quinta-feira, 3 de abril de 2014

[Livro] A Punhalada 3 - Capítulo 6: Vocês Todos Morrerão Esta Noite


A noite fria e solitária finalmente havia terminado. Amanda estava de volta a sua mansão, preparada para tolerar a companhia que escolhera. E uma noite de pizzas que apenas Isaac Channing poderia propor.

Enquanto tentava inutilmente fazer o controle remoto do portão da garagem funcionar, ela remexia no porta-luvas de seu carro procurando as chaves. E uma vez encontradas, não viu necessidade de continuar brigando com o controle remoto quebrado. Que mal haveria em deixar um de seus carros do lado de fora por apenas uma noite? Com um pouco de sorte, talvez a neve decidisse cair apenas semana que vem.

Ela caminhou estreitamente até a porta da mansão e rapidamente trancou-se para o lado de dentro. Jogou a bolsa cinza na mesinha ao lado, caminhou até a sala e despejou o casaco em cima do sofá. Cinco segundos se passaram enquanto deixava o silêncio lhe trazer algumas dúvidas. Aquela casa estava silenciosa demais para estar abrigando Isaac Channing.

— Isaac? — Ela perguntou num grito. Mas sabia que precisava ir até a cozinha para ter certeza.

Isaac não estava lá, mas havia um bilhete pregado na geladeira onde explicava que havia saído para comprar pizza. Teria sido o suficiente para uma primeira briga se Amanda já não tivesse ditado as regras. Ninguém poderia saber quem ela era. Ninguém poderia saber onde morava. E Isaac precisava evitar contato com todos que demonstrassem estar interessados na mulher com quem está saindo. Tudo para evitar a aproximação de pessoas que podem se aproveitar de mulheres muito ricas. Ou pelo menos, era o que Isaac pensava.

Amanda rasgou o bilhete e caminhou de volta para a sala de estar. Enquanto tirava uma dose de whisky, percebeu que o clima de repente havia mudado. Era como estar sendo observada por alguém que não estava ali, e por alguém que definitivamente não era a ilusão de seu irmão.

De costas para a enorme parede de vidro que lhe garantia uma esplêndida visão da floresta de pinheiros, ela resolveu virar-se para conferir. Uma rajada de vento havia acabado de chegar sobre as árvores, fazendo com que se mexessem e tomassem formas estranhas na escuridão. Parecia que até mesmo o universo tinha o timing perfeito para fazê-la ficar na defensiva.


Mesmo assim, Amanda não conseguiu permanecer confortável naquele cômodo. Pegou seu copo de whisky e caminhou em direção ao corredor que levava aos quartos. Na metade do caminho, foi surpreendida por um toque de celular que vinha da penteadeira por onde passara. A não ser que Isaac tivesse esquecido o celular, havia uma coisa muito errada dentro daquela mansão onde fora abolido o uso de tecnologias.

Vagarosamente ela seguiu o toque irritante até chegar à penteadeira. Dentro da primeira gaveta estava o aparelho, mostrando no visor que se tratava de uma chamada restrita.

Ela hesitou, mas sabia que não tinha escolha. Lentamente levou o celular na orelha para atender a misteriosa chamada.

— Alô? — Ela sussurrou.

— Surpresa, Amanda! — Gritou o assassino do outro lado da linha.

Meio segundo bastou para que ele se revelasse atrás da porta do final do corredor e preparasse o ataque; era o momento perfeito para livrar-se de sua tão querida protagonista. Mas depois de viver o mesmo pesadelo duas vezes, Amanda acabou aprendendo a sempre ter cartas na manga.

Antes que o assassino pudesse se aproximar, ela sacou uma arma da cintura e descarregou um pente inteiro no peito de seu inimigo, fazendo-o atravessar a porta de vidro e cair no meio das plantas do lado de fora.

Ela só parou de atirar quando percebeu que as balas haviam acabado e que seus dedos estavam cansados de apertar o gatilho em vão. Correu no mesmo instante até a varanda para checar, mas não havia nada além de cacos de vidro e vasos de planta quebrados. Nem mesmo uma gota de sangue havia espirrado no chão de concreto depois de descarregar uma arma inteira no peito do assassino. E isso só poderia significar uma coisa.

— Colete... — Amanda olhou ao redor. Não havia nenhum movimento, nenhum indício de que seu inimigo poderia estar por esta. E em fração de segundos ela pôde lembrar o momento que agora salvara sua vida.

Ela estava em um supermercado das redondezas terminando de pagar suas compras no caixa enquanto Isaac esperava no carro. Como em um reflexo, olhou diretamente para a tv superior de quatorze polegadas atrás da vendedora. A emissora estava exibindo uma matéria sobre o assassinato de Melanie Bower, a irmã de Megan, junto de várias teorias a respeito dos crimes anteriores.

Amanda lembrava claramente do momento em que seu peito começara a doer e seus olhos encheram de lágrimas. Lembrou-se também de voltar para o carro e não dizer uma só palavra no caminho para casa.

Felizmente, depois de descobrir que ainda não havia terminado, lembrou-se da arma que guardara no armário, e prometeu a si mesma que carregaria consigo para onde fosse. Viver o mesmo pesadelo todas aquelas vezes era o que lhe garantia uma sutil escapatória. Que ainda não havia terminado.

— Merda... — Ela correu de volta para casa, discando o número da polícia que ainda tinha em mãos. Passou pelo corredor onde estava até chegar a sala, sempre olhando para trás.

— 911, como posso ajudar? — Disse a atendente.

— Meu nome é Natalie Strauss, eu vivo nas montanhas ao leste, tem alguém tentando me matar...

Quando conseguiu chegar até a porta da cozinha, deu de cara com o assassino, e voltou correndo novamente para a sala de estar. Conseguiu escapar de uma facada certeira ao dobrar em direção ao hall, assim como o assassino derrapava por cima da poltrona devido a velocidade do próprio corpo que não conseguiu controlar. Era a segunda vez que a imprevisibilidade dos movimentos de Amanda lhe trazia problemas.

Uma vez distante, Amanda conseguiu ganhar vantagem, mas não por muito tempo. A porta da frente estava trancada. A porta para o outro cômodo também. Só lhe restou correr até a porta dos fundos, que infelizmente também estava trancada. Ela não queria acreditar, mas seria impossível sair de dentro da mansão. Se tentasse pular as janelas, cairia montanha a baixo. Mas se permanecesse do lado de dentro, seria esfaqueada até a morte. Não haviam muitas opções, quando no final, o destino de Amanda Rush era sempre incerto.

Se ela bem lembrava, havia guardado outra arma no andar de cima, ao lado de onde guardara a primeira que deixou cair próximo a cozinha. Pensando apenas no pior, ela acabou deixando de lado a alternativa mais importante que lhe ajudou desde o começo: Lutar.

Deu a volta pelo corredor ao lado da porta dos fundos, no mesmo instante em que Ghostface aparecia no hall olhando para todos os lados. E em passos curtos, Amanda conseguiu contornar a sala de jogos e chegar ao escritório, seguindo de volta ao hall para subir as escadas. A essa altura, Ghostface já estava longe; talvez perdido em um dos dezoito cômodos da mansão, ou apenas esperando o momento certo para atacar.

Já no segundo andar, Amanda correu na ponta dos pés até o quarto de seu falecido marido. Revirou os pertences que estavam no guarda-roupas até encontrar uma pequena caixa preta dentro de um falso assoalho. Mas antes que pudesse abri-la, ouviu o som de passos se aproximando. E não eram nada sutis.

O assassino parecia saber onde ela estava, e parecia estar correndo diretamente ao seu encontro.

Cinco segundos depois, Ghostface estava encarando um enorme quarto vazio, tão velho e desgastado quanto seu antigo dono havia deixado. O guarda roupas estava aberto, a caixa estava do lado de fora, mas Amanda havia corrido para o único lugar onde talvez pudesse manter-se nas sombras. Depois da janela do quarto de seu falecido marido, não havia uma bela vista. Havia a estufa da mansão, totalmente protegida por paredes de vidro. Amanda passou pela janela rapidamente e ficou escondida atrás de uma parede, tentando controlar a respiração a medida que o forte vento noturno batia em seu rosto. E mesmo que não pudesse olhar de volta para dentro do quarto, sabia que o assassino estava perto o suficiente para lhe dar calafrios.

Ela tentou caminhar em cima do teto de vidro, e apesar da inconsistência que seu nervosismo causava em cada passo, não havia riscos de desabar. Ouvia-se apenas alguns estalos superficiais ecoando pelo vidro, que chamaram a atenção do assassino sem que ela percebesse. Quando deu por si, já havia levado um corte horizontal na perna direita, que a obrigou a ajoelhar no telhado.

O assassino tentou segurar suas pernas para que ela não pudesse engatinhar, mas ouvindo os gritos ensurdecedores de sua vítima, resolveu tomar uma atitude extrema. Esfaqueou o telhado de vidro com todas as suas forças, fazendo Amanda cair na estufa do primeiro andar junto dos milhares cacos de vidro.

— Amanda, levante... — Ela ouviu o irmão dizer enquanto permanecia semi-inconsciente em cima de uma mesa cheia de plantas.

O impacto não causara sérios danos em seus corpo, assim como podia sentir todos os ossos intactos onde deveriam estar. O único problema era o que estava dentro da sua cabeça. Brandon sempre estava ali, sussurrando palavras de encorajamento e provocações previsíveis; sempre com o tom de voz condescendente que fazia Amanda querer dar um tiro na própria cabeça.

— Você não pode morrer no segundo ato. Não me decepcione... — Ele sussurrou uma ultima vez.

E então, Amanda despertou. Olhou para cima, olhou para os lados, olhou para si mesma, e apenas correu. Tirou todos os cacos de vidro de cima de seu corpo e correu, sem se importar com a tontura ou o leve sangramento na perna.

Conseguiu passar pelo jardim e pela cerca, chegando a única estrada que levava a sua mansão. Foi próximo a um pinheiro quase morto que ela deu de encontro com Rosalee, que acabara de chegar misteriosamente no local. O susto foi tão grande, que ao invés de atingi-la, Amanda decidiu colocar solenidade em seu objetivo. Precisava sair dali o mais rápido possível e ignorar todas as pessoas em seu caminho. Porque uma delas era o assassino.

— Amanda, ai meu Deus! — Rosalee tentou segurá-la, mas Amanda a empurrou e continuou correndo.

— Fique longe de mim!

— Amanda! — Rosalee gritou.

— Fique longe de mim!

Rosalee a observou desaparecer no horizonte com a preocupação estampada em seu rosto, nada poderia fazer. Logo em seguida, olhou para a mansão a sua frente. Não era a toa que Amanda havia fugido. Não era a toa que Amanda sempre sobrevivia.
φ

O toque do telefone residencial ecoou pela sala de estar. Luke, que acabara de levantar da cama, vestiu sua camisa e correu para atender.

— Alô? — Ele perguntou, e nada além de uma respiração ofegante conseguiu ouvir. — Alô?

Ele tentou mais uma vez, e então, apenas desistiu. Correu com o telefone nas mãos até a geladeira de sua cozinha para ver todas as suas opções. Parecia que alguém muito querido, e que sua mãe igualmente não aprovada, havia esquecido de comprar o jantar. Mas não era nada que uma pizza não poderia resolver.

— George? — Ele gritou no pé da escada.

— O que? — Ainda no chuveiro da suíte, George respondeu.

— Quer pizza?

— Por favor!

Após obter sua resposta, Luke discou o número de sua pizzaria preferida e fez o pedido de sempre. Até mesmo a atendente pôde lhe reconhecer e chama-lo de cliente preferido. Parecia que nas ultimas semanas George havia dado muitos motivos para terem pizza no jantar.

Ele colocou o telefone em cima da mesa e voltou para o quarto, onde tinha uma tv enorme e um celular de ultima geração a sua disposição. Foi relendo antigas mensagens em seu aparelho que ele notou o torpedo anônimo enviado há alguns dias. Ele ainda não fazia o menor sentido, assim como lhe parecia cada vez mais estranho.

Afinal, o que significava SOMLAS 1:1? Era um tipo de código que serial killers usavam para oprimir suas vítimas? Tendo sido criado pela avó, era normal que essa fosse sua primeira opção. Mas sendo um universitário, ele conseguiu chegar a conclusão de que poderia ser um anagrama, que nunca faria sentido se tentasse primeiro descobrir quem enviou.

Organizando as letras em um programa no seu laptop, ele descobriu que havia a palavra “Salmos” na mensagem, e que ela vinha seguida por dois números que provavelmente seriam versículos. De acordo com a internet, esta passagem diz: “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores”.

— Mas que merda...? — Luke deu um ar de risos desconcertado.

— Hey... — Disse George, saindo do banheiro com a toalha enrolada na cintura e a outra enxugando os cabelos. Conhecendo Luke da maneira que conhece, sabia que algo tinha acontecido apenas olhando em seus olhos. — Tudo bem?

— Lembra da mensagem anônima que recebi outro dia? É um anagrama de uma passagem bíblica.

— Sério? — George se aproximou para observar a tela do computador.

— Sim. — Luke começou a ler. — “Salmos 1:1 Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores”.

— O que isso significa?

— Eu sei lá. Não sei quem poderia ter enviado.

— Talvez sua mãe... — George se afastou e caminhou até o guarda-roupas do outro lado do quarto. — Não seria a primeira vez que ela tenta ser homofóbica.

— Ela é ateia, não acredita na bíblia. Só não gosta de gays por causa do próprio ponto de vista. E esta não é uma mensagem homofóbica.

— Pense no bem-aventurado como um pastor de igreja que só usa camisas sociais. — Começou George. Seu plano era discursar enquanto vestia sua roupa. — Pense no conselho dos ímpios como uma simples dica de uma revista para usar preservativos. Talvez o caminho dos pecadores seja o trajeto da sua língua ao beber vodka no corpo de outra pessoa. E a roda dos escarnecedores, bem, existem muitas boates gays em Chicago. E aos doze anos todos brincamos de verdade ou desafio com os amiguinhos. Isso é apenas uma questão de perspectiva.

— Muito sutil. — Luke ironizou. — E respeitoso. Imagino o que os investidores do seu pai iriam dizer se ouvissem sua opinião.

— É por isso que você recebe mensagens anônimas.

Antes que Luke pudesse retrucar, ouviu tocar a campainha.

— Eu volto já. — Ele se levantou e desceu as escadas. Ouviu mais um toque ecoar pela casa, e então, abriu a porta.

Megan estava parada do lado de fora, com os olhos cheios de lágrimas, sangue escorrendo na testa, o rímel escorrendo pelo rosto e sentindo visíveis calafrios. Atrás dela estava Francine, sua assistente, segurando uma agenda e uma caneta com suas mãos igualmente trêmulas.

— Ai meu Deus, Megan! — Luke se afastou e estendeu a mão para as garotas. — Entrem. O que aconteceu?

— Eu não tenho pra onde ir... — Megan soluçou, limpando as marcas de rímel do rosto com as duas mãos.

— Venha, sente aqui... — Com cautela, Luke a guiou até o sofá, sentando-se ao lado logo em seguida.

— Não posso ir pra casa. Aaron está lá, ele disse coisas horríveis, eu não consegui aguentar...

— Vocês brigaram? — A preocupação de Luke só aumentava.

— Eu não sei o que está acontecendo. Ela está morta e Aaron sempre distante, eu acho... Eu acho que ele está tendo um caso...

— Megan, você não sabe disso. — Luke tocou nas mãos de Megan, posicionadas nas coxas da garota.

— Estávamos indo bem em Los Angeles, mas de repente ele quis mudar para Chicago. E ele sempre está falando ao telefone, sempre está fora de casa, e sempre dá as desculpas mais esfarrapadas...

— Ele atirou um vaso na parede de tanta raiva! — Disse Francine, tão rapidamente quanto alguém que guardara uma informação por tempo demais.

Ao olhar para ela, Luke percebeu que estava com uma expressão assustada.

— Cala a boca, Francine! — Megan gritou, histericamente. — Você é porto-riquenha, só me decepciona! — E em seguida voltou a chorar. — Eu não sei o que está acontecendo, Luke, por favor...

— O que está acontecendo? — George tinha acabado de chegar.

— Ela brigou com Aaron... — Luke acariciou os ombros de Megan. — Ela precisa de um lugar pra dormir.

— Ai meu Deus, ela está sangrando... — George notou.

Megan tocou levemente em seu ferimento na cabeça. Com tudo o que precisava lidar, tinha esquecido que ele ainda estava lá.

— Eu caí da escada... — Ela sussurrou.

— Megan... — Luke lançou um olhar cauteloso para George. — Você tem certeza que caiu da escada?

— Sim, eu... — Megan de repente entendeu o que Luke estava querendo dizer. — Aaron não é assim, ele não fez nada comigo. Eu nunca deixaria nenhum homem fazer isso comigo. Eu não sou... Eu não sou esse tipo de mulher.

— Ela tropeçou no Barack Obama e caiu. — Francine informou, mas no final, parece ter deixado todo mundo ainda mais confuso. — O salto alto.

— Ok, vou pegar o kit de primeiros socorros. — George deu dois passos para o lado e subiu as escadas.

Luke pensou em continuar a conversa, mas parecia que a noite seria agitada. Mal conseguiam lidar com o problema de Megan e a campainha já estava tocando outra vez. Quem poderia ser?

— Meu Deus... — Luke suspirou. — Fiquem aqui.

Ele caminhou na direção da porta e puxou a maçaneta de uma vez. Aaron estava do lado de fora, com os olhos vermelhos de tanto chorar e a blusa suja de comida. Definitivamente não era um bom momento para ter o casal do ano em sua sala de estar. Muito menos quando ambos pareciam estar prestes a se matar.

— Onde ela está? — Aaron perguntou.

— Aaron, eu não...

— Megan! — Aaron empurrou a porta. Quando percebeu de quem se tratava, Megan pulou do sofá. — Megan, precisamos conversar.

— Aaron, apenas me deixe em paz!

— Você não precisa complicar tudo!

— O que? — Megan deu dois passos a frente. — Minha irmã está morta e você acha que eu estou complicando tudo? Vai se foder, Aaron! Foda-se você e sua amante de merda!

— Eu não tenho uma amante!

— Então com quem você passa suas tardes? Tenho certeza que não é com a sua noiva.

— Megan, por favor... — Aaron tentou se acalmar. — Você não está entendendo.

— Eu não estou entendendo? Ok, parece mesmo que nosso diálogo está evoluindo...

— Megan, por favor...

— Qual a sua desculpa dessa vez? Porque eu...

— Megan, Amanda Rush está viva! — Aaron simplesmente gritou.

Sem palavras, todos trocaram um olhar cauteloso entre si. Francine parecia apavorada, Luke não sabia o que dizer, e Megan permaneceu estática. Porque no final, eram as únicas coisa que todos podiam fazer.

De repente, todas as luzes se apagaram, e o pequeno grupo se reuniu no centro da sala. No andar de cima, o apagão havia pegado George de surpresa. Agora precisaria de uma vela para encontrar o kit de primeiros socorros dentro do banheiro.

— Diga que você está com problema nos fusíveis... — Aaron olhava de um lado para o outro.

— Não... — Luke respondeu num sussurro.

Todos estavam preparados para deixar o silêncio tomar conta do ambiente, mas alguém tinha outros planos. E era a mesma pessoa que estava ligando para o telefone da sala de estar enquanto os quatro amigos permaneciam na escuridão.

Megan olhou para Aaron, e em seguida para o telefone. Aaron sabia no que ela estava pensando, e precisava fazer de tudo para impedir.

— Megan, não...

Mas foi em vão. Megan o ignorou completamente e correu na direção do telefone. Não precisava de cerimônia para atender a chamada, apenas puxou o telefone do gancho com a fúria de quem tinha contas a acertar.

— Alô?

— Olá, Megan. — Disse o assassino do outro lado da linha. — Espero que esteja gostando do meu filme.

— O que você quer?

— Juntar você e sua irmã. Ela já está esperando no inferno.

— Então venha me pegar! — Megan gritou. Todos ao seu redor ficaram na defensiva.

— Eu irei. E Aaron não vai estar lá para salvá-la quando chegar a sua vez. Porque não importa o que aconteça, vocês todos morrerão esta noite. — A chamada foi encerrada, no mesmo instante em que todos notavam um estranho barulho vindo do andar de cima.

Era o suficiente para Luke ter certeza do que estava acontecendo. Não vivera o mesmo pesadelo que sua melhor amiga, mas sabia de todos os detalhes, e de tudo o que precisava fazer para manter-se seguro ao lado das pessoas que ama. Se tudo acontecesse como no livro de Chloe Field, e como Megan havia lhe contado, a pessoa mais importante da sua vida poderia estar em perigo.

— George! — Ele gritou, correndo em direção as escadas.

— Luke, não! — Aaron tentou avisar, mas foi inútil. A única coisa que poderia fazer por Luke era segui-lo para o andar de cima, apenas para garantir que todos ficassem juntos.

Logo depois de Aaron, Megan e Francine subiram, até todos estarem dentro do quarto de Luke e George.

Luke estava fitando o banheiro do quarto com um olhar perdido. Um olhar que Aaron só entendeu quando se aproximou e viu o que ele estava vendo. George não estava lá, mas havia sangue, e vários objetos de primeiros socorros ao lado de uma caixa preta.

— Ele nunca fecha a cortina... — Luke sussurrou. E só então Aaron percebeu que havia uma mancha de sangue na cortina.

Mesmo ouvindo os conselhos de Aaron, Luke se aproximou vagarosamente para saber o que havia atrás da cortina. E lá estava o corpo de George completamente esfaqueado, e os olhos totalmente abertos. Havia sangue para todos os lados, assim como pedaços de órgãos retirados que nem mesmo um médico legista poderia identificar.

— Não! — Luke se afastou.

Megan e Francine caminharam para ver o que Luke e Aaron estavam vendo, mas se afastaram para perto da janela quando percebera do que se tratava.

— Luke, vamos sair daqui. — Aaron tocou no ombro do garoto. E mal houve tempo para fazer qualquer outra coisa.

O assassino invadiu o quarto e atacou Aaron, a pessoa mais próxima da porta de entrada. Aaron conseguiu escapar de uma facada nas costas e acertar um soco no assassino, mas sua maior preocupação ainda era Megan. Ela precisava sair daquela casa antes que se tornasse a nova vítima.

Enquanto media forças com o assassino e ambos derrapavam por cima dos móveis, Aaron pediu aos gritos para todos os outros saírem correndo. Mas estavam todos com medo demais para obedecer. Estavam com medo de fazer qualquer movimento que chamasse a atenção do assassino.

— Corre! — Aaron gritou pela segunda vez, levando uma facada no peito logo em seguida.

Luke, Megan e Francine saíram correndo pela porta sem pensar duas vezes. Aaron levou mais alguns segundos medindo forças com o assassino até conseguir lhe acertar um soco e também correr para se salvar.

Megan, preocupada com o que poderia acontecer ao seu noivo, acabou tropeçando e caindo em cima do tapete. Sua distração foi exatamente o que conseguiu atrasar o grupo e impedir sua fuga.

— Megan! — Luke e Francine se abaixaram para ajuda-la.

Aaron tinha acabado de passar para o corredor com o assassino em sua cola, tentando conter o sangramento de sua ferida e correr ao mesmo tempo. Por um segundo, ele achou que não iria conseguir.

— Megan, vai! — Ele gritou. E Megan obedeceu prontamente.

Já não havia mais como fugir depois do pequeno imprevisto. O assassino estava apenas a alguns metros, perseguindo Aaron. Luke, Francine e Megan levaram apenas alguns segundos para entrar no quarto mais próximo a sua direita.

Antes que pudesse levar outra facada, Aaron pegou um dos quadros do corredor e acertou a cabeça do assassino. Ele caiu no chão junto dos enormes cacos de vidro que se formaram enquanto Aaron alcançava as mãos de Megan que balançavam para fora da porta. Uma vez trancado junto dos outros, finalmente Aaron pôde respirar aliviado. Sentou-se na cama e deu uma olhada no recente ferimento.

— Você deveriam ter saído daqui... — Ele gemeu de dor quando Megan o tocou.

— Não posso deixar você. — Megan passou a mão pelo rosto do noivo, no mesmo instante em que o assassino conseguira chegar até a porta.

Ele bateu, chutou, esfaqueou, mas nada aconteceu, nem mesmo a madeira da porta cedeu. Estar dentro daquele quarto não os assegurava de nada, mas talvez fosse a única maneira de permanecerem vivos.

— Ai meu Deus, ai meu Deus... — Luke começou a tremer.

— Ele não pode entrar. — Aaron afirmou, mesmo sem ter certeza. — Isso nos dá algum tempo.

— Tempo pra que? — Luke sentiu-se encurralado. Era impossível controlar o choro e o medo que estava sentindo.

— Francine, onde está seu celular? — Megan precisou gritar. As tentativas frustradas do assassino para arrombar a porta mal lhe deixavam ouvir os próprios pensamentos. — Ligue pra polícia!

— Ok. — Francine imediatamente tirou o celular do bolso e discou 911.

— Ai meu Deus... — Luke colocou as duas mãos na cabeça e começou a andar de um lado para o outro.

Quando todos deram por si, o barulho do outro lado da porta havia cessado. Sem socos, chutes ou facadas. Absolutamente nada podia ser ouvido.

— Ele foi embora? — Luke fitou a porta sem piscar.

— Não, ele só quer que a gente pense que ele foi embora pra sairmos daqui... — Megan respondeu.

No meio da conversa, ouviu-se outro barulho do lado de fora. Não parecia estar próximo da porta, e também não fazia o menor sentido.

— Ele está descendo as escadas? — Aaron levantou-se para fitar a porta assim como todos os outros. Se estava ouvindo bem, o barulho do outro lado soava como passos em uma escada.

— Estou ouvindo. — Francine também observava a porta. Havia esquecido completamente do celular em suas mãos quando os barulhos estranhos começaram do outro lado.

Um minuto se passou, e o mesmo som se repetiu. Só que dessa vez, os passos caminharam de volta até a porta a medida que outro som era formado. Parecia que estavam jogando água na porta, podendo Aaron notar uma pequena poça invadindo o quarto pela brecha da madeira.

— O que está acontecendo? — Megan se aproximou de Aaron.

— Ai meu Deus...

Aaron sabia exatamente o que estava acontecendo. O cheiro, a água, as escadas, tudo fez sentindo quando a porta entrou em chamas bem diante dos olhos de todos. O barulho das escadas era o assassino indo ao andar de baixo. O som de água jorrada era o assassino enchendo a porta de gasolina. E agora estavam todos presos dentro de um quarto condenado a carbonizar por inteiro.

— Não... — Aaron deu um passo para trás junto de Megan. Tinha acabado de perceber que a pequena poça de gasolina que passou pela brecha da porta tinha alcançado o tapete. E logo o fogo alcançaria todos eles.

— Ai meu Deus! Não! — Luke gritou enquanto as chamas eram refletidas pelos olhos cheios de lágrimas.

— Nós temos que sair daqui! — Disse Aaron.

— A janela! — Francine correu pra janela no fim do quarto.

Estavam todos com tanto medo que nem perceberam os passos descendo a escada novamente. Nem perceberam que Ghostface já não estava mais ali, e que o lado de fora também era perigoso.

Mal conseguiu levantar a vidraça de uma das janelas e Francine foi acertada com uma garrafa em chamas vindo do lado de fora. As chamas atingiram sua roupa e uma parte do seu cabelo, mas ao cair no chão, Luke conseguiu controla-las, assim como controlou o fogo na garrafa.

— Ele está do lado de fora... — Aaron arregalou os olhos. — Não podemos sair pela porta e ele está do lado de fora...

— Não! — Francine não parava de chorar.

E então, outra garrafa em chamas foi atirada pela janela. Dessa vez Aaron se propôs a apaga-la antes que incendiasse algum móvel.

— Tubo de ventilação! — Luke gritou. — Temos tubos de ventilação que ligam os outros quartos!

— O que? — Um pequeno flash de esperança surgiu nos olhos de Aaron.

— Meu pai mandou fazer quando morava aqui. — Luke correu até a penteadeira. E com apenas um empurrão, conseguiu movê-la para o outro lado e revelar o pequeno tubo de ventilação próximo ao chão. — Nós podemos passar para o outro quarto! — Ele se abaixou para retirar a grade.

— Ai meu Deus! — Sentada no chão, Francine observava tudo.

Luke tentou retirar a grade do lugar duas vezes antes que Aaron se oferecesse para fazer o serviço. O fogo estava começando a se espalhar rápido demais para que perdessem tempo com algo tão simples.

Luke se afastou, e ao lado de Megan e Francine, assistiu Aaron usar todas as suas forças para finalmente tirar a grade enferrujada do lugar. A tubulação não era muito grande e estava repleta de insetos. Com certeza nenhum deles poderia reclamar.

— Megan! — Aaron a chamou. A partir do momento em que estivesse segura, ele poderia ajudar a salvar os outros.

Megan passou rapidamente para dentro da tubulação, ignorando todos os insetos grotescos que pulavam em seu corpo. Logo depois foi a vez de Aaron, que encontrou a amada no outro quarto para esperar pelos outros. Francine entrou logo em seguida a pedido de Luke, e conseguiu chegar sã e salva do outro lado também.

Luke foi o único que hesitou antes de passar pela tubulação. George, Megan, o fantasma de New Britain, sua casa incendiando... Era como se não houvesse mais nenhum motivo para que caminhasse rumo a sua salvação.

A única coisa que pôde convencê-lo a engolir o choro e seguir os outros foi o instinto de sobrevivência, que sempre falaria mais alto.

— Luke, venha! — Megan estendeu a mão do outro quarto. Mal ela imaginava que o assassino havia dado um chute na porta em chamas e estava a caminho de assassinar seu amigo.

Luke passou pela tubulação inteira, mas quando colocou a cabeça para fora no momento da saída, o assassino o alcançou. Ele foi esfaqueado três vezes na costa e teve o corpo rasgado na vertical da cintura pra baixo, obrigando-o a vomitar o próprio sangue em cima de Megan.

— Não! Venha! Venha! — Megan gritava enquanto tentava puxá-lo para o quarto. Aaron e Francine apenas observavam, porque sabiam que era tarde demais para Luke. — Não! Luke! Por favor!

Luke de um ultimo gemido, e então, foi arrastado de volta para dentro da tubulação. Megan, inconsolável, continuou no chão chorando por seu melhor amigo de uma vida inteira. Um amigo que nunca seria substituído, e que fora mais uma vítima dos crimes que arruinaram a vida de tantas pessoas.

Infelizmente, isso não significava que tudo havia acabado. Ghostface apareceu pela tubulação e a atacou, sem deixar que continuasse chorando pela morte do amigo. Megan correu dando gritos histéricos para perto da escrivaninha enquanto Aaron tentava ajuda-la a escapar. E mais uma vez ele viu a si mesmo medindo forças contra o assassino para que nenhuma outra vítima fosse feita.

Ainda colados, passaram pela porta do quarto e depois para o corredor. Aaron conseguiu sobressair-se mais uma vez contra o assassino e o chutou escada a baixo. Só parou de olhar para o primeiro andar quando o assassino parou inconsciente na beira da escada e ouviu Megan chamar seu nome.

— O que aconteceu? — Ela perguntou.

— Ele caiu da escada... — Quando olhou novamente, Ghostface não estava mais lá. Agora só precisava ficar ao lado de Megan e esperar a polícia. — Ele se foi...

— Aaron, ele morreu... — Megan soluçou. — Ele morreu, ai meu Deus ele morreu...

Francine, escorada na janela com uma expressão amedrontada, olhava para Megan sem saber o que fazer. Na verdade, nem mesmo Aaron sabia. Ele esperava que um abraço e um beijo na testa diminuíssem aquela dor, ou simplesmente que houvesse um jeito de trocar de lugar com sua noiva. O impasse era óbvio.

A única coisa que poderia fazer era continuar abraçando a mulher da sua vida, até que a morte os separe.


Capítulo 7: A Rainha Suicida (Dia 10 de Abril de 2014)
Um personagem querido morrerá muito em breve. Façam suas apostas!
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Comentários
4 Comentários

Comentário(s)

4 comentários:

  1. Gente, to sem palavras para esse capítulo.
    Só digo uma coisa, incrível.

    P.S: João, por favor eu te peço, não mate a Megan, ela é diva, e precisa ficar viva até todos os ghostfaces estarem mortos.

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  2. Capítulo frenético do início ao fim, mas tinha algo na segunda cena de perseguição que deixou a mesma mais... melosa, talvez fosse a relação que Aaron tem com a Megan, e o seu jeito de tentar protege-la mesmo que fosse a última coisa que poderia acontecer

    P,.S: Não sei, mas acho que a Megan vai partir dessa para melhor, não quero isso, pois sua personagem é muito diva e não merece morrer antes de matar o desgraçado que matou sua irmã.

    E o título do próximo capítulo tem tudo para ser ela, mas tomara que eu quebre minha cara como vem acontecendo nesses anos de AP

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  3. Capítulo frenético do início ao fim, as duas cenas de perseguição foram perfeitas, porém gostei mais da primeira.

    Amanda pode está até se tornando uma vaca novamente, mas se pararmos para pensar ela nunca deixou de ser uma o espírito de vadia sempre esteve lá, mas a questão não é essa. Amando comprovou mais uma vez que com certeza é uma final girl e não precisa de ninguém para ajuda-la a escapar do assassino, diferente da Megan, eu amo a personagem, amo muito, mas nesse capítulo ela estava tão apagada, cadê seu espírito de final girl que estamos acostumados a ver, ou o que Gabriel falou em AP2 é verdade?

    P.S: Vou chorar muito se Megan morrer, talvez nem leia mais (mentira), amo muito a personagem, mas tenho uma leve suspeita que ela vai partir dessa para melhor.

    Tomara que eu quebre a cara novamente, como vem acontecendo todos esse anos em AP.

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  4. Meo deos !!!!!!!! melhor capitulo ever.

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