quinta-feira, 22 de maio de 2014

[Livro] A Punhalada 3 - Capítulo 13: Ao Cair da Neve



Carter finalmente despertou. A cama vazia ao seu lado e a musica suave nos altos falantes diziam claramente que sua companheira já havia se adiantado. Mas por quanto tempo ficara dormindo?

— Amanda? — Ele sussurrou, sentando-se na cama com a cintura coberta pelos lençóis. Só o que via era um quarto vazio e uma porta entreaberta bastante sugestiva. Talvez Amanda estivesse mesmo esperando que acordasse.

Ele vestiu a calça comprida jogada no chão, e sem encontrar a camisa, passou pela porta até a sala de estar. Amanda estava em frente a parede de vidro, observando a neve cair do lado de fora enquanto abraçava o próprio corpo para vencer o frio. Vê-la completamente vestida daquela maneira não era o que Carter tinha em mente.

— Você está acordada. — Ele não sabia por que estava falando.

— Quando eu tinha dez anos, meu pai me levou à Nova York para ver a neve pela primeira vez. Mas estava com tanta febre que não consegui sair do nosso quarto de hotel. Tive que ver a neve através da janela, sem poder tocá-la... — Amanda continuou olhando para as lindas montanhas a sua frente. — Minha mãe achou que tinha sido uma experiência terrível porque eu não parava de chorar, mas foi exatamente o contrário. A neve continuou sendo a coisa mais linda do mundo mesmo que eu não pudesse estar lá fora... É surpreendente conseguir pensar o mesmo depois de todos esses anos.

— Amanda, por que estou aqui? — Carter deu um passo a frente. Amanda olhou para ele imediatamente.

— O que você quer saber?

— Você costuma levar para casa todos os homens que conspiram contra você?

— Você ficaria surpreso. — Amanda deu um meio sorriso de desdém. Se todos tinham o físico parecido com o que Carter estava exibindo, por que não dormir com o inimigo? — Mas acho que já está na hora de você ir.

— Eu entendo. — Carter assentiu com um meio sorriso. — Eu conheço o seu tipo. Usa os homens, depois os joga fora. Seria trágico se nós tivéssemos sentimentos.

— Digo o mesmo. — Amanda sorriu.

— Posso pelo menos tomar uma ducha? Eu prometo que nunca mais vai ouvir falar de mim outra vez.

— Você sabe o caminho.

— Ok... — Carter sorriu mais uma vez.

Será que Amanda saberia apreciar um bom improviso? Carter estava temendo que seu próximo movimento quebrasse o clima perfeito de despedida, mas decidiu seguir o instinto. Aproximou-se rapidamente e a agarrou para um ultimo beijo, segurando a nuca dela o tempo inteiro.

— Ok... — Amanda estava um pouco constrangida após vê-lo se afastar. — Isso foi um “Sinto muito por ter sido um verdadeiro canalha”?

— Não. Isso foi um “Você merece coisa melhor”.

E com um sorriso cortês estampando o rosto, Carter caminhou de volta ao quarto. Amanda permaneceu quieta, imaginando se havia um significado oculto nas ultimas palavras de sua distração momentânea. Não existia muitas alternativas para considerar, exceto aquela que afirmava ter sido apenas um elogio retórico. Ele não sabia, mas depois que Amanda arrumasse suas malas e pegasse um jatinho para a Venezuela, as chances de um possível reencontro seriam nulas.

— Você não pode fugir outra vez. — Dessa vez, Brandon apareceu sentado na poltrona principal. Era incrível como suas alucinações sempre chegavam em péssima hora. — Ainda dá tempo de ligar pro seu subordinado e cancelar o voo.

— Preciso da sua permissão? — Amanda virou-se.

— Depois de todos esses anos você ainda não percebeu que eu estou apenas dentro da sua cabeça? Você só está falando consigo mesma.

— Neste caso, eu deveria simplesmente ir me foder. — Curta e grossa, Amanda caminhou em direção as escadas. Um drink nunca fora tão requisitado.

Já dentro da suíte, Carter caminhou até o espelho a direita para checar seu estado. O cabelo bagunçado e os olhos cansados eram frutos de uma noite inesquecível, mas a pele pálida com certeza não deveria ser um bom sinal. E por que aquele cheiro esquisito estava lhe incomodando tanto?

— Amanda? — Ele gritou. Só precisou esperar cinco segundos para convencer a si mesmo de que precisaria chama-la outra vez. — Amanda? Você está aí? Tem algo aqui dentro... — Ele olhou em volta do banheiro.

Com o fedor se agravando a cada segundo, resolveu caminhar até o armário ao lado da banheira de uma só vez; era para aquele lado que seu olfato apontava.

— Amanda? — Gritou mais uma vez, tapando o nariz. Aquele fedor o faria vomitar muito em breve.

Quando finalmente colocou a mão na maçaneta e abriu a porta, teve uma grande surpresa. Havia dois corpos dentro do armário, um homem e uma mulher, que há cinco anos o mundo inteiro conheceu como Senhor e Senhora Rush. O estado de decomposição era tão alarmante que Carter podia ver insetos passeando de um lado para o outro em meio aos corpos.

— Jesus Cristo! — Carter afastou-se aos poucos.

— O que aconteceu? — Amanda imediatamente abriu a porta.

E naquele momento, olhando para os corpos das duas pessoas que costumavam ser seus pais, ela acreditou que nem mesmo Deus poderia imaginar o que estava sentindo.

— Ai meu Deus! — Carter passou por ela como um furacão.

Amanda continuou olhando para o que restara de seus pais até perceber que deveria seguir Carter para onde fosse. Ele poderia estar confuso, imaginando todas as coisas que não deveria; imaginando que Amanda Rush enlouqueceu e acabou se tornando a grande assassina da trilogia.

— Carter, não! — Ela gritou enquanto corria de volta para a sala de estar.

— Amanda! — A voz de Chloe ecoou pelo segundo andar da mansão.

Amanda conseguiu chegar até a sala de estar bem a tempo de ver a amiga subindo as escadas e Carter correndo na mesma direção.

— Amanda, eu sei quem é o assassino! — Foi só o que Chloe conseguiu gritar.

Carter imediatamente sacou uma arma de dentro das calças e deu três tiros no peito da garota antes pudesse concluir sua missão. Chloe caiu no chão sem ao menos saber o que havia lhe atingido.

— Não! — Amanda colocou as duas mãos sobre a boca. Nada do que tinha acabado de presenciar fazia sentido.

— Vadia maluca... — Carter olhou com desprezo para Chloe, que ainda agonizava no chão. — Você quase estragou a minha revelação. Bem... Acho que nem tudo está perdido. — Ele apontou a arma para Amanda. Vê-la em frente a parede de vidro com uma linda vista das montanhas era quase um sonho realizado. Principalmente agora que ela estava completamente a mercê de seu maior inimigo.

— Você...?

— Não seja tão cética, isso é exatamente o que parece. Eu sou um psicopata. E você é a minha vítima preferida.

Amanda fungou. Era apenas uma tentativa frustrada de controlar o choro que já havia libertado. Mesmo que tentasse mascarar a situação dentro da própria mente, nada mudaria os fatos. A grande revelação da identidade do assassino já tinha tomado início.

— Apenas me mate. Puxe o gatilho.

— Infelizmente, não é tão simples. — Carter fingiu uma expressão penosa e deu um passo para o lado. — Precisamos seguir algumas regras se quisermos continuar com o filme. Tenho certeza que você está familiarizada com este contexto. Quer dizer, você é Amanda Rush, a grande protagonista, a rainha do grito. Quantas vezes já ficou diante de um assassino bem sucedido e simplesmente... Sobreviveu?

Amanda olhou discretamente para Chloe; tinha certeza que havia algo errado. Chloe levara três tiros diretamente na caixa torácica, mas de alguma maneira, ainda tinha forças para agonizar. Mais alguns minutos do discurso de Carter e ela estaria morta.

— Não me leve a mal, foi ótimo ficar com você. — Carter continuou, dando mais um passo para o lado. Amanda, já na defensiva, decidiu fazer o mesmo. — Eu te admiro, Amanda Rush. Por tudo o que você é e tudo o que você significa para o mundo do horror. Mas isso não quer dizer que você não precisa pagar pelos seus erros.

— Onde está o outro? — Amanda mal conseguia dar vida a própria voz.

— Outro?

— São sempre dois assassinos. Onde está o outro?

Carter sorriu, estava impressionado.

— O quão inteligente é você? Eu estava pensando em apresentar meu parceiro neste exato momento. Ele está aqui, não é? — Carter fingiu estar falando com o vento só para provocar.

— Estou bem aqui. — Disse Francine.

Tinha acabado de passar pela porta do quarto da direita usando um vestido preto elegante que pertencia a Megan. Seus cabelos estavam amarrados em um rabo de cavalo para preservar a beleza da joia em seu pescoço, que também pertencia a antiga patroa.

Amanda levou dois segundos para perceber de quem se tratava. Era a assistente de Megan que fora assassinada na loja de vestidos. Mas agora não parecia tão morta.

— Olá Amanda. — Francine sorriu com desdém. — Não precisa dizer, eu sei que estou deslumbrante. — Apenas mais dois passos foram necessários para que ficasse ao lado de Carter, tão poderosa como sempre imaginou.

— Amanda, acredito que já tenha sido apresentada a minha noiva. — O sorriso presunçoso havia retornado aos lábios de Carter. — Ela é machista, só gosta de matar garotas.

— Mas... — Amanda estava se segurando. Não queria entrar no jogo doentio dos dois assassinos, mas suas dúvidas sempre falavam mais alto. — Mas nós vimos você morrendo...

— Não, vocês me viram forjando minha própria morte diante das câmeras de segurança daquela loja ridícula. Este era o plano, querida. Aposto que estão procurando pelo meu corpo até agora... — Francine sorriu com deboche. Era realmente patético.

Olhando de relance para baixo, ela notou Chloe agonizando em cima do tapete. Pelos furos em sua roupa, ela tinha levado tiros certeiros. Deveria ter morrido instantaneamente.

— O que ela está fazendo viva? — Francine se abaixou e rasgou a blusa de sua vítima. O colete que havia em baixo das roupas tinha impedido as balas de penetrarem seu corpo. — Colete à prova de balas.

— Que vagabunda... — Carter não parecia tão surpreso quanto deveria.

— Desculpe, querida. Mas agora você morre. — Francine tirou uma faca de açougueiro amarrada em suas pernas e preparou o ataque.

— Não! — Chloe começou a se debater no tapete.

Amanda tentou ajudar, mas logo no primeiro passo, Carter apontou a arma diretamente para ela. Não havia mais nada que pudesse fazer. Francine segurou Chloe pelos cabelos e começou a esfaquear seu corpo. Primeiro nas pernas, para que ela sentisse dor. E depois próximo ao pescoço, onde o colete não alcançava.

Amanda foi obrigada a assistir a melhor amiga morrer até o final sem que pudesse prestar qualquer tipo de socorro. A culpa e impotência acabaram despertando uma dor insuportável dentro do peito, capaz de fazê-la soluçar. Chloe não podia morrer. Chloe não podia morrer por culpa daqueles desgraçados.

— Não! — Ela caiu de joelhos no chão. Olhou para os olhos sem vida de Chloe e colocou as duas mãos sobre a boca, sufocada pela própria agonia. Seu mundo tinha acabado de desabar. E finalmente os assassinos estavam um passo a frente dos sobreviventes.

— Isso dói, não é, Amanda? — Carter deu dois passos vagarosos a frente. — Ver alguém que você ama morrer de uma maneira tão cruel... Todos nós já sentimos essa dor. Eu já senti essa dor... Eu era só uma criança, nós... Nós estávamos voltando do aeroporto, os voos tinham sido cancelados por causa da chuva... Nós éramos uma família feliz, nós éramos a família mais feliz.

“Eu estava brincando dentro do carro com a minha nova filmadora... — Enquanto falava, Carter podia ver a si mesmo no dia em que tudo aconteceu.

Era quatro de Julho, dia da independência nos Estados Unidos. Os aeroportos estavam lotados e vários voos haviam sido cancelados por causa da tempestade. Paul e Elizabeth Rustler, junto de seu pequeno filho John, de apenas oito anos, estavam decididos a voltar para casa e remarcar o voo pro Canadá no dia seguinte. Mas uma grande tragédia estava marcada para acontecer.

No meio do caminho de volta, um carro desgovernado apareceu do meio do nada e fez com que o veículo da família caísse da ponte de principal acesso a New Britain. Pelo uso do cinto de segurança, o casal não foi capaz de sobreviver; imergiu junto com o carro para o fundo do lago enquanto o pequeno John, no banco de trás, tentava salvar a si mesmo.

O pai estava morto antes mesmo do carro atingir a água. Mas a mãe fora condenada a sofrer até o ultimo segundo diante dos olhos do filho inocente.

Com o passar dos anos, a criança deixou que o ódio tomasse conta de seu coração e decidiu ir atrás de todas as respostas que a polícia não conseguiu encontrar. Era a família Rush quem estava no carro desgovernado que causou a tragédia. Philip, Diana e a pequena Amanda.

Carter lembrava como se fosse ontem o momento em que chegara a superfície e viu os culpados voltando ao veículo para escapar. Estavam com medo de enfrentar a polícia. Estavam com medo de uma indenização. Estavam com medo de pagar pelo crime com a própria vida como o país exigia. E se a lei negasse a merecida punição, Carter estava disposto a fazer justiça com as próprias mãos.

— Eu sei que você lembra, Amanda... — Ele suspirou. Amanda continuava no chão, em silêncio, apenas ouvindo a história. — Quatro de julho. Meus pais morreram porque dois desgraçados precisaram buscar a filhinha estúpida que tinha fugido com o namorado! Isso tudo é culpa sua!

— Para! — Amanda não aguentava mais.

Lembrava muito bem do que Carter estava falando. Lembrava de fugir com seu primeiro namorado, de desistir no meio do caminho e de ser buscada pelos pais no meio de uma tempestade. Lembrava de entrar no carro, adormecer no banco de trás e acordar com um barulho estrondoso. Seus pais pediram para que não saísse do veículo, e não havia motivos para contrariar sua ordem. Nunca iria imaginar que uma família estava sendo destruída naquele exato momento. Nem que seus pais estavam assustados demais para fazer o que era certo.

— Se você não fosse tão mimada e egoísta, meus pais ainda estariam vivos! — Carter chutou o abajur em cima do criado mudo. Até mesmo Francine estava assustada com sua agressividade.

— Não... — Amanda chorava descontroladamente.

Carter respirou fundo. Precisava continuar a falar para que Amanda entendesse.

— Eu pensei em me vingar. Eu queria matar todos vocês exatamente como fizeram com meus pais. Mas então percebi que seu irmão poderia fazer isso por mim. Não foi difícil descobrir que ele era adotado e filho de um psicopata subestimado. Não foi difícil convencê-lo que você precisava pagar. Ele já estava apaixonado por você e sentindo ódio pelos pais. — Ele se aproximou do ouvido de Amanda e sorriu de maneira doentia. — Eu sou a faísca que começou o incêndio inteiro. É tudo por minha causa. Todos que você ama estão mortos por minha causa...

Amanda olhou sorrateiramente para o lado direito. Brandon estava escorado na parede mais próxima, olhando para ela com os olhos cheios de lágrimas.

— Eu sinto muito... — Ela foi capaz de ler seus lábios.

— Agora levanta! — Carter puxou seu braço para coloca-la de pé. Deu dois passos para trás e apontou a arma novamente. — Todos já estão mortos. Agora só falta você.

— Atire nela! — Kyle tinha acabado de aparecer.

Carter e Francine ficaram estonteados de imediato. Agora a festa estava completa. Amanda precisava saber que o homem que amava também era um assassino antes de morrer.

— Senhor Fuller. — Carter enxugou as lágrimas. — É um prazer tê-lo conosco.

— Kyle, por favor... — Amanda implorava.

— O que você está esperando? Atire. Ela não merece viver nem mais um segundo.

Amanda não acreditava no que estava vendo. Três assassinos, todos majestosos, e completamente fora de suspeita. Carter Van Der Hills, que estava tentando vingar a morte da própria família. Francine Waldorf, ex assistente de Megan que acabara de voltar dos mortos. E Kyle Fuller, o bad boy apaixonado. Era por isso que todos tinham tanto orgulho de sua sequência.

— Por quê? — Os olhos de Amanda pairaram na expressão indiferente de Kyle.

— É uma pergunta muito interessante, Amanda... — Carter tomou a frente novamente. — Por que o honrado Kyle Fuller se transformou em um assassino sanguinário? Será por que você brincou com os sentimentos dele e do irmão? Por que você é a culpada pela morte de toda a família Fuller? Ou por que você forjou a própria morte e o deixou choramingando pelos cantos durante anos? Pode ser qualquer uma das alternativas, você escolhe. Mas não deixa de ser interessante, porque nosso amigo Kyle... — Ele apontou com a arma para o comparsa. Logo depois voltou a encarar Amanda. — É uma verdadeira revelação. Há alguns anos decidi procura-lo para começar minha própria vingança, e sabe o que eu descobri? Que ele tinha assassinado uma universitária simplesmente porque as vozes o ordenaram. Então eu pensei “Pra que começar uma simples vingança se eu posso fazer meu próprio filme? Eu tenho Francine, Kyle poderia me ajudar, e assim encerraríamos a franquia com chave de ouro”. Eu sou o cérebro da equipe, se você ainda não percebeu.

— Amanda, você vai morrer... — Brandon apareceu novamente. Dessa vez, há sete centímetros dos ouvidos de Amanda.

— Cale a boca... — Amanda o ordenou. Carter não hesitou em pensar que estava se referindo a ele.

— Calar a boca? Quanto atrevimento!

— Amanda, você vai para o inferno... — Brandon provocou mais uma vez. — Você vai me encontrar lá em baixo...

— Não... — Amanda fechou os olhos e demudou as mãos em dois punhos. A essa altura, todos os presentes na sala já tinham percebido que havia algo errado.

— Não pire, Amanda... — A voz de Brandon ecoou pela sala mais uma vez. — Vai ser rápido. Você vai morrer assim como mamãe e papai...

— Não, cala a boca! — Ela gritou, colocando as duas mãos na cabeça.

Por apenas um segundo, Carter permitiu que ficasse assustado. Olhou para Kyle e Francine, a dois metros atrás, só para saber se algum deles tinha as respostas que precisava.

— O que está acontecendo? — Ele perguntou.

— É Brandon, ela tem alucinações... — Como sempre, Kyle estava servindo de grande ajuda.

— Sério? — Um sorriso lunático brotou nos lábios de Carter. — Brandon está aqui? Brandon está deixando você louca, Amanda? O que ele acha de mim?

— Pare... — Amanda parecia mais calma. Focar-se na voz de Carter ajudava a sobrepor as provocações de sua alucinação.

— Então, acho que este é o fim.

— Não é o fim... — Amanda suspirou.

— Você não pode nos deter, Amanda.

— Eu não posso, mas os outros podem. Vocês nunca vão se safar dessa...

— É, eu ouço muito isso. — Carter apontou a arma novamente e disparou duas vezes contra o peito de Amanda.

O impacto foi tão grande que ela caiu para trás, atravessando a enorme parede de vidro. Era uma queda de pelo menos trinta metros que nem mesmo uma final girl poderia sobreviver.

Uma vez concluído seus objetivos, o mundo simplesmente parou. Carter abaixou a arma, Francine engoliu em seco, e Kyle deu um grande suspiro. Não sabiam o que o silêncio irresistível estava tentando lhes mostrar. Só sabiam que ele era confortável demais para ser quebrado. Amanda Rush estava morta. Nada mais havia a ser dito. Nada mais havia a ser feito.

Carter lembrou, apenas por um segundo, de tudo o que sua mãe costumava dizer. Era o tipo de mãe supersticiosa, que acreditava na capacidade do ser humano em enxergar sua vida inteira segundos antes de morrer. A única coisa que Carter viu durante seus momentos de agonia foi a absoluta escuridão, mas agora, ele tinha certeza que ela estava certa. Quando viu o ódio dentro do peito morrer junto de sua maior inimiga, conseguiu enxergar sua vida inteira. Dor, culpa, solidão, desespero. Estavam todos lá, como sempre estiveram. 



A guerra dentro da própria cabeça havia chegado ao fim, mas tudo o que prevalecia era o vazio. Sem objetivos, sem propósitos, sem um lugar para ir. O que seria de sua vida sem a única coisa pela qual vivia? Carter estava desmoronando internamente. Respirou fundo, caminhou até a mesinha de bebidas e apoiou os braços sobre ela. Olhando para baixo, como sempre fazia, ele mal conseguia entender a necessidade de voltar a ser ele mesmo.

— Está tudo bem... — Francine deu um passo a frente. A voz suave e complacente poderia trazer segurança ao seu noivo. — Ela morreu. Agora acabou.

— Eu sei... — Carter suspirou novamente. Talvez só precisasse de um tempo para deixar a ficha cair.

— Nós conseguimos... — Francine completou os passos necessários para alcança-lo. E estando tão perto, ela pôde passar a mão pelos ombros dele como forma de carinho. — Nós deveríamos comemorar.

— Não conseguiria sem você... — Carter virou para encará-la bem de perto.

— Eu sei... — Logo após um breve sorriso, Francine o beijou suavemente. Carter fechou os olhos para corresponde-la com toda a sua alma.

Apesar de tudo, aquele gesto de amor não foi o suficiente para trazê-lo de volta a realidade. Algo muito importante lhe estava fazendo falta. E Kyle era o único que poderia ajudá-lo.

Ele caminhou até a mesinha de bebidas e passou as mãos carinhosamente no ombro esquerdo de Carter. A troca de olhares intensos e cheios de desejo levou ambos a um beijo suave, tão crucial como qualquer outra prova de que eles sempre estariam juntos. Agora Carter se sentia completo, totalmente satisfeito. O homem que se lamentava pela falta de direção tinha jogado tudo pelos ares para focar-se apenas em uma coisa: Abusar daqueles que desejam usá-lo.

Os gestos carinhosos serviram apenas como o prato de entrada. Logo eles foram transformados em movimentos selvagens a medida que todas as suas roupas eram arremessadas no chão. Carter, sendo tão bem cuidado pelos outros dois, apenas se deixou levar. Kyle e Francine sabiam muito bem dividir as tarefas e improvisar para que seus momentos de diversão nunca perdessem a graça.

Juntos os três caminharam até o sofá mais próximo para aproveitar todo o conforto que tinham direito. Não importava se o corpo ensanguentado de Chloe ainda estava ali, atrapalhando movimentos mais intensos. Nem mesmo eles poderiam negar que eram perfeitos juntos.

Quando finalmente chegou a hora, Kyle ficou cuidando dos lábios de Carter enquanto Francine usava a língua no restante do corpo; até chegar à parte essencial que levaria a brincadeira ao outro nível.

φ

Mais de uma hora se passou enquanto os três permaneciam no sofá. Carter estava sentado, segurando Francine com o braço direito, e deixando a perna esquerda servir de travesseiro para Kyle. Ele era o único que havia dispensado os morangos da geladeira de Amanda apenas para fumar um cigarro.

— E agora? — Kyle lambeu os dedos assim que colocou o ultimo pedaço de morango na boca.

— Continuamos com o plano... — Carter suspirou.

— O avião só vai chegar de manhã, temos algumas horas...

Francine imediatamente se levantou e correu até o vestido jogado no tapete. Kyle e Carter não entenderam o que estava acontecendo.

— O que você está fazendo? — Carter foi o primeiro a perguntar.

— Preciso ir pra casa fazer as malas. Vocês estão com o dinheiro?

— Está no porta-malas do carro. — Kyle levantou-se para sentar ao lado do amigo. — Precisa de ajuda?

— Não, já está quase tudo pronto. — Agora só faltava fechar o zíper na parte de trás de seu vestido. Francine caminhou de volta até os garotos e virou de costas. — Sejam gentis.

Carter não precisou mover um só centímetro. Kyle já estava a caminho de ser um exemplo do cavalheirismo.

— Obrigada. — Francine começou a andar em direção as escadas. — Estarei as seis na pista de decolagem. E então vamos embora.

— Claro. — Carter apagou seu cigarro no sofá e se levantou.

De acordo com o relógio na parede, ainda faltavam três horas para o momento da decolagem do jatinho alugado. Havia muito tempo livre para pouca criatividade. Ou pouco tempo livre para retornar pela ultima vez a antiga casa de seus avós.

— Também está indo embora? — Perguntou Kyle. Carter já tinha começado a vestir sua calça comprida.

— Tenho um lugar para ir. Pela ultima vez...

Carter olhou ao redor, procurando sua camisa. Não demorou dois segundos para lembrar que não estava ali e correr em direção ao quarto.

— Não é perigoso?

— Não para mim... Não sou o criminoso mais procurado da América.

— Certo... — Kyle deu um meio sorriso. Pegou suas roupas jogadas ao lado e também começou a vesti-las.

— Você pode vir comigo. — Carter já estava de volta, agora abotoando a camisa. — Um homem não pode beber sozinho.

— Tudo bem. A gente não precisa fazer essas coisas de casais. — Kyle teria dado de ombros se não estivesse tão ocupado colocando as próprias roupas.

— Não seja paranoico. Vem, vou te apresentar a casa dos meus avós...

Kyle realmente não poderia recusar. Era isso ou ficar sozinho. E ele estava cansado de ficar sozinho.
φ

Uma viagem de apenas vinte minutos tinha acabado de se tornar um pesadelo para Francine. A Neve que cobria a pista deixou pelo menos um quilômetro de engarrafamento, e justamente na avenida principal. A única maneira de garantir sua chegada foi dobrando na primeira curva e pegando o caminho mais longo que sempre evitava. Talvez passar mais alguns minutos vendo as luzes de Chicago era exatamente do que precisava antes de deixar tudo para trás.

Chegando a rua onde morava, ela estacionou o carro em cima da calçada e correu diretamente à porta. Quem a recebeu foi Apocalipse, seu cachorro de estimação da raça Beagle. Estava pulando e balançando o rabo de tanta alegria.

— Hey, garotão... — Francine abaixou-se para fazer carinho. — Ainda está acordado?

Quanto mais passava as mãos em volta dos pelos, mais eufórico ficava o animal.

— Eu acho que tenho más notícias... Preciso fazer uma viagem, não posso mais ficar com você... Mas prometo que vou manda-lo para um lugar que você vai gostar.

Francine aproveitou a distração do animal lambendo sua perna para colocar seu plano em prática. Segurou a cabeça dele com as duas mãos, e em um movimento rápido, conseguiu quebrar seu pescoço. A ultima coisa que ouviu foi um grunhido de dor que já estava acostumada.

— Vou sentir sua falta... — Ela se levantou, fitando o cadáver com uma expressão fria.

E logo em seguida partiu para o segundo andar. Entrou no quarto, ligou a tv e foi diretamente até o guarda roupas. O canal sete estava exibindo outra matéria sobre os assassinatos de Chicago, do tipo que ela estava cansada de ouvir. Alguém tinha morrido, alguém era suspeito, alguém estava assistindo a muitos filmes de terror, alguém estava matando pessoas “inocentes”. Eram os assuntos que os telejornais mais gostavam de exibir. A única diferença é que, desta vez, haviam adicionado Kyle a suas reportagens sensacionalistas. Ela precisou parar tudo o que estava fazendo e dar atenção à TV.

— [...] Matou dois policiais e um detetive dentro do prédio da delegacia de homicídios de Chicago. — Disse a repórter. A foto de Kyle aparecia no canto superior direito da tela. — Kyle Fuller é agora um fugitivo e quem tiver informações sobre seu paradeiro deve informar a polícia imediatamente. Devido a magnitude dos crimes, a cidade de Chicago agora estará sob um novo toque de recolher. Todos devem permanecer em suas residências a partir das...

— Filho da puta... — Francine sorriu com malícia. Kyle sabia mesmo como dar um espetáculo. Mas não havia mais motivos para continuar assistindo o desespero dos moradores de Chicago.

Jogou o vestido no chão e correu nua até o banheiro de seu quarto. A ocasião estava implorando por meia hora na banheira com seus pensamentos, mas pela demora no trânsito infernal do inverno, teria mesmo que se contentar com um rápido banho quente de baixo do chuveiro.

Passando o sabonete pelo corpo durante alguns instantes, ela decidiu que já estava na hora de sair. Desligou o chuveiro, saiu da cabine e enrolou a toalha branca no corpo inteiro. O celular começara a tocar em cima da cama antes que pudesse ver o próprio reflexo no espelho.

“Número restrito” – Ela viu piscar no visor assim que voltou ao quarto. Tinha certeza de quem se tratava.

— Carter? — Ela atendeu a chamada. Só o que conseguia ouvir era a respiração de alguém do outro lado da linha. — Você está aí? Não estou te ouvindo... Ligue novamente. — E desligou.

Cinco segundos depois o celular tocou novamente.

— Carter, está me ouvindo agora?

— Perfeitamente, Francine. — Disse a voz assustadora do assassino mascarado.

Ela revirou os olhos.

— Sério, Carter?

— Você está chateada?

— Preciso terminar de arrumar as malas. O que você quer? — Francine colocou uma mecha dos cabelos molhados atrás da orelha.

— Dizer como você fica bem usando apenas uma toalha...

— O que? — Ela deu um ar de risos desconcertado e olhou para os dois lados. Aquela conversa estava ficando cada vez mais estranha.

— Você acha que pode simplesmente escapar, Francine? Seu destino foi traçado no momento em que conheceu Carter van Der Hills...

— Quem está falando?

— Você quer morrer ou viver, Francine? Tudo o que precisa fazer é responder corretamente minha pergunta. “Qual o nome do primeiro filme de terror da história?”.

Francine hesitou por alguns instantes. Poderia ser uma brincadeira bizarra de seu noivo, do mesmo jeito que poderia indicar que ele estava prestes a mata-la. De acordo com a franquia “Pânico”, era isso que os assassinos principais faziam. Matavam seus ajudantes a sangue frio para anular as chances de serem descobertos. Carter poderia estar prestes a fazer o mesmo, ou simplesmente... Francine não queria imaginar a outra opção.

— O que você está fazendo?

— Resposta errada.

Assim que a chamada foi encerrada, Ghostface chutou a porta do armário e correu para ataca-la. O susto foi tão grande que só houve tempo para que ela subisse na cama e começasse a gritar.

— Carter, não! — Ela corria de um lado para o outro em cima da cama, do mesmo jeito que o assassino tentava cerca-la.

Ambos continuaram com o vai e vem até Francine enxergar uma brecha e fugir pela porta. Os pés molhados fizeram-na derrapar em cima do tapete, e mesmo levantando com agilidade, o assassino conseguiu ser mais rápido. Imprensou-a na parede na metade do corredor e esfaqueou sua barriga apenas uma vez. Era o suficiente para deixa-la fraca demais pra reagir, mas viva o suficiente para olhar nos olhos dos assassino.

— Não... — Ela estava se entalando com o próprio sangue que saia da boca.

De maneira sutil, o assassino segurou sua máscara e puxou para fora do corpo. Era Megan quem estava por trás da fantasia, vingando não somente sua irmã, como também, todas as pessoas inocentes que morreram em nome dos filmes de terror. Agora era a vez dos mocinhos darem o troco. E até o final da noite, nenhum deles estaria vivo para contar história.

— Não fique tão chocada. Você sabe exatamente porque estou aqui... — Megan esfaqueou novamente a barriga de Francine. — Isso é pela minha irmã. E por todos os outros que não tiveram a chance de estar aqui...

— Não! — Francine gritou pela ultima vez.

Megan a esfaqueou mais três vezes na barriga e jogou-a em cima do tapete. Olhar para seu corpo completamente sem vida trazia uma sensação de alívio que ela não conseguia explicar. Deveria haver culpa e remorso pelo que fizera. Deveria chorar e pedir perdão à Deus. Mas ao invés disso, Megan se sentia completamente realizada. Aqueles assassinos estragaram sua vida pela ultima vez. Era a única coisa que realmente importava.

— Megan... — Aaron apareceu no corredor, próximo as escadas que havia usado para subir. Ver Megan com uma faca de açougueiro em mãos e o corpo mutilado de Francine o fez engolir em seco. A essa altura, tinha esquecido completamente o que iria dizer.

Megan olhou de volta para ele, sem saber se o amor da sua vida estava decepcionado com o que via.

— Devemos ir... — Aaron apontou para trás com o polegar. — Isaac está esperando no carro.

— Ok... — Megan tirou a fantasia do corpo e embolou nas mãos.

Juntos eles desceram para o primeiro andar e saíram pela porta da frente. Isaac estava dentro do carro, apenas aguardando que retornassem. Mesmo sabendo que aquele confronto era inevitável, seu corpo estremecia dos pés a cabeça.

— Está tudo bem? — Ele perguntou.

— Sim. — Megan entrou no carro pela porta de trás logo depois de Aaron. — Vamos embora. Amanda precisa de ajuda.


Capítulo 14: Catarse (Dia 29 de Maio de 2014)
A vingança é doce. E semana que vem, tudo estará terminado.
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