sábado, 30 de janeiro de 2016

[Livro] The Double Me - 4x02: Catholic Boys In Trouble [+18]

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4x02:Catholic Boys In Trouble
“Lembre-se, garotos não choram”.
 
No começo da tarde, Alex deixou a mansão Strauss e dirigiu até o centro de Manhattan. Encontrou Thayer semivestido em seu apartamento, com o telefone pendurado em uma orelha e a gravata azul em mãos.
— Tudo bem — Ouviu-o dizer. — Sem problemas, eu entendo. Retorne-me assim que puder — E colocou o telefone de volta no gancho.
— Hey. Quem era? — Alex jogou a bolsa em cima do sofá mais próximo.
— Minha secretária. Como foi no estágio?
Alex hesitou por um segundo, já na defensiva. Algo em seu rosto poderia estar dizendo tudo o que Thayer não deveria saber.
— Não trabalhamos às sextas, apenas de terça a quinta.
— Que engraçado — Thayer o assistiu tirar o casaco e jogar as chaves em cima da mesinha ao lado da porta. Seu tom de voz, assim como o olhar, exalava desconfiança. — Sua chefe acabou de ligar perguntando se está melhor da mononucleose e se precisa de mais alguns dias de folga.
— Eu? — Alex estremeceu. — Acho que é um mal entendido.
— Eu disse que o vi sair ontem de manhã, mas ela afirmou que você não apareceu. Não faço ideia do que pode ter acontecido.
Alex suspirou em derrota. A verdade, a sua ocasião, parecia ter duas facetas. A primeira regia um salvamento, a única maneira de proteger sua relação com Thayer através da honestidade. Mas a segunda demandava uma punição. Havia um preço a se pagar pelos pactos com o Diabo, como dizia no final de cada contrato.
— Eu não fui para o estágio.
— Para onde você foi?
— Cameron e eu fomos fazer Bungee Jumping.
Thayer deu um ar de risos depressivo, debochando da situação em que acabara de se encontrar.
— Cameron, é claro.
— Foi por causa dessa atitude que eu decidi não contar. Toda vez que ele está por perto você esquece que confia em mim e brigamos sem razão.
— E a culpa é minha?
— Não precisa ser culpa de alguém. Cameron é meu amigo e você é me namorado.
— Eu entendo que você tenha amigos, Alex, mas se começarmos a mentir um para o outro... — Thayer foi interrompido pelo toque de seu celular. — Se começarmos a mentir um para o outro... — Tentou ignorar o barulho, mas sabia que esta era sua deixa. — Merda! — Tirou o aparelho do bolso e levou-o a orelha. — Sim?
Alex manteve o silêncio enquanto ele dialogava. Podia ver em seus olhos a inquietude e a decepção; a impaciência e o cansaço. Parecia mais disposto que no dia anterior, e mesmo assim ainda parecia preocupado. Alex perguntou a si mesmo até onde as aventuras ao lado de Cameron levariam seu relacionamento. Thayer era o que tinha de mais precioso. E Cameron... Cameron era apenas a via mais fácil para sair de uma rotina deplorável.
— Nossa, eu esqueci completamente — Thayer segurou o topo do nariz com o polegar e o indicador, fechando os olhos por alguns instantes. A ansiedade havia vencido sua paciência. — Tudo bem, estarei lá. Não se preocupe — Encerrou a chamada com um clique. — Era o meu pai — Disse ao namorado enquanto guardava o celular no bolso. — Meus tios chegaram da Alemanha e faremos um jantar de boas-vindas na mansão. Está dentro?
— Não posso, — Alex respondeu, cauteloso até o último fio de cabelo. — Nate nos chamou para investigarmos aquele clube. É importante para ele.
— Tudo bem — Thayer assentiu em concordância.
Alex havia comentando sobre isso no dia anterior, quando chegou ao apartamento trazendo o jantar. As pistas que Mia encontrara no galpão abandonado os levaram a crer que o possível assassino de Quentin frequentava a boate Sweet & Hurt junto de seus companheiros — provavelmente membros dos The Judges. Nate precisaria de todo apoio necessário para juntar as peças e sobreviver no covil do inimigo.
Em aceitação a ausência de Alex, Thayer levou os pensamentos a Travis e a tudo o que ditou seu declínio fraternal nas últimas semanas.  Seria injusto pedir-lhe ajuda só agora que estava ciente de sua condição? O medo de sua família fechar-lhe a porta o fez ficar acordado a noite inteira, remoendo o resultado de seus exames até conseguir gravar as palavras. E ali estava ele, perguntando a si mesmo se realmente valia a pena passar por tudo isso sozinho. Talvez descobrisse no jantar, diante de todos os Van Der Wall.
— Preciso ir agora — Disse à Alex. Caminhou dois passos até o sofá, jogou a gravata na almofada e pegou a camisa que deixara ali. — Conversamos depois. — Avançou alguns passos e pegou as chaves em cima do balcão da cozinha.
— Não quero que você fique chateado.
— Não estou chateado — Parou com a mão na maçaneta. — Só preciso resolver algumas coisas agora. Volto antes do jantar.
 Thayer bateu a porta e caminhou estritamente até o elevador. Só quando as portas se fecharam pôde se ver livre da expressão apática com que se despediu do namorado. Havia um Thayer inseguro e angustiado por baixo de cada máscara que enfeitou seu rosto desde que voltara da clínica. Podia ouvir a voz do médico no lugar do seu coração palpitante, como o espelho refletia a imagem do irmão ao invés da sua. Eram tão parecidos, as pessoas diziam. E mesmo assim nunca apreciaram a companhia um do outro. Bem, isto poderia mudar.
Thayer dirigiu do Upper East Side ao extremo da cidade, onde se localizava a sede empresarial das Editoras Van Der Wall. De acordo seu pai, Travis havia ganhado um cargo menor que o colocava entre um assistente pessoal e uma secretária em um grau de importância. Tinha acesso a sala do Presidente, podia atender as chamadas e assistir a algumas reuniões, mas nunca interagir com os sócios sem o consentimento do pai.
Numa tarde de sexta-feira, Travis sempre seria encontrado assistenciando o Presidente em todas as suas vontades. Naquele dia, porém, Theodor estava em reunião, e Travis acabou tendo a sala do pai só para si e sua companheira. Chamava-se Lynda, se a memória de Thayer não lhe falhava. Se falhasse, poderia chama-la de Weasley como todos os outros que faziam grande coisa de seus cachos vermelhos.
— Hey... — Thayer murmurou ao adentrar na sala.


Travis levantou os olhos do documento que estava analisando. Fulminou o irmão, de cima a baixo, e então correu em sua direção. A velocidade os fez ir de encontro a parede, as costas de Thayer absorvendo toda a força do impacto. O duelo não poderia mais ser evitado.
Foram da porta ao sofá, do sofá a mesa, do chão a parede, e com eles toda a decoração da sala do Presidente. Socos, chutes, gritos, arremessos, palavrões... nada parecia ser o suficiente para os dois irmãos.
— Não, por favor... — A Weasley sussurrava amedrontada em meio à confusão, apertando a pasta branca sobre seu peito.
— Aqui está a sua vice-presidência — Travis disse ao irmão antes de lhe acertar um soco.
Thayer caiu com a cabeça próximo a mesa, mas levantou rapidamente para dar o troco. O quadro da santa ceia de trinta mil dólares que decorava a parede esquerda da sala teve um fim inesperado na cabeça de Travis com apenas um movimento rápido de seu irmão. Travis, por sua vez, tentou prendê-lo em uma gravata e acabou fazendo com que caíssem por cima da adega de vinho.
Furiosos, molhados e sagrando, cada irmão tentou infligir o máximo de dano que seus corpos permitiam. Thayer teve parte de sua camisa rasgada e a bochecha arranhada; Travis ganhou uma mordida no ombro e uma enorme rachadura no lábio inferior. Weasley gritava sem parar, como se o desespero lhe oferecesse a proteção que precisava.
O embate só chegou ao fim quando ambos os irmãos estavam esgotados. Travis socou o irmão uma última vez e se jogou no chão ao seu lado, de peito para cima. Pareciam competir até mesmo na respiração ofegante que inflava e murchava seus peitorais por baixo da roupa.
— Eu estava precisando disso... — Travis sussurrou.
— É, eu também — Thayer fez uma pausa para respirar melhor. — Mas Jesus não. — O que seu pai faria quando descobrisse que seus filhos não estavam se comportando como bons católicos e haviam destruído a pintura mais sagrada já feita nos últimos dois milênios?
Travis virou a cabeça para fita-lo. Agora que os golpes cessaram, seus hematomas ficavam ainda mais visíveis. Havia feito um bom estrago no rostinho do Príncipe Van Der Wall.
— O que você está fazendo aqui?
— Precisamos conversar.
— Não temos nada a tratar — levantou-se e caminhou até a mesa. Não lembrava de ter visto Weasley ir embora, e nem do momento em que seus gritos cessaram. Aonde ela estava?
— Mas nós temos — Thayer fez esforço para sentar-se escorado na parede. — Estava esperando que pudesse deixar de fora os detalhes sobre nosso inconveniente no jantar de hoje à noite.
Travis suspirou, com uma mão na têmpora direita. A dor de cabeça o teria derrubado no chão se não estivesse apoiado com a outra mão sobre a mesa.
— Merda, o jantar... Mamãe ficou de pegar Tia Monica no aeroporto.
— Elas já estão em casa. O jantar começa às sete.
— E daí? — Travis o fitou por cima de seu ombro.
Thayer engoliu em seco, sentindo o gosto metálico de sangue. Havia uma chance do irmão ter sido completamente saciado pela briga de minutos atrás. Se havia melhor momento para fazer sua revelação, não saberia afirmar.
— Travis, eu não estou bem. Preciso da sua ajuda...
Mas seu irmão debochou com um ar de risos. Cuspiu sangue no tapete e limpou a boca com a manga da camisa.
— Sabe o que aconteceu depois que o pai me flagrou na sala de reuniões com o seu gigolô? — Sussurrou enigmático enquanto observava a tapeçaria intacta atrás da cadeira de Theodor. — Ele me colocou dentro do carro, dirigiu até a mansão e me socou no rosto. Suas exatas palavras foram “Você não merece carregar o meu nome”. Depois de passar a vida inteira me esforçando para nunca ouvir essas palavras, elas finalmente foram ditas; e o mérito é todo seu. Você é o herdeiro, não é? O medalhista de ouro, o grande Thayer Van Der Wall. Até Nate preferiu você a mim, então por que alguém tão insignificante como eu deveria tomar posse do legado da família?
— Eu nunca o vi dessa maneira.
— Você nem ao menos me viu... — Balançou a cabeça negativamente com um sorriso sarcástico, outra vez debochando de si mesmo. — Lembra quando éramos crianças e eu implorava para vê-lo nadar na piscina do colégio? Você nunca me deixou ir. Thayer Van Der Wall não poderia aparecer na frente dos amigos com seu irmão desdentado.
Thayer lembrava muito bem desta época. Lembrava da sunga azul que lhe dava sorte, do garoto de olhos claros que sempre o assistia nadar, do irmão sem dentes e com catarro escorrendo do nariz implorando para ver seu irmão campeão dentro da piscina... Travis estava certo, ele sabia. Tudo começou com o egocentrismo de um inocente Thayer Van Der Wall, aos seus nove anos de idade.
— Eu não sou o mesmo de antes.
— Eu também não. E agora não preciso pedir permissão para chegar aonde eu quero — Travis virou-se para encará-lo. — O que quer que esteja precisando, sentirei prazer em negar. Você está por conta própria.
Thayer não se atreveu a responder. Tragou todas as verdades não ditas e desejou que o irmão encontrasse seu próprio caminho. Ele estará melhor sem mim, pensou. A única coisa que posso fazer é poupá-lo de me ver morrer. Não lhe parecia haver outra escolha.
Recém-chegado de sua reunião, Theodor adentrou a sala em passos cautelosos para não se ferir nos destroços. Um ciclone parecia ter deixado em ruínas tudo o que conhecia como escritório particular.
— O que, em nome de Deus, aconteceu por aqui? — Franziu a testa.
Thayer e Travis apontaram um para o outro em acusação.
— Foi ele — Disseram em uníssono.
E por um momento voltaram a ser crianças.


Uma hora se passou enquanto Jensen observava o movimento da avenida. Seguiu Theon desde o começo da tarde, após o almoço, e foi levado do edifício da Strauss International à uma galeria de arte famosíssima no centro da cidade. Tomou o cuidado de estacionar seu carro do outro lado da rua, a vários metros da entrada; uma distância adequada para passar despercebido e ter uma ampla visão do carro de Theon, parado no acostamento principal.
Quando notou o primeiro sinal de movimento, Jensen atentou para a entrada. Viu Theon deixando a galeria ao lado de uma mulher loira usando terno e salto altos. Theon apertou sua mão, sorriu em resposta, sussurrou alguns gracejos e caminhou em direção ao carro. Jensen girou a chave de ignição ao mesmo tempo em que ele. Parecia que estavam prestes a dar outro passeio.
Dirigiram para oeste, na maior parte do trajeto; Theon na frente, em seu Lamborghini preto, e Jensen atrás, em uma gloriosa BMW cinza. Vinte minutos depois estavam em Hampton Bays. Um enorme estádio preto e branco erguia-se adiante, rodeado por tendas da mesma cor e por uma pista de areia que circulava a área. Corrida de cavalos, Jensen reconheceu. Houve uma época em que era o único lugar onde seu pai desejava passar as tardes de sexta-feira.
Theon estacionou em sua vaga reservada, deixando para Jensen um posto nada cordial entre os últimos carros da fileira. Jensen esperou alguns instantes no mesmo lugar antes de segui-lo para a aglomeração. Com o próximo arranque tomando início, os comparecentes deixavam suas tendas para encontrar o lugar de honra em seus camarotes. Reconheceu vários rostos entre a multidão, e até foi obrigado a cumprimentar um ou outro admirador de seu pai.
A essa altura, já tinha perdido Theon de vista.
— Próximo arranque em dois minutos — Ouviu dizer o locutor.
Passou rapidamente o casal que caminhava a sua frente e dirigiu-se ao gramado. Estava agora atrás dos assentos. Podia ver a pista, os cavalos em suas casas e o movimento de pessoas que acomodavam-se em seus lugares. Theon não estava em lugar nenhum.
— Próximo arranque em um minuto — Soou a voz do locutor outra vez.
Jensen olhou para os dois lados. Havia pensado em tudo, menos em procurar atrás de si mesmo.
— Este é o último lugar onde pensaria encontra-lo, Senhor McPhee — Theon sussurrou. Jensen virou a tempo de vê-lo apertando obcessivamente uma caneta em suas mãos. — Justo no dia em que a sorte está a meu favor. Devo temer seu palpite?
— A menos que duvide de sua sorte.
— Eu sempre duvido da minha sorte. Não perdi um olho por ser cauteloso.
— É olho por olho, não é?
Theon mostrou um sorrisinho presunçoso.
— Não sei o que está sugerindo, mas garanto que haverá tempo para discutirmos quando a corrida terminar.
Jensen ouviu os sons de largada ecoando atrás de si. A multidão nos assentos parecia fazer a terra tremer com sua torcida gritante.
— Não sou estúpido, Theon — Deu um passo à frente. — Conheço o jogo que está jogando com Nate.
— Deixe-me adivinhar. Você é o namorado territorial e eu o seu grande rival. Essa é a parte em que você me pega pelo colarinho da camisa e sentencia sua ameaça?
 — Tudo o que você precisa fazer é ficar longe dele. E então poderá assistir a suas corridas sem ser incomodado.
Theon fingiu estar tomando uma decisão.
— Nada mais justo. Agora você só precisa informar ao seu namorado.
— Não cairei nessa.
— A decisão é sua — Theon deu um passo à frente, a voz enigmática. — Mas se eu fosse você, perguntaria a ele aonde estava na tarde de ontem. Tenho certeza que tudo será esclarecido.
Jensen o fitava sem reação. Era tarde demais para fingir que não estava em dúvida.
— O que Nate e eu temos não pode ser arruinado com blefes. Guarde-os para o pôquer — Deu meia volta.
— Seja como for. Nada mudará o fato de que eu o fodi de todas as maneiras possíveis.
Jensen o puxou pelo colarinho da camisa e o imprensou contra o pilar de ferro da arquibancada. A sete centímetros um do outro, Theon sorriu nervosamente. Então ele mesmo o namorado territorial.
— Fique longe dele ou você me verá outra vez — Jensen proferiu, olhando no fundo de seu único olho verde.
— Você promete?
— Este é seu único aviso — E saiu pelo mesmo lugar por onde entrou.
Livre de suas mãos, Theon pôde respirar aliviado. Ajeitou a manga de sua camisa e observou o rival partir.
— Você não sabe o quanto esperei por isso... — Sussurrou para si mesmo.
As lembranças vieram como se tivessem sido convidadas. Seu corpo permanecia no mundo real, mas a mente insistia em leva-lo para outra época. A sala cheirava a álcool e produtos de limpeza. À esquerda ouvia os apitos de uma máquina; à direita, a irritante melodia do tráfego. O mundo estava dividido quando acordou, e ele mal conseguia lembrar o porquê.
Dois dias antes estava na cama ao lado de Nate, fazendo planos para o futuro. E então seus sonhos sucumbiram a uma sala branca de hospital. Meu olho, ele lembrou ao tocar o curativo. O que aconteceu? Aonde Nate está?
Sentou-se na cama e olhou ao redor. No desespero de sua incerteza, arrancou os cabos que o ligavam a máquina e colocou os pés no chão, os braços sangrando. Cambaleou para um lado quando a vista embaçou, e então seguiu pela porta com o apoio dos móveis. Não tinha forças para caminhar, mas insistiu em cada passo que o levava para fora. Tudo o que importava era que Nate estaria ali em algum lugar.
— Theon! — Camille apareceu repentinamente. — O que você está fazendo?
— Aonde Nate está? — Ouviu sua voz arrastada perguntar.
Ela tentou agarrá-lo para evitar uma queda brusca.
— Você não deveria ter saído do quarto! Enfermeiras!
— Eu não quero enfermeiras! — Theon a empurrou. — Aonde Nate está? O que fizeram com ele?
As enfermeiras chegaram com prontidão. Theon cambaleou no colo de ambas, empurrou-as na parede e correu de volta para seu quarto. O hospital inteiro havia parado para assistir ao espetáculo.
Quando Camille e as outras enfermeiras passaram pela porta, viram Theon prestes a pular da única janela.
— Não se aproximem! — Ele gritou, um passo de uma queda de três andares. Mal conseguia ficar de pé e manter os olhos abertos ao mesmo tempo.
— Fique calmo — Camille ergueu uma mão. — Eu sei que você está muito confuso neste momento, mas você precisar me ouvir.
— Não! Aonde Nate está? O que vocês fizeram com ele?
— Você não se lembra?
Theon olhou nos olhos de cada uma delas. Mais dois médicos haviam chegado para presenciar sua crise.
— Nós deveríamos... Ele disse...
— Nate se foi, Theon — Camille mantinha o tom de voz vigilante.
— O que...? Como...?
— Ele desapareceu. Você foi dopado na noite do incidente.
Theon resgatava a memória a cada palavra que ouvia. O sexo e Nicolai. As pinturas e a luta. Seu olho... A caneta, sabia que havia uma caneta.
— Não... — Sussurrou. Lexi, Nate e Nicolai estavam lá. O dinheiro, a maleta...
— Os médicos disseram que poderia haver efeitos colaterais — Agora a voz de Camille era apenas um sussurro abafado. — Você está bem?
Theon cambaleou para frente, a vista embaçada. A dor física das lembranças o fazia gemer em negação. Lembrava do dinheiro, do vinho e do beijo. Nate fizera questão de condená-lo com um beijo. Amor é um investimento, ouvia-o dizer. Mas se um dia houver a necessidade, pode ter certeza que amarei a mim mesmo.
E então seu mundo entrou em colapso.
— Não! — Gritou o mais alto que pôde. Colocou as mãos no carrinho de auxílio e arremessou-o no chão. — Não! Ele me amava! Não!
Camille fez sinal para que os dois médicos avançassem, mas Theon conseguiu livrar-se de ambos em sua loucura agressiva. A pior parte assolou sua consciência um momento depois, quando vários enfermeiros entraram no quarto com um sedativo. A última coisa que lembrava era o rosto de Nate desvanecendo junto de sua consciência. O resto fez-se apenas em uma dolorosa escuridão.


O crepúsculo vespertino desaparecia no horizonte quando Jensen chegou ao apartamento. Nate avançou alguns passos para fora da calçada e entrou no carro pela porta do passageiro. Assim como o namorado, trajava vestes singelas e informais para que passassem despercebidos entre os clientes da Sweet & Hurt; Nate com uma camiseta preta sem estampa e uma calça da mesma cor, Jensen em seu casaco marrom e um par de botas de cano baixo.
— Aonde estão os outros? — Jensen perguntou.
— Somos só nós. Alex e Mia foram na frente.
— Tudo bem — Jensen girou as chaves e pisou no acelerador. Se Alex e Mia já haviam partido, poderia julgar que Amber e Andy estivessem com eles.
Nate deitou a cabeça no banco, decidido apenas a esperar. Carros e edifícios passavam diante de seus olhos sem despertar-lhe qualquer anseio ou curiosidade. Quentin recebera a misericórdia de uma morte rápida? — A pergunta resistia a sua recusa desde que tudo acontecera. Quanto mais insistia naquele mistério, mais tinha certeza de que não há nada misericordioso na morte.
Theon também estava lá, vagando sem permissão através de lembranças inóspitas. Ultimamente via seu rosto com mais frequência do que gostaria. Pedia perdão, se pudesse falar. E se a voz lhe faltasse, apenas ouvia. Jensen não carece de motivos para amar a pessoa que você se tornou. Theon não seria a si mesmo se não tentasse destruir seu relacionamento com Jensen. Sabendo disso, restava uma única questão: A que ponto a verdade se bifurca para dar vida às mentiras?
A dor nos transforma, mas o mundo continua o mesmo. Seria possível? Jensen não enfrentou dificuldades quanto a aceitar seus sentimentos pelo novo Nathaniel Strauss, o que é muito mais do que se pode dizer sobre o Jensen infiel que buscava nos outros o que seu namorado não tinha a oferecer. Se ainda fosse o velho Nate, teria Jensen ao seu lado completamente satisfeito? Isentando a perfeição, ainda haveria motivos para ele ser fiel? Estava tão apaixonado que esqueceu de todas as razões que os levaram a separação apenas para tê-lo outra vez em seus braços.
Nate virou a cabeça para olhá-lo nos olhos, a pergunta na ponta da língua.
— O quanto você me ama?
Jensen franziu a testa. Sempre que podia, intercalava uma boa olhadela na estrada e no namorado.
— De onde isso saiu?
— Responda.
— Bom... — Ele sorriu. Até então achava estar fazendo parte de um novo jogo que Nate inventou. — Eu interceptei uma bala com o meu próprio corpo para que você não se machucasse. Podemos dizer que eu o amo um pouquinho.
— Preciso que responda honestamente.
Jensen o olhou nos olhos por um segundo em busca de esclarecimento. Não era um jogo, agora tinha certeza. Talvez tanto o quanto sabia que a consciência de Nate implorava pela verdade.
— Honestamente? Eu não sei. Descubro uma coisa nova que eu amo em você todos os dias, e é assim que eu quero viver os próximos sessenta anos. É bom o suficiente para você?
— Sim... — Nate deitou a cabeça de volta no banco e fitou sua janela.
— Quer me explicar o que está acontecendo?
— Eu não sei... — Virou para ele. — Estou com medo, Jensen. — Queria ter coragem para perguntar se ficariam juntos acontecesse o que acontecesse.
— Eu sei — Jensen tirou a mão direta do volante para encontrar a dele. — Mas estou aqui. Você nunca mais vai estar sozinho.
Nate já não tinha tanta certeza disso.
Fizeram o resto do percurso em silêncio através da cidade. Jensen ligou o rádio na primeira estação onde reconhecera uma boa música e Nate aproveitou para cochilar.  Após uma longa travessia pela ponte do Rio East, estavam no coração do Brooklyn.
O Sweet & Hurt era um clube de strip tease localizado na rua Court, pertencente à família Fedrizzi por três gerações. Seu logotipo ostentava a silhueta de uma mulher sem roupas segurando um chicote, com detalhes em neon rosa que lembravam doces de criança. A entrada, porém, era exclusiva para sócios. Havia dois seguranças em frente ao que parecia ser um albergue modesto; estavam lá para guarnecer o perímetro e impedir a entrada de penetras. Nate e Jensen tiveram que mostrar dois cartões em código para que lhes abrissem as portas e pudessem descobrir o mundo da Sweet & Hurt do lado de dentro.
Caminharam pelo corredor estreito em linha reta, dobraram a esquerda duas vezes e saíram num ambiente com baixa iluminação. Adiante viram a entrada, uma enorme porta com uma cortina vermelha que separava a escuridão da grande festa. O logotipo da mulher dos doces estava lá, no centro superior da entrada, dando boas-vindas aos que fizeram seu caminho até ali.
É doce e machuca, Nate pensou. Assim como a vingança.

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4x03: I Wanna Make This Clear, My Dear, That Heads Will Roll (06 de Fevereiro)
Semana que vem conheceremos o mundo da Sweet & Hurt. É doce e machuca, assim como a vingança rs.
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