sábado, 25 de abril de 2015

[Livro] The Double Me - 3x11: Is That Even Legal In Our Country? [+18]

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3x11:Is That Even Legal In Our Country?
“O que acontece em Wilmington, fica em Wilmington”.

Alex esperava sentado em um banco de madeira ao lado do melhor advogado que a tempestade lhe permitira encontrar. Quando Mia foi escoltada pela porta cinza, ambos levantaram. Não havia mais nada deslumbrante na garota de semblante angelical que encontrara no hotel.
— Alex! — Ela correu para envolve-lo em um abraço.
— Você está bem? — Ele insistiu em perguntar.
Antes que respondesse, o advogado Matthews estava se pronunciando.
— Preciso cuidar da papelada, esperem aqui — E partiu rumo ao balcão.
Os dois irmãos assentiram com a cabeça e sentaram lado a lado. Como recompensa pelas horas que passara algemada, Mia massageava os pulsos de maneira abrandável.
— Onde está Amber? — Perguntou ao irmão.
— Esperando no carro. Foi mais fácil processar sua retirada.
— Eu nem imagino por que... — Ironizou, atentada involuntariamente ao movimento do salão.
Seu palpite arrolava todos os clichês sociais sobre o perigo dos finais de semana fora de casa. Havia policiais correndo de um lado para o outro, atendentes recebendo chamadas, pessoas exaltadas pedindo atenção; e no banco de madeira do outro lado, um casal de hippies fazendo de tudo para vencer a limitação das algemas e beijar. Nada lhe deixaria mais feliz que voltar para casa e fingir que não fez parte, mesmo por um segundo, daquele previsível show de horrores.
— Quer me contar o que aconteceu? — Alex questionou.
— Basicamente, tudo o que contei pelo telefone. Estávamos nos divertindo na boate, confiamos na pessoa errada e viemos parar aqui.
— Estou dando uma chance para você falar a verdade.
— Que verdade você quer ouvir?
— Mia, eu sei que você está vendendo drogas. E como eu sei? Por que Nate me contou.
Mia abaixou a cabeça para esconder os olhos penosos. Menti para todos, pensou. E mesmo assim eles fingiram que não sabiam de nada.
— Estamos falando do nosso irmão — Continuou Alex. — É impossível esconder algo dele.
— E por que ainda estão aqui?
— Você é da família. Não costumamos virar as costas para a família.
Mia sentiu um súbito alívio irradiar seu corpo, mas livrou-se dele em questão de instantes. Seu crime ainda precisava de punição. E se não a recebesse de sua família, acertaria as contas consigo mesma, à sua própria maneira.
— Sinto muito, Alex — Disse a ele. — Eu não pensei que iria tão longe.
— Eu não consigo entender. Você tem tudo o que alguém pode querer, e não estou falando apenas de dinheiro. Por que arriscaria tudo se tornando uma traficante?
— Dinheiro é uma coisa complicada... — Mia fitava o nada, pensativa. — Você nunca tem o bastante, não importa aonde chegou. E a sensação de estar no controle... Você descobre que não há nada igual. Ivy era viciada, sabia?
— Nossa mãe?
— Sim. Ela convenceu Lydia de que havia parado depois da gravidez, mas continuou usando até eu completar onze anos. Ela costumava dizer que era a única coisa capaz de protege-la da realidade... Achei que era uma desculpa para justificar seu vício, até... Até comprovar por mim mesma.
Alex hesitou em pensamento. A pergunta a seguir estava prestes a mudar tudo.
— Você tem um problema?
— Fazer parte deste mundo por completo me dá perspectiva. Eu morreria antes me tornar apenas uma viciada que não suporta a própria vida.
Alex assentiu. Colocou os cotovelos sobre os joelhos, olhou para baixo e suspirou. Havia um senso de humor bizarro nas aragens que separaram seus pais, fizeram Nate perder o hotel e entregaram-lhe uma irmã dependente em menos de duas semanas. Alguém deveria estar rindo em algum lugar, celebrando a ironia de terem o equivalente em problemas quando se trata de dinheiro no banco. Todo mundo quer ser como nós, Nate dizia. Talvez fosse mais fácil simplesmente ser como todo mundo.
— Você sabe que precisamos resolver isso, não é? — Olhou para ela.
— Farei o que for necessário.
— Ótimo. Prepara-se.
Depois de cuidar da papelada, Matthews os liberou. Encontraram Nate e Jensen em frente à delegacia, sendo protegidos pelo enorme toldo que impedia a chuva de atingi-los.
— Está tudo bem? — Nate perguntou ao irmão.
— Sim.
— Cuidou do nosso pequeno problema?
— Tudo certo — Alex garantiu. Como poderia esquecer se tinha sido a primeira vez que subornara as autoridades? Faria qualquer coisa para não ver o contratempo de Mia nos jornais de amanhã.
— Okay, vamos para casa — Nate tomou a frente
— Para casa? — Mia estava confusa. — E a reunião de amanhã?
— Cancelada, nós perdemos.
— E vamos embora agora? Nessa chuva?
Nate virou para ela com o olhar impaciente.
— Você perdeu o direito de opinar quando foi pega por porte de cocaína. Estamos indo para casa, e é melhor entrarem no carro.
Contra a parede, Mia decidiu apenas fazer o que lhe era mandado. Anuiu discretamente para o irmão e correu através da chuva ao lado de Alex. Nate estava pronto para fazer o mesmo quando o namorado o segurou pelo braço.
— Tem certeza que é uma boa ideia?
— Não temos nada a fazer aqui — Nate respondeu.
— Podemos passar a noite no hotel e ir embora amanhã.
— Isso foi um erro, não deveríamos ter vindo. E eu não posso ficar nem mais um segundo aqui. Vamos apenas ir embora e esquecer tudo isso, okay?
— Okay — Mesmo relutante, Jensen aceitou.
Correram juntos pela chuva e entraram na pick-up pela porta de trás. Dividiram o assento com Cameron, Amber e Thayer, tendo Alex e Mia escolhido os assentos da frente.
— Vamos embora — Nate ordenou ao motorista.
E deixaram para trás o final de semana perfeito.
A viagem seguiu monótona, passando por todos – ou boa parte – dos pontos turísticos de Wilmington. Nate viu shoppings, cassinos, parques, cinemas, restaurantes e boates, todos desinteressantes demais para invalidar seu fracasso.
“Fracasso”, ouviu a própria voz ecoar em pensamento; a mesma voz que parabenizava Theon pela excelência de seu plano. Manipular um dos antigos donos do hotel a abrir um processo judicial contra a venda foi uma jogada de mestre. Nenhum dos vendedores estava disposto a esperar meses em um tribunal para concluir o negócio. E a única condição era avaliar a proposta do novo comprador.
Nate tinha certeza que Theon pagara muito mais do que valia o LeFevre. Não arriscaria um movimento tão perigoso quando sua vingança dependia da decisão da bancada de venda. Manipular os vendedores a avaliarem com antecedência uma proposta fantasma e oferecer muito mais do que ganhariam em um procedimento normal? Outra jogada de mestre.
“Tomamos as providências cabíveis mediante a situação” — Dizia o e-mail enviado quando chegaram a delegacia. Deve ter sido um prazer fazer negócios com os De Beaufort... Principalmente quando custavam as cabeças dos Strauss, cada uma em uma lança.
— O que está acontecendo? — A voz de Amber o despertou de seu devaneio.
Quando olhou para frente, viu uma fila de carros em direção oposta regida por dois policiais de trânsito com uniformes pretos de chuva. Havia cones alaranjados dividindo a estrada e luzes incandescentes que piscavam de dois em dois segundos; tudo para manter os motoristas seguros... E insatisfeitos. Agora Nate podia ouvir o incessante barulho de buzinas que tomou o tráfego.
— O que está acontecendo? — Aproximou-se do banco da frente para ver melhor.
— Não sei, está interditado — Respondeu-lhe Will, o motorista.
— Houve um acidente? — Alex também olhava curioso do banco do passageiro.
Ao notar a pick-up parada no acostamento, a alguns metros do desvio, o policial com a placa vermelha decidiu se aproximar. Will abaixou o vidro até a metade.
— Qual o problema?
— A estrada está inundada, vocês precisam fazer um desvio! — Gritou o policial.
— O que? — Nate quase acionou a veia nervosa em sua testa.
— É impossível atravessar. A estrada só será liberada pela manhã.
— Temos um voo marcado para uma hora, precisamos chegar a pista de decolagem.
— Poderiam seguir pela 33, mas levariam uma hora a mais. Com este trânsito e esta chuva, também pode ser perigoso.
Jensen finalmente encontrou uma ótima oportunidade para dizer o que estava pensando.
— Eu disse que não era uma boa ideia.
Mas Nate preferiu ignorar. Teria tempo de fuzilá-lo com os olhos quando revolvesse o problema em que se meteu.
— Aconselho vocês a passarem a noite em um hotel pelas redondezas — O policial continuou. — Vai ser difícil conseguir acesso as interestaduais com esse clima.
— E não há nada que possamos fazer? — A voz de Nate soava desesperançosa.
— Terão que remarcar o voo, sinto muito.
O policial se afastou para conversar com o próximo motorista enquanto Nate raciocinava.
— Podemos tentar por outra estrada — Disse. — Esta não deve ser a única que nos leva a pista de decolagem.
— Não ouviu o que ele disse? — Alex contra-atacou. — É perigoso e leva uma hora a mais.
— Não podemos perder esse voo.
— Não vou discutir com você. Estamos aqui por sua causa, e agora não é você quem decide. Vamos parar em algum hotel e ver o que fazemos amanhã.
— Neste caso, deveríamos voltar para o Fairm...
— Nesta chuva? — Thayer deu um ar de risos. — Por que você continua tentando matar a si mesmo, Nathaniel?
— Não, está decidido — Alex disse. — Will, nos leve a um hotel. Partiremos pela manhã.


Encontraram três hotéis estradeiros no caminho de volta. No Red Carpet viram tudo o que precisavam, menos vagas para sete. No Mill Basin, apenas atendentes pervertidos e paredes apodrecidas. Pensaram que o próximo lhes traria o conforto de uma noite de sono, mas novamente a multidão do desvio chegara primeiro.
Treze quilômetros foram percorridos através da interestadual até que encontrassem o The Sharon’s. Localizado em uma área desértica, o hotel ostentava um letreiro em neon com a silhueta de um pássaro de asas abertas e uma citação em aspas pequena demais para que pudessem ler àquela distância. As palavras “Temos Vagas” piscavam em neon na cor azul escura; a mesma das portas do primeiro andar, e dois tons mais carregadas que as portas do segundo andar.
Will estacionou o carro em frente a varanda da recepção. Nate e Jensen pularam por baixo do toldo e passaram pela porta, acionando os sinos de entrada.
— Bem-Vindos ao Sharon’s! — Disse a jovem de cabelos ruivos atrás do balcão.
Nate levou um segundo para observar o ambiente. Paupérrimo, decadente e ultrapassado. A jovem de vestido conservador e penteado da vovó que sorria acanhada ajudava tão pouco quanto o rapaz de cabelos encaracolados e olhar reprimido que cuidava da papelada. Cada um deles possuía um crachá de identificação no lado esquerdo do peito; Mary Ann e Peter, respectivamente.
— Olá — Jensen se aproximou.
— Deixe-me adivinhar — A garota o interrompeu. — Estavam saindo da cidade e foram obrigados a voltar por causa da tempestade.
— Por favor, diga que tem quartos disponíveis.
Ela quase sorriu diante da súplica.
— Para quantas pessoas?
— Dois casais e mais três pessoas. É pedir demais nesta chuva?
— Não se preocupe — Mary sibilou enquanto digitava em seu computador. — Os motoristas geralmente ficam nos hotéis mais próximos a barreira quando há tempestade. Devem ter encontrado meia dúzia de outros hotéis lotados antes de chegarem até aqui, não é?
— Sim — Jensen respondeu, no mesmo instante em que Peter deixava o cotovelo cair para fora da mesa. O ruído inesperado rendeu-o vários olhares confusos dos que estavam presentes. — Então... — Voltou à Mary sua atenção. — Vocês são nossa única esperança.
— Precisarei de suas identidades.
— Tudo bem.
Jensen passou pela porta de entrada. Encontrou os amigos descendo da pick-up e correndo até a varanda, tagarelando sobre qualquer coisa irrelevante. Pediu suas identidades e em meio instante já estava de volta ao balcão.
— Ai meu Deus, nós vamos morrer afogados... — Amber cruzou os braços para enganar o frio. Olhava para a chuva com remorso, atenta e melodia insípida de um temporal.
— Por que estamos mesmo indo embora? — Cameron indagou.
— Nate não conseguiu fechar seu primeiro negócio como presidente da Strauss International — Mia soprou fora a fumaça de seu cigarro. — Se não for dinheiro, Wilmington não tem mais nada a oferece-lo.
— Então podemos ficar, se quisermos?
— Eu sou uma ex detenta, não acho que tenho escolha.
— Viemos juntos, temos que ir embora juntos — Alex disse. — E isso inclui você, Cameron, por mais que eu odeie admitir.
Cameron riu da própria depreciação.
Próximo ao namorado, Thayer tentou controlar o repentino acesso de tosse. Alex segurou uma mão para confortá-lo; parecia tocar uma pedra de gelo.
— Suas mãos estão frias... Está tudo bem?
— Sim — Thayer pigarreou uma última vez. — Só estou com frio...
— Quer meu casaco? — Alex tentou tirar, mas foi interrompido.
— Não, tudo bem. Só preciso de um quarto e um cobertor — Abraçou-o de lado, com os cabelos dele em baixo de seu queixo.
— O que, em nome de Deus, é aquilo? — Amber murmurou, e todos olharam na mesma direção.
A chuva arruinava os planos de qualquer conterrâneo a quilômetros de distância, menos os do senhor de camisa xadrez e caminhonete vermelha em meio ao estacionamento. Puxava o cadáver de um burro pelo asfalto através de um arame, levando uma espingarda no suporte preso nas costas. De tão minúsculo perante o animal, precisava parar de instante em instante para recobrar suas forças e continuar o trajeto. Provavelmente contava com a ajuda da chuva para limpar os retos mortais que espalhava pelo chão.
— Ele é um serial killer ou algo assim? — Mia estreitou os olhos, cheia de repulsa.
— Talvez seja para fazer um ritual. Olhem, eles são religiosos — Cameron apontou para o dizer na porta da recepção.
“O senhor é meu pastor, e nada me faltará” — Todos leram.
— Bem original — Mia virou com desdém.
— Pensei que só usassem virgens em rituais — Alex comentou.
Thayer estava preparado para a próxima provocação.
— Neste caso, oferecemos Amber em troca de uma boa colheita.
Suas risadas teriam ecoado pelo hotel inteiro se não fosse a tempestade. Nem mesmo o mau humor de Mia foi capaz de resistir à tentação de um escárnio gratuito.
— Para sua informação, não sou virgem há três anos — Amber levantou o dedo. — E depois de hoje, talvez até seja bissexual.
Mais risadas vieram para acompanhar as anteriores. Mia não fez desfeita, mas deixou-se perder nos próprios pensamentos. Amber gostava de homens? Amber gostava de mulheres? Amber pretendia beijá-la? Amber sentia alguma coisa? Amber falava muitas asneiras quando estava bêbada? Amber se arrependeria de tudo quando estivesse sóbria? Tarde demais, até mesmo seu cigarro sabia que estava interessada.
— Desculpe-me, mocinha — Chamou uma senhora de meia idade com os cabelos grisalhos presos em uma tiara azul e um vestido florido bastante discreto. O colar em forma de cruz parecia brilhar sob a luminosidade da lâmpada, assim como seus olhos azuis. — É proibido fumar nesta área.
— E você quem é? — Mia assoprou mais uma rajada de fumaça.
— Eloise Harper, a proprietária do hotel.
Foi o bastante para que Mia desistisse de sua arrogância. Pediu desculpas, tirou o cigarro da boca e apagou na viga mais próxima. Os olhos simpáticos de Eloise revelavam uma intimidação pacífica e assustadora para os novos inquilinos. Alex e Thayer afastaram-se num piscar de olhos, temendo sua reprovação.
— Sei que a juventude de hoje não é adepta ao conservadorismo, mas nós do sul preferimos manter a ordem; pelo menos em nossos estabelecimentos — Ela sorriu. Tanta simpatia emitia um odor diabólico que pesava no ar. — Eu sei que vocês entendem.
— Perdão, Senhora Harper — Alex pediu. — Respeitaremos suas regras enquanto permanecermos.
— Não acredito que viemos parar nesse fim de mundo — Nate atravessou a porta da recepção. De repente, todos lhe voltaram o olhar.
— Olá, acredito não nos conhecemos — Eloise estendeu-lhe a mão. Nate a cumprimentou com o mesmo interesse. — Me chamo Eloise Harper, a proprietária do fim de mundo.
— Nathaniel Strauss, um hóspede desesperado que não sabe o que diz.
— Strauss? — Ela hesitou, desconfortável.
Nate tinha certeza que fora reconhecido. E a primeira impressão causava incômodo no cristianismo egocêntrico de sua anfitriã. Havia dizeres bíblicos por todo o hotel, como notara na recepção. Se isso não dizia tudo o que precisava saber, talvez o crucifixo pendurado no peito de Eloise dissesse.
— Algum problema? — Nate perguntou.
— Absolutamente, não. Tenham uma boa estadia, e não se esqueçam de deixar suas recomendações no nosso bloco de cabeceira.
Eloise apressou os passos para a recepção no momento exato em que Jensen voltava. Pela vidraça, Nate observou-a caminhar até o balcão e repreender os filhos a moda antiga. Não houve agressão, apenas um abuso verbal que imediatamente relacionou a sua presença.
Quando os filhos partiram, Eloise tomou a liberdade de lançar um último olhar soberba para o novo hóspede. Durou apenas um instante, mas foi o suficiente para Nate perceber o quanto não era bem-vindo.
— O que acabou de acontecer? — Nate virou para os amigos, incrédulo.
— Ela o conhece? — Mia perguntou.
— Deve conhecer para saber que precisa manter distância — Cameron coçou a cabeça.
Nate fitou o nada com a velha expressão de garoto levado.
— Interessante...
— Will, pode tirar as malas do carro — Jensen ordenou. — Aqui estão as chaves — Deu uma para Alex, outra para Mia, outra para Nate e a última para Cameron, sem fornecer direito de escolha. — Cameron, você terá que dormir sozinho. Espero que não haja problemas.
— Nenhum — O garoto respondeu.
— Então é isso aí... — Amber murmurou.
Nate parecia ser o único insatisfeito com o desfecho de sua noite. Isolando o incidente com Theon e a tempestade que o fez perder o voo, sobrava a recepção não tão calorosa de uma fanática religiosa que desprezava o sobrenome Strauss e comportava-se como a rainha de um hotel de estrada. Não era uma boa noite para levar desaforos para casa.
— Esta viagem infame termina por aqui. Venha, Jensen, vamos fazer um Bondage Hardcore Creampie Bareback para homenagear os deuses — E partiu rumo ao quarto, com o namorado logo atrás.
— Isso é ao menos permitido no nosso país? — Alex franziu a testa.
— Sim — Thayer o envolveu novamente em um abraço. — Mas aparentemente, é contra as leis de Deus.
Alex riria se não estivesse ciente do contexto trágico da piada. De qualquer maneira, ainda esperava que o irmão estivesse brincando.


O quarto cheirava a incenso e a tinta fresca. Em cima da escrivaninha, Alex notou um par de terços e uma bíblia de capa dura aberta no salmo noventa e um. A cama fora arrumada de maneira impecável, coberta por dois lençóis de algodão na cor verde e dois travesseiros a cabeceira. Estava claro que a família Harper tinha-o acabado de reformar.
— Finalmente — Thayer jogou a mala no chão e pulou de braços abertos sob o colchão.
— O que foi? Não é a viagem dos seus sonhos? — Alex caminhou até a penteadeira, preparado para trocar de roupa.
— Eu prefiro o Brasil. Eles têm o carnaval e é quente o ano inteiro.
Alex tirou o casaco. Jogou a camisa de baixo em cima da mala e vestiu a essencial para uma noite de sono.
— Isso quer dizer que você aceitaria passar o ano novo em Copacabana?
— Copa-o-que? — Thayer tirou seu jeans em meio segundo.
— A praia — Alex caminhou até a cama, já com a bermuda de dormir. Posicionou-se nos braços dele sob os lençóis e continuou a ideia. — Nate e Jensen estarão em Machu Picchu, então seremos só nós — Beijou-o entre um sorriso.
Thayer correspondeu, de olhos fechados. Conseguia visualizar perfeitamente o futuro. Alex e ele, as roupas brancas, a praia, os fogos de artifício, o beijo a meia-noite... Tudo se encaixava. A multidão ao redor gritava pela chegada do ano novo, mas poderia fingir o quanto quisesse que era apenas para eles dois.
Quando seus olhares se encontraram, a magia desvaneceu.
— Seu nariz está sangrando — Alex murmurou, em tom alarmado.
Thayer passou dois dedos por cima da boca e observou. Estavam ensopados de sangue... E havia mais nos lençóis.
— Eu... — Pulou da cama e correu veloz para o banheiro.
Alex pôde ouvir a tranca selando-o para o lado de dentro.
— Thayer? — Ele chamou. Sem obter resposta, levantou-se e caminhou até a porta. — Thayer? Está tudo bem? — Forçou a maçaneta.
Thayer permaneceu em silêncio; assustado demais até para articular uma mentira confortável. Pegou dois rolos de papel higiênico e começou a limpar o sangue de maneira agressiva. Em seus olhos estavam presas todas as lágrimas que nunca mostraria a Alex. Por favor, não me deixe ficar doente, repetia para si mesmo, ou para qualquer deus que estivesse ouvindo. Por favor, eu não posso estar doente.
Mais aterrorizante que o enfezar de seu corpo, apenas perder Alex.
No quarto ao lado, em frente a janela, Nate observava a tempestade como se as pequenas gotículas caindo no asfalto pudessem trazer de volta o que lhe foi tomado. Ainda pensava em Theon, e no hotel LeFevre, e na saída triunfal do inimigo, e na barreira no meio da estrada que o privara de um banho quente e uma noite de conforto na própria cama. Como se não bastasse, havia ficado com um quarto cheio de mofo que nem passara perto da reforma atual da família Harper. Encontrou cimento, tinta e ferramentas de reboco no canto do banheiro, apenas esperando a boa vontade dos proprietários.
— Uma moeda pelos seus pensamentos? — Jensen o observava da cama, as pernas esticadas e a cabeça no travesseiro.
— Você não quer investir seu dinheiro em mim.
— Teste-me.
Nate suspirou de cansaço.
— Eu não acredito que perdi...
— Porque Nathaniel Strauss nunca perde?
— Porque estamos falando sobre o legado da minha família — Nate virou-se para encará-lo. — E se algo acontecer a Simon? E se meus irmãos terminarem com nada? E se eu perder tudo? Você mais do que ninguém sabe que não posso perder tudo outra vez, não depois de vender minha alma para sobreviver a pessoa que me tornei. Eu tenho você, e por isso estou certo de que sou feliz. Mas preciso da minha própria vida. E preciso que ela signifique alguma coisa.
Jensen anuiu em concordância. Apesar do que Nate estaria pensando, todas as suas palavras soavam justas e admissíveis.
— Okay — Levantou da cama. — Mas acho que você está sendo precipitado... — Avançava em direção ao namorado à medida que dialogava. — Você será o empresário mais bem-sucedido de Nova York... Tudo o que precisa fazer é esperar — Perto o suficiente, envolveu-o pela cintura para um beijo carinhoso.
Nate sorriu sereno, reprovando veemente a habilidade de Jensen McPhee em fazê-lo esquecer de ser a si mesmo.
— Venha, deixe-me cuidar de você — Jensen o puxou pela mão.
Jogou-o na cama, montou por cima e deixou que seus lábios encontrassem um ao outro. Nate arfou com o toque de suas mãos subindo por baixo da camisa e abrandando seu frio particular, isento de qualquer pensamento negativo que pudesse abalar o clima perfeito. E dominado por beijos ardentes que percorriam seu pescoço, fechou os olhos. Abriu-os de novo por um breve momento, e fechou outra vez.
Como de relance, abriu os olhos novamente e captou o ambiente a direita da cama, justo no momento em que uma tarântula descia o abajur para junto da bíblia no criado mudo.
Nate gritou de maneira estrondosa e empurrou o namorado para o chão. Correu da cama até a porta, histérico e amedrontado.
— O que foi? — Jensen perguntou.
— Uma aranha! — Ele apontou.
Jensen quase arregalou os olhos quando notou seu tamanho. Já era de esperar que Nate ficasse tão apavorado.
— O que está acontecendo? — Alex escancarou a porta de maneira nervosa. Atrás vinham Thayer, Mia, Amber, Cameron e dois filhos de Eloise; um mais curioso que o outro para ver o motivo de tal escândalo.
— Tem uma... — Agora Nate mal conseguia falar. — Aranha...
Alex atentou para o local apontado.
— Você está com medo disso? — Mesmo com as indagações do irmão, aproximou-se do criado mudo e tomou a tarântula em seus dedos. — Olhe, ela está assustada — Acariciou o inseto como se fosse um recém-nascido enquanto o irmão permanecia irrevogavelmente alarmado.
— Alex? Como você...? Por que...? Você é tipo...? Vão tomar no cu! — Exclamou Nate antes de trancar-se no banheiro.
Alex olhou para todos os presentes.
— Okay — Começou a andar. — Vou deixa-la em um local seguro e longe do meu irmão...
— E longe de mim também — Amber se afastou com repulsa.
Tudo parecia estar resolvido. Alex levou a aranha para fora do quarto e metade dos hóspedes já podia respirar aliviado.
— Okay, acho que Nate precisa de um pouco de privacidade agora — Jensen murmurou.
— Para gritar como uma menininha? — Thayer sorriu.
— Vai tomar no cu, viadinho patético! — A voz rumorosa de Nate parecia ecoar pelo hotel inteiro.
Jensen só pôde exibir um sorriso sem graça para os amigos.
— Este é o homem da minha vida.
Ironia ou não, era a única verdade que conhecia.

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