quarta-feira, 19 de setembro de 2012

[Livro] My Last Lie - Capítulo 9: Keep the Secret or Die Trying

Don't Tell Anyone.

- Ok, esqueçam ela – Effy saiu da janela e colocou as mãos na cintura, queria parecer firme para que Paige e Lola não dessem pra trás – Vamos agora, temos tempo.

- Você tem certeza? – Paige parecia indecisa – Não quero que aconteça comigo o que aconteceu com Tessa...

- Bom, então você quer mais cobras na sua cama?

- Ok, calem a boca – Lola tirou o celular do bolso – Effy está certa, pelo menos dessa vez. Mas precisamos primeiro falar com Courtney e Skye, quanto mais pessoas, melhor – Lola deu meia volta e se afastou das garotas, deixando de ouvir o que tinham começado a tagarelar.

Ela se escorou na parede podre e colocou o celular na orelha, estava ligando para Courtney. Seu celular chamou três vezes antes da garota atender. Estava deitada em seu quarto, não conseguia parar de pensar nas mensagens. Todo aquele jogo de intimidação lhe tirou a vontade de comer e o sono, só em imaginar o que aconteceria se Charlie cumprisse a ameaça.

- Sou eu – Disse Lola – Vamos à polícia agora, precisamos de você.

- O que? – Courtney deu um pulo da cama, parecia que havia tomado um susto – O que aconteceu?

- E você ainda pergunta? Tem alguém brincando com a gente e isso está passando dos limites. Precisamos de você pra confirmar a história.

- O que? – Courtney hesitou. Se não se concentrasse, acabaria gaguejando – Eu não sei, é muito perigoso...

- E é exatamente por isso que devemos ir à polícia.

Courtney levantou da cama e deu um suspiro sem fazer barulho. Começou a andar de um lado pro outro com a mão esquerda no pescoço, ela mais do que ninguém sabia que não poderia ir à polícia, não se ainda queria toda a história com seu pai permanecesse debaixo do tapete.

- Court? Ainda ta aí?

- Sim.

- Então vem, agora, estamos no The Purple.

- Eu... Eu não posso.

- Que droga, Courtney! – Sussurrou Lola, e por alguns segundos, olhou para trás. Effy e Paige ainda estavam conversando, e pareciam não estar prestando atenção na conversa de Lola – Vem pra cá agora!

- Eu não posso... Ele disse que iria contar pra todo mundo sobre meu pai se eu chamasse a polícia...

Lola demorou alguns instantes para raciocinar. No começo pensou até não ter ouvido direito. Courtney nunca falava sobre “a coisa com seu pai”, nem mesmo quando estava triste por causa disso. E as únicas pessoas que sabiam era ela, sua mãe e Lola, sua melhor amiga. Nenhuma delas jamais se atreveu a contar a história pra mais alguém, mas de alguma forma, Charlie sabia tudo, e estava em todos os lugares.

- Ai meu Deus... – Lola fechou os olhos e suspirou. Se ser colocada num freezer cheio de animais mortos era passar dos limites, o que tinham dito a Courtney ainda não havia nome – Ok, fique calma. Vou ver o que faço.

- Por favor, não deixe ele contar pras pessoas...

- Eu vou matá-lo primeiro – Lola desligou e colocou o celular de volta no bolso, parecia revoltada. Caminhou na direção das garotas, logo a conversa cessou.

- Então, ela vai dar pra trás? – Effy cruzou os braços.

- Sim – Mentiu Lola, mas dessa vez, seu talento para fingir lhe pregou uma peça. Ela aparentava nervosismo, e logo tratou de cobri-lo de todas as formas para que Effy e Paige não desconfiassem de nada. Nem mesmo elas podiam saber o que tinha acontecido, mesmo que ter um segredo à aquela altura do campeonato parecesse quase um crime – Você sabe como ela é, sempre deu pra trás. Agora vamos – Ela tomou à frente, parecia estar liderando novamente.

As garotas desceram as escadas pro primeiro andar, onde tiveram que arredar careteiras velhas jogadas no chão para que pudessem passar lado a lado. Tentavam evitar poças d’água e tocar nas paredes sujas. Parecia haver um problema no encanamento, que por algum motivo, ainda não havia sido consertado.

Antes que chegassem à porta dos fundos, o celular de Effy apitou. Lola e Paige não conseguiram disfarçar a tensão no olhar, era impossível. Sempre que ouvissem aquele barulho iriam ligá-lo as mensagens, e consequentemente, a Charlie Abrams.

Effy tirou o celular do bolso do casaco esperando que fosse apenas uma coincidência, apesar de tudo. Mas o remetente, era exatamente quem temiam.

- O que diz? – Indagou Lola.

- “Vocês não podem ir a polícia sem pagar o preço” – Effy olhou para Lola e hesitou antes da ultima palavra – Charlie.

- Nem pensar! Ele só quer nos assustar, precisamos ir! – Lola tomou a frente cheia de fúria, e passou por Effy como um vulto de tão rápida.

A garota apenas observou Lola caminhar, estava com tanto receio que só daria um passo a frente quando organizasse as ideias. Logo outra SMS chegou, também de Charlie, e confirmou que aquela ameaça não era aleatória.
“Se eu fosse você não deixava ela se aproximar do carro”
- Vem Effy, ela ta certa – Paige puxou a amiga pelo braço, mas Effy não saiu do lugar.

- Espera, tem alguma coisa errada – Effy olhou para Lola, estava chegando cada vez mais perto do carro.

Foi aí que juntou os pontos e percebeu que algo estava prestes a acontecer. Gritou pelo nome da amiga o mais alto que pôde para que pudesse impedi-la de prosseguir, mas já era tarde demais. Ao chegar bem perto do carro, Lola acionou uma armadilha de urso no chão em fração de segundos. Os dentes de metal cravaram em sua perna e fizeram-na cair no chão com a dor. Sentia que seus ossos estavam quebrados e que os dentes tinham atravessado sua perna para o outro lado.

Effy não pensou duas vezes, não iria ficar assistindo Lola agonizar mesmo que mais armadilhas daquelas estivessem espalhadas por ali e pudesse se machucar. Junto de Paige ela correu, sem saber que o culpado por tudo aquilo estava mais perto do que pensava.

- Paige, me ajuda! – Gritou ela, abaixando-se para fazer pressão na armadilha.

Paige demorou alguns instantes para assimilar o que tinha que fazer, parecia estar sob uma hipnose de pânico por causa dos gritos e do sangue. Mas mesmo em estando de choque, e tremendo como se estivesse levando um choque, Paige se obrigou a ajudar.

As duas forçaram a armadilha ao mesmo tempo para que se abrisse, mas ela não cedeu mais que dez centímetros.

- Para de se mexer, Lola! – Gritou Effy. Se Lola continuasse se debatendo, seria impossível de retirar a armadilha.

- Tirem essa merda de mim!

- Lola, se acalma! – Paige tentou tocar o ombro da amiga, mas se afastou assim que Lola voltou a se debater.

Ao ouvir o barulho do vento, Paige olhou pras árvores, e por alguns segundos achou ter ouvido algo além das folhas balançando. Também notou uma série de ruídos estranhos, semelhantes a algo de ferro batendo numa lataria. Barulhos tão estranhos que não pareciam vir de lugar algum e a deixavam-na com apenas uma certeza: Alguém mais estava ali.

- Effy, ele está aqui! – Ela gritou, segurando a blusa de Lola com força.

Effy olhou pras árvores, também estava ouvindo os barulhos estranhos. E não levou nem dois segundos para perceber o que tinha que fazer.

- Puxe ela pra dentro! Agora! – Ordenou a Paige.

Era uma péssima ideia mover Lola ainda com a armadilha na perna, elas sabiam, mas era a única coisa que podiam fazer quando não tinham ideia do que havia lá fora. Lola foi arrastada pelas duas até a porta do The Purple enquanto sentia os dentes de ferro entrarem ainda mais em sua perna.

Quando chegaram até a parte de dentro, Effy deixou Lola no colo de Paige para que pudesse trancar a porta. A única coisa que poderia usar era uma mesa de ferro velha e queimada, que dificultaria a entrada de qualquer um pelo menos por um tempo.

Pra ter certeza que não vinha ninguém, ela olhou pro lado de fora por uma das inúmeras brechas na porta. Nada havia além das árvores balançando, e os barulhos estranhos já não podiam mais ser ouvidos. Ela queria acreditar que quem quer que tenha colocado a armadilha já tivesse ido embora, mas não poderia arriscar em sair dali tão cedo, muito menos quando deixar Lola para trás e pedir ajuda na estrada não era uma opção.

- Merda! – Gritou Lola. As lágrimas que caiam de seus olhos misturavam-se com o suor em seu rosto e a lama nas bochechas – Tirem isso de mim!

Effy correu até ela e olhou para sua perna. Não estava quebrada, ou triturada, mas os dentes de ferro cravaram-se de um jeito que qualquer remoção não seria indolor.

- Paige, preciso que você faça força, ok?

- Ok – Paige assentiu.

- No três – Effy segurou na ponta da armadilha. Esperou Paige fazer o mesmo para que pudesse começar a contagem – Um, Dois, Três!

Quando a contagem terminou, cada uma fez força pra um lado. No pouco que conseguiram abri-la, Lola tentou mover a perna, mas isso só piorou a situação. Cada vez que tocavam naquela coisa os dentes pareciam cravar ainda mais, como se isso ainda fosse possível.

- Eu não consigo! – Exclamou Paige, a voz desesperada – Não vamos conseguir!

- Ok, vamos tentar de novo! – Effy segurou novamente na armadilha, dessa vez colocaria todas as suas forças mesmo que lhe custasse caro - Um, Dois, Três!

Mais uma vez elas forçaram, mas o resultado foi o mesmo. Effy não estava mais aguentando os gritos de Lola e aquele cheiro de sangue, sentia que deveria olhar pro lado para evitar que vomitasse. Tinha sangue em suas mãos e por todo seu casaco. Havia também um pouco em seu rosto quando tocou na ferida de Lola e teve que tirar os cabelos da frente dos olhos para que pudesse enxergar.

- O que nós fazemos? – Paige franziu o cenho, quase chorando.

O pior de tudo era que nem mesmo Effy sabia o que fazer. Lola estava ferida, Paige estava em pânico, e ligar pra pedir ajuda era exatamente o motivo de tudo aquilo. Mesmo que tentassem sair, havia alguém do lado de fora que não iriam deixá-las ir muito longe. E esse mesmo alguém tinha acabado de dar mais um sinal que estava por perto, apenas mais um barulho do lado de fora, porém o suficiente para que as garotas se assustassem. Elas deram pequenos gritos e olharam pra porta, temendo que a qualquer momento algo poderia acontecer.

- O que foi isso? – Sussurrou Paige.

Effy levantou do chão, já com o celular nas mãos. A luz da Tela era a única maneira de conseguir ver alguma coisa no meio de toda aquela escuridão. Ela o apontou pro lado direito, onde pensou ter ouvido o barulho, mas logo ele se repetiu do outro lado.

Effy virou o celular pro outro lado de maneira brusca, foi aí que percebeu o que estava acontecendo. Viu uma das janelas batendo e alguém correndo. Estava indo de um lado para o outro, batendo as janelas, causando pânico como se estivesse em todos os lugares. Effy tentou acompanhar os barulhos com o celular, mas não conseguia ver nada além das janelas balançando. Ele era rápido demais. E aquele jogo só aumentava o desespero de todas elas.

- O que ele quer? – Gritou Paige.

Então, de repente, tudo se acalmou. Effy levou o celular de um canto à outro pra ter certeza que não havia mais ninguém. E por alguns segundos, até pensou que ele havia ido embora.

- Ele foi embora? – Lola engoliu em seco.

Antes que Effy pudesse raciocinar, a porta foi forçada pelo lado de fora e a mesa arredou alguns centímetros.

- Ele está tentando entrar! – Gritou Effy, correndo para a porta junto de Paige.

As duas empurraram a mesa contra a porta, mesmo com alguém do lado de fora fazendo de tudo para arrombá-la. Estavam gritando tanto que mal conseguiam ouvir seus próprios pensamentos.

Paige encostou-se à porta e imprensou o pé na parede para que não pudessem abri-la. Então, o assassino do lado de fora acertou uma machada que atravessou a madeira podre e ficou há centímetros de seu rosto. Ela correu imediatamente dali, e coube apenas a Effy fazer de tudo para que ele não entrasse.

Mas como da ultima vez, ele simplesmente parou. Effy não sentiu mais a porta sendo forçada para que abrisse e parou de gritar. Olhou pela brecha na porta feita pelo machado, ele não estava mais ali, não havia nada além das árvores e do carro.

- Effy, sai de perto da porta! – Paige esfregou o rosto com a manga da blusa para enxugar o suor.

Effy se afastou, mas continuou olhando só para que não fosse pega de surpresa. Já tinha visto esse filme antes. Ele finge que vai embora pra depois atacar. Mas elas não podiam fazer parte daquele jogo por muito tempo. Lola precisava ir a um hospital ou a ferida poderia infeccionar. E Paige... Ela estava uma bagunça. Estava tão atordoada que parecia estar desejando a morte internamente só para ser poupada do sofrimento.

Mas o jogo ainda não havia terminado. No meio de todo aquele silencio, o celular de Effy começou a apitar. Ela olhou pro chão, nem tinha percebido que havia deixado ele cair. Estava com medo que outra coisa fosse acontecer, mas já que não tinha escolhas, deveria entrar no jogo para se salvar.
“É isso o que acontece com vadias fofoqueiras. Guardem o segredo ou morram tentando” – Charlie.
A única coisa que se ouviu, então, foi o barulho da janela de vidro da esquerda despedaçando-se. O assassino arremessou uma boneca em chamas por ela, que caiu próximo aonde Lola estava deitada.

Aos gritos, as garotas tentavam apagar o fogo usando o que podiam. Lola começou a dar chutes na boneca enquanto Effy tentava conter as chamas com o casaco. Apenas quando as chamas cessaram que elas perceberam que havia uma mensagem. No peito da boneca, em forma de costura, estavam as palavras “Mentirosa Morre”.

Era mais do que suficiente para terem certeza do que deveriam fazer. Ou manteriam o segredo, ou morreriam tentando.

--

- Dava pra ser mais rápido? – Tessa colocou as mãos dentro do casaco amarelo – Ta muito frio aqui.

Ela olhou para Corbin, esperando uma resposta. Ele estava agachado ao lado do carro tentando pela segunda vez trocar o pneu furado, como se entendesse de mecânica. Ele mal sabia o nome das ferramentas que tinha nas mãos, ou manuseá-las sem sujar a própria roupa de graxa.

- Bom – Ele jogou a chave pro lado e fitou o pneu – Eu definitivamente não sirvo pra ser mecânico.

- É, não me diga – Ironizou Tessa.

- Então, o que fazemos? – Ele olhou pra ela, apoiando o braço no joelho direito.

- Ué, deixamos o carro aqui e chamamos um guincho pela manhã.

- Não vou deixar Francine no meio da estrada sozinha.

- Francine? – Tessa cerrou os olhos – Sério? Isso é patético.

- Você deu um nome pro meu pau e não quer que eu dê um nome pro meu carro? Isso é mais patético ainda – Corbin se levantou, junto com as ferramentas que havia tirado do porta malas.

- Anda logo, Corbin! Quero chegar logo em casa – Tessa se balançou, como uma criança fazendo birra. Observou o namorado guardando as ferramentas no porta malas esperando que sua insistência resolvesse o problema – Você não ta querendo que eu empurre essa lata velha, não é? Porque eu não sirvo pra isso.

- Olha – Corbin fechou o porta malas e com a expressão séria, olhou pra namorada – Vamos rodar mais um pouco com o pneu furado, tenho certeza que tem um posto de gasolina por aqui. Então eles trocam nosso pneu e vamos pra casa. Ok?

Tessa suspirou, não queria demonstrar que faria de bom grado o que ele estava pedindo.

- Tudo bem.

Sem mais delongas, os dois entraram no carro. Tessa foi a primeira, deu logo um jeito de se acomodar no banco do passageiro para que ficasse confortável e ao mesmo tempo olhasse a montanha pela janela.

Corbin olhou pra ela antes de girar as chaves, não se atreveria a dizer uma só palavra ou então, com aquele humor, poderia acabar sendo jogado pra fora do carro.

- Só espero que seja rápido – Resmungou ela.

- Não se preocupe, é apenas um pneu.

- Se é apenas um pneu, por que você não conseguiu trocar?

- Ah vai, esquece – Corbin pisou no acelerador.

Eles continuaram a viagem calados, cada um olhando para uma direção. Conseguiram dobrar a colina mesmo com o pneu furado e fazendo ruídos. O tempo que levaram calados dentro do carro serviu para que Tessa refletisse. Estava arrependida de tê-lo tratado tão mal e descontar seus problemas todos encima dele. Era injusto, quando ele sempre fez de tudo por ela e nada do que estava acontecendo era culpa sua.

- Hey, me desculpe – Pediu Tessa, ainda mantendo a expressão dura – Desculpa por ter gritado com você, é que eu to com a cabeça cheia, ta acontecendo muita coisa...

- É, eu sei – Corbin assentiu.

- Então, apenas... Me desculpe.

Após o diálogo, os dois trocaram um olhar. Ele um pouco surpreso, por estar vendo a namorada pela primeira vez lhe pedindo desculpas. E sua imaginação tinha razão, ela ficava linda quando fazia aquilo.

- Sem problemas – Ele respondeu, logo depois olhou pra frente – Acho que hoje é seu dia de sorte – Com o dedo indicador ele apontou pra frente.

Tessa olhou, havia um posto de gasolina apenas há alguns metros. Ela não conseguiu disfarçar o alívio, já tinha começado a achar que iria andando pra casa. Seria um longo caminho de volta, considerando que estavam numa das extremidades da cidade, exatamente na estrada que levava ao próximo município.

- Ah, graças a Deus.

Antes de estacionar, Corbin notou um funcionário do posto se aproximando. Era um senhor que aparentava ter setenta e poucos anos, usando um uniforme alaranjado como o de um gari. A camisa de mangas estava amarrada na cintura, deixando a mostra sua camisa branca completamente suja de graxa. Por cima dela, além da sujeira, apenas sua identificação. Ele se chamavam Earl.

- Hey cara, estou com um pneu furado – Disse Corbin, olhando pra trás – Você acha que pode consertar?

Earl permaneceu quieto. Apenas cuspiu pro lado oposto e analisou o pneu.

- Vinte Dólares – Despejou ele.

- Tudo bem.

Ao saírem do carro, Tessa correu, sem avisar a Corbin para onde estava indo.

- Hey, onde você vai? – Perguntou ele.

- Ao banheiro, não demoro.

- Ok, vou comprar algumas coisas – Corbin virou-se para Earl – Hey, você pode encher o tanque por favor?

- É claro – Respondeu Earl. Seu olhar suspeito como o de alguém culpado incomodou Corbin apenas no começo. Afinal, que mal um pobre idoso poderia fazer?

- Obrigado – Disse Corbin, com um sorriso. Ele correu até a lojinha logo em seguida.

Ao que tudo indicava, Corbin e Tessa eram os últimos clientes do dia. Não havia ninguém no local a não ser a moça do caixa que parecia ter raiva de seres humanos e evitar simpatia. Tão séria e tão medonha que Corbin poderia sentir náuseas apenas em olhá-la. Então, estava ali o motivo da falta de clientes. O mal humor da atendente do caixa e o cheiro do frentista lá fora.

Quanto a decoração, nada se destacava, parecia tudo comum demais, como toda e qualquer lojinha nas redondezas. E seria tudo comum demais, se não fosse por um detalhe que fazia toda a diferença. Havia uma cabeça de alce empalhada entre duas lanças cruzadas. Talvez fosse o símbolo usado por alguma religião, ou nação, considerando a pequena bandeira vermelha e verde perto do animal. No fim, mais uma cultura inútil que não acrescentaria nada.

- Sim, estou indo – Respondeu a atendente, desligando e saindo da loja imediatamente.

Corbin dobrou no primeiro corredor onde havia duas enormes geladeiras de portas transparentes com os refrigerantes e os iogurtes. Começou a pegar todas as besteiras que via pela frente, incluindo cerveja.

Quando os autofalantes dos canteiros emitiram um som agudo, ele olhou pra cima. Nem tinha percebido que estava tocando uma música, eles estavam sintonizados numa estação de rádio onde uma garota parecia estar dando um depoimento sobre suas experiências sexuais.

- Legal – Disse ele, antes de dobrar o corredor.

Ele acabou encontrando no canteiro do corredor uma cesta de compras, que lhe serviu como uma luva. Depois, continuou observando as prateleiras, até chegar nos vinhos. Abriu alguns para que pudesse sentir o cheiro, não pareciam ruins. Logo depois observou a data, seu pai sempre dizia que os melhores vinhos eram os mais antigos.

Ao observar com mais cautela, ele percebeu que podia ver o outro corredor porque as prateleiras eram duplas e podiam ser facilmente separadas. E do outro lado, havia exatamente o que ele queria ver. Por sorte, a moça do caixa ainda não havia voltado, ele poderia aproveitar para ver todas aquelas edições da playboy.

E Earl, ainda não tinha trocado seu pneu. Estava fazendo de tudo para que o serviço demorasse pelo menos o dobro de tempo, para que pudesse fazer o que tinha em mente. Tessa ainda estava no banheiro e Corbin, completamente hipnotizado com as revistas. Era quase um convite para que ele tirasse proveito da situação.

Após uma ultima checada, ele atacou os porta luvas em busca de qualquer coisa que tivesse valor. Pegou um relógio, algumas notas de cinco e o celular de Corbin. Estava tão distraído com suas reais intenções que nem notou a chegada do assassino. Ele estava há poucos metros, arrastando o corpo da moça do caixa com a mão esquerda enquanto a direita carregava um machado. O silencio seria seu aliado para que ele desse um fim num homem desonesto sem que espantasse as verdadeiras vítimas.

Ao jogar o corpo no chão, ele caminhou na direção de Earl e parou assim que chegou perto o suficiente. Não esperou o homem notar sua presença para que pudesse agir, lhe acertou nas costas com o machado e o derrubou. Earl não conseguiu gritar, nem se mover, ou sequer entender o que estava acontecendo. A ultima coisa que viu foi o machado vindo na direção de seu rosto, e então, teve o crânio partido em dois.

O assassino olhou pra lojinha, o caminho já estava livre para que concluísse o que tinha ido fazer. Sem testemunhas, sem empecilhos, era hora do acerto de contas.

--

- Merda! – Resmungou Tessa ao sair do banheiro. Olhou para sua mão, tinha sido molhada com alguma coisa grudenta que estava na porta – Que droga... – Ela passou a mão na calça e olhou pra frente.

Agora, estava encarando o posto. Os corpos de Earl de da moça do caixa não estavam mais lá, e Tessa estava longe demais para notar a possa de sangue formada pelo cadáver de Earl. Só o que conseguia ver era o carro de Corbin ainda sendo suspendido pelo macaco, e nenhum sinal do homem que realizava o trabalho.

- Ótimo – Disse ela, caminhando na direção da lojinha.

Quando entrou, a primeira coisa que fez foi olhar pra loja como um todo para tentar encontrar Corbin. Mas aquilo era tão grande que seria impossível achá-lo desse jeito.

Ela passou pelo caixa direto no corredor por onde ele fora da primeira vez, sem notar a cabeça do alce e a lança que faltava ao seu redor. Agora só havia uma.

- Corbin? – Gritou ela, esperando que ele respondesse. Esperou mais alguns segundos pela resposta, até se convencer de que não vinha.

Com o silencio que se formara, ela notou o sininho da entrada tocar. Isso significava que alguém tinha acabado de entrar, e poderia ser Corbin.

- Olá?

- Hey! – Gritou Corbin, tinha aparecido do nada.

Tessa quase gritou com o susto, mas se controlou quando notou a risada cretina do namorado. Não lhe daria o gostinho de parecer apavorada.

- Que medrosa você.

- Idiota! – Ela lhe deu um soco no ombro.

- Ai! Quanto estresse...

- Podemos ir embora agora?

- Relaxa amor, eu só tava brincando...

- Que seja – Tessa revirou os olhos – Vamos embora.

- OK – Corbin continuou sorrindo, e seguiu a namorada pelo corredor.

Apesar de tudo, Tessa estava se sentindo bem.  O pneu furado, o banheiro imundo, o susto que acabara de levar do namorado, tudo contribuiu para que esquecesse temporariamente sobre Charlie e as amigas. Quando seu celular tocou, nem houve tempo para temer, ela apenas o retirou do bolso para ler a nova mensagem de texto que acabara de chegar.
“Estou mais perto do que você imagina” – Charlie.
Tessa fitou o nada, parecia em choque. Parecia que todos os últimos acontecimentos tinham atropelado sua mente e prendido suas pernas para que não pudesse correr. Até mesmo Corbin pôde perceber a tensão em seu olhar, e a mudança repentina após receber a SMS.

- Tessa, o que aconteceu? – Perguntou ele. Como não obteve uma resposta, fez a mesma pergunta, esperando que Tessa lhe falasse porque de repente tinha ficado tão aflita.

Tessa olhou ao redor, basicamente, para a porta da frente perto do caixa. A primeira coisa que lhe veio em mente foi ter ouvido o sininho da porta tocar milésimos antes de Corbin aparecer. Então, era só ligar os pontos.

- Corbin, acho que tem alguém aqui... – Sussurrou ela.

- O que? – Corbin se aproximou.

- Temos que sair...

- Tessa, não tem ninguém aqui.

No momento exato em que Corbin parara de falar, tudo aconteceu muito depressa. O assassino atravessou as prateleiras e enfiou a lança em seu peito, fazendo-o quebrar a vidraça e ir parar dentro de uma das geladeiras.

Tessa gritou imediatamente quando viu Corbin morrer, e correu o mais rápido que pôde. Chegou até a porta, mas antes que saísse, foi alcançada pelo assassino. Ele preparou a lança para enfiar em sua cabeça, e num movimento rápido, Tessa desviou. Ele atravessou a porta de vidro com a lança e caiu no chão junto dos cacos. Isso fez com que Tessa ganhasse tempo para correr.

Ela estava no corredor das frutas, jogando tudo o que via no chão para que dificultasse a passagem do assassino. De tanto correr em zigue zague, acabou sofrendo uma queda perto da caixa verde de maçãs. Sabia que não deveria olhar pra trás, sabia que não deveria pensar, mas mesmo assim, sofreu uma reação automática. Viu quando o assassino voltava a correr atrás dela e sentiu uma pontada no peito. Era medo, pavor, nunca tinha ficado tão próxima da morte como estava naquele momento, nem mesmo quando Charlie Abrams invadira o estábulo.

- Não! – Gritou ela, levantando-se com a ajuda da caixa verde.

Ela continuou a correr, porém, já não estava com o mesmo ritmo. Foi puxada pelo cabelo e arremessada contra a parede branca ao lado do banheiro, pôde ouvir o barulho do próprio corpo quebrando as taças de champanhe agrupadas numa fileira.

Quando percebeu o próximo ataque, ela colocou a mão na frente para que não fosse machucada, e isso acabou lhe custando seu primeiro ferimento. A lança do assassino atravessou a palma de sua mão e chegou até a parede, onde fez uma pequena perfuração.

Não fazia ideia de como havia conseguido, mas, sem nem perceber, apalpou qualquer objeto ao lado para usar em sua defesa. Acabou pegando uma garrafa de champanhe quebrada, e terminou de despedaçá-la no joelho do assassino. Quando ele ficou de joelhos, ela pegou outra garrafa e quebrou em sua cabeça.

Foi a chance que teve para correr até a próxima porta. Era a saída de emergência, ironicamente trancada e que dava livre acesso ao lado direito do posto. Mas Tessa não podia perder tempo tentando abri-la, precisava correr para a outra porta. Esta, era um porão, que também servia como depósito de comida. E era também sua ultima esperança.

Assim que chegou ao primeiro degrau ouviu o assassino forçando a porta. Ela olhou pra cima, a lança havia atravessado a madeira. A porta não duraria muito, aquele lugar precisava ter uma saída.

Mas pra todos os lados que ela olhava só via mantimentos, compras, e até mesmo alguns insetos indesejáveis passeando por todos aqueles produtos. A única saída era a pequena janela no canto direito, por onde podia ver a estrada. Era exatamente o que estava precisando. Só tinha que subir aquelas montanhas de sacos de comida e quebrar a vidraça pra poder sair, então estaria livre.

Mas antes que subisse, o silencio lhe fez parar. O assassino havia parado de forçar a porta, como num passe de mágica. Isso era impossível, ele estava quase conseguindo abrir a porta, por que iria parar? Tessa estava sentindo que aquilo era uma armadilha.

Mesmo assim, ela andou até o pé da escada e olhou para cima. Viu a lâmpada balançando e os inúmeros buracos na porta feitos com a lança. Porém, nem sinal dele. Estava tudo tão calmo que ela sentia que era bom demais pra ser verdade.

Quando os ratos começaram a fazer barulho, Tessa voltou a gritar. Foi o que lhe despertou para voltar até a janela e sair o mais depressa possível dali. Subiu nos sacos de comida e colocou as mãos na janela. Então, o assassino atravessou a lança pelo lado de fora e perfurou sua boca. Tessa caiu no chão, ainda com a lança cravada na garganta.

Em fração de segundos os ratos começaram a perambular por cima de seu rosto, andando sobre os olhos ainda abertos e deixando sujeira por toda parte. Alguns achavam que assim, a justiça estava sendo feita.

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Comentários
7 Comentários

Comentário(s)

7 comentários:

  1. Aiiiii amei,adorei a perseguição no posto,adorei o capitulo esta historia esta cada vez melhor,Tessa morreu,não digo que fiquei triste pois não simpatizava muito com ela,mas morrer dessa forma deve ser terrivel.

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  2. Amei o capitulo,até imaginei a perseguição no posto de gasolina,pobre Tessa não gostava dela mais morrer sendo comida por ratos é terrivel,o Anonymous está caprichando nas mortes,é uma mais cruel que a outra Charlie Abrams estaria orgulhoso dele.

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  3. Aff, me dói pensar que a Lola vai ficar com aquela armadilha até a próxima semana kkkkkk! - Eu estou em depressão agora porque eu me apego muito aos personagens, e quando eles morrem eu desabo então... / PODEM ACREDITAR QUE JÁ TA NO CAPÍTULO 9, PARECE QUE FOI ONTEM QUE O PRIMEIRO FOI LANÇADO.

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  4. Aff ;/
    Tem algum motivo para os pais de Skye terem morrido e Corbin também? Por que lembro que em "Pacto Secreto" os outros morreram pelos segredos terem sido compartilhados. Aliás, AMEI a cena da armadilha de urso, criativade excepicional!

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  5. Amei o capitulo
    eu não gostava muito da Tessa mais de uns capitulos para ca eu começei a gostar dela
    Ai meu Deus quem vai ser a Próxima a morrer

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  6. Número de Capítulos alterado.
    Ao invés de 18, agora vão ser 19 =D

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  7. Que bom,teremos um capitulo a mais :D

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