domingo, 10 de novembro de 2013

[Livro] The Double Me - 1x12: Enjoy Your Misery [+18]


“Quando a música for interrompida, até mesmo o Diabo saberá que você venceu.”


Em poucos segundos Nate já havia esvaziado o que parecia ser sua terceira taça de Dry Martini. Vê-lo brincar com sua bebida e olhos fadigados faria qualquer um pensar que a noite já havia acabado para o melhor cliente daquele bar, mas era apenas o seu ritual de preparo para um novo espetáculo. Aquele que jogaria o nome da família Foster na lama definitivamente.

Do outro lado do balcão estava Clark, o não tão humilde garçom do Four Seasons enxugando copos com seu guardanapo branco enquanto disfarçadamente prestava atenção no queridinho de Manhattan. Depois do grande strip-tease que protagonizara, não havia como ficar perto de um Strauss sem ser atiçado pela própria curiosidade. Se Nate havia percebido? Sim, ele havia, mas não era por isso que precisava se importar.

— Ele ainda não ligou? — Perguntou Quentin, tinha acabado de sentar em um dos bancos vazios da esquerda.

— Não. — Nate olhou para seu celular ao lado, não houve nenhuma mudança. Nenhuma mensagem, nenhum email ou ligação perdida avisando que Andy tinha feito tudo certo. Era exatamente por coisas como essas que ele preferia fazer tudo sozinho.

— Talvez ele tenha encontrado problemas.

— É o Four Seasons, até eu teria encontrado problemas. Mais um, por favor. — Ele pediu e o garçom não perdeu tempo em atendê-lo. Tudo pelo cliente da noite, e pelo garoto promíscuo que Manhattan adorava comparar a Lindsay Lohan.

Quentin assentiu. Aproveitou o silencio para acomodar-se no banco e fitar o garoto em busca de algumas respostas. Se bem o conhecia, provavelmente estava imaginando a queda de seu inimigo enquanto brincava de maneira infantil e inofensiva com sua taça. Nate iria discordar, mas Quentin já havia ficado perto o bastante para que pudesse compreendê-lo por inteiro.

— Você vai ao concerto?

— Acho que sim. Kerr não vai estar lá mesmo. — Ele olhou pro garçom assim que colocou a bebida na sua frente. — Obrigado.

— Pra que ir então?

— Eu gosto de óperas. — Após um gole, Nate colocou a taça ao lado da anterior. — Vai me distrair. — A imagem de Jensen brotou em sua cabeça sem fazer esforço. Ele precisava de alguma coisa que o fizesse esquecer que seu ex namorado poderia estar apaixonado pelo seu irmão gêmeo. Era uma realidade que apenas vingança e bebida poderiam mudar.

— Certo. — Quentin olhou pro lado, o restaurante do hotel estava lotado.

Assim que Nate terminou de tomar o segundo gole, sentiu o celular vibrar na madeira do balcão. A luz acendeu e o nome de Andy piscou diversas vezes.

— Ele ligou. — Disse antes de atender. — Andy, por que a demora?

— Acho que me perdi no nosso plano. — Andy observou novamente o quarto de Thayer. Apesar de ser uma das suítes mais caras do Four Seasons, ele podia jurar que já havia se hospedado em quartos melhores ao redor da cidade. — O que eu tenho que fazer?

— Usar o que eu te dei para batizar água, bebidas, e se possível, a comida. Mas em pequenas porções, ou então ele percebe.

— Você vai colocar droga nas coisas dele? — Andy caminhou até o frigobar ao lado da cama. — Que tipo de vingança é essa? Quer que ele alucine?

— Apenas faça o que eu mandei.

— Sim senhor. — Ao abrir a porta do frigobar, Andy se deparou com várias garrafas de água mineral e de bebidas caras o suficiente para serem desperdiçadas por um garoto rico.

— Até mais. — Nate desligou. Colocou o celular no bolso assim que tomou outro gole de sua bebida. Agora sim

— Você é uma boa pessoa, sabia? — Soltou Quentin, tão repentinamente quando estranhamente.

— E você perdeu completamente a cabeça. — Nate estava curioso pra saber de onde aquele elogio infundado havia saído, mas terminar sua bebida e pedir mais uma dose para o garçom parecia ser no mínimo mais importante.

— Não, é sério. Você foi o porta voz da extrusão de Donato Foster para atingir seus filhos, mas ao mesmo tempo impediu que ele continuasse roubando todas aquelas famílias pobres que sofrem esse tipo de injustiça. Você queria ser o vilão, mas só foi em frente com isso porque sabia que no final terminaria como um herói.

— O que? — Nate sorriu com desdém. — Você está ouvindo as coisas que diz?

— Essa é a verdade. Mas eu entendo que você precisa se convencer do contrário.

— Isso virou lição de moral?

— Nate, eu te amo. Você não pode me culpar por ver coisas boas em você, mas eu vou insistir para sempre em te fazer enxergar.

Nate ficou quieto quando percebeu que estava prestes a soltar uma gargalhada. Ele entendia que Quentin precisava enxergar algo positivo no meio de toda aquela bagunça que Nathaniel Strauss admitia que era, mas isso não queria dizer que ele estava certo, apenas ratificava o quanto uma pessoa pode enganar a si mesma quando envolve o amor.

Não, Nate não tinha princípios e nem gostaria de ter. Ele torturou de maneira diabólica uma garota que sofreu de bulimia e estava guardando algo do mesmo nível para seu irmão. Seria pedir demais que depois de tudo isso. — e de tudo o que aconteceu em Paris. — ele acreditasse que poderia haver bondade dentro de si.

— Neste caso, obrigado. — Ele disse, só para encerrar o assunto de uma vez por todas. — Eu acho bom você me levar naquela ópera agora.



— Falta pouco. — Disse o maestro Kempper para seus alunos.

O camarim a sua frente estava lotado de músicos e entes queridos, todos bastante ansioso pro concerto que impressionaria o The New York Times. Nada poderia explicar a ansiedade que estavam sentindo, mas junto dela, — e da confiança empregada pelo Maestro. — também vinha o medo. Apenas um terno amarrotado, um olhar desconcentrado ou um sorriso fora de hora poderia comprometer toda a apresentação, e assim, nenhum deles conseguiria tocar no Louvre.

— Estão todos aqui. — Disse Kempper novamente, fazendo os músicos começarem a cochichar. — Acho que chegou a nossa hora.

Kerr apareceu no exato momento em que Kempper faria seu tão esperado discurso. Ele fitou a sala da porta, o que mais queria era que Kempper desse uma pausa no que estava fazendo para que pudessem conversar sobre sua repentina saída. Ele não podia aceitar ter ficado de fora, não quando ele era um dos melhores, não quando a música era sua vida. Não quando isso significava deixar Nate ganhar.

Kempper só parou de discursar quando o olhar dos músicos voltaram-se pra porta. Eles estavam constrangidos, sabiam que Kerr tinha ficado de fora e que iria haver drama por ele estar ali.

Kempper engoliu em seco, não estava pronto para enfrentar aquilo minutos antes de se apresentar. Como ele poderia explicar a Kerr seus motivos para excluir um de seus melhores músicos de uma importante apresentação? Não, não havia maneira de fazer aquilo e ainda proteger seu segredo.

— Vão se preparar. — Ele ordenou. Os músicos prontamente obedeceram e um por um foram deixando o camarim. Não houve um só que não tenha lançado um olhar de constrangimento para o músico excluído no canto da porta.

Kempper caminhou até um dos enormes espelhos, esperando que Kerr entrasse na sala e começasse a falar, mas seria muito melhor cortar o mal pela raiz.

— Senhor Foster, achei que já tínhamos conversado.

— Senhor Kempper, eu... — Kerr entrou na sala já com um discurso pronto, mas logo foi interrompido.

— Não há nada que eu possa fazer, eu sinto muito. Você deveria ter ficado em casa.

— Isso... — Kerr tentou se controlar, estava quase explodindo na frente da única pessoa que poderia dar um jeito para que seu sonho ainda fosse realizado. — Isso não é justo.

— Esta é minha carreira, Senhor Foster. Não posso comprometer meu espetáculo só porque você não acha justo que não seja tão bom como era antes.

— Você quer dinheiro? Eu tenho dinheiro. — Kerr tirou seu talão de cheques do bolso. — De quanto você precisa pra ir a Londres? Trinta mil? Cinquenta mil?

— Não é uma questão financeira, senhor Foster. — Kempper olhou para ele. — Eu não posso deixá-lo tocar esta noite porque você não pertence mais a este grupo. Quanto mais cedo entender, melhor para você.

— Mas... — Kerr controlou suas lágrimas, a ultima coisa que queria era chorar. Mas como não chorar se parecia tudo acabado? — A música é minha vida...

— Neste caso, aconselho você a viver em função de outra coisa. Eu realmente sinto muito. — Kempper passou por ele. Antes de sair pela porta, tocou em seu ombro para consolá-lo, como se isso fizesse alguma diferença.

Kerr continuou olhando pro nada, sem ação. As lágrimas presas nos olhos queriam descer, mas ele nunca daria esse gostinho ao universo. Já que não conseguiu o que queria de forma honesta, iria tentar jogar sujo como todos aqueles que querem lhe prejudicar até conseguir o que queria. Não seria a primeira vez, e se desse tudo certo, talvez não seria a ultima.

Com um plano em mente, ele passou pela porta e correu até o lado de fora do teatro. Entrou na primeira mercearia que viu e comprou um vidro de laxante junto de um suco de laranja em lata.

Em menos de cinco minutos ele já estava de volta ao teatro. As pessoas ainda estavam se acomodando em seus acentos enquanto o Maestro esperava pelo sinal para colocar seus músicos no palco. Era a oportunidade que ele estava esperando pra virar o jogo a seu favor.

Para adulterar o suco de laranja, ele precisou entrar no banheiro masculino e prender-se dentro de uma cabine por mais alguns instantes. Para que o gosto do laxante não fosse percebido, adicionou uma quantidade moderada que substituiu um pouco do suco que derramava no vaso. Agora só precisava encontrar seu amigo Ted e felicita-lo pela oportunidade.

Ele estava dentro do segundo camarim, treinando em seu violino ao lado de duas garotas que se maquiavam no espelho.

— Hey, Ted. — Ele exclamou.

— Hey Kerr. — Respondeu o garoto, com receio.

— Só vim desejar boa sorte. Não se preocupe, eu vou ficar bem. Não precisa fazer essa cara.

— Certo. — Ted abaixou a cabeça, ainda triste, queria muito que seu amigo tocasse ao seu lado. — Obrigado então.

— Eu trouxe isso. — Ele caminhou na direção do garoto e estendeu a lata de suco. — Você gosta de laranja, certo?

— É meu preferido, obrigado. — Ted pegou, mas não tinha intenção de beber. — Acho que vou deixar pra mais tarde, estou nervoso demais, pode acontecer uma desgraça em cima do palco.

— Desgraça? — Kerr sorriu. — Relaxa, vai dar tudo certo. E mesmo assim, te trazer esse suco foi a única coisa que me manteve aqui com dignidade, não me faça voltar com ele nas mãos.

— Desculpe por tudo, cara. Achei muito injusto Kempper te tirar em cima da hora. Eu até tentei convencê-lo, mas não deu.

— Bom, obrigado pelo seu apoio.

— De nada. — Ted tomou o primeiro gole bem devagar, sentindo o gosto do suco aos poucos. — Está ótimo, obrigado.

— Amigos são pra essas coisas. — Kerr sorriu com malícia, mas Ted nem havia percebido que estava caindo em uma armadilha. — Bebe mais, fica melhor depois.



Alex deitou na cama e colocou os fones de ouvido, finalmente estava sentindo-se em paz. Judit e Simon haviam saído para um importante jantar de negócios, Gwen tinha ido visitar Amber no hospital e Nate, bom, ele não fazia ideia de onde estava, mas também não fazia questão. Agora que tinha a mansão Strauss só para ele, poderia deixar de lado os problemas e simplesmente relaxar ouvindo musica.

Pra completar sua noite, até alguns empregados tinham tirado o dia de folga. Apenas Valeska e os seguranças estavam por lá, e numa casa daquele tamanho era difícil topar com qualquer um deles. A única que ainda podia encontrar era Lydia, mas só se entrasse no seu quarto e interrompesse seu precioso sono.

Ao virar os olhos na direção da janela, ele percebeu que a chuva noturna de sempre já estava começando. Isso lhe lembrou as noites que ficara em casa enquanto sua irmã Tina se divertia nas festas dos garotos do terceiro ano. E com sua mãe adotiva trabalhando até as vinte e três horas, ele passava a maior parte de suas noites sozinho em frente a um computador velho ou a uma televisão onde nada interessante era exibido. Algumas vezes precisava pedir a ajuda das musicas, outras deitava cedo e aproveitava a chuva pra tirar um cochilo. Era bom ver que tudo havia mudado, mas ficar sozinho continuava extremamente bom.

O término da playlist no seu celular o fez levantar e sair do quarto para matar sua fome. Já cozinha, o lanche que Valeska preparara estava no lugar onde ela havia dito que deixaria. Ele nem precisou fatiar o pão ou o queijo, muito menos fazer o suco. Então pertencer a uma família rica tinha mesmo suas vantagens.

— Oi. — Valeska tinha acabado de adentrar a cozinha. Sua voz rouca e sussurrante acabou assustando o garoto.

— Meu Deus! — Alex abaixou a vasilha com o sanduiche. Estava preparado para arremessa-la caso estivesse em perigo.

— Me desculpe. — Ela sorriu, seus olhos quase fecharam completamente. — Estou de saída, amanhã é meu dia de folga. Quer que eu faça alguma coisa? Prepare algo pra você?

— Não, tudo bem. — Alex levou o prato e o suco para cima da mesa. — Você já fez o bastante.

— Nunca é demais para o senhor, senhor. — Valeska sorriu novamente. Seu sotaque coreano engraçado fez Alex dar um meio sorriso.

— Mas obrigado por tudo. Você pode ir agora, mande lembranças a sua mãe por mim.

— Tara Shioban vai ficar muito feliz. — Antes de passar pela porta, Valeska fez questão de se despedir como faziam na sua terra. Mãos coladas no corpo e reverência com a cabeça.

Alex deu um ar de risos, ela era uma das coisas de que sentiria falta quando voltasse para sua mãe adotiva. Ele pegou o prato com o suco e caminhou em direção as escadas. Subiu com cuidado, quase deixou o prato cair, mas uma dose de equilíbrio foi o bastante.

Assim que entrou no quarto, colocou o prato e o copo de suco em cima da mesa ao lado da porta do closet. Foi só quando olhou pra trás que notou a janela aberta. Da ultima vez que vira ela estava fechada, mas agora a chuva invadia seu quarto e molhava seu tapete. No chão também havia pegadas que desapareciam na porta do closet.

A aquela altura Alex já estava mais que desesperado. Assassinos? Sequestradores? Fãs lunáticos? Tudo poderia acontecer quando se era filho de Simon Strauss. Mas não havia perigo algum, era apenas Jensen querendo lhe pregar uma peça. Ele o agarrou por trás e quase iniciou uma série de gritos e pontapés. Alex odiava ser assustado.

— Te assustei? — Seu olhar cínico deixou o garoto ainda mais furioso.

— Não faça mais isso...

Alex olhou para ele dos pés a cabeça, estava todo molhado, mas tentando disfarçar o frio eminente que estava sentindo. Ele só percebeu que precisava mandá-lo embora quando notou que a camisa molhada estava grudada em seu peito, destacando os músculos que até então só tinha visto através das revistas.

— Você precisa ir, agora. — Ordenou Alex com a voz firme e um olhar desconcertado.

— Depois de ter enfrentado essa tempestade só pra te ver? Não mesmo.

— Ontem você disse que iria ficar longe... — Alex recuou um passo.

— Não, eu disse que iria esperar você o tempo for preciso, não disse que ficaria longe da sua janela. — Jensen deu um passo a frente para compensar. — Aliás, hoje é o dia de folga da maioria dos empregados. E eu acabei de ver Valeska saindo. Isso quer dizer que temos a casa só pra nós, já que seus familiares também não estão presentes...

Alex ficou calado. O que ele queria dizer com aquilo? Só porque estavam sozinhos eles tinham que fazer sexo ou dar alguns amassos? Aquela era a pior maneira de ajudar um garoto indeciso a se descobrir. E se aquele sorriso malicioso de Jensen não significasse outra coisa, ele estava prestes a levar um fora.

— Vamos ver um filme?

— O que? — Por um segundo, Alex pensou não ter ouvido direito.

— Ver filme, ué. Fazer pipoca, sentar no sofá, colocar alguma coisa no blu-ray e desligar as luzes. Tem algo errado nisso?

— Não, quer dizer, talvez, não estou dizendo não ao filme, é só... Quer dizer, eu quero, mas talvez não seja uma boa ideia... — Alex parou de falar quando viu um sorriso gentil brotando nos lábios de Jensen. Mal ele sabia que o garoto adorava sua timidez excessiva e sua estranha mania de ficar sem graça na frente de quem gosta.

— Por quê? Por causa do seu irmão? Ele nem precisa saber disso.

— Você está me pedindo pra mentir?

— Mentir o que? É apenas um filme. Eu fico do outro lado do sofá se você quiser. — Jensen deu dois passos a frente para que ficassem mais próximos. — E se eu fosse você aceitava logo, porque eu não vou parar de escalar sua janela, mesmo que isso nos faça parecer um casal adolescente da Disney. E não, nós não somos um casal.

Alex parou para pensar novamente. Jensen estava fazendo de tudo para ele se sentir confortável, parecia aceitar muito bem seus limites. Mas o problema era não saber se poderia ter limites com ele, ou se os limites existiriam quando estivessem juntos. O que aconteceria se Jensen colocasse as mãos sobre ele inocentemente durante o filme e ele sentisse novamente borboletas no estômago? Conseguiria disfarçar? Conseguiria resistir?

— Olha, Jensen...

— É só um filme. Por favor. — Jensen olhou fundo nos olhos dele. Queria tocá-lo para que ajudasse na sua decisão, mas isso acabaria piorando as coisas.

— Eu escolho o filme. Você faz a pipoca. Mas primeiro troque de roupa, você pode pegar uma pneumonia.

— Então, você está preocupado comigo?

— Não força, cara. — Alex passou por ele.

— Desculpa. — Jensen sorriu. Mas por dentro gritava de alegria como uma torcida de futebol.



Era apenas maneira de falar, mas Nate podia jurar que dentro daquele teatro estava sentindo o cheiro da vitória. Quentin estava bem atrás dele, já vestido com seu terno luxuoso que o amante escolhera e com o mesmo olhar vencedor. Isso porque ainda nem fazia ideia do que Nate havia guardado pra comemoração da meia-noite.

— Olha só esse público. — Disse Nate, referindo-se às mulheres com vestidos de prostitutas que lhe davam pena. — Esse lugar não é mais o mesmo. Quanto será o programa delas? Cinquenta dólares?

Ele riu com a própria piada, mas estranhou que Quentin não tinha dito nada. Olhou para ele pra saber o que tinha acontecido, a preocupação do garoto tinha acabado de suceder a sua animação.

— O que foi?

— Estou procurando o sócio do meu pai. Ele está aqui em algum lugar.

— Não pense nisso agora. O espetáculo já vai começar. — Nate saiu andando, Quentin não teve outra escolha a não ser segui-lo.

Faltava poucos minutos pra cortina levantar, e como Kerr planejara, Kempper estava entrando em desespero. Como um dos seus melhores músicos pôde desaparecer quando ele mais precisava? Todos já estavam se perguntando se o show iria continuar e esperando pelo pior.

— Ted! Ted! — Kempper enxugou a foto de suor que escorria pela sua testa. Aquela era a segunda vez que procurava perto do banheiro dos clientes, mas só o encontrou foi Kerr parado perto de uma das portas, com um violino na mão esquerda e uma maçã na direita.

Kempper conhecia aquele sorriso, e conhecia muito bem. Mas nunca achou que um dia poderia teme-lo. Se Kerr teve algo a ver com o desaparecimento de Ted? Ele tinha certeza. Se ele poderia fazer algo quanto a isso? Não quando o sobrenome do seu inimigo era Foster.

— O que você fez com ele? — Kempper se aproximou.

— Isso é uma acusação?

— O que você fez, Kerr?

— Preste atenção. — Kerr deu alguns passos lentos até seu Maestro. — Nosso amigo Ted teve alguns problemas alimentares e está passando mal naquele banheiro. E pelo visto as coisas não estão nada bem. Como pretende dar início ao seu concerto se em sete minutos seus pais chegam para lhe levar ao hospital? Eu realmente não queria estar no seu lugar.

Kempper recuou, ele estava acabado. Sem Ted no palco ele não era nada, não podia lidar com um problema daqueles, não quando precisava dar a plateia a melhor ópera de suas vidas. E ele sabia exatamente o que fazer, Kerr tinha que entrar no lugar de Ted ou então todo o esforço teria sido em vão. Mas o que aconteceria se Nate descobrisse? Kempper nem sabia que ele estava na plateia, mas precisava arriscar em nome da sua carreira.

— Você venceu, Kerr. Suba lá e substitua Ted.

— Eu não sei. — Kerr sentou-se na cadeira ao lado, de pernas cruzadas. — Eu não posso ser tratado como um reserva, Senhor Kempper. Minha família tem muito dinheiro, mas isso não é o mais importante. Acho que o senhor sabe disso.

— O que você quer?

— A primeira fileira daqui por diante.

— Prepare-se para tocar. — Kempper engoliu em seco. Era arriscado, mas era sua decisão definitiva.

— Temos um acordo. — Kerr se levantou. — Por enquanto. Conversamos sobre sua vida dupla outro dia.

Com um sorriso espevitado Kerr se despediu. Ele caminhou na direção do palco e cumprimentou seus amigos, que estavam chocados demais para responder. Quando ocupou o lugar que pertencia a Ted, ele sorriu para todos, estava apenas dizendo “eu sempre consigo o que quero” através dos dentes.

Instantes depois Kempper apareceu e posicionou-se em cima de seu púlpito de madeira. Enquanto as cortinas se abriam, ele e Kerr trocaram olhares de insulto, que nenhum dos músicos conseguiu perceber.

Nate continuava na plateia, mas a invés de prestar atenção nos músicos, preferiu trocar mensagens com o irmão através do celular. Alex tinha acabado de dizer o quanto é tedioso ficar sozinho em casa, quando na verdade ele estava bem ao lado de Jensen enquanto fazia pipoca. Bem, Nate nunca iria saber.

— Nate, problemas. — Informou Quentin quando notou Kerr em cima do palco.

— O que foi?

— Você disse que Kerr Foster não estaria no concerto...

— O que? — Nate finalmente demonstrou interesse pelo assunto. Olhou primeiro para Quentin pra ter certeza que estava falando sério, e depois do seu sinal com a cabeça, olhou para o palco.

Lá estava Kerr, com um terno importado, uma franja perfeita e o sorriso de alguém que venceu Nathaniel Strauss em seu próprio jogo. Nate, por outro lado, quase quebrou o celular com as mãos de tanta raiva.

— Vadia! — Logo após lançar um olhar de desprezo na direção de Kerr, Nate se levantou.

Quentin nem teve tempo de perguntar aonde ele ia, quando percebeu, o garoto já estava longe demais. Ele voltou a olhar pro palco, agora Kerr fitava seu violino despreocupado, como se já tivesse vencido aquela batalha. Enquanto isso, Nate dava a volta pela porta dos fundos do teatro para que pudesse mais uma vez lhe provar o contrário.

Havia dois seguranças regendo a porta do outro lado. Por eles foi fácil passar, já que persuasão era um dos muitos talentos dos Strauss. Mas quando adentrou ao teatro, um dos monitores impediu sua passagem.

— Você não pode ficar aqui. — Dizia ele.

— Eu preciso fazer uma coisa, me deixe passar.

— Sinto muito, apenas pessoas autorizadas.

— Sério? — Nate deu um ar de risos. E sem mais nem menos, lhe acertou um soco no nariz. O monitor caiu imediatamente no chão, agora Nate estava livre para realizar sua doce sabotagem. — Eu fui autorizado. Espero que tenha gostado do meu carimbo.

Agora ele estava sozinho dentro da sala de comando. Cada alavanca na mesa a sua frente tinha uma função, com duas delas já acionadas para criar a fumaça do espetáculo. Então o que aconteceria se ele acionasse as demais? Fogos de artifício? Chuva artificial? O desmontar do cenário? Eram tantas as boas opções que seria um prazer pagar para ver.

— Sinto muito Kerr, é hora da prorrogação. — Nate puxou uma das alavancas.

Sem ninguém perceber, o cenário que estava na parte de cima do palco começou a desabar. Antes que ele pudesse atingir alguém, os músicos pularam pro lado. Nate acionou outra alavanca no final da mesa e a outra parte do cenário desabou. A aquela altura a plateia já estava em estado de pânico. As pessoas começaram a correr, temendo ser atingidas pelos cenários. Nenhum deles sabia que o material era frágil e no máximo destruiria aquela ópera de mal gosto.

Kerr, que estava no chão para evitar ser atingido, olhou para cima a tempo de ver a ultima parte do cenário cair. Ela iria destruir o resto dos instrumentos. Antes que Nate acionasse a alavanca, ele correu pra sala de controle logo depois da cortina vermelha, sabia que ele era o culpado por tudo isso.

A ultima alavanca puxada por Nate fez o palco inteiro começar a trovoar e a piscar em flashes. Foi quando Kerr o atingiu no rosto com um soco, fazendo-o cair perto das caixas de acessórios deixadas no chão. Mas aquele era apenas o começo. Kerr montou em cima do garoto e continuou a golpeá-lo com todas as forças. Pro seu azar, ele apenas sorria enquanto deixava o rosto sangrar.

— Você ficou louco? Você quer destruir a minha vida? — Gritava Kerr.

— Você adivinhou.

— Desgraçado! — Kerr lhe acertou mais uma vez. — Olha o que você fez! Olha o que você fez! — Ele segurou Nate pelo paletó e o sacudiu.

— Deve ser muito ruim perder no seu próprio jogo, não é, Kerr?

Kerr lentamente o libertou. Olhou para ele com os olhos arregalados, ele estava soando enquanto o coração iniciava um ataque de pânico. E só no que ele conseguia pensar era nas palavras de Nate, tão merecidas quanto suas atitudes. Havia perdido seu pai, quase perdeu a irmã, estava perdendo o que restava da mãe e tinha acabado de perder a música. De todas essas perdas, a ultima era a mais inaceitável.

Nate limpou o sangue que escorria pelo nariz e olhou para sua vítima, ele estava se sentando no chão e olhando para o nada. O silencio só não dominava o local por causa dos gritos das pessoas que ainda tentavam deixar o local.

— Nós não temos finais felizes, Kerr. — Disse Nate. — Se você tiver sorte pode acabar como eu, sangrando enquanto se diverte com os desastres que causou.

— Você arruinou tudo...

— Sim, e me orgulho disso. — Nate levantou-se. — Você está sozinho agora, então aproveite a sua miséria. Tenha certeza que eu irei.


Next... 
1x13: Where Is Your Winning Smile Ever? (16 de Novembro)

Nate ainda não terminou de acertar suas contas com Kerr. Até a próxima semana! 
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