sábado, 23 de janeiro de 2016

[Livro] The Double Me - 4x01: Speak of the Diablo (Season Premiere) [+18]

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4x01:Speak of the Diablo (Season premiere)
“O preto lhe cai bem”.

  Alex acordou com a respiração de Thayer sobre seu peito desnudo. Tentando ignorar a alvorada, manteve os olhos fechados e o corpo imóvel, certo de que o sono o tomaria novamente com um pouco de esforço. Lembrava vagamente do sonho que fora interrompido por seu relógio biológico. Havia uma montanha, água verde, pássaros voando; definitivamente um carro esportivo e vento batendo sobre seus cabelos aos cem quilômetros por hora.
Com m braço em volta de seu corpo, Thayer moveu a cabeça e soltou um grunhido sonolento.
— Que horas são? — A voz soava rouca e fadigada.
— Ainda temos algum tempo... — Alex murmurou em resposta.
Suas tentativas de voltar para o mesmo sonho terminaram com o toque azucrinante do despertador. O casal suspirou em discórdia ao mesmo tempo, mas apenas Alex se moveu para interromper o barulho. O visor do aparelho indicava às sete em ponto.
— Preciso ir — Disse para Thayer.
— Isso não é verdade.
— Faltar ao segundo dia de trabalho não transmite qualquer confiança.
— Então peça demissão — Thayer o apertou contra seu corpo, ainda de olhos fechados.
— Tentador — Alex esfregou os olhos. — Mas só vou para Yale se jogar de acordo com as regras.
— Yale de novo... — Thayer afastou-se, mesmo relutante.
Foi só então que Alex notou seu estado. Roupas encharcadas de suor, olhos fundos, a pele pálida e os lábios sem cor. Embora tivesse dormido a noite inteira, Thayer passava por alguém que festejou até às seis da manhã.
— Está tudo bem? — Alex perguntou-lhe, passando os dedos sobre a enorme mancha de suor noturno que estampava a camiseta cinza do namorado.
Thayer olhou para baixo por meio segundo. Está acontecendo outra vez, pensou. Não, está piorando a cada dia.
— Isso explica a dor de cabeça — Sua resposta veio em seguida. Para aquela situação, Thayer já havia bolado um plano.
— Você está doente?
— Deve ser apenas uma enxaqueca. Era só o que faltava... — Thayer esticou-se até o criado mudo, pegou uma pílula branca e engoliu de uma vez.
— Mas você se sente bem? Quer que eu fique?
Thayer teria aproveitado cada benefício da proteção do namorado se não estivesse determinado a afastá-lo. Se seu corpo começaria a reagir daquela maneira, Alex precisava manter distância. O estágio na gráfica havia chegado em boa hora, no fim das contas. E havia aquela coisa que precisava fazer...
— Não é nada de mais. Só preciso de um banho gelado e de mais algumas horas de sono.
— Se quiser que eu ligue para o Doutor...
— Alex, não seja paranoico — O beijou para constatar seu argumento. — Você não vai querer estar aqui quando eu casar com o banheiro.
Alex deu um sorriso nervoso.
— Tudo bem. Me ligue se precisar de alguma coisa, okay?
— Eu prometo — Thayer avançou para outro beijo, intercalado por sorrisos.
— Preciso ir agora.
— Tudo bem.
Alex afastou os lençóis e saiu da cama. Thayer acompanhou com os olhos sua trajetória até o banheiro. Quando o viu fechar a porta, sentiu-se livre para desmanchar a expressão casual em seu rosto. Precisava saber com o que estava lidando. E antes que perdesse Alex pelas mentiras.
Meia hora se passou enquanto Alex fazia seus rituais matinais. Tomou banho, escovou os dentes, escolheu um cardigã para usar, provou um pouco de cada iguaria que Thayer ordenara para o café da manhã, pendurou a alça da bolsa no ombro esquerdo e saiu às ruas. A brisa quente do verão nova-iorquino estava mais agradável do que se lembrava, e somada a seu bom humor, parecia um convite à uma doce caminhada.


Seguiu com as mãos nos bolsos, em passos lentos, com a bolsa marrom batendo contra sua cintura no ritmo das pernas. Vislumbrava agora o tráfego nauseante das avenidas; operários movendo peças de arte, moradores de rua dormindo nas calçadas, jovens garotos passeando com cachorros e meninas dos colégios de elite do Upper East Side. Ao passar por elas, notou o momento em que a loira de tiara rosa o encarava, virava para as amigas e dizia qualquer coisa que as faziam rir e lançar-lhe um sorriso provocante. Alex sabia que haviam gostado do jovem esbelto que se tornara. E pela primeira vez sorriu satisfeito.
Seguiu em linha reta na mesma rua, e duas ruas depois fez uma curva para o lado que seguia a entrada de uma grande igreja. Viu através das grades o perambular dos jovens pelo jardim florido; crianças e adolescentes de no máximo dezesseis anos, com roupas longas e esquisitas que ratificavam o conservadorismo de seus pais. Pareciam tão felizes na presença de sua divindade que Alex perguntou a si mesmo se não estava sendo injusto em sua concepção. Não poderia haver apenas o lado ruim, o lado dos criminosos que usam sua religiosidade para justificar seus crimes. A inocência e a paz estavam ali, bastava enxergar. Ou simplesmente acreditar.
— Pretende se juntar a festa? — Ouviu a voz de Cameron. Virando para a estrada a sua esquerda, viu-o na janela de uma limusine que seguia seu percurso vagarosamente, na intenção de acompanhar seus passos. — Se está à procura de libertação, não me deixe impedi-lo.
Alex voltou seu olhar para o caminho que traçava.
— É reconfortante saber que o universo continua a recompensa-lo com uma nota de dólar para cada dia que você arruína. Seu pai estaria orgulhoso.
— Os franceses chamam de Deja Vu.
— Belas palavras, mesmo empregadas com cinismo — Desviou estrategicamente de uma senhora que falava ao celular.
— Não seja tão dramático. Preciso do meu parceiro de aventura.
— Sinto muito, tenho um compromisso.
Cameron já esperava ganhar esta mesma resposta.
— O estágio? — Fez pouco caso com o tom de voz. — Entediante.
— Aparentemente, é a única maneira de conseguir uma vaga em Yale.
— Apenas entre no carro, ligamos para dizer que está doente.
— Boa tentativa — Alex sorriu com desdém. — Se eu recusar em francês, você desiste?
— Não quer ouvir minha proposta?
Dando um grande suspiro, Alex finalmente parou. A limusine fez o mesmo após um sinal de Cameron.
— Você tem algo do meu interesse? — Perguntou Alex.
— Eu tenho um carro, quatro tickets, duas cordas elásticas e uma equipe bastante competente. A questão é: Você quer voar?
— Você...? Sem chances! — Um sorriso de excitação brotou em seus lábios.
Há alguns dias, ainda em Wilmington, Alex confessara ao novo amigo seu amor incondicional por esportes radicais. Entre eles o Bungee Jumping, que nunca tivera permissão para experimentar graças aos temores de sua mãe adotiva.
Cameron podia ver em seus olhos que se tratava de uma aventura irrecusável.
— Pode me chamar de Deus se quiser.
— Não posso... — Alex murmurou, enfim. — Preciso estar na gráfica às...
— Não me diga que eu trouxe instrutores da América Latina em vão.
Alex olhou para os dois lados em sua indecisão. Mordiscou o lábio inferior e apertou a alça de sua bolsa com a mão esquerda. Não seria o fim do mundo se faltasse a um dia de trabalho, seria?
— É uma chance única — Cameron insistiu. — Talvez não haja outra como esta depois que você se tornar um prodígio de Yale. Mas entendo se estiver com medo.
— Cala a boca — Alex deu um meio sorriso e avançou para entrar no veículo.
Seria apenas por algumas horas, e ninguém precisava saber.
A alguns quilômetros para o lado oposto, seu namorado também consolidava os próprios segredos. Depois da saída de Alex, Thayer tomou banho, vestiu roupas confortáveis e pegou o carro. Dirigiu por ruas secundárias — tentando evitar a imprensa — até chegar ao estacionamento de uma clínica desconhecida. O próximo passo seria o mais difícil.  
 Suas mãos tremiam sobre o volante e os olhos ameaçavam lacrimejar. A verdade tinha olhos de águia, ele sabia, e estava esperando do lado de dentro com suas vozes pesarosas e seus decretos irreversíveis. Fizera o exame há alguns dias, logo depois de sua curta jornada em Wilmington. Agora tudo o que precisava fazer era encarar a verdade. Por ele, por Alex, e por todos os outros que não aprendera a viver sem.
— Okay — Sussurrou em incentivo. Não estava certo do que viria a seguir, mas precisava arrancar o curativo rápido e indolor.
Abriu a porta do carro e marchou em direção a entrada. Contanto que Alex fosse sua âncora, teria forças para manter a cabeça erguida.


Kerr estacionou em frente a um galpão abandonado. Deserto e ribanceiras faziam a paisagem debaixo de um sol escaldante de meio dia, obrigando os quatro aventureiros a deixarem seus casacos dentro do veículo. Mia e Amber, no banco de trás, foram as primeiras a sair. Kerr e Andy botaram os pés sob a areia logo depois, cada um com seu respectivo smartphone em mãos.
— Tem certeza que é aqui? — Mia colocou a mão sobre a testa e semicerrou os olhos para enxergar melhor.
O galpão a sua frente era grande no tamanho, na estrutura e no que dizia respeito a inospitalidade. Um movimento brusco pelas laterais e os ferros enferrujados presentariam os visitantes com uma bela infecção. Não havia vegetação, higiene, ou qualquer outro resquício de vida humana. As letras no topo já haviam sido apagadas pelo tempo, mas o boi minimalista pintado em vermelho sobrevivera àquela extinção. No final, era a única coisa que lembrava o matadouro que costumava ser.
— Noventa e nove por cento — Kerr respondeu à ela, sem tirar os olhos de seu celular.
— Então temos um por cento de chance de estarmos perdidos?
— A ciência é exata, mas a tecnologia é imprecisa.
— Como você está conseguindo sinal? — Andy erguia seu aparelho de um lado para o outro.
— Satélite.
— Preciso admitir, — Mia deu um passo à frente. — Esses criminosos encontraram o lugar perfeito para fundar seu clube.
Amber olhava para o galpão como se estivesse mal-assombrado.
— Será que ainda estão lá dentro?
— Não se preocupe, — Kerr apaziguou. — Não estou vendo nenhum sinal de calor. Nada de seres humanos para nos receber.
Amber ainda não entendia como aquilo funcionava. Com apenas um clique, Kerr podia ter acesso direito a estrutura da propriedade e descobrir a localização de inimigos através do calor. Olhou por cima do ombro dele quando estavam no apartamento; tudo o que viu foi dezenas de pontos vermelhos que se moviam mais rápido que seu raciocínio.
Mia, por outro lado, estava ciente de cada contribuição tecnológica para fazer o plano dar certo. Ela mesma configurou o rastreador e implantou nas roupas do invasor que atacou Thayer e Alex. Seguiu seus passos com o celular durante quarenta e oito horas, até que o sinal se desfez. Agora estavam diante do último local que Barry Leighton visitou antes de desaparecer com sua família. As pistas para desvendar o mistério por trás dos The Judges estavam a uma porta enferrujada de virem à luz.
— Está tudo limpo — Kerr informou, finalmente levantando o olhar.
Os quatro pararam em silêncio em frente ao galpão, cada um com sua própria expectativa.
— Então, vamos lá — Amber tomou a frente ao lado de Andy.
Sem ter a intenção, Mia acabou notando os atributos da amiga em seu jeans apertado. Pôde ver a marca de sua roupa de baixo a medida que virava a cabeça para o lado.
— Cara, é a minha irmã — Kerr repreendeu. Mia pareceu ter voltado a realidade com o som de sua voz.
— Eu posso olhar. Código feminista — Sorriu em triunfo e seguiu os amigos para o lado de dentro.
O antigo matadouro Flint era um enorme espaço quadrado com pisos de concretos e instrumentos de pecuária apodrecidos. Marcas de inundação decoravam as paredes da entrada aos fundos, ratos corriam pelo assoalho e telhas desabavam sempre que uma chuva forte caía para aquecer o deserto. Além dos desastres naturais, nada havia para explorar.
— Este lugar está condenado — Os olhos de Mia iam do teto apodrecido ao chão encharcado.
— Que fedor é esse? — Amber fez uma careta.
— É o palácio dos ratos — Andy usava seu celular como lanterna. — O que você esperava?
Mia só ficava confusa a cada passo. Não parecia o lugar onde os criminosos haviam se escondido para assolar Nova York, a não ser...
— Olhem — Ela fez um sinal com a cabeça.
A alguns metros da máquina de cortar, o grupo vislumbrou três latas de lixo na cor amarela. Eram novas demais para que tivessem feito parte da decadência vagarosa do matadouro Flint, e estranhas demais para que passassem despercebidas.
Caminharam até elas e tiraram suas lanternas do bolso. Em uma, Mia e Amber encontraram recortes, revistas, jornais e papeis em geral. Na segunda, Andy encontrou objetos menores, de materiais que poderiam ser plástico ou ferro. Na última, Kerr encontrou restos de comida, embalagens e garrafas. A única coisa que todas tinham em comum eram as cinzas de um recente incêndio que destruiu quase todo o seu conteúdo.
— Eles queimaram tudo que tocaram... — Mia murmurou. Pegou um punhado de cinzas do fundo da lata a sua frente e deixou que escorressem por seus dedos.
— Eles são espertos — Kerr quase sorriu. Saber que poderia enfrentar alguém com a sua mentalidade deixava a caçada ainda mais emocionante.
— Talvez haja alguma coisa que podemos usar — Mia disse. — Procurem.
E assim todos fizeram. Encontraram mais um punhado de objetos e papeis consumidos pelo fogo, mas nada que realmente pudesse ajudar. Andy, porém, conseguiu fazer Amber gritar aproximando um rato carbonizado de seu rosto. Mia e Kerr ficaram muito gratos por isso.
— Não há nada aqui — Andy resmungou. Dentre as quatro pilhas de lixo carbonizado entre eles, a sua era a maior.
— Não acredito que isso deu em nada — Amber suspirou. Ao seu lado notou Mia tentando organizar papeis queimados no chão. — O que você está fazendo?
— Acho que encontrei alguma coisa — Mia esperou que todos prestassem atenção para continuar. — Olhem. Encontrei isso no fundo da lata.
— Para que estamos olhando? — Andy perguntou por todos.
Mia organizou duas fileiras, cada uma com quatro pedaços de papeis rasgados — que à primeira vista ostentavam a cor vermelha e preta.
— Acho que é um cartão — Disse a eles. — Há vários deles. Alguns foram carbonizados apenas parcialmente e mostram algumas letras.
— Isso quer dizer que...? — Andy perguntou.
— Olhem. Este aqui mostra a letra “e” duplicada — Apontou. — Este aqui mostra um “e” e um “t” — Passou o dedo sobre outro pedaço, e depois no próximo. — Neste aqui é possível ver uma lingerie. Acho que é um clube. Sweet & Hurt.
Apenas Kerr parecia acompanhar seu raciocínio. Amber e Andy precisavam de uma atenção especial.
— Você descobriu isso apenas olhando para esses papeis? — Andy franziu a testa. Era um belo jovem confuso de olhos azuis e cabelos loiro-acinzentados.
— Sorte sua ser tão bonito — Mia tocou sua bochecha com leveza. Levantou do chão, tirou o celular do bolso e se afastou do grupo. Andy acabou esquecendo o que estava pensando para se perder no elogio que recebera.
Enquanto Mia esperava o irmão do outro lado da linha, os três amigos em volta das lixeiras discutiam sobre suas teorias. Kerr concordava com Mia. Amber concordava com ela mesma. E Andy concordaria com qualquer pessoa que compactuasse com seu narcisismo desmedido.
— Nate não está atendendo — Mia guardou o celular no bolso e virou para os amigos. — Tentarei no caminho. Vamos embora.
— Você é quem manda, general — Andy prestou falsa continência.
— Só preciso ver uma coisa.
Mia marchou em direção a ele e o enganchou para um beijo molhado. Andy demorou alguns instantes para vencer o choque e retribuí-la com tudo o que podia. Suas mãos deslizaram pelas curvas da garota enquanto as dela acariciavam seu rosto e seus cabelos; a sincronia perfeita de dois corpos em evidente atração.
A alguns passos, de olhos arregalados, Amber e Kerr mal podiam acreditar.
— Droga — Mia disse ao se afastar. — É tão bom quanto beijar garotas. Desse jeito não há como decidir.
— Você entende agora? — Amber sorriu. Se os outros ao menos soubessem o jogo que elas estavam jogando...
— Não estou totalmente convencida. Continuamos na boate?
— Tudo bem.
— Precisamos ir — Mia tomou a frente para a deixa do grupo.
Antes que Kerr pudesse dar o primeiro passo, Amber o interditou com o braço.
— Eu dirijo.
— Okay — entregou-lhe as chaves sem pestanejar.
Com as meninas tomando atitude, os garotos não tiveram escolha senão ficar para trás, observando-as partir em meio a sorrisos e gracejos. Estavam ambas em chamas, e sabiam que o público adorava a maneira como queimavam. 


Nate não sabia há quanto tempo estava ali. Em sua penitência oportuna, observou o ir e vir de um clico interminável entre a vida e a morte. Pais que perderam os filhos, filhos que perderam os pais, doenças que arrancaram entes queridos de suas famílias e os levaram para a remota inexistência. Imploravam por justiça, mas nada parecia mudar. Clamavam por Deus, mas ninguém parecia ouvir. No final do dia, contentavam-se em deixar uma rosa sobre uma lápide velha e prometer que os que se foram nunca seriam esquecidos. Fantasmas, Nate pensou. Porque o tempo destrói até mesmo as memórias.
Benjamin Strauss nunca fora um homem digno de admiração. Mesmo assim, Nate encontrou em seu túmulo todo o conforto que precisava. Permaneceu sentado na grama durante horas, da manhã até a tarde, da tarde ao crepúsculo, até o primeiro sinal de nuvens carregadas sobre sua cabeça. Chorou no começo, quando achou que precisava. Só que agora estava cansado demais até para lamentar.
Concentrado em seu silêncio, pôde ouvir a aproximação cautelosa de alguém. Não precisou de mais nada para saber de quem se tratava.
— Eu preciso ficar sozinho — Murmurou para Jensen.
— Eu não me importo. Estou aqui.
— Mas eu não estou. Não sei mais como estar aqui.
Jensen assentiu em silêncio. Entendeu, por meias palavras, que tudo seria ineficaz perante o luto.
— Nunca conheci meu avô — Nate sussurrou, talvez para ninguém. — Descobri quem era através de fotografias, no tempo em que ainda acreditava que era apenas um tio distante. Agora que sei da verdade não consigo me sentir conectado a ele, mas seu túmulo acabou servindo como o refúgio que eu precisava. O corpo do Quentin foi levado hoje de manhã para ser enterrado na Itália, junto dos seus antepassados. Seu pai disse que a última pessoa que queria ver no enterro do filho era Nathaniel Strauss, o homem que o levou para a morte. Eu não... eu não sabia mais para onde ir...
— O que aconteceu com Quentin não foi culpa sua, não importa o quanto você se odeie por isso.
Havia verdade naquelas palavras, Nate sabia. Apontou uma arma para sua cabeça, mas outra pessoa puxou o gatilho. Em meio a dor, era a única coisa que lhe fazia sentido.
Leu novamente o nome do avô na lápide a sua frente. Benjamin Strauss, o indomável Benjamin Strauss. Não era um homem bom, se pudesse confiar no julgamento de Judit. Por cinco vezes fora acusado de assédio sexual para somar à duas denúncias referentes a estupro. A única razão para estar sentado em frente ao seu túmulo era sua sabedoria. Em um mundo entorpecido, Benjamin Strauss era o único que entendia a morte.
— Mesmo que não seja culpa minha, terei que viver com isso pelo resto da vida — Nate disse ao namorado.
— Não sozinho.
— Agora, sim — Virou a cabeça para o lado, como se tivesse desistido de olhar para trás. — É tudo o que você pode fazer por mim.
Jensen aceitou a derrota melhor do que esperava. Partiu sem dizer qualquer palavra, seus passos criando uma melodia de folhas mortas no gramado.
Nate agradeceu ao universo por tê-lo convencido. Um segundo a mais em sua insistente proteção e veria as lágrimas escorrendo por seu rosto e as mãos trêmulas que mantinha sobre as pernas. Perguntava-se, de minuto a minuto, se Quentin recebera a misericórdia de uma morte rápida. Espancado e afogado. Havia formas piores de partir... Benjamin saberia dizer.
A chuva chegou dócil, sem que estivesse esperando. Nate ergueu o rosto e olhou para as nuvens, deixando as pequenas gotículas traçarem seu próprio caminho sob sua pele. Instantes depois, viu-se no meio de uma tempestade. Embora a morte tenha se tornado um pouco mais fria, sentiu a mente clarear pouco a pouco. Benjamin já não era a melhor das companhias, e havia algo que precisava fazer.
Levantou do chão, colocou as mãos nos bolsos e caminhou pelo gramado, passando o portão de ferro por onde entrara. Ele não era o único que havia sido pego. Em sua trajetória, notou um pequeno número de pessoas que tentava escapar do temporal colocando bolsas sobre a cabeça e correndo para baixo do toldo mais próximo. Decidiu que não era um deles; poderia muito bem fazer o caminho andando.
De uma rua para a outra, de quarteirão em quarteirão, chegou ao edifício da Strauss International. Pegou o elevador, entrou na sala de Theon e sentou-se no sofá marrom próximo a janela. Esperá-lo voltar havia sido uma ótima ideia. Teve tempo de repensar todas as coisas que queria dizer e eliminar o risco de parecer ansioso demais.
Quando o viu passar pela porta, acompanhado de sua assistente, Nate levantou o olhar. Reconheceria Camille em qualquer lugar, principalmente ao lado de Theon. A pele era de um negro vívido, os olhos castanhos e penetrantes a sua própria maneira. Um ano se passou desde a última vez que se viram e os cachos black power continuavam os mesmos. A vestimenta, entretanto, descobriu um novo nível de formalidade; de assessora pessoal de um herdeiro milionário à assistente empresarial de um jovem investidor.
A conversa entre ela e Theon foi olvidada no instante em que notaram sua presença.
— Falando en el Diablo... — Theon quase sorriu.
— Suponho que temos assuntos inacabados — Disse Nate.
— Você supõe corretamente — Theon fechou um botão de seu paletó e virou-se para sua assistente. — Camille.
Ela compreendeu sem que ele precisasse continuar.
— É bom vê-lo outra vez, Nathaniel — Disse antes de se retirar. Nate saboreou o desprezo em sua voz até que não pudesse mais vê-la.
Agora eram apenas ele e Theon.
— Aceita uma bebida? — Theon caminhou até a adega.
— Não, obrigado. Prefiro ir direto ao ponto — Nate levantou.
— Mesmo correndo o risco de perder a cordialidade, preciso perguntar — Virou-se já com uma bebida em mãos. Whisky puro, exatamente como seu pai tomava. — Trata-se de uma visita amigável ou devo temer por minha segurança? Da última vez, se eu bem me lembro, havia uma arma apontada para minha cabeça.
— Eu deveria ter puxado o gatilho.
— E por que não o fez?
— Não seria justo, seria? Todo homem tem direito a uma vingança. Tirei muito de você para que me atravesse a também tirar a única coisa que lhe restou.
Theon sustentava um sorriso impressionado no rosto.


— Muito nobre de sua parte. Agora diga-me; está pronto para o que virá?
— Agora não — Nate o fitava com obstinação. — Preciso descobrir quem matou meu amigo.
— Não posso ajudá-lo.
— Tudo o que eu preciso é de tempo. E quando tudo isso terminar, podemos acertar as contas.
Theon o analisou por alguns instantes. Estava quebrado, por dentro e por fora. E mesmo assim não hesitou em ir ao encontro do inimigo para levantar uma bandeira branca. Que sentido haveria em derrubá-lo quando estivesse no chão?
— Entendo. Você terá a sua trégua. Mas quando a hora chegar, talvez queira trocar seus peões. Jensen deixa muito a desejar quanto a suas habilidades de perseguidor.
— Ele está seguindo você? — Nate não estava surpreso. Jensen parecia inquieto desde de que descobrira sobre o rival (e que poderia não estar a sua altura) — Pedi para que ele ficasse fora disso.
— Aparentemente, ele tem sua própria agenda. Fiquei surpreso quando descobri que estavam juntos. Quando ele deixou de ocupar o topo de sua lista de vingança?
Nate deu um ar de risos.
— Deixe-me adivinhar. Você não aprova meu relacionamento?
— Ao contrário de você, não costumo acreditar em mudanças repentinas de caráter. Mas tenho certeza que Jensen não carece de motivos para amar a pessoa que você se tornou.
— Eu sou o mesmo de antes. Se não fosse, este seria o último lugar onde eu estaria.
Theon farejou sua insegurança no ar. Era doce como seu desejo por retaliação.
— Sua convicção é admirável. Pergunto-me se um dia também chegará a ser genuína.
— É assim tão difícil de acreditar?
— É uma questão de perspectiva — Theon deu um passo à frente. — Se você consegue ser fiel a quem sempre foi, mesmo tendo conhecido o que há de pior em nosso mundo, por que demorou quatro anos para conseguir tudo o que sempre quis? A dor nos transforma, mas o mundo continua o mesmo.
— Ou é apenas o que você escolheu acreditar — Nate deu meia volta. — Foi um prazer, Senhor De Beaufort.

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4x02: Catholic Boys in Trouble (30 de Janeiro)
Bom pessoal, essa foi a nossa estreia. Não tivemos festas de arromba ou um plano maligno dos protagonistas em execução porque acabamos de entrar num momento bastante delicado da narrativa, que mostrará os personagens em luto por Quentin e temendo os próximos planos dos The Judges. Não se esqueçam que estamos na metade do Livro 2, então isso vai contar bastante.

Espero que tenham gostado! Semana que vem veremos nossos garotos católicos em mais um problema.

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