simplesmente não existem.
— O que você quer de mim? Uma confissão? Não estou envolvida em nenhum grupo terrorista. Talvez satanista, mas você teria que vir ao clube nas quartas-feiras.
Nate sorriu.
— Eu acredito na sua inocência. Quanto a sua integridade, é muito cedo para afirmarmos.
— Adoro seu senso de humor — Ela deixou a caneta no mesmo lugar e debruçou-se sobre a mesa para encarar seu convidado mais de perto. — Mas meus cães não costumam ser tão receptivos.
Nate olhou por cima de seu ombro. A porta de entrada da sala era regida por dois homens; um careca de camisa quadriculada a direita, e um negro com chapéu de cantor de jazz a esquerda. Todos com mais de dois metros de altura e sem qualquer traço convidativo.
— Suas sombras? — Nate virou de volta. — Achei que faziam parte da decoração.
— Seu segundo equívoco. O primeiro continua sendo vir até meu clube desprotegido.


— Eu não teria tanta certeza — Nate deu uma olhadela em seu relógio de pulso. — São quase oito horas. Isso quer dizer que meus amigos já estão posicionados, a espera do meu sinal. Se algo acontecer comigo, farão bom uso da cocaína que distribuí. Você não quer adicionar tráfico de drogas a sua extensa ficha criminal, não é, Madalena?
Madalena o avaliou com os olhos.
— Você está blefando.
— É apenas um incentivo para convencê-la a colaborar.
— Eu não sou sua criada — Ela endureceu o rosto.
— Ajude-me a pegar os desgraçados e estará livre para ser o que quiser.
— E se eu me recusar?
Nate levantou do assento e curvou-se sobre a mesa com o apoio de seus braços.
— Quero deixar isso bem claro, minha querida. Cabeças vão rolar.


Os amigos se separaram em frente ao clube poucas horas depois. Mia voltou de carro com Andy e Amber, Alex chamou um táxi para voltar ao apartamento do namorado e Jensen levou Nate para a mansão Strauss.
Às dez da noite, todos os empregados de Judit já estavam se recolhendo. Nate cumprimentou Valeska, roubou alguns doces da geladeira e subiu as escadas. A porta do quarto de Lydia mantinha-se entreaberta quando passou por ela. Todas as noites, quando não dormia fora, encontrava a avó adormecida em sua poltrona, com os óculos ainda no rosto e um livro nas mãos. Dessa vez não havia como ser diferente.
Nate fez brotar um sorriso sereno nos lábios, fechando a porta logo em seguida. Mais alguns passos e estava em seu quarto. O que era para ser uma noite solitária foi levado pela escuridão no momento em que apertou os interruptores ao lado da porta. Thayer estava sentado do lado esquerdo de sua cama, com os cotovelos sobre os joelhos e o olhar fixo na janela. Àquela distância, Nate era capaz de notar suas mãos trêmulas e o rosto vermelho de tanto chorar.
— Thayer? O que você está fazendo aqui no escuro?
— Eu não sabia mais para onde ir... — Respondeu numa voz penosa.
Nate atirou o paletó no chão e se aproximou da cama.
— Algo aconteceu? — Sentou ao seu lado, tocando-o carinhosamente no ombro.
— Eu não sei... — Thayer fungou. — Eu estava na estrada, eu... não posso voltar para casa...
— Por quê?
Thayer o fitou momentaneamente, sem saber o que dizer. Os olhos inchados e o corte da testa fizeram Nate acreditar que estava envolvido em algum acidente.
— Não há mais ninguém lá... — Para mim, Thayer quis dizer.
— Okay — Nate assentiu. Soube que nada seria explicado enquanto ele não fosse acalmado. — Você pode ficar aqui, no quarto de hóspedes. Tenho algumas roupas que você pode usar... — Levantou para ir até a penteadeira e começou a remexer na primeira gaveta.
O segredo era mais do que Thayer poderia suportar. A verdade, consciente ou não, acabou encontrando seu próprio caminho.
— Nate... — Sussurrou amargamente. — Eu tenho câncer.
E o mundo simplesmente parou.

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4x04: This Is a Bad Town for Such a Pretty Face (13 de Fevereiro)
Eu sei, nosso nadador não deu muitos detalhes sobre sua doença, mas prometo que já na semana que vem revelarei mais detalhes sobre isso (e o que aconteceu entre ele e o irmão, sabendo que eram apenas duas crianças). Um velho fantasma do passado de Alex voltará a assombra-lo, então estejam preparados para uma luta pela sobrevivência. Até semana que vem <3
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