quinta-feira, 1 de maio de 2014

[Livro] A Punhalada 3 - Capítulo 10: Eu Caio Aos Pedaços



Amanda tinha certeza que o poder da mudança estava inteiramente em suas mãos. Sendo uma sobrevivente, ou apenas uma vítima, nada poderia intervir nas consequências de suas decisões. Até mesmo se a vitória nunca puder ser alcançada.

A primeira coisa que pensou quando levantou da cama foi na hipótese de igualar o placar com seus adversários. Pessoas estavam morrendo novamente enquanto o império de seu honrado marido estava prestes a ser dizimado por uma dupla de interesseiros. Talvez fossem os assassinos. Talvez justificassem todas as mortes através de uma busca insensata por alguns milhões. Porque no final, era a única coisa que Amanda Rush tinha a oferecer. Era a única coisa que não lhe fora tomada pela vida que escolheu continuar.

Pensando no nada que poderia perder, ela decidiu revidar. Pesquisou o que precisava, juntou alguns documentos e foi diretamente ao encontro de Carter Van Der Hills, que comandava uma importante reunião na empresa Hewitt. Havia empresários, secretários e contadores ouvindo suas propostas gananciosas; e todo com um único objetivo: Ganhar quanto dinheiro a inteligência lhes permitia.

Amanda caminhou diretamente até a sala de reuniões, ignorando os gritos histéricos das secretárias que perderiam o emprego caso a reunião fosse atrapalhada.

— Preciso ter pessoas da minha equipe envolvidas neste projeto. — Disse um dos empresários. — Estou colocando quatro milhões em suas mãos.

— Eu não faria isso se fosse você. — Amanda abriu as portas, tão confiante quanto gloriosa.

— Senhora Strauss? — Carter engoliu em seco.

— Esse homem que vocês estão vendo se chama Carter Van Der Hills. — Amanda começou a discursar. — Mas há sete anos, seu nome era Sebastian Levy. Formou-se com mérito em Yale e trabalhou como contador no estado de Wyoming. Mas isso foi antes de coagir um homem cego do hospital onde trabalhava a assinar vários cheques em seu nome e ficar seis meses no presídio estadual. — Ela jogou as pastas em cima da mesa preta para que todos pudessem ver. — Após receber uma condicional, ele se envolveu com Millena Evans, a promotora que limpou sua ficha em troca de... Bem, todos podem ver os atributos físicos do senhor Van Der Hills.

— O que você está fazendo? — Carter quase se exaltou. Os olhares confusos dos empresários estavam começando a lhe deixar desconfortável.

— Todos têm um passado, Senhor Van Der Hills. E ele vale muito mais do que está em jogo. — Amanda quase sorriu. Ele merecia ser destruído com as mesmas palavras que usara para lhe destruir.

— Isso é um absurdo! — Disse um dos empresários após ler as provas. Os outros pareciam concordar plenamente.

— Isso não é verdade... — Carter tentou disfarçar, mas já era tarde demais.

— Sinto muito pela maneira rude como os abordei. — Amanda deu um passo a frente. Sua voz uniforme provava que sabia exatamente o que estava fazendo. — Mas não havia outra maneira de impedir o roubo de seus capitais. Espero que compreendam.

— Você não vai fazer isso comigo! — Carter estava furioso.

— Já está feito... — Amanda deu meia volta e caminhou em direção a porta. Mas como poderia se retirar sem uma ultima frase impactante? — E não se esqueçam, cavalheiros. Se perguntarem quem foi a mulher que desmascarou Carter Van Der Hills, digam que foi Amanda Rush, a sobrevivente do massacre de New Britain. — Ela olhou para Carter com um sorriso malicioso. — Mal posso esperar para estar viva outra vez.
φ

Das portas de vidro da Delegacia de Homicídios de Chicago, Jeremiah podia enxergar uma grande aglomeração em frente a sala de porta azul. Policiais iam e vinham, segurando suas pranchetas ou falando ao celular; assim como todos os detetives que foram designados para os novos casos de assassinato. Não era preciso ser um veterano pra saber que alguma pista importante fora encontrada.

— Detetive Hatrett? — Ele gritou, levantando uma das mãos.

Hatrett olhou para ele durante um segundo. E logo depois, voltou sua atenção para o celular. Só precisava se despedir da mulher antes de dar uma bronca em seu ajudante irresponsável.

— Você está atrasado. — Hatrett começou a caminhar. Se Jeremiah quisesse ouvir o que tinha a dizer, precisava seguir todos os seus passos.

— Tive alguns problemas...

— Com uma adega?

— Estou aqui agora. — Jeremiah sentia que nada mais poderia dizer.

— Eu geralmente teria problemas em trabalhar com pessoas que fedem a bebida às nove da manhã. Mas inacreditavelmente, precisamos da sua ajuda.

— O que vocês encontraram?

— Isto. — Hatrett abriu a porta a sua direita.

A sala a qual Jeremiah fora apresentado estava cheia de detetives e agentes da perícia, que não apenas conversavam entre si, como também, voltavam totalmente sua atenção para os quatro quadros enormes posicionados lado a lado no fim da sala. “A lucidez impede a humanidade” – Jeremiah constatou. Todos retirados das cenas de crimes dos ultimos assassinatos. E aparentemente, todos com uma bizarra importância na solução daquele quebra-cabeças.

— Havia uma pintura em cada cena de crime. — Era a centésima vez que Hatrett olhava em volta daquela sala. — Exatamente como esperávamos.

— E qual é a história?

— Isso depende. — Hatrett deu dois passos para o lado. — A pintura foi criada pelo artista francês Juan Deveroux em 1897. Ele ficou famoso em sua cidade graças as obras simbológicas que marcaram a sua época, mas o sucesso não durou por muito tempo. Quatro anos após ganhar um nome de conhecimento nacional, sua filha de apenas seis anos foi estuprada e assassinada por um maníaco local. Quando percebeu que a polícia estava desistindo do caso, ele decidiu fazer justiça com as próprias mãos. Perseguiu o suspeito, o esquartejou pausadamente durante quarenta e oito horas e o deixou a beira de uma estrada para ser encontrado.

— E o que aconteceu?

— Ele foi executado nos Estados Unidos em novembro de 1897, logo depois de ser diagnosticado com esquizofrenia. Seus amigos contaram a polícia que ele estava obcecado por seu ultimo quadro, intitulado como “A lucidez impede a humanidade”. Ele simboliza a insensatez da definição de certo ou errado, que impede uma pessoa de agir de acordo com a sua natureza.

— Como um pai torturar um criminoso que assassinou sua própria filha a sangue frio... — Jeremiah concluiu, ainda pensativo. Talvez Chloe estivesse certa sobre sua teoria de vingança. Talvez tudo não passasse de um acerto de contas.

— Exatamente. Mas isso não é tudo. Apague as luzes, por gentileza. — Hatrett pediu ao oficial mais próximo do interruptor.

Com as luzes desligadas, ele pegou um dos bastões de ultravioleta e se aproximou dos quadros. Todos eles possuíam algumas palavras sem sentido gravadas no canto inferior direto, que só poderiam ser vistas naquela situação.

— São digitais? — Jeremiah notou. Havia muitas delas espalhadas pela pintura.

— Sim, de pelo menos vinte e cinco pessoas diferentes. Esses quadros chamam bastante atenção.

— As palavras não fazem sentido. — Jeremiah agora observava o canto inferior direito de cada obra. Todas as palavras eram desiguais e incoerentes, exceto pela letra M em cima de cada uma delas. Aparentemente, era o único padrão que poderiam encontrar.

— Você lidou com isso antes... — Hatrett foi interrompido pelo toque de seu celular. — Só um minuto. — Ele se afastou para atender.

Jeremiah continuou analisando as pinturas, mas precisava admitir que nunca conseguiria uma resposta sozinho. Aproveitou a saída de Hatrett para pegar seu celular e discar o número do filho. Aaron, para sua sorte, tinha acabado de chegar em seu quarto de hotel após a corrida matinal. Sua camiseta cinza, assim como o resto, estava completamente encharcada de tanto suor.

— Algo aconteceu? — Ele quase se exaltou. Já estava acostumado a lidar com o pai apenas quando se tratava de algum assassinato misterioso.

— Preciso da sua ajuda.

— Conseguiram pegar os quadros?

— Sim. E eles possuem mensagens que só podem ser lidas com a ajuda de luzes ultravioletas. Mas nenhuma delas faz sentido.

— Espere um pouco. — Aaron tentou organizar as informações que havia recebido. — Existem mensagens escondidas nas pinturas?

— Sim, mas parecem estar em outra língua.

— Eu posso traduzir. Me mande as fotos.

Jeremiah levou dois minutos para atender o pedido do filho. Agora era a vez de Aaron analisar a possível pista e desvendar o mistério.

O primeiro quadro possuía as letras “ym” em baixo de uma enorme letra M. O segundo possuía as letras “hatde”, também em baixo da letra M. O terceiro quadro possuía as letras “itletl”, ainda com o M de sempre, enquanto o quarto possuía as letras “spas”. SPAS era o único que não possuia a grande letra M na parte de cima.

— As escritas não coincidem com nenhuma língua atual. Talvez seja um anagrama. — Aaron imediatamente abriu um navegador de internet para pesquisar mais sobre o assunto.

— Anagrama?

— Letras de uma palavra que podem ser reorganizadas e formar outras palavras. As letras do primeiro quadro podem significar “My”. É o único anagrama em que elas podem se encaixar. As letras do segundo quadro, bem... Isso pode demorar um pouco.

— Acho que não podemos dizer que não temos tempo... — Jeremiah olhou ao redor. Pareciam todos confusos demais para que tivessem ideia do que estavam enfrentando.

Aaron precisou ficar em silencio por alguns instantes e se concentrar no que estava fazendo. A palavra “hatde”, de acordo com o que estava vendo, poderia formar mais de 100 anagramas. Entretanto, apenas um deles se destacava de maneira fiel a proposta do enigma. A palavra “Death”, tão previsível quanto rotineira. Já no quadro de número três, o único anagrama coerente era o que formava a palavra “Little”. Juntando apenas as mensagens desses três, Aaron obteve a frase “My Death Little”, seguindo a ordem de sua pesquisa.

— Espera um pouco... — Sussurrou. — Qual a ordem dos quadros de acordo com as cenas dos crimes?

— O primeiro na residência dos Estwood. O segundo no edifício da Denver Above, onde Chloe trabalhava. O terceiro na mansão alugada de Melanie Bower. E o quarto na casa de Luke Barclay.

— Merda... As palavras formam a frase “Minha Pequena Morte”.

— O que isso dignifica? — Jeremiah franziu a testa.

— Eu não sei. A ultima palavra também forma o anagrama “Pass”, mas isso não diz nada sobre a letra M em cima de cada palavra.

Aaron continuou olhando para as fotos em busca de uma solução. Parecia mesmo que o novo Ghostface apreciava enigmas.

— “Minha pequena morte pass”? — Jeremiah repetiu. Se não fazia sentido para seu filho, nunca faria para ele também. — Não vamos a lugar algum tendo apenas isso.

— A não ser que... — Aaron se aproximou um pouco mais da tela de seu computador.

Estava certo a respeito dos anagramas, mas e se houvesse algo além? A solução poderia estar na ordem das frases, na posição das palavras, ou simplesmente na rotação. O significado poderia mudar caso algumas letras pudessem representar outra palavras, que só seriam visíveis para aqueles que estão buscando alguma coisa. Foi quando percebeu que os três M’s, de cabeça para baixo, formavam “WWW”. Exatamente como a internet exigia.

— É isso... — Aaron estava espantado com a sua descoberta. — Acho que se trata do endereço de um web site.

— Web site?

— Sim.

Aaron imediatamente digitou seu palpite na barra de endereços do navegador. Ao pressionar a tecla “enter”, uma página com fundo preto se abriu, pedindo uma senha para autorizar o usuário a prosseguir.

— O site precisa de uma senha... — Aaron informou ao pai. Agora todas as pistas estavam fazendo sentido. Só faltava uma coisa. — Pass... Como password... Esses são únicos quadros confiscados?

— Sim.

— Um está faltando. Tenho certeza que ele informa a senha de acesso para o site.

— O que isso significa?

— Que alguém com a mesma pintura será a próxima vítima... — Aaron hesitou.

Nunca pensou que pudesse estar meio passo a frente do assassino. O único problema era não fazer ideia de como a informação poderia ajuda-los. Havia milhões de habitantes em Chicago. Era impossível investigar cada um e assumir que esta pessoa está em perigo. Poderiam começar investigando as possíveis vítimas, mas ele sabia que nenhum deles possui uma pintura igual. Então, a única solução era descobrir do que aquele site se tratava.

— Verei o que posso fazer... — Jeremiah quase lamentou. E então, ouviu a voz do filho novamente.

— Espere, estou tentando uma coisa...

— O que?

— Acho que posso hackear o servidor e acessar o site sem precisar da senha. Só vai levar um minuto... — Aaron colocou o celular entre a cabeça e a orelha para usar as duas mãos no teclado.

— Isso não é ilegal em Chicago?

— Só se alguém descobrir. Espero que saiba guardar um segredo.

— Eu normalmente diria que sou um túmulo, mas devido a situação, deve ser inapropriado.

— Sua suposição está correta. — Aaron quase sorriu.

Mais dois minutos se passaram em um silencio confortável até Aaron conseguir o que almejava. Graças a suas novas habilidades – aprendidas e aperfeiçoadas logo depois de se tornar novamente um sobrevivente -, ele tinha acesso total ao web site. Poderia até mesmo excluí-los da rede ou deletar todos os seus posts. Infectar o domínio também havia lhe passado pela cabeça, mas era melhor investigar o conteúdo antes de embarcar numa vingancinha pessoal.

Para sua surpresa, todos os dezessete posts listados eram iguais, e mantinham um video de quinze segundos em destaque sem qualquer tipo de legenda.

— Tem um video... — Ele informou ao pai enquanto clicava para assisti-lo.

Os primeiro cinco segundos do video não faziam o menor sentido. Havia apenas uma tela preta e ruídos esquisitos como em qualquer filmagem amadora.

Aaron pensou que o restante do video esclareceria todas as suas dúvidas, mas aconteceu exatamente o contrário. Não havia nada além de uma voz infantil, risadas aleatórias e o barulho constante da chuva; tudo enquanto a imagem se mexia rápido demais para que fosse compreendida. Talvez o video estivesse parcialmente corrompido, considerando a aparência antiga e a qualidade do áudio. Era a única maneira de explicar a sensação de ter ouvido tantos barulhos diferentes ao mesmo tempo.

— Aaron, o que aconteceu? — Jeremiah estava apreensivo.

— Nada... — Aaron engoliu em seco enquanto tirava todas as ideias malucas da cabeça. — Vou enviar o video para você. A polícia deve saber o que fazer...

— Você acha que o ultimo quadro ainda está por aí?

— Eu não faço ideia...

E mais uma vez Aaron se encontrou entre uma montanha de pensamentos supositivos. Mal ele sabia que sua teoria estava correta, e que o ultimo quadro estava sendo observado cuidadosamente por Cassidy Hewitt enquanto ela tomava uma taça de vinho. Ser dona de uma galeria sofisticada em Chicago e herdeira de um milionário pareciam ter alegrado uma noite dedicada apenas para assinar papeis. Ou seu interesse por vinhos e pinturas desconhecidas era apenas a prerrogativa de quem tinha tempo livre?

— Acabei de fazer a reserva do ultimo quadro da coleção. — Heather a informou, adentrando o enorme salão. — A compradora deve vir à galeria até amanhã.

— Ótimo. — Cassidy quase sorriu.

— O que é isso? — Heather se aproximou para observar o quadro mais de perto.

— É uma mulher sendo torturada no inferno.

— Metaforicamente?

— Felizmente, não. Por isso é tão interessante. — Cassidy balançou o vinho restante em sua taça.

— Onde você conseguiu?

— Foi doado por um empresário dinamarquês há algumas semanas. Deve ter sido um dos amantes da minha mãe.

— Bom, aproveite a vista... — Heather se afastou. Não passaria nem mais um segundo ao lado da amiga observando a pintura mais bizarra que seus olhos já viram. Talvez tivesse sua importância para Cassidy, sádica como sempre. Mas não precisava ter para ela também.

— Preciso que você arrume o inventário. Está uma bagunça.

— Pensei que Kevin faria isso.

— Ele não está respondendo minhas ligações, acho que está bêbado. — Cassidy nem se importava em virar-se para encarar a amiga. Apenas fitava o quadro enquanto lhe dava as ordens.

— Ótimo... — Heather suspirou.

— Melhor emprego de todos os tempos, eu sei.

— Cala a boca... — Heather sorriu enquanto caminhava pela pequena escadinha até os corredores do porão. Cassidy havia alertado sobre a vida remunerada mais de uma vez, então, não poderia reclamar.

O corredor no subsolo da galeria definitivamente parecia ter sido tirado de um filme de terror. Era estreito, cheio de entulhos e iluminado apenas por uma lâmpada amarela ligada a um fio no teto. O inventário ficava na ultima sala, próximo a saída de emergência que ironicamente estava sempre trancada. Era o ultimo lugar do mundo onde Heather gostaria de estar.

Ao abrir a porta, as caixas de papelão mal posicionadas imediatamente caíram no chão, derrubando também algumas pinturas e objetos estranhos que Cassidy insistira em manter.

— Merda! — Ela resmungou enquanto tentava colocar tudo de volta no lugar.

O único problema era que nada daquilo deveria estar ali. Ninguém compraria pinturas empoeiradas, do mesmo jeito que não havia produtos suficientes para serem embalados em todas aquelas caixas vazias. Seria necessário fazer também o trabalho da faxineira de licença para evitar a desorganização desnecessária que nenhuma galeria de arte precisava.

— Ótimo, Cas... — Resmungou mais uma vez.

Nem imaginava que a figura do assassino estava se formando por trás das caixas empilhadas enquanto limpava as pinturas antigas. Sua hora havia chegado, e Heather talvez nem tivesse a chance de dar o ultimo grito.

Enquanto isso, ainda no salão principal, Cassidy continuava bebendo vinho enquanto passava os olhos nas pinturas de destaque em sua galeria. Estava pensando em voltar para o escritório e passar a noite assistindo filmes, como o frio de cada madrugada exigia. A não ser que a noite tivesse outras planos.

Quando pensou que estaria sozinha para aproveitar a si mesma, notou a madrasta na porta da galeria, com um visual totalmente diferente. Amanda havia deixado para trás os cabelos loiros para voltar a cor natural, e com a ajuda de um aplique para deixa-lo no mesmo tamanho que costumava usar. A vestimenta elegante não havia mudado, mas a nova cor dos cabelos conseguia falar pro si só.

— Olá Cassidy. — Ela sorriu.

— Natalie?

— Sim, você pode me chamar dessa maneira... — Amanda adentrou a galeria, sem disfarçar a intenção de observar cada detalhe do local. Ou julgar, para ser mais fiel aos seus pensamentos. — Interessante o seu trabalho.

— Sério? — Cassidy fez questão de ser cínica.

— Estava me perguntando se você tem um minuto para falarmos sobre negócios.

— Depende. Você já assinou os papeis desistindo da minha herança?

— Não. Mas eu tenho algo que pode lhe interessar.

— Eu duvido muito. — Cassidy cruzou os braços.

Ao invés de um discurso deprimente a respeito de sua conduta, Cassidy recebeu um soco no meio do rosto; tão poderoso que conseguiu derrubá-la no chão segundos depois.

— Você ficou maluca? — Ela passou a mão pelo nariz quebrado. O sangue escorria por seus dedos como se fosse água.

— Você sabe. Todos nós ficamos um pouco loucos às vezes... — Amanda chutou seu estômago com a perna direita. — Mas não hoje a noite, vagabunda.

— Heather, me ajude! Por favor, alguém me ajude!

— Isso dói, não é? — Amanda acertou outro soco. — Talvez tanto quanto bater em um homem indefeso que um dia você conheceu como pai. — E lançou outro soco no rosto da garota.

— Do que você está falando? — Com o rosto todo machucado, Cassidy estava começando a chorar. — Por favor, pare!

— Se você acha que eu vou assistir o império de Michael ser destruído pela sua ganância, você só pode estar sonhando. — Amanda chutou sua barriga mais uma vez. — Se a justiça não der o que você merece, pode ter certeza que eu irei.

—Por favor! Não!

— Ele te amava mais do que qualquer coisa...

Antes que pudesse lhe acertar o próximo soco, Amanda notou que havia algo errado. Cassidy estava no chão como um animal, sendo apoiada pelas mãos e pelos joelhos. Os cabelos jogados na frente do rosto não conseguiam esconder a risada diabólica e inapropriada.

— O que é tão engraçado?

— Você acha que eu me importo? — Cassidy olhou para ela enquanto se levantava do chão. — Michael não passava de um velho asqueroso e mão de vaca. Estou feliz que ele tenha morrido, porque agora posso torrar seu dinheiro da maneira que eu quiser.

— Eu vou matar você. — Amanda ameaçou.

— Eu nunca vou morrer. — Cassidy retrucou, cheia de soberba.

Amanda tinha certeza que estava fazendo a coisa certa. Mesmo que Cassidy tivesse o poder de acabar com tudo, merecia pagar por tudo o que havia feito a Michael. Um homem tão generoso que foi capaz de convencê-la a continuar uma vida completamente sem sentido. Tão dadivoso que levou uma sem teto para dentro de casa e deu tudo o que precisava sem ousar tocá-la. Michael sempre fora um homem honrado. Por isso sua única filha o odiava tanto.

Um enorme estrondo se formou no salão, e então, Amanda e Cassidy olharam para cima. Um corpo havia sido jogado no teto de vidro da galeria e estava derrapando com força total até o chão de concreto junto de enormes cacos de vidro. O instinto alertou que precisavam se proteger, mas aquele era apenas um show de entrada. O corpo que estavam vendo pertencia a Heather, que fora esquartejada e amarrada numa corda branca, com o cuidado de separar todos os membros cortados de seu corpo.

Mesmo com a fumaça branca ao redor, ambas conseguiam enxergar um corpo em pedaços no meio dos destroços.

— Heather? — Cassidy deu dois passos a frente.

Amanda faria o mesmo se não estivesse tão chocada com o que acabara de presenciar. Isso acabou lhe dando a chance de prestar atenção na fumaça branca ao redor e notar o assassino se aproximando do local onde estavam.

— Cuidado! — Ela gritou. 



Cici Checks by Scream 2 on Grooveshark

Cassidy olhou para trás com o susto, e logo depois para sua frente. O aviso de Amanda conseguiu chegar a tempo de impedir que levasse uma facada certeira no peito, mesmo que não pudesse evitar sua vulnerabilidade naquela situação. Estava diante de um assassino habilidoso, e tão experiente, que conseguiu lhe acertar um chute logo após a tentativa fracassada de esfaqueá-la.

Cassidy caiu por cima de uma mesinha ao lado de Amanda, derrubando as pequenas obras de arte em carvão que estavam expostas. Ela morreria em poucos segundos se Amanda não tivesse decidido defende-la. Cassidy não merecia nenhum tipo de compaixão. Mas também não merecia ser a próxima vítima de alguém que dedicou sua vida para assassinar Amanda Rush.

— Não! — Amanda pulou nas costas do assassino.

A imobilização durou apenas alguns segundos; até o assassino bater de costas na parede e fazê-la cair no chão, já com o ombro destorcido.

A dor insuportável a deixou agonizando por alguns segundos enquanto Ghostface voltava sua atenção para a vítima principal. Ele caminhou até Cassidy enquanto a garota usava os cotovelos para se arrastar de costas no chão, como se não soubesse que suas chances eram nulas quando se tratava do assassino de sua geração. Ela sabia quem ele era e o que representava. Só não fazia ideia do motivo para escolhe-la como a próxima vítima.

— Por favor, não! — Ela implorou em vão.

O assassino puxou seu cabelo para levantá-la do chão e arremessou seu corpo na outra direção. Cassidy atravessou uma pintura gigantesca antes de cair por cima de um pedestal contendo mais uma obra de arte. Sua cabeça machucada a impediu de levantar-se para correr, logo quando Amanda parecia já ter tudo sob controle. Agarrou um dos globos expostos em um dos pedestais e lançou na cabeça do assassino antes que ele chegasse perto de Cassidy novamente.

Logo em seguida, correu até a garota e ajudou a coloca-la de pé para que pudessem correr. O único lugar onde poderiam ficar seguras era no próximo salão, onde Cassidy havia construído um enorme labirinto azul para a apresentação do dia seguinte. Havia imagens gigantescas, vídeos sendo exibidos com repetições psicodélicas e luzes fluorescentes, exatamente como o artista havia exigido.

— Fique quieta. — Pediu Amanda assim que encontrou um lugar para se esconder ao lado de Cassidy. Estava atrás de uma das inúmeras paredes removíveis do labirinto.

Cassidy apenas assentiu e fez de tudo para permanecer quieta. O silêncio poderia ajuda-las a descobrir onde o assassino estava e para onde iria de acordo com seus passos.

— Venha... — Ouvindo o barulho de passos do lado esquerdo, Amanda decidiu levar Cassidy até a próxima parede do lado oposto. Se quisessem ter uma chance de sair daquele labirinto, precisavam continuar recostadas e controlar a respiração ofegante.

Cinco segundos depois elas decidiram mover-se novamente. Agora estavam de frente para um video onde uma mulher de meia idade exibia os lábios de maneira sexy.

— Você acha que ele está aqui? — Cassidy perguntou num sussurro.

Amanda preferiu não responder. Apenas levantou o dedo indicador até a boca para pedir silêncio absoluto antes que fossem descobertas.

Só percebeu que era tarde demais quando os braços do assassino atravessaram a parede onde estava e agarraram seu corpo. O Susto fez com que Cassidy se afastasse enquanto Amanda tentava de todas as maneiras livrar-se do perigo.

— Cassidy, corre! — Ordenou a sua ex enteada.

Cassidy não pensou duas vezes. Deu meia volta e correu em direção a porta no final da sala, deixando Amanda para lidar sozinha com o cruel assassino. Por sorte – ou não – ela tinha bastante experiência para lidar com aquele tipo de situação. Conseguiu livrar-se das mãos do assassino em um piscar de olhos e correu para o outro lado do labirinto, escapando também de uma facada certeira nas costas.

Uma vez fora do salão número dois, ela correu até a sala mais próxima. Era o escritório de Cassidy, ela tinha certeza. Havia poltronas confortáveis, um aquário enorme, uma televisão no fim da sala e uma mesa branca cheia de papeis importantes. Amanda passou por tudo isso diretamente até a cadeira, que usou para quebrar o vidro da janela e pular para o lado de fora da galeria.

Agora estava livre, olhando o que deixaria para trás enquanto tentava pensar no que fazer. Cassidy ainda poderia estar lá dentro correndo perigo. A única maneira de salvá-la seria chamando a polícia.

Amanda tirou o celular do bolso e rapidamente iniciou a chamada.

— 911, qual sua emergência? — Perguntou a atendente do outro lado da linha.

— Estou na Galeria Evigan com St. George. Alguém está tentando me matar! — Amanda continuou olhando para a galeria a alguns metros de distância. Nada iria impedir o assassino de usar a mesma passagem que ela para sair e terminar o que havia começado.

— Senhora, existe algum lugar onde possa se esconder?

— Minha amiga está lá dentro. Venham rápido! — E encerrou a chamada. Só esperava que a polícia conseguisse chegar a tempo.

Cassidy continuava dentro do edifício, correndo de um lado para o outro em busca de uma saída. Quando finalmente chegou ao estacionamento, o peso que sentia sobre as costas foi amenizado. Ali estava seu carro, novo em folha, pronto para que pudesse fugir sem olhar para trás.

Ela correu até o veículo e imediatamente tirou as chaves do porta-luvas. As mãos trêmulas quase não conseguiam obedecer seus comandos, mas não havia tempo para que pudesse se recompor. O assassino se revelou no banco de trás e começou a esfaqueá-la pelas costas enquanto usava a outra mão para prendê-la no assento.

Cassidy levou doze facadas até se tornar apenas um corpo sem vida dentro do veículo. Sua cabeça foi jogada em cima do volante para fazer a buzina apitar incessantemente ao mesmo tempo em que Ghostface fugia da cena do crime.

Ela deveria saber que apenas uma pessoa tinha o direito de machucar Amanda Rush. E que eliminaria qualquer um que entrasse no seu caminho.


Capítulo 11: Meu Inimigo (Dia 8 de Maio de 2014)
Na próxima semana, Kyle enfrentará grandes problemas enquanto a amizade de Chloe e Megan será colocada em evidência. Não se esqueçam que teremos a revelação do assassino no Capítulo 12 e a morte principal no Capítulo 13!
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1 comentários:

  1. "O assassino se revelou no banco de trás e começou a esfaqueá-la pelas costas enquanto usava a outra mão para prendê-la no assento" Eu sei que Amanda não poderia morrer assim, mas me confundi e pensei que tinha sido ela nessa parte, meu coração parou. Sério. HAHHA. Que susto. Triste, mas fiquei muito aliviado quando percebi que não tinha sido Amanda e sim Cassidy..
    Sem palavras com suas ameaças, sim, são ameaças, querendo matar um dos personagens. Eles são tão fodas, é crime matar um deles.
    Falei que o assassino poderia ser o Aaron, desconsidere, foi só um devaneio meu, eu voei nos pensamentos.

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