domingo, 5 de maio de 2013

[EA] Batalha Final

Foram 4 meses, 2 semanas e 5 dias dessa Loucura Urbana que carinhosamente decidimos apelidar de Escritor Alternativo. Tivemos mais de 20 escritores avaliados, 10 eliminações e algumas desistências pra esfriar um pouquinho a parada, mas aqui estamos, prontos pra revelar quem será o grande campeão. Não houve votação nem nada, só precisamos ler a ultima loucura dos sobreviventes e esperar os jurados pra decidir.Pra quem você torce? Corre e lê que o babado é certo.

Como somos cavalheiros, vamos deixar a Ana começar. Ela que participou de duas Mortes Súbitas, ficou durante várias semanas em 3º Lugar no Ranking Geral de Preferência do público e também causou polêmica devido a uma das indicações. Antes de cmeçarmos, só precisamos explicar os contratempos que ela enfrentou pra escrever sua história, porque temos nas mãos uma versão incompleta do seu texto. Bem, isso é com o João.

João: Como sempre, nossos aprticipantes demonstram ter dificuldade em cumprir com suas tarefas, seja por disponibilidade ou algum imprevisto. No caso da Bia, parece que foi mesmo uma macumba, pois ela passou os ultimos quatro dias se esforçando pra produzir um bom texto só pra no final dar tudo errado. Acontece que seu irmão - Mateus Antony - esqueceu de salvar a versão final do arquivo, pois ele estava fazendo revisão no texto. Então, antes que reclamem que a história está incompleta, devem saber que a garota não teve culpa alguma. E o Mateus também não, porque ele nunca prejudicaria a irmã de propósito.

Mateus: Ai geit, jogaram uma maldição nesse concurso, né possível não HAHAHAHA. Mas enfim, agora já podemos ler?

João: Sim Mateus, tudo certo. Boa sorte Ana.

Participante: Ana Beatriz Moreira
Tema: Slasher na Floresta
LÂMINAS ULULANTES
PERSONAGENS
João Lindley, proveniente do Pocinho. Nasceu sendo oprimido por um pai alcoólatra e uma mãe perturbada. Este foi um casamento que resultou num filho danificado e um divórcio complicado. João é um bom amigo e, sobretudo, um bom ouvinte. Sabe como usar as palavras tanto para consolar como para provocar, pois é dono de uma língua afiada. Fuma maconha e cigarro e bebe demasiadamente, porém, tem horror de se tornar como seu pai. No fundo, é um bom garoto, mas cria uma casca protetora e uma armadura para proteger seu coração da crueldade do mundo.

Luiz Lamenha Martins é filho do ex-prefeito e ricaço da cidade, Adevaldo Martins. Cresceu cercado por empregados e por bajuladores, mas sempre se sentiu sozinho. É oprimido pela família para virar o sucessor de seu pai na fábrica Sisalândia e isto se intensificou desde que o mesmo morreu. Ao contrário de João, Luiz cresceu em uma família equilibrada e em um ambiente estritamente saudável e familiar. É apaixonado por Cristal desde sua infância e nunca conseguiu confessar seu amor platônico por ela. Luiz é verdadeiro, não consegue mentir e odeia mentiras. Sonha em ser escritor e lançar um livro que seja um sucesso internacional. Costuma ter apagões e acessos de raiva quando está descontrolado, portanto na adolescência vivia sobre medicações. O único motivo de sua paixão doentia por Cristal é porque diante de todas as coisas que lhe são oferecidas, ela é a única que ele não pode ter.

Nefferson Ribeiro é filho de um açougueiro que mora próximo ao rancho da família Martins. Maneja o cutelo com precisão e treina tira ao alvo sempre que pode com seus irmãos mais velhos, sendo bom de pontaria. Nefferson é bem comportado, aquele típico do garoto nordestino da cidade do interior. Amigo de Luiz desde a infância, mas se distanciaram depois que Luiz virou amigo de João. Bem-humorado e sorridente.

Mateus Bonez é um radialista dono do site Retiro Notícias. Falido e rabugento. Anda mal-humorado e esbravejando pelos becos enquanto cai no chão bêbado. Era veterano do colégio onde os garotos estudavam e introduziu João ao tráfico no Pocinho. Mateus não gosta que apontem seu erro e nem de ser questionado e por isso pôs tudo a perder depois que se formou. Socou seu chefe no escritório de jornalismo depois de ser flagrado aos beijos com o copiador e ficou desempregado. Só então resolveu fundar sua própria empresa de notícias.

Ricardo Sodré é atípico e estranho. Anda embrenhando-se pelas sombras, no encalço de João, tentando imitá-lo e tornar-se algo mais, vigorar sua imagem. Fala pouco, mas se falasse tudo que se passa por sua cabeça, seria considerado louco. Seu humor é estritamente sorumbático.

Cristal Andrade é uma garota linda. Espirituosa e inteligente, ela visa ser modelo no futuro e confia na promessa de Luiz que irá brilhar nas passarelas um dia. Cristal nunca percebeu o amor que Luiz nutria por ela, pois seus olhos estavam voltados para João. É difícil na queda, pois é daquelas pessoas que se apega ao último resquício de esperança para persistir.

  
ESTÓRIA
O som estava quase explodindo os tímpanos de Ricardo que estremecia cada vez que Mateus soltava uma baforada de fumaça no carro. Ele queria abrir a boca, reclamar. Mas mesmo que gritasse, não seria ouvido. E mesmo que fosse ouvido, certamente Mateus iria ignorá-lo. Ele olhou pelo retrovisor e encarou João com um olhar promíscuo e possessivo.

Inconsciente do olhar libertino depositado sobre si, João brandia a garrafa de uísque e gritava. Mateus passou por um quebra mola e João tombou na caçamba se esbarrando contra Cristal. A garota sorriu sem graça e afastou João. Luiz estava apoiado no teto da picape sem perceber aquela pequena e inocente aproximação. Afastando-se, João encostou o gargalo nos lábios e bebericou o uísque. Logo as luzes acesas da varanda começaram a se transformar em pontos luminosos no horizonte.

— Estamos chegando! — informa Luiz gritando.

Cristal acenou sem nem saber o que ele tinha falado e tomou a garrafa de João, bebendo uísque e gritando em seguida. O cabelo de Cristal esvoaçava vorazmente ao sabor do vento e lhe dava uma imagem emblemática de liberdade, de selvageria. O rosto de Cristal era iluminado pela luz da lua como uma máscara embranquecida e gélida. Isso encantava ainda mais Luiz. Ele queria agarrá-la e arrancar-lhe um beijo apaixonante e faminto. Mas ele não era João. Ele nunca conseguiria reunir coragem o suficiente para fazer uma loucura como essa. João e Luiz se entreolharam. Percebendo o olhar preocupado do amigo, João deu-lhe uma piscadela.

Os faróis iluminaram Nefferson ao lado da porteira. Mateus diminuiu o volume e somente os latidos de Totó eram audíveis no silêncio da noite. Mesmo que eles morassem em Retiro — uma pacata cidade do interior da Bahia — aquele silêncio era perturbador.

João estava acostumado a ouvir o som de um tiro ecoando nas vielas fétidas do Pocinho, uma espécie de favela onde a escória da cidade morava. Fora no Pocinho que fugitivos e presidiários se refugiaram ao fugir da capital Salvador há alguns anos atrás. Concentrando toda a marginalidade da comunidade em um lugar só, o Pocinho era um lugar onde nem o mais audacioso policial ousava ir. Fora no meio disso que João nasceu. Ele orgulhava-se de suas origens, pois o forjou como ele é hoje. Ousava dizer a Luiz que nunca trocaria sua vida pela dele —, uma vida traçada desde o nascimento, visando somente o controle de uma empresa. Visando trabalho, trabalho e mais trabalho. João queria liberdade, queria poder traçar sua própria vida.

João pulou da caçamba e respirou o aroma da noite. Ricardo abriu a porta e passou a mão pelo cabelo, tentando relaxar e tirar o eco da música que retumbava em sua cabeça. Luiz tentou ajudar Cristal a descer, mas a garota ignorou sua mão estendida e pulou em direção ao chão. Luiz sorriu para ela e a garota retribui o sorriso com uma piscadela. Nefferson abriu a porteira deixando que Mateus entrasse com a picape.

— Iaí cara! — cumprimentou João abraçando Nefferson e dando tapinhas em suas costas.

Luiz aguardou por trás de João e quando foi tentar abraçar Nefferson, o mesmo só lhe entendeu a mão. Perdido, Luiz apertou a mão de Nefferson debilmente.

— Hey, vamos! — gritou Cristal andando pelo caminho de pedras ladeado de árvores que levava até a cabana.

Luiz seguiu junto com Nefferson ao seu lado. O garoto pegou a penca de chave em seu bolso e abriu a porta. Totó, o cão de guarda do rancho, correu pela varanda e pulou em cima de João.

— Ah! Meu garotão! — gritou João enquanto acariciava o animal. — Quem é meu garotão? É você? Ah, é você sim!

Cristal observava João com os olhos brilhando. O jeito como ele acariciava o cachorro e o jeito como Totó retribuiu, enchendo o rosto do garoto de baba. Quando João finalmente conseguiu empurrar Totó, Cristal estendeu a mão para ajudá-lo a se levantar. A garota puxou João com força e o corpo de ambos se encaixou perfeitamente. Na cabeça do garoto milhões de pensamentos se passaram, mas ele simplesmente fechou os olhos com força e se distanciou. Luiz entrou na casa e ligou as luzes. O chão estava cheio de mosquitos mortos e a poeira estava acumulada nos cantos.

— Eca! — gritou Cristal ao pisar no cadáver de uma barata.

— Temos que dar um jeito nisso daqui. — comentou Ricardo com uma careta.

— Ótimo, claro que temos... Pegue as vassouras. — ordenou Mateus dando um tapinha de leve no ombro de Ricardo.

Ricardo encarou Mateus com os olhos esbugalhados e fervendo por dentro. Luiz sorriu para Ricardo e acenou com a cabeça, pedindo que o mesmo fosse buscar as vassouras. Desistindo, Ricardo saiu pela porta com passos pesados e bufando enquanto mil palavrões se passavam por sua cabeça.

— Ei, não vá esquecer-se da lanterna! — alertou João brandindo o objeto nas mãos.

— Joga!

Maliciosamente, João lançou a lanterna em direção ao rosto de Ricardo. O objeto acertou o nariz do garoto fazendo com que o mesmo caísse com o traseiro no chão.

— Ops! Foi querendo... — brincou João entrando na cabana em seguida e batendo a porta com força.

Ricardo colocou a mão no rosto e massageou o lugar onde a lanterna acertou. Ele riu consigo mesmo e pegou a lanterna. Ele sacudiu o objeto ouvindo as pilhas da bateria chacoalhar. Levantando-se com dificuldade, Ricardo seguiu pelo corredor da varanda enquanto batia a lanterna na palma de sua mão e tentava ligá-la ligando e desligando o interruptor. Finalmente um feixe de luz iluminou o corredor. Ricardo respirou fundo e seguiu pelo corredor buscando a dispensa onde as vassouras estariam. Mentalmente, o garoto tentou mapear a cabana do rancho em sua mente. Na chegada, havia o estreito caminho de terra ladeado por árvores que levava até a cabana, depois havia a porta que dava até o hall da casa, aos dez quartos, aos dois banheiros, a cozinha e a outros cômodos luxuosos que somados, seria maior do que sua casa emparelhada quatro vezes. A varanda era extensa e criava quatro corredores ao redor da casa. E era por um deles que Ricardo andava. A dispensa ficava próxima ao estábulo, alguns metros depois da cisterna.

O garoto guiava o feixe de luz pelo mato buscando encontrar logo seu ponto referencial. Finalmente, ele conseguiu encontrar a cisterna e se dirigiu até a dispensa. A dispensa era um cômodo pequeno e cheio de prateleiras com parafernálias velhas e inúteis. Ricardo encontrou dois pares de vassoura e as colocou debaixo do braço. Quando estava prestes a sair da dispensa, ouviu o relincho de um cavalo. Ricardo saltou com o susto e respirou fundo, buscando se acalmar. Outro relincho lhe alertou. Os cavalos estavam agitados. Ricardo olhou para a cabana e para o estábulo. A cabana mesmo com o chão repleto de baratas, ratos e poeira, parecia muito mais convidativa.

Curioso, o garoto abriu a porta do estábulo e passou rapidamente os olhos pelo local. Parecia calmo se não citar-se o detalhe dos cavalos agitados pisando com força no chão e coiceando o ar.  Um corcel negro e robusto relinchou e ficou sobre duas patas. Ricardo recuou assustado com o comportamento dos animais que quase arrebentavam as portas de seus respectivos cubículos. Nesse exato momento, algo se movimentava pelo feno no chão. Algo esguio e fino. Ricardo não percebeu esse detalhe, estava muito focado observando os ânimos alterados dos animais. Mas algo dentro dele lhe alertou, como um instinto antigo. Os pelos de Ricardo se arrepiaram e algo latejou em sua mente. A silhueta disforme estava se aproximando ainda mais de Ricardo, rastejando sorrateiramente pelo chão coberto de feno. Nesse exato momento a lâmpada do estábulo explodiu e os estilhaços caíram no feno. Os cavalos pareceram enlouquecer com isso e continuaram a forçar as portas dos cubículos. Ricardo arfou e tateou a lanterna buscando pelo interruptor. Sua mão estava suando e seu coração batia freneticamente fazendo com que seus dedos tremessem. Pronta para atacar, a silhueta ergueu-se tremendo a língua e sibilando. A cobra preparava-se para o bote e pelo canto do olho, Ricardo captou o movimento da criatura na penumbra, mas não conseguiu identificar o que era. Os cavalos continuavam a relinchar freneticamente. Um deles deu com coice que quase partiu a portinhola do cubículo. As mãos molhadas de Ricardo dificultavam que ele pudesse ligar a lanterna. Desorientado e recuando, Ricardo caiu de costas no chão e a lanterna ao entrar em contato com o chão lançou um feixe de luz na cobra que se preparava para dar o bote. Antes que a criatura pudesse atacar, Ricardo golpeou o réptil com uma vassoura jogando-o próximo a um cubículo onde um corcel pisou apavorado no réptil, esmagando a cabeça da cobra e espalhando seus miolos pelo feno. Ricardo colocou a mão no peito e tentou acalmar sua respiração e normalizar as batidas do seu coração.

Os animais estavam mais calmos. Somente batiam com as patas no chão e bufavam. Ricardo arqueou as sobrancelhas e fechou a porta do estábulo. Demorou alguns segundos para ele perceber o que tinha acabado de acontecer e dirigir-se até a cabana, mas quando finalmente aconteceu, ele estava rindo daquela situação. Sem que ele ouvisse, os cavalos continuaram a relinchar no estábulo, pois naquele exato momento, várias cobras caíam dos pendurais no teto e esgueiravam-se pelo feno. Não cobras comuns, eram cobras negras vindas do inferno, esperando pelo acontecimento fatal que regeria o resto da noite.

Ricardo entrou na cabana e jogou as vassouras para Cristal, Luiz e Nefferson. Mateus estava lá fora, fazendo algo de útil — aparentemente, — catando gravetos secos para fazer uma fogueira.

Depois de limpar alguns cômodos da cabana, o grupo se reuniu em torno da fogueira que Mateus armara. Os gravetos postos em forma de uma pirâmide já estavam queimando e lançando uma nuvem de fumaça no ar. Enquanto isso, Cristal fazia crepes improvisados em uma forma de sanduíches. Ela sentou-se também ao redor da fogueira entre Luiz e João.

— Estou com frio... — alegou enquanto tremia e passava o vaso de plástico com os crepes para o grupo.

João olhou para Luiz com um olhar significativo e acenou. Luiz demorou um tempo para entender a mensagem e quando entendeu, fingiu que não havia compreendido. João continuou gesticulando sutilmente e encorajando ao amigo, mas Luiz nem sequer tinha coragem para abraçar Cristal e aquecê-la.

Ignorando os gestos ofensivos que João fazia agora, Luiz deu uma mordidinha no crepe e bebeu um pouco do refrigerante. Ricardo, fresco e chato como sempre, buscava encontrar uma posição confortável no tronco retorcido no qual estava sentado.

— E então, quando eu irei poder montar? — questionou Cristal para João — Você prometeu.

— Hm, amanhã, se quiser.

— Aham, claro que quero.

— Montar em cavalos... Eu bem que queria cavalgar em algo agora, mas não seria exatamente em um cavalo. — comentou Mateus com a voz monótona enquanto pegava um cigarro e acendia.

— Cavalos são bem dotados, Mateus. — brincou João provocando o amigo. Mateus deu um sorriso amarelo como resposta e soltou uma baforada de fumaça que espiralou pelo ar e se misturou com a fumaça da fogueira.

— Bom, vamos parar de enrolar e contar histórias de terror... — comentou Cristal com os olhos brilhando de ansiedade.

— Bom, eu queria contar uma história. Ver se vocês garotinhos da cidade tem estômago como aparentam, afinal, nós que somos os roceiros desprovidos de estória empolgantes para contar ao redor da fogueira. — provocou Nefferson encarando Cristal.

A garota riu e gesticulou pedindo que ele continuasse. Nefferson se ajeitou no tronco de madeira e cruzou as pernas. Seu tom de voz inicialmente foi denso carregado enquanto narrava à estória.

— Bom, dizem por estas bandas... Que um mal antigo assolou os fazendeiros. Um mau agouro que invadia as fazendas e fazia com que os porcos enlouquecessem e que os cavalos fugissem correndo pelas fazendas relinchando e coiceando o ar. Fazia com que as frutas mesmo em seu período de colheita ficassem podres. E por fim, trouxe a maldita seca. Por que acham que a seca atenta tanto assim à Bahia? Sinal deste antigo mau agouro. Pode perguntar a qualquer um, mas meu pai afirma que já viu cobras entrando na boca de homens e deixando-os enlouquecidos. Que já viu cobras picando animais e deixando-os doentes e selvagens. Percebem que a seca já voltou? Percebem que se nos calássemos aqui agora, poderíamos ouvir porcos grunhirem, os cavalos relincharem e os cães latirem...

Nesse exato momento Totó latiu fazendo com que o grupo saltasse de susto. O baque foi acompanhado por risadas descontraídas que mascararam o medo. Cristal se empoleirou no peitoral de João.

— Ai, essa história me deu medo agora.

João não respondeu, simplesmente se afastou. Cansado de insistir, João sussurrou no ouvido de Luiz:

— Irei conversar com ela e irei abrir o jogo por você. Mas me siga, terá que colocar um fim nisso, cara. Está parecendo uma ameba.

Luiz assentiu e assistiu enquanto João guiava Cristal para os fundos da cabana.

— Vai lá João! — brincou Mateus deixando Cristal encabulada.

João virou-se para Mateus e respondeu com uma banana.

Cristal foi guiada pela penumbra por João que sempre lhe alertava quando havia algo no caminho. O lugar onde ele escolheu para conversar era próximo à cisterna.

— Há um buraco aqui, cuidado. — avisou João aproximando-se de Cristal em seguida.

 Cristal prendeu a respiração quando João a encostou na cisterna e olhou em seus olhos.

Olha Cristal, temos que conversar. — afirmou ele deixando a garota ainda mais nervosa. — Há uma pessoa que gosta muito de você...

Nesse momento, Luiz se aproximou deles por trás e escondeu-se detrás de um arbusto de cócoras. Apurando a audição, ele conseguiu ouvir João argumentando com a garota.

—... Essa pessoa pode parecer patética às vezes... — João deu ênfase a palavra “patética” fazendo Luiz rir consigo mesmo. — Mas, ele realmente é uma boa pessoa e eu acho que você teria sorte de tê-lo ao seu lado, tê-lo ao seu lado como ele lhe deseja. Como uma namorada, quem sabe posteriormente uma noiva ou uma esposa.

— Cala a boca... — pediu Cristal aproximando-se de João. O garoto recuou e foi encurralado por Cristal que inverteu seus lugares lhe jogando na cisterna.

— Wow...

— Eu lhe amo também.

Luiz franziu o cenho e quando tentou espiar o que estava acontecendo acabou flagrando seu melhor amigo e a garota que ele amava aos beijos. Aquilo foi um baque para Luiz. O garoto ficou desnorteado e boquiaberto. Seu coração ficou despedaçado e com um enorme ferimento latejante. Luiz pensou em sair da moita e encará-los, socar João e esbofetear Cristal. Mas ele fraquejou, suas pernas tremeram e seu corpo ficou débil. Sentiu vontade de socar seu próprio rosto por ser tão covarde, mas o choque não lhe permitiu nenhuma reação.

João afastou Cristal e encarou a garota.

— Eu sempre sonhei com isso... Só não imaginei que fosse num lugar como esse. Sob um céu estrelado, cercado por meus amigos mais íntimos e ainda mais com um bafo de crepe. — comentou a garota sorridente enquanto acariciava os lábios de João e descrevia a linha voluptuosa do seu lábio inferior.

— Cristal... Eu não lhe amo. Nem sequer gosto de você direito como amiga. — confessou João impulsivamente.

Cristal ficou atônita e com o queixo caído. Ela tentou encontrar alguma ironia na frase lançada por João, mas o que encontrou foram bordas afiadas que cortaram seu coração profundamente.

— Ahn? Mas você...

— O Luiz te ama, não eu. Eu estava ajudando-o.

— Oh... Vocês são patéticos. — esbravejou a garota estapeando a face de João em seguida.

João nem sequer reclamou do tapa, somente colocou a mão na lateral pulsante do rosto e assistiu a garota voltar até a fogueira enquanto enxugava as lágrimas. João tentou rever aquela cena com os mínimos detalhes em sua cabeça e encontrar algo que lhe provasse que fora somente uma visão, uma mentira. Mas a verdade era implacável e logo lhe atingiu, assim como a consciência de que seu melhor amigo estava ali. Com a voz embargada e fraca, João murmurou:

— Luiz?

Quietude. Silêncio. Somente o coaxar de sapos, o cantar dos grilos, os latidos de Totó e sua respiração desequilibrada preenchiam o silêncio noturno. Então, Luiz emergiu das sombras. Luiz não olhava diretamente para João, olhava em direção ao chão. O corpo inteiro dele tremia e ele arfava também. Buscando apoio, Luiz encostou-se na cisterna. João permaneceu calado, sabia que o amigo deveria digerir isso. Luiz espremeu-se entre a cisterna e a vala para chegar até João.

— Luiz...

Assim que João abriu a boca ele recebeu um soco de Luiz. João ficou atônito e tonto. Antes que pudesse abrir a boca novamente para tentar se explicar e provar que nunca provocou Cristal, recebeu outro soco.

— Seu filho da puta! Sempre se esfregando nela! O que foi isso agora, hein? Esse foi o primeiro beijo mesmo ou você já havia beijado ou pior, transado com a garota que eu mais amo? Eu deveria ter suspeitado. Você é inconveniente, você é safado, não se pode confiar nesse tipo de gentalha como você. Meu Deus, tantas vezes que Nefferson falara. Quando eu comecei a me aproximar de você no passado, quantas vezes Nefferson falara que pessoas como você não eram de confiança? Eu me deixei levar. Agora vou consertar isso. Quero que vá embora daqui. — esbravejou Luiz empurrando João e encarando-o com os olhos recheados de ódio gratuito.

Lágrimas desciam pelo rosto contraído de Luiz. Ele era somente um poço de raiva e ódio.

— Cara, deixa eu me explicar! — suplicou João.

— Vá pra porra! Seu favelado desgraçado, volta pro Pocinho. Vai fumar, vai matar alguém ou coisa parecida. Mas pelo amor de Deus, deixe-me em paz.
— Caralho...  Você está sendo um idiota. Um garoto medíocre e preconceituoso como eu nunca pensei que você seria.

— Preconceituoso como seu pai? Como ele lhe chamava mesmo? Carvãozinho? Certo?

O semblante de João sofreu uma alteração drástica. Não havia mais aflição, aquela necessidade de se explicar. Havia raiva, ódio, desprezo.

— Olha aqui mauricinho, se seu pai nunca lhe deu umas boas palmadas ou esquentou esse teu traseiro, tá na hora de eu fazer! — gritou João antes de se atracar com Luiz.

Ambos rolaram pelo chão. João dava socos e pontapés enquanto Luiz tentava encontrar uma brecha para machuca-lo. João ria.

— Como você sabe, Luiz, fui criado no Pocinho. Saltando pelos tetos das casas fugindo da polícia e se embrenhando nas sombras para não levar tiro no peito... Brigando com mendigo e garoto de rua por um pão queimado. Acha mesmo que alguém como você é pairo pra mim? — quando acabou de dizer isso, João ficou por cima e prendeu os braços de Luiz sob os joelhos.  Em seguida, João desferiu um soco. Fraco para João, mas que foi o suficiente para deslocar a queixada de Luiz. João desferiu outros socos. Luiz sofria um espasmo involuntário de dor sempre que recebia um murro. Finalmente, João saiu de cima de Luiz e lhe deu as costas.

Juntando toda a raiva que tinha dentro de si, Luiz se levantou — dolorosamente, um esforço acompanhado de gemidos e bramidos — e se jogou contra João. Os dois caíram no chão e Luiz tentou dar uma gravata em João. Esperto, João se levantou e tentou tirar Luiz de suas costas. Sem alternativa, João tentou se jogar contra a cisterna. Ao perceber a intenção do amigo, Luiz o soltou com um grito e o empurrou. João desequilibrou-se e procurou por algo para amparar-se no meio daquele breu. Luiz apoiou-se nos joelhos para tentar acalmar sua respiração e encarou João. O garoto estava tonto enquanto tentava respirar ar o suficiente resfolegando exaustivamente. Enquanto recuava as cegas tateando o ar, João tropeçou em um galho seco e caiu dentro da vala. Luiz gritou aterrorizado e tentou segurar o amigo, mas não conseguiu.

Um trovão ribombou no céu e as nuvens tomaram a lua. Preocupado, Luiz olhou para dentro da vala, mas não conseguiu identificar nada no fundo da pocilga. Luiz tirou o celular do bolso e com o auxílio da luz vindo da tela, conseguiu encontrar João no fundo da vala. Ele caiu sobre os canos e quebrara alguns deles, fazendo com que a água fétida criasse uma espécie de chafariz. Ratos e sapos estavam sobre o corpo. Luiz não deu atenção a estes detalhes e tentou ver se João tinha se ferido gravemente. Havia sangue manchando a água que enchia a vala. Luiz procurou a origem do ferimento e abafou o grito quando viu que João batera a cabeça e seu pescoço estava disposto em um ângulo inumano.

— Eu... Ee-e-eu... Ma-m-m-matei meu melhor a-a-m-i-goo. — confessou Luiz, gaguejando para si mesmo. O baque das palavras lhe atingiu como uma bala diretamente direcionada ao seu coração.

Luiz gemeu ao sentir a forte dor em seu peito. Era insuportável assistir aquela cena. Sua cabeça trabalhava a mil tentando lhe alertar do perigo que ele corria. O pensamento mais desagradável então lhe veio à mente: o futuro. O que aconteceria em seguida? Ele tinha acabado de matar uma pessoa. Autodefesa? Não. Ele começara a briga. Ele era o assassino naquela situação. Pensamentos assolaram sua mente, relances de sua mãe chorando, desolada e decepcionada ao ver seu próprio filho ser preso. Mas... E João? Quem iria chorar por João? Além de Cristal, claro. Pensou consigo mesmo trincando os dentes.

— Você não irá me destruir. — declarou Luiz com a voz embargada.
Sem pestanejar, ele olhou ao redor buscando uma escapatória e convenientemente, encontrou uma pá enfiada na terra a alguns metros. Firmando-se em sua decisão, Luiz foi até lá.

Enquanto isso, uma cobra negra e esguia rastejou para dentro da vala e enroscou-se no corpo de João. O animal se entrelaçou no braço do cadáver, subindo pelo ombro até finalmente se enroscar no pescoço. Sua língua tremeluziu dentro da boca e tocou os lábios de João. O réptil abriu passagem entre os lábios frios e secos de João entrando na boca do garoto. A água em chafariz molhava as laterais da vala fazendo com que caíssem blocos de terra na água, desfazendo-se em lama.

Luiz olhou para o fundo da vala e respirou fundo. Ele enfiou a pá na terra e arrancou um punhado, jogando sobre o corpo de João em seguida. Luiz tentava engolir o choro e suprimir as lágrimas e estava sendo bem sucedido nisto, até que jogou o segundo punhado de terra. Nesse exato momento, a beirada da vala desabou e Luiz caiu dentro da pocilga. A água fétida encharcou-o e Luiz xingou quando se melou com a lama. Outro trovão ribombou no céu. Luiz tentara se levantar cravando a pá na lama e usando-a como apoio. Enquanto tentava se reerguer, Luiz sentiu algo em seu ombro. Quando olhou para trás, Luiz encara os olhos de João abertos. Havia algo demoníaco nos olhos dele, algo que provocara em Luiz uma sensação que ele nunca sentira de maneira tão avassaladora... Medo. Quando João abriu a boca, uma cobra saiu de dentro dela e sibilou. Luiz teve um surto de medo, não gritou, simplesmente começou a espernear. Com um soco, ele atingiu o nariz de João. O cadáver se agarrou a Luiz e tentou puxá-lo enquanto o mesmo tentava subir até a superfície. Luiz cravou a pá na lama e tentou usar isso como apoio, mas não cravou a pá fundo o bastante e acabara puxando mais lama. A água agora parecia inundar a vala. Para completar, começara a chover.

As gotas de água pareciam agulhas contra a face de Luiz. O garoto continuava a espernear enquanto tentava tirar os braços mórbidos de João ao redor de si. João apertou ainda mais seu abraço cadavérico e trouxe Luiz para mais perto de si. Luiz começou a choramingar e sem alternativa, virou-se contra João. O garoto golpeou o amigo com a pá na cabeça. O pescoço para o outro lado. Apavorado, Luiz cravou a pá novamente na lama, dessa vez conseguindo chegar à beira da vala e cravar as unhas na superfície. Agoniado, Luiz começou a balançar as pernas estendidas para conseguir se levantar. Toda vez que tentava usar as laterais da vala como encosto, acabava escorregando. Luiz chorava e tentava limpar as lágrimas com o ombro, mas só fazia melar o rosto e irritar os olhos com os grãos de areia. Finalmente, Luiz conseguiu se levantar. Quando olhou para baixo, João estava rindo e lhe encarando com o pescoço pêndulo. Sangue escorria por sua boca e havia um ferimento em sua testa. A água continuava a se avolumar e alagar a vala. Luiz pegou sua inseparável pá e quando João tentou agarrá-lo, ele cravou a arma na boca aberta de quem antes fora seu melhor amigo. A lâmina da pá rasgara as bochechas de João e quase separara sua queixada em duas. Luiz golpeou João novamente com a pá e assistiu com prazer o corpo do garoto sucumbir às águas fétidas do esgoto junto com as águas negras e enlameadas da chuva.
Ganhando algum fôlego, Luiz continuou a soterrar ao amigo, jogando punhados de terra.

[...]
 
Opiniões:

Nefferson: Infelizmente, não deu para acompanhar muito da história. Porém, seus personagens foram bem desenvolvidos (pelo menos a maioria deles) e introduzidos. Realmente vi potencial, a personalidade de cada um está OK. Eu gostei muito de ser um peão da roça. Nunca me colocaram em um personagem assim antes [risos].

Ricardo: Ana, Ana, Ana, acho que a grande pergunta que estou me fazendo agora é: O que diabos seria alguém com humor sorumbático? Brincadeiras a parte, tenho que confessar, seu texto esteve todo trabalhado nos erros. Do começo ao fim. Você não conseguiu criar uma boa narrativa. Os três protagonistas não emplacam. Você nos dá ideia da trama que vai ser desenvolvida e tudo parece muito bom, mas na hora de executar não se sai tão bem.

Luiz: Os mentores dos candidatos que estiverem na Morte Súbita permanecerão com a opinião nula.

João: Foi muito divertido acompanhar sua história, Bia. Você optou por explorar muito bem os personagens antes de tudo acontecer e essa é uma coisa que eu sempre prezei em filmes de terror. No entanto, a narrativa ficou complicada em certos trechos. Você narrou como se estivesse com preça, repetiu inumeras vezes as mesmas palavras e não se importou com as inumeras redundâncias do texto. Enfim, como eu disse, foi divertido, mas acho que foi apenas isso. Pra Final de um concurso que durou tanto tempo, não sei se foi bom o suficiente. PS: Adorei meu personagem, mas sou um preto mauricinho e metido que sempre teve tudo o que quis. Lembre-se disso da próxima vez. Sou fútil, não Guetto.

Participante: Lucas Chaves
Tema: Slasher na Floresta
A Cabana (Evil Dead)

Enquanto corria pela floresta, João Lindley pensava mais uma vez nas palavras cruéis que o irmão acabara de jogar na sua cara. “Você é adotado!”, ele ainda podia ouvir a voz fria de Nefferson sibilar. As lágrimas escorriam sem parar por seu rosto e o garoto sentia alguns galhos arranharem seus braços e pernas, mas não se importava, tudo o que queria era se afastar dos outros, todos eles, mesmo de Luiz. Ah, o doce Luiz, e pensar que o grande objetivo daquele final de semana fora uma viagem romântica para o novo casal. Como os pais de João Lindley se recusavam veementemente a aceitar o relacionamento dos dois, Luiz sugerira que os dois fugissem e acampassem por todo o fim de semana numa mata afastada da cidade, mas Nefferson jamais deixava o irmão sozinho, por isso, se auto convidara, e de quebra, levara o amigo Mateus junto com ele. Para completar, quando estavam chegando ao local, deram carona a um garoto chamado Ricardo, que revelou não ter onde ficar e acabou sendo convidado para passar a noite com eles. E agora João Lindley estava ali, as mãos apoiadas nos joelhos enquanto a respiração ofegante ecoava pela floresta escura, diante dele o enorme lago se estendia, refletindo o brilho ofuscante da lua.

-Que se foda. – Murmurou o garoto, arrancando a camiseta de uma só vez.

Em poucos segundos havia se despido completamente, seu corpo estava melado de suor e ele já podia sentir algumas picadas de mosquitos pipocando por sua pele, prendeu a respiração e se atirou no lago, sentindo seu corpo relaxar imediatamente ao imergir na água gelada, a cada braçada ele parecia deixar para trás as palavras terríveis do irmão. O garoto voltou a superfície e deixou seu corpo flutuar, boiando tranquilamente de olhos fechados.

-Mas que droga é essa?

João sentiu algo agarrar sua perna com força e bateu os braços desesperadamente, algas de um verde forte se enrolavam como serpentes em seus membros, logo o garoto estava imobilizado, ele soltou um grito de pavor, que foi interrompido quando as plantas o puxaram com força para o fundo do lago, ele tentava se debater, mas tudo o que conseguia era prender ainda mais, uma expressão de pavor se desenhou em seu rosto quando ele viu um par de olhos vermelhos se aproximando, um rosto demoníaco lampejou diante de seus olhos e tudo se apagou de uma só vez.


-JOÃO! – As vozes dos três adolescentes ecoavam pela floresta. – JOÃO!

-Onde esse garoto se enfiou? – Perguntou Mateus, colocando as mãos na cintura enquanto olhava em volta.

-Eu já disse para vocês relaxarem. Logo, logo ele aparece por aí, a rainha do drama sempre faz isso, é parte do showzinho dele. – Falou Nefferson, que continuava sentado no mesmo lugar desde que o irmão desaparecera.

-Você deveria ser o mais preocupado entre nós, Nefferson! – Respondeu Luiz, a expressão de preocupação sendo substituída rapidamente pela raiva. – Afinal, o João não teria saído correndo pela floresta se você não tivesse dito aquelas coisas a ele.

-Algumas pessoas não conseguem lidar com a verdade. – Sibilou o garoto, sorrindo maldosamente.

Luiz balançou a cabeça e deu de ombros, depois voltou a se embrenhar na floresta, seus gritos se juntando ao dos outros.

-EI, ELE ESTÁ AQUI! – Os garotos ouviram Ricardo gritar.

Luiz correu o mais rápido que conseguiu em direção a voz do garoto e sentiu um suspiro de alívio escapar de seus lábios quando viu João, mas aquele alívio durou por pouco tempo, o adolescente parecia estar em alguma espécie de transe. Além dos cabelos e roupas encharcados, seus olhos estavam vidrados e sua expressão completamente vazia chegava a assustar quem olhasse por muito tempo.

-Temos que tirá-lo daqui. – Falou Ricardo, passando o braço pelos ombros do garoto. – Ele está congelando!

Luiz ajudou Ricardo a conduzir o garoto de volta ao acampamento e eles o sentaram diante da pequena fogueira que haviam conseguido fazer.

-Olá poker face. – Falou Nefferson, rindo da expressão no rosto do irmão.

-Cala a boca, Neff! – Sibilou Luiz, ajoelhando-se diante de João. – Ei, está tudo bem com você?

O garoto não respondeu, ao invés disso, abriu levemente a boca e um jato de vômito jorrou sobre Luiz, o adolescente sentiu o gosto ácido nos lábios e se afastou de uma vez, nauseado.

-Ele vomitou em você! – Gritou Nefferson, o rosto demonstrava nojo.

-Obrigado por me avisar! – Respondeu Luiz, sem olhar para ele.

João mantinha os mesmos olhos vidrados de antes, mas agora havia um leve sorriso em seus lábios, do canto direito deles, uma mancha vermelha escorria para seu pescoço. As atenções foram desviadas dele quando Luiz soltou um grito alto, o adolescente caiu de costas no chão e começou a tremer levemente.

-Poxa João, eu acho que você passou raiva para o seu namoradinho. – Provocou Nefferson.

-Nós... nós não devíamos ajudá-lo? – Perguntou Mateus, aproximando-se do amigo.

-Eu não vou tocar nele!

Luiz parou de uma só vez e permaneceu deitado no chão, depois se sentou devagar e eles puderam perceber que seu rosto tinha a mesma expressão de João. O garoto se levantou e atravessou a clareira, agarrou a enorme faca que eles haviam usado para abrir caminho até ali e se aproximou dos outros.

-Que brincadeira idiota é essa? – Perguntou Nefferson, afastando-se devagar.

Ricardo e Mateus apenas observaram em silêncio, Luiz abriu um sorriso diabólico e levantou a faca, depois esticou o outro braço para frente e o decepou na altura do cotovelo em um só golpe, o sangue espirrou sobre os outros, que gritaram de pavor e se afastaram ainda mais.

-VOCÊ ESTÁ LOUCO? – Gritou Mateus, que parecia o mais apavorado.

-Que tipo de pessoas são vocês? – Perguntou Ricardo, já se arrependendo de ter pedido carona àqueles garotos.

Luiz manteve os olhos fixos no braço, que ainda sangrava muito, um sorriso bobo nos lábios e um brilho assustador nos olhos, João também observava a cena com a mesma expressão do outro, os dois pareciam se divertir com aquela situação.

-Alguém pode me explicar que porra está acontecendo aqui? – Perguntou Ricardo.

-Eu não sei. – Respondeu Nefferson. – E eu não vou ficar aqui para descobrir.

O garoto correu para o interior da floresta e os outros o acompanharam, apavorados, e acabaram se separando no caminho. Quando notou que estava sozinho, Mateus parou de correr e olhou ao seu redor, a respiração ofegante fazia espirais de fumaça subirem de sua boca, ele não tinha notado como havia ficado frio de repente, esfregou a pele dos braços com força e olhou ao redor, tentando enxergar alguma coisa além da escuridão perturbadora.

-Neff? – Perguntou ele, quando ouviu folhas secas sendo amassadas perto dali. – Ricardo?

O garoto recuou alguns passos, os olhos fixos na direção de onde vinha o barulho que indicava que alguém caminhava em sua direção.

-Por favor, já chega dessa merda de brincadeira! – Pediu o garoto, as pernas tremendo violentamente.

-Nefferson, é você?

Uma silhueta se formou entre as árvores e o garoto sentiu as pernas tremerem com ainda mais violência, o rosto de João foi iluminado pela lua e ele viu o sorriso cruel do garoto lampejar.

Mateus se virou e correu o mais rápido que conseguiu, a escuridão fazia o garoto tropeçar e se cortar em galhos e raízes, mas ele não se importava, sabia que precisava se afastar daquele lugar se quisesse viver. Ele ainda estava correndo quando trombou de frente com uma árvore, a força do impacto o atirou para trás e o garoto soltou um gemido de dor, se agarrou em alguns galhos para se levantar, mas antes que pudesse voltar a correr, houve um movimento rápido diante dele e João acertou uma paulada forte em seus joelhos, o estalo de seus ossos ecoou pela floresta silenciosa e ele soltou um urro de dor enquanto caía de costas no chão.

-Ah meu Deus! – Gritou ele, observando o osso de seu joelho esquerdo, que se partira, rasgando sua pele e agora apontava para fora.

Mateus levantou os olhos, mas João não estava mais ali, o garoto respirou aliviado e tentou se levantar, mesmo sabendo que seria em vão, os joelhos cederam assim que ele colocou força sobre eles e o garoto voltou a cair de bruços no chão.

-SOCORRO! – Gritou Mateus, sentindo lágrimas de medo escorrendo por seu rosto.

O adolescente sentiu seu sangue congelar nas veias quando ouviu passos se aproximando atrás dele, se agarrou com força às raízes e tentou se arrastar para longe dali, mas João foi mais rápido, agarrou o garoto pelos tornozelos e o puxou com força, Mateus gritou quando sentiu seus joelhos estalarem e tentou se agarrar a qualquer coisa que passava por baixo de suas mãos, duas das unhas foram arrancadas com violência na tentativa desesperada de se soltar do puxão de João, o garoto gritava e chorava, se debatendo violentamente.

-Por favor, João, sou eu... Mateus, não faça nada comigo. – Murmurou ele, quando João o virou de bruços.

Mas ele sabia que aquele não era o João que ele conhecia, podia ver pelos olhos dele. Mateus se encolheu quando o garoto se abaixou diante dele, arreganhando os dentes como um animal, ele o agarrou pelos cabelos e puxou seu rosto para perto do dele.

-João, POR FAVOR!

Seus gritos foram interrompidos quando João enterrou os dentes em sua jugular, rasgando-a de uma vez, o sangue espirrou no rosto do garoto, que soltou uma risada baixa e atirou Mateus de volta no chão, depois começou a arrancar pedaços da carne do garoto com os dentes, os olhos vidrados brilhando no rosto coberto de sangue, o corpo de Mateus ainda estremecia levemente, seu coração já havia parado de bater há um tempo, mas não antes de permitir que o garoto vivesse para sentir a dor de ser devorado vivo pelo próprio amigo.

-Você ouviu isso? – Perguntou Ricardo, parando de uma vez e segurando o braço de Nefferson.

-Gritos. – Respondeu o garoto. – É um sinal que devemos continuar correndo.

-Mas... mas é o seu amigo que está gritando!

-Exatamente, é o meu amigo! Eu tenho certeza que ele gostaria que eu ficasse bem, então, se você não tem mais nenhuma observação óbvia a fazer...

Nefferson tentou continuar a correr, mas Ricardo voltou a segurar seu braço e fez sinal para que ele se calasse, o garoto revirou os olhos e soltou um suspiro de impaciência.

-Alguém está se aproximando. – Sussurrou Ricardo, olhando em volta.

-E você pode me explicar porque nós continuamos parados aqui feito duas gazelas prontas pro abate? – Sibilou Nefferson, puxando seu braço dos dedos do garoto.

Ricardo não respondeu, Nefferson revirou os olhos e deu de ombros antes de voltar a correr, ele não se importava com o que aconteceria com o outro que acabara de deixar para trás, de fato, não se importava com ninguém contanto que ele saísse dali em segurança.

-Idiotas. – Murmurou ele, enquanto corria, tentando não bater de cara em nenhuma árvore.

O garoto ouviu um estalo alto acima dele e tudo que teve tempo foi de olhar para cima antes de ser atirado de bruços no chão, ele soltou um grito de dor quando seu rosto bateu na terra e foi virado para cima com violência, piscou várias vezes para afastar a tontura e viu o rosto do irmão a centímetros do seu, o rosto estava coberto de sangue e ele tinha uma expressão demoníaca no rosto, Nefferson soltou um grito de pavor e se debateu, tentando tirar o garoto de cima dele.

-SEU PSICOPATA! – Gritou ele, tentando empurrar o irmão. – Eu sabia que a mamãe não devia ter te adotado, olha pra você! Eu devia saber que aquele filme A Órfã era um aviso para mim!

João soltou uma risada cruel e arreganhou ainda mais os dentes, Nefferson virou o rosto para o lado, preparando-se para ser atacado pelo irmão, mas, ao invés disso, ouviu um baque forte e sentiu o corpo de João ser arrancado de cima dele.

-Mas que...

O garoto levantou os olhos e viu Ricardo de pé diante dele, um pedaço grande de madeira nas mãos, provavelmente acabara de golpear João na cabeça.

-Vamos, temos que sair daqui antes que ele acorde. – Falou Ricardo, estendendo a mão para Nefferson.

-Nós não podemos deixar ele acordar. – Respondeu o garoto, arrancando o pedaço de madeira da mão do outro.

-Mas, ele é seu irmão...

-Não! O meu irmão desapareceu na floresta hoje mais cedo, isso não é o João, é um demônio!

Nefferson ergueu o pedaço de madeira e enfiou a ponta afiada no coração do garoto, seus olhos se abriram de uma vez e reviraram, o corpo de João se contorceu e um grito agourento saiu de seus lábios, o pedaço de madeira se incendiou, assim como o corpo do garoto.

-Vamos! – Falou Nefferson, piscando para afastar as lágrimas e puxando Ricardo pelo braço.

Os dois voltaram a correr pela floresta, atentos a qualquer sinal de que estavam se aproximando da estrada, mas Nefferson não conseguia parar de pensar que eles pareciam estar correndo em círculos.

-Nós não vamos conseguir encontrar a estrada nessa escuridão! – Falou Ricardo, quando os dois pararam para descansar.

-E o que você sugere? – Perguntou Nefferson, que massageava o lado da barriga. – Que encontremos um esconderijo para passar a noite? Ricardo, isso não é um filme adolescente de terror, tem um demônio correndo atrás da gente e eu tenho certeza que ninguém vai aparecer para nos salvar de última hora quando estivermos prestes a ser aniquilados!

-Você pode ser menos mal humorado?

-Ah, me desculpe! Eu vou melhorar o meu humor, afinal, o final de semana não podia estar mais perfeito!

Nefferson se calou de uma vez quando ouviu um galho estalar com força, Ricardo levou o dedo aos lábios, pedindo que ele fizesse silêncio, e caminhou devagar em direção ao barulho, os arbustos estremeceram e Nefferson recuou, sentindo o coração disparar.

-DROGA! – Gritou Ricardo, quando um veado saiu correndo e se enfiou no meio das árvores.

Nefferson soltou uma risada de alívio e o garoto o acompanhou, os dois balançaram a cabeça e sentiram os corpos relaxarem de uma vez, mas a boa sensação durou pouco, Luiz surgiu por entre as árvores, o facão ainda apertado no braço inteiro.

-Nefferson! – Gritou Ricardo.

O garoto se virou a tempo de ver Luiz partir para cima dele, golpeando o ar com violência, Nefferson recuava, apavorado, tentando não ser atingido pela lâmina afiada.

-FAÇA ALGUMA COISA! – Gritou ele, sem olhar para Ricardo.

Mas antes que ele pudesse responder, Nefferson sentiu seu pé se prender numa raiz e caiu de costas no chão, Luiz se aproximou rapidamente e abriu um sorriso diabólico, o garoto viu a faca brilhar à luz da lua e fechou os olhos, o demônio arrancou sua cabeça num só golpe, o sangue espirrou para o chão e ele soltou uma risada baixa. Luiz ainda ria quando uma lâmina comprida atravessou seu coração, seu corpo estremeceu violentamente e ele soltou o mesmo grito apavorante de João, caiu sobre os joelhos e entrou em combustão, iluminando a floresta escura por uma fração de segundo.


Ricardo atirou o corpo de Nefferson na cova recém cavada e começou a cobri-lo com terra, quando terminou o serviço, desmontou o acampamento e atirou as coisas dentro do rio, exceto por uma peça de roupas limpas, as quais ele vestiu após observar suas roupas imundas queimarem. O garoto subiu para a estrada e se postou ali, esperando que algum carro aparecesse, o que não demorou muito a acontecer.

-Precisando de uma carona? – Perguntou uma garota, enfiando a cabeça para fora da janela.

-Estou sim. – Respondeu ele, sorrindo timidamente. – Meu nome é Ricardo e eu estou meio perdido aqui, briguei com os meus pais e resolvi dar um tempo.

-Beleza! Eu sou Camila, e esses são meus amigos, Lucas, Lohanne e Matheus. Nós estamos pensando em passar o final de semana naquela famosa floresta há alguns metros daqui, ta afim?

O demônio tentou conter o sorriso cruel que implorou para se formar em seu rosto e apenas assentiu, abrindo a porta de trás.

-Vamos lá!

FIM

Opiniões:

Nefferson: Acho que de todos os personagens, eu realmente não esperava que o Ricardo sobrevivesse. E isso foi um grande ponto positivo, porque foi surpreendente. Meu personagem teve bastante destaque, o que foi ótimo de acompanhar, mas ele parecia não ter qualquer tipo de emoção. Assim como todos os outros pontos da história, tudo ficou corrido demais. Diversas situações são forçadas - as falas, principalmente - e eu acho que você deveria ter explorado mais da mitologia dos filmes. Evil Dead dá todo o valor para os seus possuídos e os seus vilões não tiveram quaisquer destaque.

Ricardo: Esperava mais, muito mais. Não é que a história foi ruim, é que não foi boa. Faltou um pouco mais de desenvolvimento. Não tenho muito o que dizer além disso. Fica claro pra mim, que terror realmente não é seu forte. Mas mesmo assim, você continua escrevendo bem. Narrativa ágil, com uma linguagem não tão mirabolante e sem exageros. Tudo que você escreve é sempre muito...natural.

Luiz: Lucas, parabéns pelo conto. Adorei a reviravolta no final, ri muito dos diálogos, principalmente do Nefferson. Uma ótima história, era o que eu esperava.

João: Os mentores dos candidatos que estiverem na Morte Súbita permanecerão com a opinião nula.
 
Mateus: Agora é a hora da verdade. Jurados lindos, em quem vocês votam pra VENCER a competição?

Ricardo: Meu voto vai no Lucas, acho que por motivos óbvios. Ao longo da competição ele se mostrou bem superior que a Ana. Mas claro, não querendo desmerecê-la, ela também se esforçou, mas fica claro que hoje, o Lucas é merecedor da grande oportunidade que é escrever pro MMA.

Luiz: Decisão difícil. Dois autores perfeitos e que eu queria ver aqui na equipe do MMA. Mas, tenho de puxar a sardinha pro meu time e votar na Anna. Por N motivos, primeiro por ser uma menina mulher e se o toque que o blog precisa, segundo por ser do meu time e terceiro por ter uma capacidade criativa muito grande. De criar uma história enorme em pouco tempo, admiro muito isso nela e por isso hoje eu fico com a Anna

Nefferson: Confesso que esperava bem mais desse final de concurso. Os dois textos ficaram abaixo das minhas expectativas. Porém, mesmo sem final, a Anna apresentou algo mais consistente e soube aproveitar melhor seus personagens, por isso meu voto vai para ela.

João: Estamos lidando com o veredicto final do concurso, então essa nunca será uma decisão fácil. Ana, você escreve muito bem, tem uma visão adulta e e com certeza ganhou o público antes mesmo de chegar a final. E Lucas, somos amigos desde sempre, e você transborda talento. Somos amigos há eras e acho que você é a única pessoa agora que eu deixei ultrapassar minha armadura, então nem preciso dizer mais nada. Pela amizade, pelo talento e pela oportunidade do concurso, meu voto é pra você.

Mateus: Empate. Sabem o que isso significa? NÃAAAAAO! Não vamos deixar o público decidir, sabem por que? Porque há semanas eu e o corpo de jurados decidimos que o EA não teria apenas um ganhador, e sim 2 GANHADORES! Isso mesmo, você não leu errado. Já tínhamos dito que poderíamos trazer dois ganhadores, então, VAMOS COMEMORAR!
 
Parabéns Bia, Parabéns Lucas, Parabéns jurados lindos e parabéns também ao público por ter nos acompanhado nessa jornada. O EA acaba aqui, mas o MMA vai continuar, agora com uma equipe de primeira. João, Nefferson, Luiz, Mateus, Ricardo, Ana, Lucas e também Mateus Antony, que foi chamado pra ser nosso novo colaborador apesar da sua eliminação. Não é demais? Aqui todos ganham e todos saem felizes, então se houver uma segunda temporada, nem pensem em perder.
 
Bêj no coração de todos vocês, até a próxima <3
 
Um gif da Ana comemorando
a vitória com o Lucas:
 









                

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Comentários
3 Comentários

Comentário(s)

3 comentários:

  1. Podre, dois ganhadores e o outro eliminado ainda ganha também só porque é amigo dos jurados. Isso ficou bem na cara, pelamordedeus...

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  2. Poooooooooooodre². Um concurso patético, que ninguém acompanhava, onde contos ridículos eram exaltados e textos com bons temas eram ignorados. Uma garota de 12 anos vence esse concurso, quem mais não ganha? Tanta espera para anunciar que um perdedor, que só trouxe textos inúteis como o matheus passa, e que bia e lucas, depois de apresentar textos medianos, passam OS DOIS. Allahalla!

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  3. Estou cheirando recalque acima. Deve ser um dos que não passaram. HAHAHAHAHA.

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