domingo, 31 de janeiro de 2016

Crítica | Chelsea Does - 1ª Temporada



Quem aqui conhece a comediante Chelsea Handler? Apesar de não ser muito conhecida no Brasil, ela é uma notória personalidade lá fora. Handler apresentava um famoso programa de variedades chamado Chelsea Lately - que terminou há alguns anos pelo motivo dela querer fazer outras coisas em sua carreira. Ela também é uma atriz, e o viciados em série podem reconhecê-la através da precocemente cancelada Are You There, Chelsea?. Ano passado, porém, ela lançou um excelente stand-up na Netflix, chamado Uganda Be Kidding Me, no qual ela usa de um humor negro para falar sobre suas aventuras da África. Seu mais recente trabalho vem em forma de uma série-documentário de quatro capítulos, também lançada através da Netflix, chamada Chelsea Does.

Cada episódio retrata um tema distinto, onde acompanhamos testemunhos de pessoas reais através do ponto de vista da Chelsea, além de cenas em que ela interage com os seus próprios amigos e parentes. Os temas deste primeiro ano são: casamento, tecnologia, racismo e drogas. Talvez por causa da pequena quantidade de episódios, todos os temas são fortes e cobrem áreas específicas e completamente diferentes umas das outras. O que eu mais achei interessante dessa série é que ela consegue equilibrar muito bem os seus momentos de comédia com os mais sérios. Chelsea tem a habilidade de conduzir qualquer assunto com naturalidade, e é justamente a sua abordagem direta que torna essa curta jornada tão especial. Há uma sentimento de intimidade forte transmitida no decorrer dos episódios que um documentário comum não consegue exalar, porque estamos vendo algo muito pessoal.

Começando a falar sobre os episódios em si - e sempre na ordem -, voltamos nossa atenção para o casamento. Desde os primeiros minutos temos certeza de uma coisa: Chelsea não acredita nisso, e planeja nunca se casar. Ironicamente, esse é o episódio mais chatinho da série, o que talvez seja algo bom, já que, ao assisti-los em sequência, vemos uma progressão na qualidade do enredo. Perderam várias oportunidades de fazer piadas sobre os esteriótipos em torno do tema, além de explorar sistemas "não casuais". Mas não se espantem, Chelsea de fato foi atrás de alguns nichos não convencionais, como mestre e escravos - que basicamente foram humilhados pelos seus olhares e tiradas julgadoras -, além de falar sobre relação aberta e outras coisas do tipo. Chelsea estava notavelmente incomodada por estar em alguns lugares, claramente de saco cheio da situação.

O segundo episódio retrata o mundo da tecnologia, e é muito mais engraçado e informativo que o primeiro. A dificuldade da Chelsea com a tecnologia consegue nos fazer rir, principalmente sua frustração quando algo dá errado (e sempre dá). Destaco dois pontos do episódio: o primeiro é a conversa mega debochada com a robô, que consegue ser mais rude do que a pópria Chelsea. Certamente deveria ter recebido mais tempo na tela. O segundo ponto é que a Chelsea também teve uma ideia para um aplicativo, chamado Gotta Go (Tenho que Ir, em tradução livre). No conceito geral, se você estiver em um encontro ruim, você pode usar o aplicativo para te mandar uma série de mensagens pré-programadas para sair daquela situação. E sabe o que é mais engraçado? Eles realmente lançaram o aplicativo.

O terceiro capítulo desta série-documentário retrata um assunto polêmico: racismo. Minha primeira preocupação a respeito do tema foi cuspida por um dos convidados do episódio, "uma branca loira querendo falar sobre racismo?". O interessante é que a Chelsea seguiu por um caminho interessante, sem impor suas opiniões, mas escutando as pessoas ao seu redor (para variar). Foi de longe o episódio mais triste e emocionante da série, principalmente quando os fatos são jogados na nossa cara. Negros sendo mortos pela polícia, famílias destruídas pelo preconceito. Também não tem como ficar revoltado com alguns entrevistados, como o cara que queria segregar raças ou todos os sulistas extremamente preconceituosos que apareceram na tela. Vendo aquelas pessoas falando um monte de merda é um deprazer enorme, compensado apenas pelas caras de julgamento da Chelsea, que não tem medo de ser direta e dizer o que pensa sobre o assunto. Certamente um dos episódios mais fortes desta temporada.

O último episódio retrata as drogas, evidenciando o uso frequente de remédios, bebidas e drogas ilegais da nossa querida Chelsea. Segundo ela, drogas ajudam a expandir a mente e ela não tem medo de experimentar. Fala abertamente com os seus amigos sobre os mais variados tipos de drogas que eles tomaram, enquanto se deliciam com uma banquete regado a muita maconha. Dá para perceber no decorrer do episódio que eles vão ficando cada vez mais afetados, até o estágio em que só conseguem ficar rindo. E isso é hilário. O episódio também reserva algumas histórias tristes e de superação, porque drogas certamente cobram o seu preço. Senti falta de uma pegada menos elitista sobre o assunto, porque sentar em uma mesa com seus amigos e curtir um barato é diferente de ir às ruas registrar o dia a dia de pessoas comuns que caíram no vício. No final, Chelsea e outros dois amigos vão para o Peru, experimentar o alucinógeno mais poderoso do mundo: o chá de Ayahuasca. Esperava reações mais engraçadas, mas a câmera acabou pegando a viagem emocional deles, o que foi uma coisa mais séria.

Em geral, fiquei muito satisfeito com essa série-documentário. Os temas foram ótimos, e a abordagem da Chelsea - que as vezes parece julgadora demais em alguns assuntos -, nos surpreende com suas tiradas diretas. A edição sobre dosar muito bem os momentos mais engraçados com os mais sérios, que é exatamente o que tornou esta série tão diferente. Ao mesmo tempo que você se diverte, você também está tomando conhecimento de determinado assunto, aprendendo sobre novas realidades. Recomendo bastante, e espero muito que a série retorne para mais um ano, afinal de contas, há muitos outros temas que ainda podem ser explorados pela visão peculiar da nossa protagonista.




Status: Minissérie
Duração: 60 minutos
Nº de Episódios: 4 episódios
Exibição: 2016
Emissora: Netflix 
 








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