quinta-feira, 6 de março de 2014

[Livro] A Punhalada 3 - Capítulo 2: Bem Vindo a Nova Era


Amanda suspirou profundamente pela segunda vez. Mais alguns instantes da suave melodia noturna e do frio aconchegante de dezembro poderiam lhe fazer adormecer contra sua própria vontade. Ou cinco anos depois, ainda seria impossível? Os novos caminhos que estava percorrendo não lhe deixavam ter absoluta certeza.

Ao seu lado, ainda em um sono profundo, estava o garoto número doze que conhecera em um bar distante. Amanda nunca precisou lembrar o nome de um deles para sentir-se melhor, mas como poderia esquecer Isaac, seus olhos verdes, os cabelos loiros encaracolados e seu dom de persuasão? Cortejou-a mentindo sobre uma bolsa de esportes na faculdade, como se ela não soubesse que ainda estava no segundo ano do ensino médio. Talvez estivesse mesmo pensando que ela se importava.

Com os lençóis em volta do corpo, Amanda caminhou até a enorme parede de vidro do quarto de hotel. E lá estavam as luzes noturnas de Chicago, e os moradores corriqueiros que nunca se cansava de observar. Entre uma regularidade e outra, destacava-se tudo aquilo que estava fora de seu padrão. O mendigo que arrastava seu carrinho de compras de um lado para o outro, os adolescentes trocando guitarra do sétimo andar do prédio ao lado, o casal apaixonado olhando as estrelas pelas varanda... E todas as outras coisas que lembravam haver uma vida do lado de fora de sua mansão, longe de uma fortuna que nunca soube apreciar.

Ela não era mais Amanda Rush, era Natalie Strauss, dona de longos cabelos loiros, roupas impecáveis, joias caríssimas e herdeira milionária de Michael Hewitt. E tamanha grandiosidade, apesar de discutível, não lhe deixava fugir de sua vida por muito tempo.

Amanda tirou o lençol, colocou o vestido preto de volta e caminhou até a escrivaninha ao lado da cama, onde encontrou caneta e papel. O único vestígio da noite que tivera ao lado de Isaac seria um bilhete escrito “Foi Divertido”. Nada poderia passar disso se quisesse continuar passando despercebida.

Ao terminar de escrever, calçou os sapatos na beira da cama e partiu. Bastou descer oito andares e andar um quarteirão para chegar ao seu carro. E uma vez dentro dele, só pararia quando finalmente estivesse no lugar onde insistiu em chamar de lar.

As ruas da cidade, apesar do horário não comercial, ainda estavam cheias de pessoas caminhando de um lado para o outro, e inconscientemente, atrapalhando o trânsito. Mas isso não era inteiramente ruim. Amanda pôde apreciar cada paisagem, cada ponto turístico, e cada singularidade que o centro da cidade poderia oferecer. Sentiu-se estranha ao ver novamente o enorme outdoor da Calvin Klein estampado por Megan Bower e Gus Maillet, mas uma hora teria que aceitar que seu passado estava em absolutamente todos os lugares.

Meia hora depois, ela já estava estacionando o carro dentro de sua mansão de vidro, localizada nas colinas ao norte do estado. Muito em breve, todas aquelas árvores mortas estariam cheias de neve, e a pequena estrada – o único caminho para a cidade – simplesmente desapareceria.

O costume levou Amanda diretamente a lareira da sala de estar quando passou pela porta do estacionamento. Só precisou apertar um botão para acendê-la, e sentar-se na poltrona para apreciá-la. Sem TV, sem computador, sem celulares ou qualquer aparelho telefônico na mansão inteira, observar as montanhas pela parede de vidro e a enorme pintura de Michael Hewitt em cima da lareira já estava se tornando cansativo. A não ser que adicionasse uma taça de um vinho ou um copo de whisky em seu passatempo subestimado.

Ela levantou da poltrona e caminhou até a pequena mesa próximo ao sofá. Derramou dois dedos de whisky dentro de um copo de vidro, adicionou três pedras de gelo da bandeja metálica e tomou um gole. Agora tudo estava perfeito.

— Noite difícil? — Perguntou Brandon, escorado na enorme viga branca há alguns metros atrás de Amanda. Como sempre, de braços cruzados e com um sorriso malicioso nos lábios.

Por um breve segundo Amanda lamentou. Brandon estava mesmo interessado em ficar ao seu lado para sempre.

— Década difícil. — Ela respondeu, com a mesma frieza de sempre.

— Isaac era um bom garoto. Você deveria pensar duas vezes antes de partir o coração das pessoas.

— É difícil quando não se tem um.

— Nós dois sabemos que isso não é verdade.

— O que você quer? — Amanda tomou mais um gole de seu whisky.

— Depois de seis meses de trégua, achei justo aparecer para lhe desejar feliz aniversário. Não poderia perder seu dia especial.

— Eu aprecio sua boa vontade. — Após esvazia-lo, Amanda encheu novamente seu copo com mais uma dose de bebida. Era a prerrogativa de quem conversava com o falecido irmão sempre que ele queria. — Mas este não é um bom momento.

— Sou apenas uma ilusão, não posso ajuda-la com isso.

— Eu entendo. — Amanda caminhou até a parede de vidro e permaneceu encarando a montanha. — Aceitaria uma bebida?

— Pelos velhos tempos? — Brandon deu dois passos a frente.

— Por tudo, menos isso.

— Eu já deveria saber...

No meio da conversa, Amanda acabou notando passos de salto alto que iam em direção a sala de estar. Logo sua ilusão preparou a despedida previsível para o momento.

— Parece que você tem visitas. — E da mesma maneira com que chegara, Brandon desapareceu.

— Rosalee. — Disse Amanda ao notar o reflexo da linda mulher de cabelos negros e vestido vermelho pela vidraça. — Eu chequei duas vezes, não temos reunião marcada para hoje.

— Minha visita é extraoficial. — Rosalee olhou ao redor. Bebidas espalhadas pela casa, tapete fora do lugar, cacos de vidro ainda no chão... Sua tão protegida Natalie Strauss parecia estar precisando de ajuda. — Acabei de falar com o tutor e o advogado de Cassidy. Eles darão continuidade ao processo de contestação do testamento. Não fui capaz de estabelecer um acordo.

— Deixe-os contestar. Mas faça o que for necessário.

— Carter Van Der Hills me encarregou de convida-la para um almoço de negócios. Eu aconselharia você a...

— Diga que farei uma viagem de negócios e terei que recusar o convite. — Amanda quase revirou os olhos. Mal conseguia tempo para suas noites de fuga, não poderia abrir uma exceção para o tutor egocêntrico de sua ex-enteada.

— Ok... — Rosalee assentiu, derrotada. Hesitou por mais alguns instantes até dizer o que realmente gostaria. — Amanda, eu devo ficar preocupada com a sua ausência constante e não cumprimento dos horários?

— Eu estou bem.

Amanda virou o rosto, quase olhando para Rosalee pelo canto dos olhos. Pensou em pedir para não ser chamada novamente pelo antigo nome, mas magoar Rosalee era a ultima coisa que gostaria de fazer. Além de sua representante na empresa de Michael, Rosalee também era sua melhor amiga. Ou algo bem próximo a isso que poderia dispensar uma definição.

— Você deveria comprar um telefone. Seria mais fácil mentir para mim.

— Obrigada, Rosalee, você é uma boa amiga. Mas já está ficando tarde.

— Tudo bem. — Rosalee compreendia perfeitamente.

— Preciso que você revise o testamento, contrate duas novas secretárias e me compre um carro novo.

— Qual o problema com o carro atual?

— Não é novo o suficiente. — Cheia de elegância e superioridade, Amanda caminhou em direção ao seu quarto. Não havia dúvidas que Rosalee entendera o recado.
φ

Quando a porta do elevador finalmente se abriu, Chloe agarrou a alça de sua bolsa preta e correu uma maratona, quase atropelando os estagiários que caminhavam livremente pelo oitavo andar. Suas amigas, amontoadas na mesa de uma delas, correram em sua direção enquanto compartilhavam mesmo desespero. Chloe estava dez minutos atrasada e prestes a perder a única chance de ser promovida.

— Ai meu Deus, Chloe! — Repreendeu a mulher de vestido vermelho com longos cabelos pretos amarrados em um rabo de cavalo.

— Ele já chegou? — Chloe arremessou a bolsa em cima dos arquivos da mesa mais próxima.

— Inacreditavelmente, não. — Respondeu a garota de óculos. Das três em volta de Chloe, ela parecia ser a mais nervosa. — Você quer perder o emprego?

— Eu passei a noite inteira escrevendo a nova coluna. Estou cansada, com fome e minha vagina está suando.

Chloe fez uma careta enquanto tirava os cabelos loiros da frente dos olhos. Eles costumavam ser longos e cacheados até as pontas, mas para investir de maneira fiel em sua nova fase, precisou alisá-los e cortá-los na altura dos ombros. Uma mudança bastante radical que ganhou a reprovação de todos os seus contatos, menos do chefe que tanto despreza.

E lá estava ele, saindo do elevador com uma maleta na mão esquerda e seu paletó no braço direito. Com seus cabelos semi grisalhos, a barba mal feita e o corpo atlético que ele mesmo já deve ter desejado. Arrogante e egocêntrico, ele era David Payne, o editor chefe do aclamado jornal Denver Above; considerado o sexto melhor jornal do país de acordo com o Daily Mail. Era um pedaço de seu império que Chloe tanto almejava.

— Falando no Diabo... — Avisou a terceira amiga de Chloe, fazendo um sinal com a cabeça na direção do elevador.

Chloe olhou para trás, sentindo a espinha gelar. Os vinte segundos de diferença entre sua chegada e a de seu chefe acabaram salvando sua pele.

Assim que David colocou os pés para fora do elevador, foi cercado de pessoas querendo sua atenção. Secretárias, estagiários, colunistas, entregadores. Todos dispensados com o mínimo possível de palavras enquanto ele caminhava majestosamente até sua sala.

— Senhor Payne... — Sussurrou Chloe quando ele se aproximou. Precisou segui-lo por onde andava para que ouvisse o que tinha a dizer.

— Senhora Field. É um prazer vê-la cumprindo horários.

— Sim, eu gostaria de conversar com o Senhor sobre... — Chloe não sabia, mas todas as suas amigas estavam seguindo seus passos.

— Seu artigo? É claro. Leve-o até minha sala em cinco minutos.

— Na verdade, é sobre a nova coluna.

— Nova coluna? — David parou de caminhar, de repente interessado no assunto.

— Estou concorrendo a vaga de vice editora e gostaria de apresenta-lo minhas novas ideias.

— E o artigo sobre criminalidade?

— Bom, eu estava pensando em fazer algo diferente. — Chloe ficou na defensiva.

— Que tal apenas escrever sobre o que eu quero? Você poderia adicionar suas novas ideias ao próximo livro. — David voltou a caminhar. Já estava há poucos metros de sua sala-quartel-geral-casa-branca. — Em cinco minutos, na minha sala.

Chloe suspirou com a derrota.

— Eu te avisei... — Disse a amiga de vestido vermelho. Ela estava com uma pasta laranja em mãos, que tinha exatamente o que Chloe precisava.

— Ainda não acabou. — Chloe estava decidida. — Ele vai fraquejar.

— Eu não teria tanta certeza.

Chloe observou a pasta que a amiga estendia em sua direção, e após uma breve hesitação, aceitou a proposta. Já que decidira trabalhar a noite inteira na nova coluna, não houve tempo para escrever o artigo sobre criminalidade. Mas quando se tinha amigas tão boas como aquelas, falhar nunca seria uma opção.

— Obrigada, Margot. — Ela agradeceu, tomando a pasta de suas mãos e caminhando em direção a sala de David.

Ao entrar, trancou a porta com as chaves do lado de dentro e foi ao encontro do chefe; como sempre, ele permanecia sentado em cima de sua mesa preta enquanto tagarelava ao telefone. Chloe precisou esperar mais alguns instantes enquanto ele sorria na linha para que pudesse ganhar sua merecida atenção.

— Aqui está. — Ela entregou a pasta em suas mãos.

David observou apenas as três primeiras páginas, e então, jogou a pasta para o lado em cima da mesa.

— Não é bom o suficiente, você precisa se esforçar.

— Sério? Porque eu adoraria ouvir alguns conselhos. — Chloe cruzou os braços.

David levantou e deu dois passos. Agora estava a sete centímetros da garota que o encarava com desdém.

— Falta um pouco mais de... Nudez.

Em fração de segundos, David rasgou a blusa quadriculada de Chloe e a puxou para o beijo molhado que nem mesmo na pior das hipóteses alguém pensaria em resistir. E já que havia perdido a chance dar o primeiro passo em mais uma aventura com seu affair, ela resolveu ditar suas próprias regras com o segundo. Rasgou a camisa de David, tirou sua gravata vermelha e enrolou no próprio pescoço, mantendo o olhar sexy e atrevido que sempre conseguia tudo o que queria.

Após um breve beijo no pescoço, segurando a nuca de Chloe, David a colocou em seu colo e caminhou em direção ao sofá preto no fim da sala. Com as cortinas fechadas e a porta trancada, eles teriam tempo para fazer tudo o que estavam pensando... E abusar da criatividade o quanto pudessem.

Quinze minutos depois, ambos deitaram lado a lado no mesmo sofá. A respiração ofegante e o corpo melado de suor sempre estariam presentes se continuassem sendo perfeitos um para o outro em todos os sentidos.

— Isso foi... — Chloe estava sem palavras.

— Bom trabalho, vice-editora. — David deu um meio sorriso.

— Você sabe que isso não é o mais importante...

Para ter certeza que havia entendido o recado e que pensava o mesmo, Chloe virou a cabeça para fita-lo. David estava sério, mas ao mesmo tempo sereno. E se ela perguntasse, ele também acrescentaria que estava feliz.

— Eu sei... — Ele a beijou, tentando entrelaçar seus dedos. O silêncio que se formara, apesar de satisfatório, o ajudou a pensar na próxima coisa que iria dizer. — É mesmo necessário desprezar você na frente das suas amigas?

— É o único jeito de ninguém desconfiar. Não se preocupe, em alguns dias vão nomear o vice-editor e estaremos livres.

Ao longe, dentro da saia jogada no chão, Chloe ouviu o celular tocar.

— É o meu. — Ela disse, levantando-se. David começara a resmungar no mesmo instante.

— É proibido usar telefones celulares dentro do prédio. Normas da companhia.

Chloe pensou em responder a provocação e David, mas quando o viu o nome de Kyle piscando no visor, nada mais lhe veio a cabeça.

— Kyle? — Ela atendeu, cheia de entusiasmo.

— Hey Chloe. — Ele respondeu.

— Ai meu Deus, onde você está? Faz quase um ano desde a festa de Ano Novo.

— Neste exato momento, na sala de espera do edifício da Denver Above. — Kyle tirou os óculos escuros para olhar em volta. — É legal por aqui. Totalmente o estilo de Chloe Field.

— Ok. — Chloe deu um ar de risos simpático. — Estou descendo.

— Não, você não está. — David sentou-se no sofá.

— Sim, eu estou. — Chloe levou dez segundos para juntar todas as suas roupas do chão. — É meu amigo Kyle, não o vejo há um ano.

— Kyle, tipo... O Kyle do seu livro?

— Sim. — Chloe terminou de vestir a saia. Agora estava relutando para abotoar sua blusa sem o botão que caíra no chão quando David rasgara.

— Pensei que ele estivesse numa clínica psiquiátrica.

— Não, ele só fez alguns meses de terapia. Recebeu alta há uns três anos e começou a trabalhar com vendas. — Completamente vestida, Chloe caminhou até David para receber a despedida apropriada. — Você quer conhece-lo?

— Quem sabe outro dia. — Ele sorriu, cheio de desdém. Chloe resolveu apenas ignorar e beijá-lo antes de partir. — Se você passar por aquela porta, está demitida.

— Não enquanto estiver dando para o chefe. — Com um sorriso malicioso nos lábios, ela se retirou. Enquanto as provocações continuassem, ela tinha certeza que nunca iriam terminar.

— Merda, ela está certa... — David riu de si mesmo. Estava apaixonado por uma jornalista sem pudores, usando o próprio escritório como motel e falando consigo mesmo após ser dispensado. Sua vida não poderia mesmo ficar melhor.

Chloe correu até o primeiro elevador disponível e chegou ao primeiro andar. Só precisou dobrar no próximo corredor da esquerda para chegar até a sala de espera.

E lá estava Kyle Fuller, com uma camisa social listrada, uma calça de trabalho, os cabelos loiros levemente escurecidos e um relógio prateado que doía aos olhos de qualquer um que encarasse. Mantendo as duas mãos dentro do bolso, ele comtemplava a enorme obra de arte em cima da lareira.

— “A lucidez impede a humanidade”. — Disse Chloe. Sempre havia achado o nome poético para a pintura que havia chamado a atenção do amigo. — É o favorito do meu chefe.

— Hey... — Kyle a abraçou, com um enorme sorriso nos lábios. — Senti sua falta.

— Eu também. — Chloe o observou da cabeça aos pés assim que se afastaram. — Ai meu Deus, olha só pra você! O que você fez com o motoqueiro rebelde que sonhava em andar pelo mundo?

— Ele se tornou um vendedor educado e tedioso que coleciona péssimos encontros.

— Estou tendo um caso com meu chefe, então considere-se o dono de uma vida perfeita.

— Isso foi inesperado. — Kyle sorriu. — Até mesmo pra você.

— Adoraria contar os detalhes no jantar de hoje a noite. Eu tinha um compromisso, mas posso desmarcar.

— Eu adoraria, mas tenho um jantar de negócios às sete. Só passei para deixar isso... — Do boldo de trás de sua calça, ele tirou um envelope selado com uma fita rosa.

A curiosidade de Chloe, que sempre falaria mais alto, lhe obrigou a abrir o envelope antes mesmo de Kyle dizer sobre o que se tratava.

— O que é isso? — Ela desatou o nó com facilidade.

— Megan e Aaron. Dia seis de janeiro.

— O que? — Chloe só precisou ler algumas linhas da mensagem impressa para perceber que se tratava de um convite de casamento. Mas não qualquer casamento. Era simplesmente o casamento do século. — Ai meu Deus! Não brinca! Não brinca!

— Eles finalmente marcaram a data.

— Kyle, isso é... Ai meu Deus! — Chloe mal conseguia acreditar no que estava lendo.

— Isso significa que acabei de ganhar uma acompanhante?

— É claro! — Chloe o abraçou novamente.

Para ela, era realmente o começo de uma nova era.
φ

— Isso, querida! É assim que se faz! — Gritava o fotógrafo para incentivar a melhor modelo de sua carreira. Esta, a insuperável Megan Bower.

A cada flash lançado em sua direção, Megan mudava de posição, sentindo-se cada vez mais poderosa em seu traje afrodisíaco. As curvas deixadas a mostra pela roupa pequena chamavam atenção, mas nada parecia tão majestoso quanto seus lindos cabelos castanhos movendo-se de acordo a brisa do estúdio. Havia mesmo a necessidade de uma seleção posterior quando todos os cliques pareciam perfeitos? Não aos olhos dos que estavam presentes.

Entre os olhares abobalhados da plateia, destacavam-se os de Gus Maillet, o modelo de olhos verdes e cabelos escuros com quem já trabalhara duas vezes na Calvin Klein. E os de Francine Waldorf, a assistente entusiasmada que Megan tanto adora desprezar.

— Mais uma! — Avisou o fotógrafo antes de um clique. — E acabamos.

Megan suspirou de cansaço. Há quantas horas estava posando?

— Magnífico! — Elogiou o fotógrafo novamente.

Megan imediatamente correu até a cadeira com seu nome e abriu uma garrafa de água sem gás entre as dez espalhadas na vasilha de gelo. Logo uma multidão se aproximou para fazer o seu trabalho na aparência da super estrela. Enquanto o maquiador número um retocava o batom, o maquiador número dois trocava os cílios e tirava o glitter do figurino que grudara em sua pele. Tudo enquanto a estilista tirava novas medidas para oferecer sempre as melhores roupas a modelo.

— Megan, você estava ótima! — Elogiou Francine, quase sendo atropelada pelo maquiador número um.

— Obrigada, querida. Atualize-me. — Megan pegou o pequeno espelho ao lado para ver como estava ficando.

— Marquei uma sessão de autógrafos no shopping principal, suas fotos para a Gucci serão lançadas em um outdoor no mês que vem, já reservei um horário em pelo menos três lojas diferentes para escolher o vestido de noiva, e... — Francine olhou as letras miúdas de sua prancheta. — Sua mãe ligou mandando dizer “Aceite Jesus em seu coração que a felicidade verdadeira a encontrará”.

— Ela está totalmente excluída do meu casamento. — Megan quase sorriu. — Agora anote. Eu preciso de um carro alugado, uma estátua de gelo, um padre que já tenha realizado dois exorcismos, algo azul, algo novo, algo emprestado, algo velho, algo chique para quebrar tradições, um cappuccino e um chaveiro com o mascote de Jogos Vorazes. Preciso me sentir sortuda nas semanas que estão por vir.

— Ok. — Francine terminou de anotar. — Mais alguma coisa?

— Sim. Vá para o lado de fora e pegue um bronze.

Francine lançou um olhar desconcertado para as pessoas que estavam presentes. Aquilo não fazia sentido algum.

— Você está falando sério...?

— Sim, Francine. — Megan estava cheia de autoridade. E antes mesmo de terminar sua frase, Francine já estava obedecendo. — Corra, pegue alguma cor. — Após sua saída, Megan olhou novamente para o espelho. — Deus, será que preciso fazer parte de American Horror Story para ter uma assistente negra? Naomi nunca teve esse problema!

— Olá, estou interrompendo? — Perguntou Aaron, recém chegado no estúdio.

Megan estava pensando em lhe dar uma bronca por ter perdido o ensaio fotográfico, mas quando viu o buquê de hortênsias que ele carregava, percebeu que ele era mesmo o seu príncipe encantado. Só precisava parar de estacionar em lugares proibidos e chegar no horário marcado.

— Hey... — Megan sorriu, simpática como sempre. Mas não animada o suficiente. — Vocês podem voltar mais tarde. — Dispensou os ajudantes, que imediatamente a obedeceram.

— Cheguei atrasado outra vez? — Aaron abaixou o buquê.

— Sim... Mas você quase conseguiu.

— Me desculpe. Não sabia que a coletiva de imprensa demoraria tanto. Eu... — Ele se aproximou.

— Tudo bem, você é um homem ocupado...

— Não. Eu sou um idiota. Que está decepcionando a mulher mais linda do mundo. E mereço uma boa surra por isso.

— Eu não quero fazer isso a um mês do nosso casamento. — Megan de um ar de risos depressivo. Era só o que precisava para encher sua cabeça de pensamentos positivos. — Por favor, sem clichês.

— Ok. — Aaron assentiu, guardando sua admiração para si mesmo. Megan tinha mesmo amadurecido nesses ultimos cinco anos. E só ele parecia não saber disso. — Sem clichês.

— Mas espero que o jantar de hoje a noite ainda esteja de pé.

— Conte com isso...

Aaron a beijou. Estava planejando matar as saudades e compensar seu erro, mas seus lábios não ficaram grudados nem mesmo por três segundos. Megan levantou da cadeira e começou a gritar histericamente, olhando na direção da entrada. Aaron não sabia, mas a garota de cabelos castanhos na porta do estúdio que estava reagindo da mesma maneira que sua noiva, era Melanie Bower. E o escândalo era a marca registrada do encontro dessas duas irmãs.

— Não brinca! Não brinca! Não brinca! — Megan correu para abraça-la como um desenho saltitante, fazendo questão de levantar a mão esquerda para mostrar sua aliança.

Um abraço, um aperto, um sussurro, e as irmãs já estavam novamente se encarando e gritando de felicidade.

— Ai meu deus, você veio! — Exclamou Megan.

— Ai meu Deus, você vai casar! — Melanie não conseguiu conter a ansiedade. — Quantos quilates? Quantos quilates? — Ela fitou a enorme aliança de Megan.

— Quatorze.

— Cala a boca! Você é tão Pepsi Cola!

— Eu sei!

E mais gritos ecoaram pelo estúdio enquanto Aaron tentava entender o que estava acontecendo. Ele caminhou até as garotas quando percebeu que a única maneira de não sobrar era escutar sorrateiramente a conversa.

— Hey, o que está acontecendo? — Ele sorriu.

— Melanie, esse é o Aaron. Aaron, esta é Melanie, minha irmã mais velha.

— Irmã? — Aaron já estava começando a enxergar tudo com mais clareza.

— Hey! — Melanie estendeu a mão. — Prazer em conhecê-lo.

— Igualmente. — Aaron respondeu ao cumprimento.

— Isso é tão legal. Megan me falou muito sobre você.

— Sério?

— Na verdade, não. Mas hey, você é bonito! — Melanie sorriu cheia de animação.

— E você é definitivamente irmã da Megan... — Aaron mal conseguia disfarçar o constrangimento.

— Em que hotel você está? — Megan decidiu prosseguir a conversa com sua irmã.

— Eu e Brian alugamos uma mansão aqui perto. Tem piscina, quadra de tênis, hidromassagem, e pela quantidade de bebidas na adega, também deve ser open bar.

— Então, você e Brian...?

— Não, nada a ver. Nem pensamos em casar. Minha carreira de modelo vai estar sempre em primeiro lugar.

— Estou louca pra contar as novidades. Quando você está livre?

— Agora, na verdade. — Melanie sorriu quando percebeu a coincidência irrelevante.

— Perfeito! Bebê... — Megan olhou para trás. Aaron continuava tímido há um passo de onde estava. — Vou almoçar com Melanie. Você vai ficar bem?

— Tenho umas coisas pra fazer agora. Te vejo no restaurante?

— É claro! Vamos? — Megan tomou a frente, com a irmã ao seu lado. — Você nem imagina o que eu estou planejando...

Aaron, observando sua noiva partir, percebeu que ainda havia algo a dizer. Não por ter esquecido o horário de seu ensaio fotográfico, mas por ter esquecido pela quarta vez. Não porque o casamento está próximo, mas porque Megan era o amor da sua vida. E deixa-la saber disso todos os dias era uma promessa que ele tinha o prazer de cumprir.

— Megan, espere! — Ele correu em sua direção.

Percebendo que se tratava de um assunto pessoal, Melanie se afastou. O sol estava brilhando, o clima estava agradável, e uma modelo sempre está bem. Então por que não registrar todos os momentos? Melanie tirou o celular do bolso e iniciou mais uma sessão de fotos aleatórias de si mesma, que desde o início incomodou as pessoas que estavam próximas demais do flash.

— Algum problema?

— Eu sei que você odeia Chicago. E eu sei que vir até aqui não estava nos seus planos e que você abriu mão de muita coisa por mim. Mas eu prometo que vou fazer o impossível para que você tenha o casamento dos seus sonhos. Eu prometo com a minha vida.

— Aaron, eu... — Megan estava completamente desnorteada com as palavras que acabara de ouvir.

— Só quero que você saiba que tudo o que eu faço é por uma razão. E pra te ver feliz.

— Olha... — Incomodada com os flashes, Megan virou para repreender a irmã. — Melanie, pare de tirar fotos de si mesma, meu noivo está tentando ser romântico!

— O que? — Melanie parecia confusa. — É pro Instagram. Eu dedico uma hashtag se você quiser. — Ao olhar de relance para o celular, o entusiasmo lhe consumiu. — Ai Meu Deus, essa ficou ótima! Vai pro perfil, vai muito pro perfil!

— Enfim... — Aaron voltou sua atenção para Megan. — Tenha um bom almoço. Eu te amo.

— Eu também te amo. — Dessa vez era a vez de Megan tomar a frente para dar o beijo de despedida.

Mais alguns segundos trocando um olhar apaixonado com seu noivo havia mudado completamente seu humor.

— Vamos, Melanie. — Megan a puxou pelo braço.

— Pra onde?

— Para o cemitério. — Ironizou Megan. Quando havia se tornado a irmã inteligente?

— Sério? E eles têm wi-fi?
φ

Após uma semana cansativa de trabalho, tudo o que Aaron queria era deitar em sua cama e desligar-se do mundo real. Chegou em casa, tomou um banho, vestiu roupas largas e deu folga aos empregados, mas os telefones não paravam de tocar. Imprensa, família, seguidores... Parecia que as pessoas ao seu redor tinham enlouquecido outra vez.

Pela insistência de um dos números, que ligava até mesmo para seu celular, ele decidiu atender.

— Esse número é restrito. — Disse ele, quase irritado.

— Aaron Estwood? É Casey Andrews, do talk show. Gostaria de agendar uma entrevista para o programa de hoje.

— Pensei que meu assistente tivesse informado que estou de férias. — Aaron marchou até a porta no primeiro soar da campainha.

— Sim, mas com esses novos assassinatos, quem pode esperar?

— Novos o que?

Aaron abriu a porta, e acabou dando de cara com Jeremiah Estwood; o ex delegado de New Britain que há muito tempo costumava ser seu pai.

— Aaron, precisamos conversar. — Jeremiah o encarou de maneira misteriosa.

E Aaron não precisava de mais nada para entender o que estava acontecendo.


Capítulo 3: O Sangue em Minhas Veias (Dia 13 de Março de 2014)
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Comentários
5 Comentários

Comentário(s)

5 comentários:

  1. Socorr, não lembro absolutamente de quem é Chloe hahaha. Me ajudem por favor!!!!

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    Respostas
    1. Ok Anônimo, vamos lá KKKKKKKKKKK
      Chloe era a melhor amiga de Amanda na universidade que tomava conta de uma rádio. Ela teve bastante destaque no segundo livro, tendo ela participado de várias cenas de perseguição.
      Ela termina o segundo livro conseguindo fugir e agora está aqui =D

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  2. Esse capítulo foi bom, adoro quando começa a reunião dos sobreviventes... Embora não curti muito os rumos de Chole e Kyle mas faz parte, nem todo sobrevivente consegue uma vida alá Megan Bower, fora que a Melanie forma a melhor dupla com Megan aposto em muitas coisas engraçadas dessas duas, elas serão como Gale e Jennifer em Pânico 3, Amanda continua um caçadora de homens só para variar, mas algo me diz que ela está pronta para guerra... Bom só me resta aguarda por novas mortes.

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  3. Que capítulo foi esse meu Deus? Eu não parava de rir, principalmente com as frases das duas irmãs Bower, elas são perfeitas.
    Obs: Agora Amanda está do jeito que eu sempre imaginei: vadia e loira

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  4. Melhor a cada capítulo!

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