sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

[Livro] A Punhalada 3 - Capítulo 1: Você Quer Morrer Esta Noite?


Uma noite eventual, em qualquer parte da cidade. Taylor preferiu não imaginar o que aconteceria quando colocou os pés para fora de casa. Apenas caminhou sozinha pelas ruas de seu bairro até encontrar exatamente o que estava procurando: “O Inferno”.

Era onde todos os adolescentes de Shreveport se encontravam, e exatamente onde não deveriam estar. Sexo, drogas e bebidas sempre vinham com a promessa de uma noite inesquecível ao passar pelos portões de ferro da boate. Mas para Taylor, tão inteligente quanto estimada, não havia motivos para ser tão negligente. A beleza do “Inferno” estava em suas musicas, e na sua capacidade de fazê-la esquecer qualquer coisa que não tenha o direito de estar em sua cabeça.

Ela dançou durante trinta minutos seguidos, misturando-se na multidão que cobria a pista em formato de esfera. Caminhou até o banheiro feminino, tomou dois compridos de antidepressivo, lavou o rosto na pia da esquerda e ficou olhando para si mesma através do espelho decorado. Estava linda, como todos sempre diziam. E nunca recebeu qualquer incentivo para pensar o contrário. Mas havia algo nos cabelos loiros molhados, na blusa branca regata e na calça jeans suja de lama. Talvez houvesse muito mais coisas do que ela imaginava. Só não havia ela mesma.

De volta à pista de dança, Taylor tentou acompanhar o ritmo da nova musica escolhida pelo DJ, mas o cansaço começava a lhe vencer aos poucos. Para que pudesse recobrar o fôlego, caminhou até a parede da esquerda ao lado das mesas do camarote, de onde podia ter uma perfeita visão da boate inteira. Além da garota de cabelos curtos que sempre sentava na sua frente na aula de história, ela também conseguiu avistar Chord Walker, o loiro de olhos azuis de quem sua mãe tanto falava. “Chord é um garoto sem princípios que frequenta boates. Chord nunca será o capitão do time de Lacrosse. Chord é uma má influência, fique longe dele”. Agora Taylor entendia porque ele sempre fora interessante aos seus olhos.

— Melissa, o que você tem? — Chord perguntou a garota de blusa cristalina ao seu lado. Todas as sete pessoas ao redor da mesa possuíam o mesmo olhar de paisagem insubstituível e uma partida de poker.

— Um Porsche, dois closets cheios de Gucci e um anel de noivado no valor de quinze mil dólares. — Respondeu a garota, com um ar de superioridade. — O que você acha? — Ela moveu suas peças até o centro da mesa.

— Acho que hoje não é seu dia de sorte. — Ao revelar as cartas que tinha em mãos, os convidados foram a loucura. — Full House, vadia.

— Só pode estar de brincadeira...

— Me desculpe, mas acho que ouvi você chorar.

No meio da comemoração, Chord sentiu o celular vibrar em seu bolso. A palavra “mãe” piscando sem parar no visor era o mais perigoso dos alertas que um homem poderia receber.

— Preciso atender, já volto. — Ele se levantou da mesa e caminhou pelo corredor cinza, diretamente a porta dos fundos da boate.

Uma vez do lado de fora, encarando o muro tijolado e longe de toda a gritaria, Chord se sentiu seguro para atender a mãe.

— Onde você está? — Ela perguntou, de imediato.

— Jogando poker na casa do Kirk. Acho que vou chegar tarde.

— Está tudo bem?

— Sim, só estamos terminando esta partida e vamos pra cama. Não podemos faltar aula amanhã.

— Obrigada. É isso o que digo todos os dias para o seu irmão, mas ele nunca me escuta. O que diabos é “Haus of Gaga” e por que não deixa meu filho ficar em casa para dormir a noite?

— Sim, mãe. Eu concordo plenamente. — Chord assentiu, com um sorriso no rosto.

Um minuto se passou, e então, a porta dos fundos foi aberta de maneira brusca, acertando os tijolos da parede ao lado. Chord olhou para trás e viu Taylor saindo por ela, completamente desnorteada, precisando apoiar-se em tudo o que encontrava pela frente. Mesmo que a única coisa a sua frente fosse uma caçamba de lixo asquerosa.

— Taylor? — Ele sussurrou, talvez para si mesmo.

— Quem é Taylor? — Sua mãe estava curiosa.

— Mãe, preciso ir, a mãe do Kirk está me chamando. Eu te amo. — Assim que desligou o celular, correu na direção de Taylor a tempo de livra-la de uma queda feia. — Uow, o que aconteceu? Taylor, você está bem?

— Eu não quero ir pra casa... — Taylor fungou. Não estava chorando, mas estava longe de saber o que estava fazendo.

— Taylor... — Aproximando o rosto de seu cabelo, Chord notou um forte cheiro de vodka. Era óbvio. Taylor havia pirado. E ele sabia que isso poderia acontecer a qualquer momento. — Você precisa ir pra casa, já passou da hora.

— Não... — Taylor tentou manter-se de pé. Tudo em vão. — Não posso, ele está lá, ele está em todo lugar, ele está me deixando louca... Por favor...

— Taylor, você não pode ficar aqui... — Chord olhou ao redor. Não havia uma só pessoa para ajudar. O bem estar de Taylor, de repente, parecia estar em suas mãos. — Vem, vou te levar pro meu carro.

— Pra casa não...

— Ok.

Chord aproveitou a longa caminhada até o carro para pensar no que fazer. Se tentasse leva-la para casa, no estado em que estava, poderia acabar provocando um acidente. Se levasse para seu apartamento, todos iriam procura-la como se estivesse desaparecida. E com certeza seus pais não gostariam disso. A única opção era ligar para Delilah e perguntar o que fazer.

Quando conseguiu colocar Taylor quase desacordada no banco do passageiro, Chord deu a volta e entrou no carro, imediatamente tirando o celular do bolso. Mal havia digitado o primeiro número de Delilah quando recebeu uma chamada de um número desconhecido.

— Alô? — Ele limpou a vidraça do carro.

— Com quem estou falando? — Perguntou uma voz medonha do outro lado da linha.

— Chord. Hey, pode ligar depois? Não é um bom momento.

— Você quer morrer esta noite, Chord?

Chord não respondeu, apenas encerrou a chamada e deu partida no carro. Nenhum trote lhe tiraria do sério num momento tão delicado.

Delilah, a única pessoa com quem ele poderia contar naquele momento, estava jantando em um dos hotéis mais luxuosos da cidade ao lado de sua companheira. Entre risos, beijos e a degustação de frutos do mar, ela nem imaginava que o luto de sua irmã poderia ir longe demais.

— Então, esse sorriso quer dizer que você está se divertindo? — Perguntou Jessica ao garfar o arroz em seu prato.

Por um segundo, ela lembrou do momento em que se conheceram. Aquela jovem de cabelos pretos e olhos verdes entrando em sua clínica para ajudar um cachorro de rua foi o ponto alto de uma vida inteira. Quem se importava com o que seus pais pensavam quando só o que importava era Delilah?

— É, não está tão ruim... — Delilah ironizou, com um sorriso.

— Eu sei que todo ano digo isso, mas este é nosso melhor aniversário de namoro. — Jessica alcançou a mão direita de Delilah em cima da mesa, e sorriu assim que o gesto foi retribuído.

— Cinco anos... — Delilah estava surpresa consigo mesma. — Não é pouco...

— Por isso escolhi este lugar. Delilah, eu tenho...

— Espere... — Delilah distraiu-se com o toque do seu celular ao lado da taça de champanhe. Quando viu o nome de Chord piscando no visor, clicou em “rejeitar” para focar-se nas palavras de Jessica.

— Então, eu tenho algo... — Jessica novamente foi interrompida pelo celular de Delilah. Sabia que se não atendesse, seu momento seria roubado novamente.

— Desculpe, pode ser importante. — Delilah levou o celular a orelha. — Estou um pouco ocupada, Chord.

— Estou com Taylor dentro do carro, acho que ela não está bem.

— O que? Taylor?

— Topei com ela na boate, acho que... — Chord olhou para a garota deitada no banco ao lado. Nada de errado a não ser a pele pálida que poderia ter muitos significados assustadores. — Acho que ela tentou suicídio.

— Ai meu Deus... — Delilah mal conseguia raciocinar.

— O que eu faço? Ela não quer ir pra casa. Onde você está hospedada?

— High Five, quarto setenta e um. Vou ligar agora mesmo para você entrar.

— Ok.

— Te encontro lá. Por favor, não diga nada a ninguém. — Delilah desligou.

Jessica, que passara a chamada inteira entediada, estava começando a ficar preocupada.

— O que aconteceu?

— Taylor tentou suicídio, preciso ir agora. — Delilah levantou grudada em sua bolsa.

— Mas o jantar...

— Eu sinto muito. Prometo que vou recompensá-la. Eu te amo.

Com um beijo nos lábios, Delilah se despediu. Jessica permaneceu sentada na mesa, tentando se convencer de que sua noite não foi arruinada. Mas se aquela aliança de casamento ainda estava entrelaçando em seus dedos e não junto do amor da sua vida, sua noite havia mesmo sido arruinada. Ela só esperava que Taylor estivesse bem, e que tudo não passasse de um mal entendido.

Já do lado de fora do restaurante, Delilah atravessou a rua e entrou no primeiro taxi disponível. Ao dizer o endereço para o motorista, seu celular começou a tocar. O número era privado, e foi o suficiente para que ela decidisse rejeitar a ligação.

φ

Chord carregou Taylor até a cama de casal assim que entrou no quarto de hotel. A palidez da garota já não podia ser notada, mas ainda estava fraca demais para fazer as coisas sozinha. Ele precisou carrega-la até o banheiro para molhar a cabeça e despejar todas as porcarias que consumiu. Taylor, mesmo relutante, fez exatamente o que ele queria.

— Para... — Ela pediu num sussurro.

— Isso vai fazer você se sentir melhor... — Chord tentou posicioná-la de baixo do chuveiro, até perceber que seria uma missão impossível. No entanto, a pouco água que jorrou pelo corpo da garota já dava indícios de uma melhora.

— Você não é a porra do meu pai! — Taylor o empurrou contra a cortina. Sentou escorada na parede e começou a vomitar dentro da banheira.

Chord, prometendo não ser tão prestativo no futuro, abaixou-se para segurar seu cabelo. Taylor teria um infarto se visse o cabelo vomitado quando sua mente voltasse a realidade. E pela expressão que fizera após limpar os lábios, a realidade já não estava tão longe.

— Está tudo bem. — Chord tentou confortá-lo.

— Merda, minha cabeça está girando... — Na tentativa de se sentir melhor, Taylor fechou os olhos. Em poucos segundos ela descobriu que qualquer artimanha contra a ressaca seria em vão.

— Você deve se sentir melhor em algumas horas.

— Fisicamente não é o bastante.

— Queria poder dizer que sei como você se sente, mas estaria mentindo. Não há vida mais fácil que a minha.

— Pelo menos você admite... — Taylor deu um ar de risos depressivo, fungando logo em seguida.

— Eu nunca perdi ninguém. Mas sei que autodestruição não leva a nada.

— Não comece com essa merda... — Taylor olhou para o outro lado. Era incrível como qualquer discurso sentimentalista lhe fazia chorar naquele estado. Porque ouvir de outra pessoa o que Derek costumava dizer era simplesmente... Perturbador.

— Só estou dizendo que é mais fácil conversar com alguém ao invés de fazer isso a si mesma.

— Não estava tentando me matar... — Taylor olhou para ele, só para que não desconfiasse de suas palavras. Seus olhos vermelhos aos poucos se enchiam de lágrimas que ela nunca deixaria cair. — Não sou esse tipo de pessoa.

— Então o que você estava tentando fazer?

— Eu não sei, eu apenas... Fiz. Achei que iria ajudar de algum jeito.

— Eu... — Notando o olhar perdido dela, Chord, por um segundo, ficou sem palavras. Nada do que dissesse iria ajuda-la a superar a morte do namorado. Mas alguma coisa precisava ser dita antes que não houvesse nada a dizer. — Eu sinto muito.

— Obrigada... Por tudo. Mas agora eu preciso ficar sozinha.

— Ok... — Chord assentiu enquanto se levantava do chão. — Liguei para sua irmã, ela logo está chegando.

Enquanto Taylor usava a pouca força recobrada para descobrir a inutilidade da porta do outro lado do banheiro, Chord descobria o outro cômodo do quarto de Delilah, que lhe parecia bastante com um escritório. Havia mesas, cadeiras, poltronas, estantes cheias de livros e uma televisão enorme integrada na parede da esquerda. Mas nada disso se comparava a beleza da cidade vista pela enorme parede de vidro no fundo. Chord achava sua vida fácil, mas a de Delilah, para começar, era no mínimo extraordinária.

A curiosidade, depois de leva-lo a melhor vista de Shreveport, o direcionou até a coleção de filmes próxima a TV, e ao controle remoto que controlava tanto as luzes quanto a área da sala de estar. Apertando apenas um botão, ele conseguiu cobrir a TV com a própria parede e adicionar efeitos incríveis a luz ambiente. Era como uma criança descobrindo seu novo parque de diversões.

Logo em seguida, decidiu dar uma olhada nos livros de sua anfitriã. “50 Tons de Cinza, Livros didáticos, Livro sobre advocacia, A Menina que Roubava Livros e O Fantasma de New Britain”. Dos títulos que lera, apenas o ultimo lhe era desconhecido.

— O Fantasma de New Britain... — Ele tirou o livro da estante para observa-lo com mais cautela. — Por Chloe Field...

Chord tentou, mas não conseguiu lembrar onde tinha ouvido aquele nome. E já que a capa sangrenta não lhe chamou atenção, decidiu colocar o livro no mesmo lugar. Foi quando seu celular começou a tocar.

— Alô?

— Alô... — Chord reconheceu a mesma voz medonha de antes.

— Você não tem nada mais interessante pra fazer?

— Não desligue...

— Adeus. — Chord desligou.

Um segundo depois, ouviu um estranho ruído vindo do outro corredor. Delilah já estava em casa ou era apenas sua imaginação? Nada o impedia de checar para ter certeza.

Enquanto isso, ainda no banheiro, Taylor tentava tirar o gosto ruim de sua boca usando uma das inúmeras pastas de dente que Delilah guardava. Mas parecia que sua punição por negligenciar a própria vida não tinha terminado.

Ela largou a escova de dentes e correu para o outro lado, a tempo de vomitar dentro da banheira ao invés de em si mesma.

— Deus... — Gemeu ao ligar a torneira da banheira. Sua garganta formigava de tanto vomitar. — Chord, preciso de remédio!

Sem ouvir uma resposta, ela decidiu gritar novamente. Dessa vez, com mais intensidade.

— Chord, não estou bem!

Taylor levou um minuto para perceber que Chord não estava ouvindo os gritos que lhe custavam alguns segundos de náuseas intensas. Mesmo estando impossibilitada, seria necessário encontra-lo onde quer que estivesse. Talvez se o flat de Delilah não fosse tão grande, o passeio conseguisse alegrar seus ânimos.

— Chord?

A princípio, ela cogitou ser apenas uma brincadeira de meninos. Chord nunca iria crescer, disso ela tinha certeza. E possivelmente era a única coisa não leviana que sua mãe poderia dizer. Mas algo estava errado. E ela percebeu assim que passou pela outra porta e viu sangue espalhando-se rapidamente pelo chão. Era apavorante, mas ainda assim, bastante confuso. Taylor não sabia qual seria sua reação até notar o corpo desfigurado de Chord em cima da mesa. Os olhos continuavam abertos, o rosto permanecia corado, mas suas tripas, assim como os órgãos internos, estavam todos espalhados ao redor da mesa.

Ela correu de volta para o outro cômodo, no mesmo instante em que Ghostface relevou-se no outro corredor.

Antes que pudesse trancar-se no banheiro, Taylor foi derrubada, e arrastada de volta para o quarto com duas facadas na costa. Não houve tempo para agarrar-se em qualquer coisa que lhe pudesse libertar. Quando percebeu, já estava a mercê do assassino, soltando gritos pavorosos de quem já sentia a aproximação da morte. E da pior maneira possível.

Ela conseguiu levantar-se do chão e dar dois passos a frente, mas não houve escapatória. O assassino conseguiu imprensa-la de costas na parede e dar mais cinco facadas diretamente em seu peito. Ao terminar, agarrou seus cabelos e a jogou dentro da banheira.

Ali ela permaneceu, com as pernas para fora, os olhos abertos e corpo sendo banhado pela água quente do chuveiro. A dor e a culpa haviam encontrado a própria maneira de lhe dar exatamente o que ansiava.
φ

Assim que o taxi foi estacionado em frente ao hotel, Delilah tirou uma nota de cinquenta da bolsa e entregou ao motorista. Estava com tanta pressa que preferiu deixar o troco como cortesia ao invés de perder mais tempo. Qualquer minuto importava quando se tratava de Taylor e sua vocação de nascença para fazer o que não deve.

Ao passar pela porta de entrada, um dos empregados abriu um enorme sorriso para cumprimenta-la.

— Boa noite, Senhorita Estwood!

— Boa noite, Peter. — Delilah cumprimentou de volta, concentrada em caminhar até o elevador e discar o número de Ben no celular. Por um segundo, e apenas por um segundo, ela lembrou o quanto era estranho ser chamada pelo seu sobrenome. Não havia como não lembrar de seu primo, e tudo o que o lhe ajudou a ser um homem reconhecido no país.

As portas do elevador se fecharam automaticamente, e a gravidade acabou assustando-a por um breve momento. De onde vinha aquele medo de elevadores? De qualquer forma, não importava. Porque Ben já estava na linha.

— É a minha irmã, preciso da sua ajuda. — Disparou ela, dispensando os bons modos.

— O que aconteceu?

— Ela tentou se machucar outra vez. Estou indo vê-la neste exato momento.

— O que eu posso fazer?

— Venha ao hotel. Seria bom ter um médico por perto.

— Tudo bem, estou indo. — Sem pestanejar, Ben encerrou a ligação.

Mesmo que confiasse cegamente em seu médico particular, Delilah não conseguia controlar os pensamentos. Escorou-se no espelho, levantou a cabeça e deu um grande suspiro, imaginando mil e uma possibilidades. Talvez se tivesse cuidado de sua irmã, talvez se tivesse dito para Derek não ir embora quando seus pais o mandaram... Delilah mal conseguia imaginar o que aconteceria consigo mesma quando começasse a se responsabilizar pelo acidente. Era um caminho sem volta que a própria irmã estava lhe obrigando a seguir.

Quando as portas do elevador se abriram, Delilah correu até o quarto onde se hospedara, desde o primeiro instante notando algo estranho. O chuveiro estava jorrando, a TV no outro cômodo estava ligada, e o tapete cor de vinho comprado em Paris, completamente encharcado.

— Chord? — Ela gritou. O silêncio parecia brincar com sua preocupação.

Enquanto corria para desligar o chuveiro e fechar a porta do banheiro, gritou por Chord mais uma vez. O que ele achava que estava fazendo em seu quarto? Ele deveria estar cuidando de Taylor, não descuidando de todas as outras coisas.

Ela caminhou até o outro cômodo em busca das respostas que não obteve, mas definitivamente a noite parecia estar para enigmas. A mesa estava fora do lugar, o chão estava ensopado, e na televisão de plasma a sua frente, era exibido um antigo documentário falando sobre um acidente de carro em uma ponte. Sua única reação foi usar o controle para desligar a TV e jogá-lo de volta no sofá, como sempre fazia.

A sensação de que algo estava errado piorava a cada segundo.

— Taylor? — Gritou Delilah novamente, cheia de receio em sua voz.

Antes que pudesse gritar novamente, todos os telefones da casa começaram a trocar ao mesmo tempo. Na cozinha, na sala de estar, e até mesmo dentro de sua bolsa. Parecia que até mesmo os telefones móveis haviam aderido a loucura momentânea que Delilah desejava poder explicar.

O visor de seu celular dizia que o número era restrito. E o identificador de chamadas da sala de estar alertava uma chamada de um número desconhecido. Seria possível que a mesma pessoa estivesse ligando para todos os telefones ao mesmo tempo? Só poderia ser uma brincadeira. Pensando melhor, talvez o problema de Taylor também fosse apenas uma brincadeira.

Para sua surpresa, todos os telefones pararam de tocar no momento em que atendera a chamada através do seu celular. Só o que ouvia era um ruído baixo e a respiração de alguém do outro lado da linha.

— Alô? — Sussurrou finalmente.

— Você quer morrer como a sua irmã?

— Não!

Delilah imediatamente jogou o telefone na parede. Sabia exatamente o que estava acontecendo. Sabia o que lhe aguardava. E sabia que precisava correr antes que se tornasse a próxima vítima dos livros de Chloe Field.

O assassino revelou-se atrás da cortina e correu em sua direção, mas Delilah conseguiu ser mais rápida. Correu para o outro lado do cômodo e pulou por cima da mesa, caindo próximo a estante de livros junto de todos os documentos. Pela rapidez de seus movimentos, a faca do assassino acertou a mesa de madeira, e poucos segundos foram lhe dados para que pudesse levantar-se do chão.

Ela correu diretamente para o outro cômodo, e agindo por puro instinto, jogou a estante a sua esquerda na direção da porta. Quando o assassino chegou, a passagem estava bloqueada. Apenas o seu braço conseguia atravessar a pequena brecha que se formara entre a estante e a parede.

— Não! — Delilah recusava aos poucos, chorando descontroladamente, e observando cada artimanha do assassino para entrar. — Vá embora!

Ela planejava ficar dentro do quarto até fosse deixada em paz, mas Ghostface tinha outros planos. A porta não poderia ser aberta, mas a faca ainda atravessava a madeira completamente. Era só uma questão de tempo até que a porta estivesse em pedaços e Delilah fosse toda sua.

— Ai meu Deus! — Percebendo o que iria acontecer, Delilah correu até o banheiro. A segunda porta, que levava diretamente ao quarto ao lado, estava trancada. — Não! Não! Não! Abra! Abra!

Mas nada adiantou. A porta continuava trancada enquanto a outra era despedaçada aos poucos pela faca do assassino.

O medo de perder a vida exigiu que Delilah se afastasse e desse de encontro com a porta, derrubando-a logo na primeira tentativa. Ela levou dois segundos para levantar do chão e perceber o que estava bem a sua frente.

Eram todos eles, todos que um dia amou, todos que nunca deixaria de amar. Mãe, pai, tia... E irmã. Pregados na parede como Jesus Cristo, e sangrando como animais no abatedouro. As letras escritas com sangue, em cima de seus corpos, formavam a palavra “Família”, e escorriam pela parede a media que os segundos passavam. Para Delilah, o tempo simplesmente havia parado.

Então, estava acontecendo de novo. Os telefonemas estavam chegando. As pessoas estavam morrendo. O caos estava se instalando pouco a pouco enquanto mais um mistério surgia. Se Amanda Rush estava morta, outras pessoas teriam que pagar.

— Não... — O corpo de Delilah estremeceu. Seu coração acelerava monstruosamente cada vez que olhava nos olhos sem vida de seus entes queridos. — Não... Não!

Tão distraída no mundo paralelo de sua dor, ela só percebeu que ainda estava em perigo quando o assassino passou pela porta e cravou a faca no meio de sua coluna vertebral. Suas pernas imediatamente enfraqueceram, fazendo-a cair com o rosto no tapete sujo de sangue. Agora mal conseguia enxergar as pernas ensanguentadas da própria irmã e as botas pretas do assassino circulando o ambiente.

Uma vez frente a frente, ele parou para encarar sua vítima. Delilah, ao contrário do que imaginava, não estava implorando por sua vida. Estava gargalhando com a pouca força que lhe restara como se não estivesse diante do assassino de sua geração.

Ghostface puxou seu cabelo e encostou a faca gelada em seu pescoço, mas nada mudou.

— Você sabe o que dizem sobre trilogias? — Delilah sussurrou, olhando nos olhos do assassino. — Elas nunca superam o original!

E então, o assassino cortou sua garganta em apenas um golpe, tão profundo quanto achava que um Estwood merecia. Ele observou enquanto ela morria aos poucos, tirou sua máscara e olhou a cidade pela varanda do quarto. Até mesmo a brisa noturna sabia que uma nova era estava sendo iniciada. Uma era que revolucionaria o mundo do horror como Brandon Rush nunca sonhou.
φ

Mais um expediente rotineiro estava chegando ao fim para Ellen Strode. Como gerente do High Five, um dos hotéis mais luxuosos de Shreveport, precisava se certificar de que tudo estava em perfeita ordem antes de ir para casa. Os hospedes já estavam acomodados, os restaurantes fechados, e os seguranças em seus devidos postos.

— Hanna, o expediente acabou. — Informou a uma das faxineiras que circulavam pelo hall.

— Já estou de saída. Tenha uma boa noite, senhora Strode.

— Para você também. — Como sempre, Ellen sorriu de maneira simpática e continuou seu trajeto.

Esperou alguns segundos pelo elevador que convocara, mas quando as portas se abriram, teve uma grande surpresa. Delilah estava pendurada pelo pescoço dentro do elevador, com os olhos ainda abertos e o sangue escorrendo da garganta degolada. A palavra “Família”, escrita com sangue, estava escrita em letras garrafais no espelho atrás de seu corpo.

Ellen recusou dois passos e gritou o mais alto que pulmões lhe permitiam, sem saber que o terceiro ato estava apenas tomando início.


Capítulo 2: Bem-Vindo a Nova Era (Dia 6 de Março de 2014)
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7 Comentários

Comentário(s)

7 comentários:

  1. Tive a sensação que Delilah iria sobreviver, mas como sempre quebrei a cara.
    Só sentir falta das frases marcantes do Ghost.
    Derick

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  2. Chegou chegando, hein João? Gostei dessa Delilah, não queria que ela morresse... Mas a vida não é justa, principalmente em A Punhalada. Vou tentar prestar atenção nos detalhes e descobrir o assassino antes da revelação. Quem sabe dessa vez eu descubro. Teve menções honrosas de personagens anteriores, não acredito que Amanda esteja morta, pelo menos espero que não. Então vamos acelerar esse processo de postar os capítulos, 1/24hr que tal?
    Espero que essa trilogia supere o orignal, vai ser difícil, mas vou torcer por você.

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  3. Bom esse começo foi um tanto alucinante, essa família morta logo no começo quebra logo o gelo no inicio mostrando que o Ghostface não estará para brincadeira nessa terceira parte, estou curioso para saber a ligação dessas mortes com Amanda Rush (Natalie Strauss)... Embora após o excelente A Punhalada 2 com certeza você terá muito trabalho para fechar essa trilogia no mesmo nível de qualidade de seus antecessores,mas com certeza você irá nos mostrar uma história cheia de surpresas e reviravoltas inquietantes que sempre nos deixa desconfiando de todos... Mas vamos aguarda para ver o que nos aguarda!

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  4. Sua escrita fica melhor a cada livro, parabéns.

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  5. Oi, socorro precisso de ajuda li os dois livros de punhalada e naun lembro muito bem da historia alquem por favor pode me dar um resumão bem basico ou dizer onde posso encontrar algum, como ja li naun precisa de muitos detalhes que acho q lembro.

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    Respostas
    1. Tipo assim:
      O 1º seguiu 1 grupo de jovens sendo atacados pelo ghostface que queria matar de acordo com as novas regras. Amanda, Aaron e Megan sobreviveram, e o assassino principal era o irmão de Amanda, que a estuprou e deixou ela grávida.
      O 2º segue novamente os sobreviventes. Amanda teve o filho e arrumou um marido, mas se apaixonou pelo irmão dele, Kyle. Megan e Aaron começaram a namorar.
      No final do 2º Amanda forja sua morte pra proteger ela e o bebê e mata os novos assassinos, mas acabou ficando meio louca e tendo visões do irmão. Sobrevive ela, Megan, Aaron, Kyle e a menina da rádio Chloe.
      É mais ou menos isso aí.

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  6. Ahhhh naun, ja estava shipando #delica meu novo britanna mas emfin

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