quinta-feira, 13 de março de 2014

[Livro] A Punhalada 3 - Capítulo 3: O Sangue Em Minhas Veias



— Esfaqueados? — Aaron recostou-se no sofá da sala, seguido de um intenso suspiro.

Seu pai, sentado no sofá alaranjado em frente a sua poltrona, não poderia negar que já estava esperando esta mesma reação antes mesmo de lhe contar a terrível notícia. A família Estwood estava sendo dizimada.

— Sim, todos eles. — Jeremiah hesitou esperando uma resposta, até perceber que Aaron precisaria de um tempo. A única coisa que nenhum deles poderia receber. — Se está acontecendo outra vez...

— Não está acontecendo outra vez. — Aaron interrompeu. Não poderia estar acontecendo novamente. Não depois de cinco anos, não depois do que aconteceu a Amanda, e muito menos próximo do seu casamento. — Brandon e Nina estão mortos, assim como Amanda.

— Nós dois sabemos que isso não é verdade. Concordei em manter a farsa sobre a morte dela em segredo, mas com esses assassinatos, não sei se posso continuar.

— Você não pode afirmar que os assassinatos estão relacionados a Amanda Rush. O Tio Berry colecionava dívidas de jogos e já foi ameaçado mais vezes do que podemos contar.

— Sim... — Jeremiah suspirou. Como explicaria que era apenas seu sexto sentido tentando convencê-lo de que algo novamente estava errado?

— Demorei tempo demais para me convencer de que iria sobreviver... E Megan... — Aaron deu um ar de risos depressivo, debochando da simplicidade com que o destino deu um jeito de não levar sua noiva embora. — Megan quase morreu... E nós vamos nos casar agora.

— Eu entendo. — Jeremiah abaixou a cabeça, inevitavelmente entristecido.

— Eu... — Aaron hesitou por alguns instantes.

Era egoísmo continuar seguindo em frente mesmo sabendo que as pessoas que ama não tiveram essa chance? Era errado querer ser feliz e deixar a dor toda para trás? Deveria haver alguma coisa que pudesse fazer. Mas primeiro, como livrar-se de um pai que o ignorara por tanto tempo e só fez uma visita para não arcar com o peso financeiro de uma morte na família?

— Preciso ligar para o padrasto de Taylor. — Aaron levantou-se junto de seu pai. — Ex padrasto, na verdade. E não se preocupe, eu cuidarei do enterro.

— É claro. Obrigado, filho. — Aquela era sua deixa, Jeremiah entendia perfeitamente.

Em silêncio eles caminharam até a porta, desviando dos móveis desorganizados e dos brinquedos do pequeno cachorro de Megan. Jeremiah passou para o lado de fora, mas virou para encarar o filho parado na porta. Havia uma ultima coisa que Aaron precisava saber.

— Aaron, eu... Estou feliz por você e Megan. E eu não me importo em não ter sido convidado.

— Por que se importaria? Depois de quatro anos sem uma ligação, deve ser um prazer não ir ao meu casamento. — Aaron enrijeceu. — Tenha um bom voo de volta para New Britain. — E bateu a porta na cara de seu pai.

Jeremiah permaneceu quieto no mesmo lugar, tentando convencer a si mesmo de que todas as perdas em sua vida eram merecidas. Perder o posto de Delegado, perder a casa para a hipoteca, perder o filho, perder qualquer chance de provar as pessoas que pode voltar a ser o homem responsável que sempre fora. Mas quem iria acreditar? Até mesmo a própria consciência pesada duvidava que o homem de cinco anos atrás ainda poderia existir.

Aaron, após um grande suspiro, pegou o telefone da sala e correu diretamente para o quarto de hóspedes. Caminhou até o armário, arredou as roupas para o lado e liberou uma pequena passagem secreta na parte inferior esquerda, tão minúscula e impercebível que ninguém poderia descobrir. Mas grande o suficiente para que pudesse passar.

Atrás dela estavam todos os motivos para suas promessas não cumpridas e viagens sem explicações, para seus pensamentos distantes e a falta de tempo; para todos os compromissos perdidos e o gasto de dinheiro. Atrás da passagem secreta estava o mural de investigação dedicado a procura obsessiva por Amanda Rush, cheio de fotos, reportagens e pistas que acabaram lhe levando até Chicago. Amanda estava viva, era loira, rica, morava em um lugar misterioso onde poucos tinham acesso e estava prestes a ter um encontro com o passado.

Ao tirar o celular do bolso, Aaron discou o número de seu investigador profissional para dar novas ordens.

— Scott? — Ele perguntou quando foi atendido. Ainda observava cada detalhe do mural que fizera com o mesmo suspense de antes. — Preciso de mais um favor... Preciso ver Amanda Rush.
φ

Deslizando suavemente a mão pelo espelho, Amanda conseguiu desfazer-se da visão embaçada de si mesma e finalmente encarou Natalie Strauss. O dia de ontem havia terminado, mas o aniversário de Amanda Rush continuava de baixo de sua pele, e a encarava de volta no espelho sempre que tinha a oportunidade. Se Brandon aparecesse pelos próximos dias, ela estava pronta para dizer que ele fez um bom trabalho.

— Não... — Repetiu para si mesma ao tocar em uma mecha de seu cabelo. O loiro parecia perfeito em todos os momentos, exceto quando está molhado e seu volume diminui.

Livrando-se da toalha que enrolava seu corpo, ela trancou a porta do banheiro e caminhou até o quarto do andar de baixo, onde sempre deixava algumas roupas de reserva para não ter que subir até seu quarto. Colocou mais um vestido elegante de sua coleção, passou perfume e voltou a sala de estar enquanto tentava recolocar seus brincos.

Ela acreditava que encontraria o livro de antes esperando-a no sofá para continuar seu momento de lazer, mas ao invés disso, lá estava sua ex enteada, Cassidy Hewitt, sentada no sofá ao lado de um homem elegante de cabelos escuros e terno e gravata que provavelmente deveria lidar com dinheiro. Não era difícil ler as pessoas quando aproximar-se delas estava fora de cogitação.

Quando Cassidy notou a presença de sua ex madrasta, abriu um sorriso vencedor, que fez o homem misterioso olhar na mesma direção.

— Natalie Strauss? — Ele levantou para cumprimenta-la com um aperto de mãos. — Sou Carter Van Der Hills, advogado de Cassidy Hewitt. Tenho certeza que sua representante já deve ter mencionado em uma de duas reuniões.

Amanda hesitou em responder ao cumprimento, mas pela maneira educada que ele foi feito, decidiu comportar-se de maneira que Michael lhe ensinara.

— É claro. — Ela tocou na mão de Carter por dois segundos. E então, ambos sentaram frente a frente. — Mas não me recordo de ter agendado uma reunião para hoje em minha casa.

— Nós viemos por conta própria. — Carter retrucou.

— Você não sai desta casa. — Cassidy cruzou as pernas. Os cabelos negros e a pele pálida pareciam ainda mais reluzentes agora que achava estar com a faca e o queijo nas mãos. — É como se nem fosse minha.

— De acordo com o testamento do seu pai, ela não é.

— De acordo com o médico, meu pai estava impossibilitado de tomar decisões por si mesmo desde o primeiro dia em que foi diagnosticado com Mal de Alzheimer.

— Com uma comissão tão generosa da herdeira Hewitt, eu não duvido. — Amanda sorriu com desdém enquanto Cassidy gritava por dentro.

— Pessoal, a porta do banheiro estava trancada então eu... — Disse a garota de cabelos vermelhos que chegara pelo corredor principal da mansão. Ela estava com um celular na mão direita e um pacote de chicletes na outra ; bastante constrangida em ver que interrompeu um assunto sério. — Hey, sou a Heather, amiga dela. — Ela apontou para Cassidy, que revirou os olhos de reprovação.

— Ótimo. — Amanda lhe lançou um sorriso falso.

— Eu vou... — Heather deu dois passos para o lado. — Vou... Sair daqui. — E simplesmente desapareceu entrando pela primeira porta que encontrou.

— Precisamos nos focar. — Disse Carter, voltando ao assunto. — Poderemos vivenciar o dia de hoje durante anos ou fazer um acordo e satisfazer ambas as partes.

— Aceita um drink? — Ofereceu Amanda.

— Drink?

— Você está com cara de quem precisa de um. — Sem esperar uma resposta, Amanda levantou-se do sofá e caminhou até a pequena mesa de bebidas a esquerda.

— Isso é uma brincadeira pra você? — Cassidy, sem perceber, acabou se alterando. — Eu só quero o que é meu por direito, só quero o que meu pai deixou para mim.

— Lembra quando ele sofreu um acidente de carro e precisou ficar quatro meses em uma cadeira de rodas? — Amanda encheu seu copo de vidro com whisky puro, ainda de costas para todos que estavam sentados no sofá. — Você o chamou de velho inútil e o deixou horas no chão dizendo que ele estava fingindo e que seus compromissos eram mais importantes. Eu cheguei em casa e o encontrei desmaiado no tapete, com uma pulsação quase inexistente. Se tivesse chegado dez minutos atrasada, você seria acusada por homicídio culposo e abandono de incapaz. — Amanda finalmente virou para encarar os olhos cheios de raiva de Cassidy. — É por isso que você nunca vai ver um centavo do dinheiro de Michael, nem que eu precise queimar nota por nota.

— Você está mentindo.

— São graves acusações. — Carter tomou a frente. — Aconselho você a dirigi-las a minha cliente apenas na presença de evidências.

— Não precisamos ser tão formais, Senhor Van Der Hills. — Amanda caminhou de volta a sala. — Minha decisão é bem simples: Não haverá acordo. Não importa quantas visitas desesperadas vocês façam a minha casa.

— Certo. — Carter deu um ar de risos sarcástico olhando para baixo, estava completamente derrotado. Minuciosamente pegou sua pasta e levantou-se ao mesmo tempo em que sua cliente. Felizmente haviam entendido que deveriam aproveitar aquela deixa.

— Eu disse que era perda de tempo... — Cassidy deu três passos além do sofá. — Heather, estamos indo. — Ela gritou antes de caminhar furiosamente até a porta de entrada.

Heather, ouvindo os gritos da amiga, saiu pela mesma porta que entrara, tendo o cuidado de fecha-la vagarosamente para não danificar a vidraça.

— Hey... — Ela olhou para Amanda, com um sorriso quase simpático. — Me desculpe. Foi bom te conhecer... — E seguiu para o lado de fora onde Cassidy a esperava.

Amanda quase sorriu quando percebeu que tinha ganhado a simpatia da melhor amiga de sua maior inimiga. Apesar do timing inconveniente, Heather parecia ser uma boa garota. E tinha os olhos mais azuis que Amanda já vira. Tão azuis quanto os de... Quanto os de alguém que Natalie Strauss nunca conhecera.

— Mais alguma coisa? — Ela perguntou. Por algum motivo que desconhecia, Carter ainda parecia bem a vontade na sua sala de estar.

— Só estava me perguntando o que alguém como você poderia esconder de baixo desse castelo de vidro.

— Como é?

— Se tem algo que aprendi defendendo esposas ambiciosas e filhos interesseiros em um tribunal, é que todos têm um passado. E ele vale muito mais do que está em jogo. — Carter sorriu. — Tenha uma boa tarde, Senhora Strauss.

Enquanto o observava caminhar até a porta de entrada, Amanda suspirou. Pela primeira vez em muito tempo alguém representava uma verdadeira ameaça a sua identidade falsa. Apenas um clique aleatório na internet, apenas um olhar passageiro em uma livraria e ele descobriria sobre os assassinatos de New Britain. E descobriria que sua Rainha de gelo, como todos passaram a chamar, era a grande inspiração para tirar vidas inocentes.

Apenas imaginar a possibilidade de ser descoberta deixou Amanda a flor da pele. Ela engoliu de uma vez o whisky restante em seu copo e logo virou para preparar mais uma dose.

No mesmo instante em que tomara o primeiro gole, a campainha tocou. Ela correu para atender, repudiando a ideia de ter que lidar com Cassidy ou Carter novamente, mas seu palpite estava completamente equivocado. Carter e Cassidy já estavam longe, planejando dentro do carro o próximo movimento para serem os grandes vitoriosos da batalha judicial. Quem estava batendo a sua porta era Isaac Channing, fazendo uma visita surpresa a linda mulher que conhecera em um bar e despediu-se deixando apenas um bilhete.

— Isaac. — Amanda suspirou. Como se não bastasse a visita inesperada e inapropriada, o garoto ainda estava trazendo uma rosa na mão direita e um bilhete na mão esquerda.

— Foi divertido? — Ele levantou o bilhete. Amanda não precisou olhá-lo diretamente para saber que se tratava daquele que havia escrito. — Bem original.

— Como você...?

— O GPS do seu carro. Desculpe, eu não sou um perseguidor.

— Ok... — Amanda ficou na defensiva. Provavelmente tudo o que ele dizia fazia sentido dentro de sua cabeça.

— Só achei que seria legal ver você de novo. Se eu tivesse seu número, teria ligado antes.

— Eu não tenho número.

— Ok. — Isaac assentiu. — Vai me convidar pra entrar?

— Seus pais sabem que você está aqui?

— Nossa... — Isaac sorriu, mas Amanda não conseguiu decifrar o porquê. — Você não perguntou se meus pais sabiam onde eu estava ontem à noite.

— Isaac, eu... — Amanda hesitou para encontrar as palavras certas. — Eu não posso fazer isso, nunca daria certo.

— Por que não?

— Porque você é menor de idade, deveria estar no colégio e tem uma namorada.

— Como você sabe que eu tenho namorada?

— Não sabia até agora. — Amanda lhe deu as costas tentando fechar a porta, mas ele a impediu. Sem saber o que fazer, ela caminhou até a sala de estar e o deixou adentrar em sua casa. Uma hora ele iria se convencer de que estava perdendo seu tempo.

— Hey! Ok, eu tenho uma namorada. Mas olhe pra você, mora nessa mansão, deve ser casada com um homem podre de rico.

— Eu era... — Amanda tomou um gole de whisky.

— A outra noite foi maravilhosa, Natalie. Se quiser me dispensar, vou aceitar numa boa. Mas não faça isso me tratando como uma criança.

Amanda tremulou. Ao mesmo tempo em que repudiava o momento em que se envolveu com Isaac, agradecia ao universo pela noite maravilhosa. Se dependesse apenas do que sentia e do que poderia lhe dar prazer, não havia porque pensar duas vezes. Mas quando se tratava da segurança das pessoas ao seu redor, todo cuidado era pouco. Ela prometera nunca esquecer o que acontecia com todas as pessoas que chegavam perto demais.

— Eu disse que você não deveria partir o coração das outras pessoas... — Disse Brandon, escorado no pedestal próximo a mesa onde residiam as bebidas.

— Isaac, eu... — Amanda se esforçou para que Isaac não percebesse o que sua mente estava fazendo, mesmo sem saber se isto era possível; ficara tempo demais sem dizer uma só palavra para que conseguisse manter as aparências.

— Ele é um ótimo garoto, Amanda. Merece coisa melhor. — Brandon disse novamente.

E pela primeira vez em muito tempo, Amanda admitiu para si mesma que ele tinha razão. Isaac merecia algo melhor. Algo melhor que ter a foto estampada nos jornais como um garoto que foi embora cedo demais.

— Você deveria ir embora, Isaac. — Finalmente conseguiu dizer. — Eu tenho um compromisso agora.

— Ok. — Isaac assentiu, decepcionado. Deu meia volta e caminhou até a porta de entrada. Só precisava dizer uma ultima coisa antes de ir embora. — Eu costumava ir ao Parken Hills quando era criança. É um ótimo lugar para dar um tempo...

Ao ouvir o bater da porta, Amanda suspirou. Um grande peso havia saído de suas costas, e tudo graças ao irmão.

— Você fez a coisa certa, Mandy. — Ele deu dois passos a frente. Amanda se perguntou como conseguia ouvi-lo se aproximar de uma maneira tão clara.

— Já estou acostumada. — Amanda pegou seu livro em cima do sofá e partiu.

Seu quarto parecia ser o único refúgio.
φ

Cheia de sacolas em volta dos braços, e calos necessários nas solas dos pés, Megan finalmente voltou para casa. Fora um dia cansativo para a noiva mais elegante de Chicago, mas nenhum dos seus momentos ao lado da irmã lhe causava arrependimento. E com a recepção eufórica de Muffin, sua pequena cachorrinha, o dia estava completo.

— Muffin! — Ela gritou, abaixando-se para pegá-la no colo. — Eu sei, também senti sua falta... — Ela dizia enquanto era presenteada com várias lambidas. — Você está com fome? Aaron te deu de comer?

Mesmo não obtendo uma resposta direta, Megan tinha certeza que sua pequena Muffin ficou a tarde inteira sem se alimentar.

— Aaron? — Megan caminhou até a cozinha, e logo depois a varanda.

Aaron estava lá, andando de um lado para o outro com o telefone na orelha. De tão nervoso que aparentava, Megan preferiu não incomodá-lo. Apenas caminhou até a suíte do casal, desde já imaginando a sensação de deitar na banheira e simplesmente apagar.

Para tirar as roupas pesadas, ela jogou as sacolas ao lado do enorme espelho ao lado de Muffin. Rapidamente livrou-se de seu casaco, mas o celular tocara dentro da bolsa antes que pudesse prosseguir. Mal pôde controlar a euforia quando leu o nome de seu melhor amigo no visor.

— Luke! Onde você estava? Liguei a manhã inteira!

— Me desculpe... — Luke olhou para a própria xícara de chá na mesa onde estava. Aquele cheiro não era nada agradável quando a bebida ainda estava em seu organismo em grande quantidade. — Eu fui a confraternização na empresa do George. Acho que colocaram algo na minha bebida...

— Você parece péssimo. — Megan sabia apenas escutando sua voz arrastada de tanto cansaço. — Precisa de uma babá?

— Não, George está comigo. Estamos na lanchonete do metrô... — Luke olhou ao redor. Por que as pessoas eram mais barulhentas quando alguém estava de ressaca?

— Então você provavelmente não vai comparecer a prova de traje dos padrinhos... — Megan fez um bico, descontente.

— Sinto muito. Mas eu prometo que agora não sou a melhor das companhias.

— Ok, vamos remarcar. — Como num reflexo, Megan olhou pras sacolas que deixara no chão. Muffin estava mordiscando o salto alto vermelho que Melanie fizera questão de nomear. — Muffin, não estrague meu Barack Obama! Garota má!

— O que?

— Nada... — Megan puxou o salto dos dentes de Muffin e jogou em cima da cama. — Ela gosta de comer sapatos.

— É, eu me lembro. — Luke olhou para frente. George, seu companheiro, já estava voltando com dois copos de café em mãos. — Preciso desligar, nos falamos depois.

— Você vai estar bem na segunda? Preciso de um amigo gay para me ajudar a escolher os vestidos das madrinhas.

— Tchau, Megan. — Luke desligou, mantendo um sorriso no rosto.

Megan pensou em resmungar, mas desistiu assim que olhou no visor do celular e percebeu que havia uma nova mensagem. Ela dizia “Ligue a TV no canal quinze, é urgente”.

Por mais que quisesse, ela sabia que uma mensagem daquele tipo não poderia ser ignorada novamente. Apenas largou o celular em cima da cama e correu pra sala, ligando a TV logo em seguida. A repórter de um famoso tal show parecia estar dialogando a respeito de um assunto sério.

— [...] Os assassinatos, no entanto, ganharam uma repercussão monstruosa nas redes sociais. Pessoas do mundo inteiro afirmam que mais um filme está sendo feito, e só terminará quando a trilogia estiver completa. Sabendo do significado de tais afirmações, a polícia informou a imprensa que os crimes não estão relacionados aos massacres de New Britain ocorridos há cinco anos. E sim, que tudo não passa de uma cobrança de dívidas atrasadas que o farmacêutico Berry Estwood colecionou ao longo dos anos.

“O mundo ainda não sabe no que acreditar, mas o número de coincidências é preocupante. Há seis anos, Brandon Rush e Sarah Richards iniciaram uma onda de crimes hediondos, todos baseados na premissa do horror cinematográfico mostrado na franquia “Pânico”. Três pessoas sobreviveram ao massacre, exatamente como nos filmes. E exatamente como nos filmes, um novo assassino surgiu, usando os filmes de terror aclamados pela crítica para continuar a onda de assassinatos. Como se não bastasse, um livro foi escrito por uma das sobreviventes, exatamente como fez a personagem de Courtney Cox na franquia de filmes”.

“Eu não sou especialista em filmes de terror, muito menos tenho o entendimento sobre a mente dos psicopatas. Mas se a ideia é transformar crimes hediondos em um filme de horror para imortalizar a arte do assassinato, qualquer um poderia esperar que ainda não tenha acabado. A família Estwood foi torturada, esfaqueada e exibida como troféu. Talvez o terceiro filme já tenha começado a ser filmado”.

— Não... — Megan sussurrou para si mesma.

— Megan. — Chamou Aaron, alguns passos atrás. Ela hesitou, mas virou para encará-lo. — Precisamos conversar.
φ

Às vinte e três horas, como de costume, Melanie decidiu vestir seu pequeno maiô preto para tomar banho de piscina. Não era o clube de elite em Vancouver que estava acostumada, mas precisava admitir que a mansão alugada não ficava para trás. Além dos quatrocentos e noventa e dois metros quadrados, que Melanie tanto se orgulhava, a mansão brincava com os tons brancos e amarelos para compor sua decoração, enquanto as pinturas de artistas famosos e o piso de mármore davam um toque especial. A piscina, apesar do tamanho, se concentrava no lado de fora, oferecendo a seus residentes a melhor vista noturna.

Melanie nadou de um lado para o outro para exercitar o corpo, até parar em uma das bordas ao lado de sua taça de champanhe e do telefone principal da casa. Um gole foi o suficiente para saciar sua sede.

O telefone tocou ao lado, mais alto que o normal graças ao silêncio.

— Alô? — Melanie atendeu.

— Melanie, ai meu Deus! — Gritou sua amiga Meredith, do outro lado da linha. — Você precisa me ajudar!

— Espera, Meredith. O que aconteceu?

— Tenho um desfile em quinze minutos e acabaram de me ligar do hospital. Minha mãe foi internada, ela precisa ser operada às pressas.

— Ai meu Deus!

— Eu não sei o que fazer! — Meredith começou a chorar.

— Não Mer, não chore.

— Tudo está dando errado! Quando você vai voltar?

— Em algumas semanas. Mas hey, fique calma. Você tem um desfile agora.

— Um desfile? — Meredith repetiu. — Mas e a minha mãe?

— A operação da sua mãe é mais importante que a sua carreira de modelo? — Melanie quase se sentiu ofendida. Não era uma decisão complicada a se tomar.

— Bem... — Meredith pensou. — Sim, eu acho...

Antes que Melanie pudesse dizer qualquer outra coisa, o telefone indiciou que uma nova chamada estava sendo feita.

— Espere, tem alguém na outra linha. — Melanie trocou as chamadas pressionando apenas um botão. — Alô?

— Alô... — Uma voz macabra respondeu.

— Se você ligou para o Brian, ele acabou de sair. Gostaria de deixar recado?

— Eu quero falar com você.

— Ok... — Melanie fez uma careta, estranhando o mistério da ligação. — Quem está falando?

— Ouvi dizer que você gosta de filmes de terror.

— Passar trotes é crime, volte pro colégio. — Melanie desligou. Tentou recuperar a chamada com Meredith, mas a amiga já havia encerrado.

Cinco segundos se passaram e o telefone tocou novamente.

— Alô? — Melanie atendeu.

— Por que desligou na minha cara? — A mesma voz de antes respondeu.

— Brian, se você está brincando comigo...

— Eu não sou o Brian.

— E como você tem esse número? — Melanie ficou desconfiada.

— Eu sou um grande fã. Todos conhecem Melanie Bower, todos querem ser Melanie Bower... Mas não hoje a noite.

Percebendo a ironia na voz do homem misterioso, Melanie ficou irritada.

— Não me ligue outra vez. — E rapidamente encerrou a chamada.

Mesmo que nada tivesse acontecido, Melanie sentiu-se estranha. O clima havia ficado pesado, e de repente, a piscina já não parecia tão convidativa.

Ela pegou sua taça de champanhe junto do telefone e Subiu as escadinhas, caminhando diretamente na direção da porta dos fundos da mansão. Deixou tudo o que tinha em mãos na pequena mesinha e subiu até a suíte principal, onde encontrou sua toalha pendurada na cadeira da escrivaninha junto do biquíni florido que havia dispensado.

Alguns minutos depois, já com o corpo enxuto e usando apenas uma camisa social do namorado, Melanie correu até o banheiro para secar os cabelos. Houve tempo para pensar no jantar da noite seguinte, na manhã de compras do próximo sábado, nos novos produtos que seu cabeleireiro recomendou e no design do tão aguardado vestido de madrinha para o casamento de sua irmã. Também sobrou espaço para pensar no estranho telefonema que recebera, mas desistiu assim que percebera a irrelevância do acontecido.

Ao notar um estranho barulho dentro da mansão, ela desligou o secador e permaneceu quieta por alguns segundos. Gritou duas vezes pelo nome do namorado, mas desistiu quando não obteve retorno; achando que havia se trancado no escritório como de costume.

Quando o barulho se repetiu, ela colocou o secador de volta na pia e saiu da suíte. Por que Brian havia chegado tão cedo em casa e parecia estar quebrando as coisas no andar de baixo? Se estivesse bêbado como da ultima vez, finalmente conheceria o lado sombrio da mulher que escolhera.

Entretanto, ninguém estava lá. Só o que Melanie encontrou foi um vaso de flores despedaçado há alguns metros de onde deveria estar. A não ser que alguém tivesse arremessado, seria impossível encontra-lo naquele estado.

— Brian? — Ela abaixou-se para juntar alguns dos cacos. Quanto mais olhava para eles, menos as coisas faziam sentido. — Brian?

E de repente, vencendo o silêncio, tocou o telefone. Melanie não pôde evitar o susto, mas decidiu compensar na agilidade para atender a chamada.

— Brian?

— Tente novamente. — Zombou o homem de voz misteriosa. Ela já estava farta.

— O que você quer? — Ela gritou.

—Eu quero o sangue que corre em suas veias...

— O que você disse? — Melanie murmurou.

De repente seu corpo inteiro estava tremendo e o coração inevitavelmente acelerado. Não estava parecendo apenas uma brincadeira de mal gosto de um de seus amigos. Estava parecendo algo tirado da vida de sua irmã, que há cinco anos quase fora uma das vítimas dos famosos serial killers obcecados por filmes de horror. Não sabia ao certo o que realmente acontecera, mas sabia o suficiente para ficar com medo.

Um pequeno barulho no meio de seu raciocínio lhe instigou a olhar para trás vagarosamente. E então pôde ver com os próprios olhos, no final do corredor, o assassino com uma máscara de fantasma revelando uma faca de açougueiro em uma das mãos.

Melanie abaixou o telefone vagarosamente enquanto tentava vencer a paralisia do medo, mas ela não duraria por muito tempo. Quando percebeu o assassino em sua direção, ela deixou o telefone cair no chão e correu até a porta de entrada da mansão. Conseguiu livrar-se da tranca de cima que lhe causou problemas, mas não foi rápida o suficiente. O assassino conseguiu alcança-la antes que pudesse chegar ao lado de fora, e começou a puxá-la a medida que relutava para segurar nas extremidades da parede.

— Não! — Ela gritou. E levou duas facadas nas costas antes de ser arremessada no chão.

Agora com a porta fechada, e sua vítima do lado de dentro, o assassino tinha tudo o que precisava para concluir sua missão.

Melanie, sem ter para onde correr, subiu as escadas ao lado, chutando as mãos do assassino que tentava segurar suas pernas. Ela não sabia o que estava fazendo, não havia nenhuma expectativa de sobrevivência. Mas seu instinto conseguiu falar mais alto. Nos inúmeros chutes que lançava na direção do assassino, conseguiu acertar a mão esquerda e fazer a faca cair no chão. Assim ganhou tempo para subir as escadas e trancar-se no primeiro quarto do segundo andar, a suíte que tanto amava.

Cinco segundos depois, Ghostface já estava no segundo andar, tentando de todas as maneiras derrubar a porta do quarto.

— Vai embora! — Melanie implorou aos gritos. O choro incontrolável não lhe permitia raciocinar da maneira que desejava.

Socos e pontapés não funcionaram contra a porta, mas as inúmeras facadas já estavam abrindo brecha na madeira frágil. Se não saísse imediatamente daquele quarto, logo estaria cara a cara com o assassino. Só precisava saber para onde correr. Valia a pena sair pela varanda e arriscar-se no telhado? Não havia outra opção, muito menos tempo para decidir.

Melanie subiu no parapeito de ferro da varanda do quarto e passou para o telhado da casa. Conseguiu chegar até a janela do outro quarto, que surpreendentemente parecia trancada. Não havia como quebrar a vidraça sem dizer ao assassino onde exatamente estava. Neste caso, ela decidiu caminhar com cautela até a próxima janela. Também fechada.

A única maneira de escapar seria caminhar entre as telhas desiguais e tentar a janela do próximo quarto.

— Não, abre! — Implorou quando percebeu que a outra janela também estava fechada. — Por favor!

Convencida de que a janela não abriria, Melanie decidiu continuar seu trajeto. Deu dois passos para a esquerda, segurando na extremidade da janela, mas acabou escorregando ao pisar de mau jeito em uma das telhas. Suas mãos agarraram a janela no mesmo instante em que o corpo começara a desabar. Mas o susto acabou lhe rendendo um grito altíssimo que ela tanto queria evitar.

Olhando para o andar de baixo, na direção em que pensara estar caindo, ela viu a piscina, e uma chance de sair daquela mansão em segurança. Só precisava caminhar dois passos para o lado e preparar seu pulo. O que viria a seguir, nem mesmo ela conseguia imaginar. E talvez nem houvesse o que fazer a seguir.

Quando virou novamente a cabeça na direção da janela, foi surpreendida pelo assassino atravessando a vidraça com uma facada na sua direção. Melanie recuou com o susto e acabou derrapando pelo telhado vertical até o primeiro andar. Sua perna sofreu uma fratura externa ao tocar no chão de mármore, enquanto o restante do corpo caia diretamente na piscina sem sofrer outros danos.

A dor do impacto a deixou em um grave estado de utopia, fazendo com que todas as coisas girassem ao seu redor e tivesse dificuldades para manter-se na superfície. Por um segundo, ela achou que a morte já havia lhe encontrado e que faltava pouco para terminar seu sofrimento. Mas a realidade era bem pior do que imaginava. Enquanto tentava manter-se lúcida e com a cabeça fora d’água, o assassino caminhava na direção da piscina, observando o sofrimento de sua vítima antes de chegar o acerto de contas.

Dessa vez ele não estava apenas com uma faca em mãos. Ele estava com a faca elétrica de Brian, conectada a uma enorme extensão que estava dentro da casa.

— Não! — Melanie tentou nadar até a borda mais próxima para sair da piscina, como se não soubesse que já era tarde demais.

Ghostface pressionou o botão para ligar o aparelho e o jogou sem piedade diretamente na piscina.

Enquanto Melanie era eletrocutada, as luzes da casa inteira piscavam como fogos de artifício que tanto maravilhavam os olhares de quem estava por trás da máscara. E dez segundos depois, ao soar do ultimo grito de Melanie Bower, as luzes se transformaram numa densa escuridão. O show havia terminado. E a sequência apenas começando.


Capítulo 4: Não é Real (Dia 20 de Março de 2014)
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Comentários
4 Comentários

Comentário(s)

4 comentários:

  1. Deveria colocar algo sobre o episódio que vem, como fez nas temporadas anteriores. Algo do tipo "No próximo capítulo..." Só porque nos deixar sem nada é muito cruel.
    Ótimo capítulo, não vejo a hora de Amanda se encontrar com todos logo, e me sinto muito mal pela Megan, parecia adorar muito mesmo a irmã. Droga, mas eu espero muito que Amanda, Chloe - QUE NÃO APARECEU NESSE EP. PQ?!!! - Aaron e Megan não morram, que sejam como Sidney, Gale e Dewey. Só um de diferença, tipo, três sobreviventes no filme, quatro aqui... Não é tão ruim, é? Se for matar alguem, não mata Amanda, nem Chloe!!! Sim, estou desesperado.

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  2. Nossa um capítulo mais espetacular que o outro... E realmente o Ghostface não está para brincadeira está realizando mortes memoráveis, só fico triste por conta da morte precoce de Melanie, mas faz parte, mal posso esperar pelo reencontro de Amanda e Aaron. Aposto que grandes emoções nos aguardam!

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  3. Concordo com o comentário acima sinto falta dos estilos trailers
    Coitada da Melanie, era uma otima personagem e não deveria ter morrido tão cedo, sabia que ela não iria ser uma Megan da via, mas morrer logo no terceiro episódio é terrível para uma personagem tão carismática.
    Além da Melanie nenhum coadjuvante me chamou atenção, então minha torcida fica por conta do quinteto.
    No aguardo do próximo Cap!

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  4. Esse terceiro livro esta ótimo.
    Agr um comentário para o novo Ghostface, não sei se é da minha cabeça, mas esse ghostface é mais frio do que os outros, já observei que ele ão gosta muito de falar e parti logo para a ação o que é perfeito.
    Se ele esta matando os membros da família de cada um, será que os pais da Amanda vão aparecer mortos?

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