quinta-feira, 17 de maio de 2012

[Livro] A Punhalada 2 - Capítulo 10: A Vítima Perfeita


- Sim, eu já disse, é um Honda civic preto – Disse Aaron ao celular, estava caminhando de um lado pro outro dentro do seu quarto de hotel.

Ficou esperando uma resposta do policial que estava do outro lado da linha, parecia estar se fazendo de bobo, ou simplesmente com preguiça demais de fazer seu próprio serviço. Era tão irritante que Aaron desligaria se aquela pista não ajudasse a pegar o assassino.

- Espere um momento – Pediu o policial.

- Não, eu não posso esperar um momento, pessoas estão morrendo – Aaron fitou a parede de vidro de seu hotel. Colocou uma mão na cintura e suspirou, tinha perdido as contas de quanto tempo estava naquela chamada – Você pode chamar meu pai?

- Ele saiu, recebeu um chamado importante.

- Então você poderia dar o meu recado?

- Tudo bem – O policial suspirou de tédio. Sempre tinha achado Aaron um garoto mimado, e nem ter uma pista sobre o novo assassino o fazia mudar de ideia. Ele nem acreditava que Aaron pudesse estar certo.

- Diga que o assassino dirige um Honda civic preto, peça pra ele fazer um chamado geral, avisar algumas viaturas pra pararem qualquer carro desse tipo.

- Tudo bem Aaron, eu digo – O policial desligou.

Aaron olhou pro celular quando ouviu os apitos de fim de ligação, não sabia se se sentia ofendido pessoalmente ou mundialmente, já que era uma pista importante. Se o assassino realmente dirige um Honda civic preto, o país inteiro deveria parar pra procurar o bendito carro, não importa que tenham uma vida ou achem perda de tempo.

Quando ouviu um baque na porta, olhou pra trás. A primeira pessoa que lhe veio a cabeça foi a faxineira, pois ninguém tinha dito nada na recepção que ele teria visitas. Caminhou até a porta depois de jogar o celular no enorme sofá vermelho da sala de estar. Abriu a porta, sua expressão de surpresa não pôde ser confundida quando viu Amanda parada, com os olhos vermelhos de tanto chorar. Ela estava com o filho nos braços e algumas malas ao seu lado, Aaron sabia exatamente o que aquilo significava.

- Preciso de um lugar pra ficar...

- Ok... – Aaron assentiu devagar, tinha muitas perguntas à fazer, mas aquele não era o momento.

Ele se afastou pra ela entrar. Carregou suas malas depois que ela passou por ele, as deixou ao lado da porta. Amanda começou a olhar o lugar, aquele quarto não era tão diferente daquele que ficara ano passado. Ela sabia que Aaron estava olhando, porém, ele nunca poderia saber no que ela estava pensando, não fazia ideia de que ainda lembrava da morte de Craig como se estivesse acontecendo naquele momento.

- Você precisa de alguma coisa? – Ele perguntou, e pareceu paciente com sua demora pra responder.

- Não, estou bem, não se preocupe.

- Você pode ficar no quarto ao lado do meu, se quiser...

- É perfeito... – Amanda sentou no sofá e olhou para Matty, se sentiu obrigada a sorrir pra ele quando o viu sorrindo.

- Vou preparar alguma coisa pra você comer, arrumar suas coisas e... – Aaron olhou pras malas – Tudo o que precisar. Por favor, não conteste, apenas... Fique aqui o tempo que precisar e não se preocupe com mais nada além do Matty...

- Não vai perguntar o que aconteceu?

- Não agora... Descanse – Aaron se aproximou dela e pegou Matty – Eu cuido dele por hoje.

Ele olhou pro bebê, parecia agitado, estava colocando a mão fechada na boca. Aaron notou suas feições, ele era lindo, poderia até ser dele, se Amanda já não estivesse grávida de três meses na noite em que transaram. Ele levou Matty até a cozinha, deixando Amanda olhando pro nada.

Ela só estava pensando, imaginando, lembrando, e se culpando, era um círculo vicioso. Mas no fundo ela sabia que não merecia tudo aquilo. Ninguém merecia viver essa vida tendo um filho, ninguém merece ser machucado desse jeito e ver as pessoas ao seu redor morrendo.

Devagar, ela deitou no sofá, com os braços embaixo da cabeça. Fitou a mesa no centro da sala e deixou escorrer algumas lágrimas. Nem percebeu que o sono e o cansaço iriam vencer, e aos poucos, acabou adormecendo, perdida no próprio sofrimento.

--

Amanda abriu os olhos, fitou o teto do quarto de hotel de Aaron, mais um dia iria começar. E não era qualquer dia, ela precisava estar preparada pra toda aquela felicidade que a cidade iria comemorar. O bicentenário e o concurso da Miss New Britain, um prato cheio pra quem está dizimado a população da cidade.

Ela olhou pro lado, Matty ainda estava dormindo, parecia um anjinho. Ao lado dele estava seu celular, com o visor piscando, havia quinze chamadas não atendidas de Kyle. Desde a morte de Craig há dois dias ele continua ligando, na primeira noite ela recebeu quarenta chamadas dele, como se isso fosse considerado normal.

Devagar – para não acordar Matty -, ela levantou. Andou até a sala e depois foi a cozinha, estava procurando por Aaron.

Ele não estava lá, havia apenas um bilhete no pequeno frigobar dizendo: “Fui à delegacia, volto ao meio dia. Tem café na mesa da sala, Aaron.”

Amanda arrancou o bilhete para ler mais de perto. Depois o jogou encima da mesa e andou até a sala, mexendo no cabelo bagunçado. Pegou seu café e tomou um gole, estava tão frio que ela teve que cuspir. Deixou o copo exatamente onde estava e ficou andando pelo quarto. Matty não acordava, Aaron não chegava, o banho quente que decidiu tomar não tinha funcionado e como nos outros dias, ela estava entediada. E nem podia sair dali, não poderia correr o risco de encontrar Kyle ou até mesmo ser perseguida por um assassino.

Ela correu até o quarto de Aaron, queria encontrar alguma coisa pra se divertir. Internet, era uma poderosa arma para matar o tédio. O laptop de Aaron estava encima da cama, por sorte, não teria que procurar que nem louca como fizera ontem.

Sentou na cama e apertou uma tecla qualquer só pro descanso de tela desaparecer. Aaron parecia não ter terminado o que estava fazendo, algumas janelas estavam minimizadas, mas apenas uma chamou sua atenção. Era um arquivo de texto com o nome de “O Fantasma de New Britain”. Ela o abriu, ficou curiosa, mas desejou não ter feito isso quando viu do que se tratava. Não podia ser outra coisa, era um livro escrito por Aaron contando a história dos assassinatos de um ano na sua versão.

Ela não sabia se sentia nojo, se chorava ou se quebrava tudo como uma amiga traída. Aaron tinha prometido não fazer aquilo, e estava obviamente mentindo. Ao passar pela parte em que ele escreve sobre o ataque no Vulcanical’s, ela precisou se levantar, ou iria fazer uma besteira.

--

Aaron cruzou os braços em frente a TV, tentou fixar o olhar no rosto do video de Brandon, queria saber se ele podia dar outra pista. Bem atrás dele estava seu pai, junto de dois policiais. Megan estava sentada na cadeira perto de uma das mesas de ferro, brincando com seu chiclete, mas ainda assim conseguia prestar atenção no vídeo.

Antes de terminar, o policial Bill entrou na sala. Aaron deu pause, sabia que ele iria atrapalhar.

- O que estamos fazendo aqui, exatamente? – Perguntou o delegado.

- Vendo se perdemos alguma coisa – Respondeu Aaron – Vendo se o video dá alguma pista, qualquer coisa...

- Já mandei meus homens pararem todos os Honda civic pretos, não acho que vamos encontrar alguma coisa neste video. O garoto está morto, obviamente o assassino encontrou o video e quer que a gente quebre a cabeça tentando desvendar o que não precisamos.

- Acho que o senhor está certo, delegado – Disse Bill – É uma perda de tempo.

- Esse video é uma mensagem, tudo é uma mensagem e faz parte de seu jogo doentio.

- É isso ai bebê – Megan assentiu, colocou o chiclete de volta na boca quando percebeu que tinha chamado atenção.

- Qualquer coisa importa, qualquer detalhe – Continuou Aaron – Ano passado o assassino deixava pistas, também deixou um pen drive dentro de uma das vítimas e no fim tudo se encaixou.

- O seu caso com Trish Peterson? Todo mundo sabe – Respondeu Bill, dando um ar de risos, estava provocando-o sem disfarçar. Era apenas uma coisa que todos os policiais dali faziam.

- Não foi um caso, ficamos algumas vezes como os adolescentes fazem e o assassino usou isso porque sou famoso e queria que seus crimes tivessem uma maior repercussão, já que Trish foi uma das primeiras. Não é grande coisa.

- Tudo bem – O delegado suspirou – Aaron, eu já ouvi você, já vimos o video, que tal deixar o resto do trabalho pros detetives?

Aaron começou a tagarelar em sua defesa, os policiais pareceram entediados. A única que deveria estar prestando atenção era Megan, porém, ela estava mais interessada no vídeo. Estava olhando pra expressão de Brandon, ele realmente tinha um olhar psicopata e começou a se sentir uma idiota por não saber.

Ela cerrou os olhos, talvez pra ver melhor, estava tentando achar alguma coisa que ajudasse Aaron. Porque ele tinha razão, aquilo era uma pista, no final faria sentido. E se tem algo haver com Brandon, está naquele video.

- Deixar a policia trabalhar, papai? – Aaron sorriu com desdém – Que tal vocês primeiro acharem os corpos das filhas do casal assassinado por Brandon Rush há dois anos antes de falar sobre sua competência? Sem falar nos dois policiais que deveriam vigiar a casa dos Fuller, mas por alguma razão não estavam lá e mais um civil morreu.

- Estamos trabalhando nisso, Aaron – Disse seu pai, o tom da voz parecia autoritário.

- Ai meu Deus! – Megan se levantou, cuspiu o chiclete nos pés de Bill e continuou a falar – Não é possível que vocês não percebam! Perdem tempo brigando quando a resposta está na cara de vocês!

- O que? – Aaron fez uma careta enquanto Bill chutava o chiclete de seu pé, ambos prestando atenção em Megan.

- Olhem pro video! – Megan olhou, assim como todos os outros – O que vocês veem?

- Hã... – Aaron ficou pensando – Brandon com uma expressão demoníaca?

- Não, vocês precisam enxergar além! Não é Brandon, o que tem atrás dele?

- Alguns pôsteres de filmes de terror... – Respondeu o delegado.

- Exato! – Megan se aproximou da TV – Mas não qualquer pôster! Olhem, é o massacre da serra elétrica e Brinquedo Assassino, encima de Pânico – Ela apontou pros pôsteres do lado esquerdo, depois foi pro outro lado da tela – E aqui Lenda Urbana e Pacto Secreto.

- Ok... – Aaron fez outra careta, ainda não estava entendendo, e era mais fácil acreditar que Megan estava dizendo coisas sem sentido.

- São as mortes, bebê! Primeiro Ashley, foi o massacre da serra elétrica, ela foi pendurada em ganchos! Depois Brinquedo Assassino, Zoe morreu, estava escrito o nome do filme na parede e ela foi jogada de um prédio igual a ingênua do filme!

Megan hesitou, ficou olhando para Aaron e o Delegado, eles estavam juntando as peças, faziam aquela cara de “como eu não tinha percebido antes?” que ela estava adorando.

- Depois Miley e Trent, na rádio, como Lenda Urbana, a loira peituda que morre diva da deformação depois de várias machadadas! E o fato de termos encontrado Ellie Harrington daquele jeito na escada do campus com o nome “Pacto Secreto” escrito com sangue, completa tudo!

- AI meu Deus... – Sussurrou Aaron, em choque. Ele se aproximou da TV e colocou o dedo encima do pôster do filme A Mão que Balança o Berço – O nome desse filme estava escrito no berço do filho de Amanda quando foi atacada pela primeira vez naquela noite.

- Então... – O delegado se aproximou – As mortes estão acontecendo como nos filmes em que aparecem neste video atrás de Brandon? Megan, você é boa.

- Apenas me chame de Megan Bower – Megan cruzou os braços – Este nome ecoará pelo universo como um Kamehameha – Megan levantou uma sobrancelha, deixando o delegado Estwood sem palavras.

- Você precisa se arrumar, Megan, não se esqueça do concurso – Disse Aaron – Não pode se atrasar, chego assim que vir como Amanda está.

- Você vai torcer por mim, não é, bebê?

- É claro – Aaron a beijou – Agora vá, e não se preocupe, a policia vai cercar aquele lugar. Esse idiota nunca vai tocar em você, eu prometo.

- Ok – Megan lhe deu um beijo e saiu correndo pela porta.

Aaron ficou olhando pra ela, se não ganhasse aquele concurso seria uma injustiça, ela era tão linda que chegava a dar pena das outras garotas. Ele olhou pro vídeo mais uma vez, estava tentando se focar nos pôsteres que ainda não tinham ligação com nenhuma morte. Engoliu em seco quando notou o pôster de “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado”, e não entendia o porquê da tensão.

--

As ruas de New Britain estavam lotadas. Parecia um carnaval particular, cheio de cores, pessoas dançando, musica alta, praticamente a cidade inteira estava ali. O delegado andava de um lado pro outro perto dos carros alegóricos, procurando qualquer pessoa que parecesse querer perturbar a paz.

Do outro lado do desfile os outros policiais faziam seu trabalho. Bill estava escorado em sua viatura comendo um cheeseburguer e observando as garotas que passavam. Daqui a pouco o concurso iria começar e uma sortuda sentaria no carro alegórico com o formato de um castelo, tornando-se assim a Rainha daquele ano. Mas a comemoração levantava algumas duvidas. Ano passado não houve por causa das mortes, e este ano também houve mortes, mas por alguma razão, a comemoração não foi adiada.

Megan estava em um dos teatros da cidade, bem perto de onde Bill estava. Ainda no camarim, parecia não ter coragem pra ser por causa do nervosismo. Ela se olhava no espelho e via uma pessoa feia, aquele maiô parecia não combinar com seu tom de pele, não como combinavam com as garotas que estavam ao seu lado.

Por sorte, as garotas logo a deixaram sozinha, Megan pôde finalmente desabar. Abriu sua bolsa em forma de onça e tirou de lá um saco marrom, começou a respirar dentro dele.

- Megan? – Perguntou Aaron, tinha acabado de entrar no camarim.

- Eu não estou preparada para esta sequencia – Disse ela, com a respiração ofegante – Não sei se consigo, eu não sou Amanda, só cheguei até o terceiro ato porque me salvaram.

- Hey, eu estou aqui – Aaron a abraçou – Nada vai acontecer, eu prometo, tem policiais por toda parte. Quando ele aparecer, vamos pegá-lo.

- Não estou gostando muito desse plano, não sei se vou ganhar...

- Você é Megan Bower – Aaron segurou em seus ombros – É claro que você vai ganhar. Você é a garota mais bonita dessa cidade e eu te amo.

- Eu também te amo, apesar da empregada dizer que eu amo mais o seu dinheiro e a sua fama.

- Precisamos despedir essa vadia – Aaron sorriu.

- Eu concordo.

Eles ficaram se olhando nos olhos, não queriam dizer mais nada. Aaron se aproximou devagar do rosto dela, Megan apenas fechou os olhos e esperou pelo beijo. Quando seus lábios se tocaram, ela sentiu um frio na barriga, aquele que sempre sentia quando ele estava perto ou dava aquele sorriso que ela tanto amava. Aaron sentiu o mesmo, era como ter borboletas espinhosas no estômago, doía sentir toda aquela excitação e ansiedade quando estava perto dela, mas era a melhor sensação de todas.

- Você borrou meu batom – Ela disse, roubando um sorriso dele.

- Você precisar ir pro palco agora, ta cheio de gente aqui.

- Tudo bem, só me dê cinco minutos, preciso ir ao banheiro...

- Certo, boa sorte – Aaron se afastou – Não que você vá precisar.

Megan sorriu, seu rosto corou imediatamente. Ela assistiu Aaron saindo do camarim com um olhar de garota apaixonada. Se ela ganhasse o concurso, teria tudo o que sempre quis. Aaron e o reconhecimento das pessoas, era tudo uma questão de tempo até ela ter seu próprio programa de TV.

Do outro lado, Aaron observou a multidão, cruzou os braços enquanto imaginava a emoção de ver Megan ganhando. Viu alguns policiais por lá, ela estaria segura daquele jeito.

- Aaron – Disse Amanda, ele virou para vê-la – Onde está Megan?

- Hey, o que você está fazendo aqui? Pensei que ficaria o dia todo no hotel.

- Não pude ficar lá, precisava de respostas.

- Tipo, quais?

- Tipo por que você está escrevendo um livro sobre a minha vida.

A expressão de Aaron mudou, era constrangedor, e até mesmo, humilhante. A ultima coisa que esperava era que Amanda descobrisse sobre aquilo.

- Amanda, eu...

- Sabe Aaron, por um tempo eu até pensei que você poderia ser uma boa pessoa – Amanda cruzou os braços – Mas já vi que a fama vai sempre ser mais importante. Boa sorte com sua carreira de escritor... – Amanda deu meia volta e começou a andar, mas parou quando Aaron disse seu nome. Olhou pra ele com desinteresse, nada do que ele dissesse poderia explicar o que ele fez.

- Eu não vou publicar aquilo, Amanda, não é um livro. Eu nunca tiraria vantagem de você e do seu sofrimento, por favor, acredite em mim.

- Não seja cínico...

- Amanda, aquilo é apenas uma nota, é como... Um diário. O que eu mais amo é escrever e eu tive que escrever sobre isso, me afetou bastante, eu quase morri... Eu não tenho ninguém pra conversar além de um psicólogo que só finge se importar porquê eu o pago...

Amanda hesitou, não podia negar que sua explicação fazia sentido. Porém, era tudo conveniente demais. O que ela leu era um livro, tinha até numeração de páginas, capítulos, parecia ser uma obra prestes a ser publicada. Mas se fosse, o mundo inteiro iria saber a versão de Aaron sobre como Brandon Rush destruiu tudo ao seu redor, e era o mesmo que viver tudo aquilo de novo.

Mais pessoas iriam lhe conhecer, apontar o dedo na rua, criar fanfics estúpidas sobre o ocorrido na internet. O livro imortalizaria toda aquela história que o país inteiro estava tentando deixar pra trás. E quando Matty crescesse? O que aconteceria se ele lesse? Amanda ainda estava em duvidas sobre as reais intenções de Aaron, mas não podia negar a si mesma que queria acreditar nele. Era seu melhor amigo, não poderia se dar ao luxo de vê-lo traindo-a.

- Não sei se acredito em você...

- Eu imploro pra que acredite... – Aaron se aproximou – Eu nunca faria isso com você, muito menos agora que eu mudei...

Amanda olhou pro lado, ainda indecisa. Poderia deixar tudo do jeito que está por agora pra depois conversarem. Megan estava prestes a subir ao palco, aquilo era importante pra ela e Aaron.

Mas, apesar de ter que subir ao palco, Megan ainda estava longe disso. Tinha acabado de pegar a bolsa pra ir até o banheiro fazer um ritual antinervosismo. Passou pela porta marrom do outro lado da sala e chegou a um corredor branco. Viu alguns homens por lá, estavam com algumas fantasias nas mãos, provavelmente vestiriam pra encenar a peça sobre a criação da cidade e os colonizadores.

Ela dobrou em outro corredor, um pouco mais estreito. Havia uma escada branca ao final, ela não fazia ideia de onde poderia levá-la. Também havia muitas portas, ela poderia se perder dentro daquele lugar, considerando que naquele momento, estava completamente vazio.

Andou mais um pouco depois de passar por mais uma porta, até chegar num corredor azul. Entrou pela porta que tinha uma figura de uma mulher com saia, era o banheiro feminino.

Correu pra primeira cabine da direita, estava apertada, acreditava que era por causa do nervosismo. Quando terminou o que tinha ido fazer, andou até o espelho, se equilibrando nos enormes saltos vermelhos que combinavam com seu maiô e o pequeno vestido que usava por cima. Sua imagem no espelho ainda não era de seu agrado, porém, iria confiar no que Aaron dissera. Ela era linda, tinha personalidade e possivelmente seria a ganhadora, só bastava acreditar em si mesma... E no remédio tarja preta que ela sempre leva na bolsa.

- Calma Megan, vai ficar tudo bem... – Ela sussurrou pra si mesma enquanto tirava a cartela da bolsa.

Colocou um comprimido na boca e o engoliu com a água da torneira. Ficou pensando por alguns segundos. Se ela estava nervosa de um jeito que nunca tinha ficado, poderia precisar de mais uma pílula. Tomou a segunda assim que guardou a cartela na bolsa. E mais uma vez encarou o espelho. Ajeitou o cabelo loiro e se obrigou a usar uma expressão de superioridade.

- Linda, rica e safada, você vai vencer, Megan Bower, você vai vencer – Ela disse a si mesma antes de sair do banheiro.

Com os saltos estalando no chão, Megan caminhou pelos corredores, tentando pensar em coisas positivas. Se ela perdesse, ficaria devastada, mas talvez isso ajudasse a pegar o assassino. Mesmo assim, ainda não tinha entendido o plano. Ela seria uma isca? Como eles podiam ter tanta certeza que o assassino apareceria?

Com um barulho estranho que ouviu, ela parou de andar e olhou pra trás. Pensou ter visto um vulto, mas não tinha ninguém ali. Ela não se atreveria a dizer “olá”, não naqueles corredores insanos.

Ela correu o mais rápido que pôde na direção do camarim, tentando fugir de todo aquele clichê que poderia indicar que ela estava em perigo. E a fuga do possível clichê se tornou uma luta pela sobrevivência quando o assassino abriu a porta e a atacou. Aos gritos, ela desviou de uma facada certeira que deformaria se rosto. Jogou sua bolsa pra cima dele e correu até o camarim. Conseguiu entrar, mas precisava de uma saída. Correu até a porta por onde Aaron saiu, mas ela estava trancada.

- Alguém me ajude! – Gritou ela, batendo na porta – Socorro! Socorro!

Antes que alguém pudesse ouvi-la, o assassino a alcançou. Tentou lhe acertar uma facada, mas ela rapidamente desviou, fazendo a faca acertar a porta. Não tinha outro jeito, sua única chance de sobreviver era se arriscar naqueles longos corredores.

Tentou abrir a primeira porta que viu, agradeceu a Deus mentalmente por ter conseguido entrar. Havia outro corredor, dessa vez, com duas portas. Entrou na primeira, era onde guardavam as fantasias, seria um bom lugar pra se esconder. Porém, não tinha tempo pra pensar, ela pôde ouvir o assassino abrindo as outras portas e chegando cada vez mais perto.

Rapidamente, Ela correu por entre as fantasias, sem saber exatamente pra onde ir. Tentou andar em zigue zague e se esconder atrás de uma roupa pesada, ou encontrar qualquer porta que lhe tirasse dali.

- Merda...  – Ela sussurrou.

Correu por entre as fantasias e ficou entre a parede da sala e um pirata. Tentou controlar a respiração, qualquer barulho que fizesse poderia resultar em sua morte. E pro seu azar, o assassino já estava lá dentro. Ela ouviu o barulho da porta se abrindo, colocou a mão na boca pra evitar um grito e ser descoberta.

Era só esperar até ele se cansar de procurar. Era um bom esconderijo, e se ela se movesse, talvez pudesse sair dali com vida. Ela deu alguns passos pra direita, tomando cuidado pros seus saltos não fazerem barulho. E depois de mais dois passos, parou, estava perto da fantasia de um monstro, dava medo só de olhar.

Mas tinha alguma coisa errada, ela sentia algo gelado em suas costas, parecia que a parede estava molhada. Quando olhou pra trás, percebeu que estava encostada em sangue. Logo pensou que tinha alguém morto ali, mas ao afastar as fantasias, ela pôde ver perfeitamente. As palavras “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado” estavam escritas com sangue, escorrendo pela parede inteira.

Então, aquela era sua morte, aquele era o local onde a colocariam morta pra ser exibida como parte do jogo doentio de filmes de terror que alguém estava fazendo de novo. Era a sua vez, ela sabia exatamente o que aquilo significava.

Devagar ela foi andando pra trás, ainda com a mão na boca, lágrimas escorriam de seus olhos. E de repente, seu celular tocou. Diante daquele silencio, seu toque parecia ensurdecedor. Ela sabia que seria descoberta, por isso o tirou do bolso e atendeu.

- Estou na sala de fantasias tem alguém tentando me matar! – Foi a única coisa que ela conseguiu dizer, foi agarrada por trás pelo assassino.

Ele a carregou, ela balançou as pernas pra querer descer. Eles acabaram caindo no chão, foi a oportunidade perfeita pra sair correndo daquela sala. Mas, não tinha como fugir pra onde as pessoas estavam, a porta estava trancada, ela morreria se fosse naquela direção, por isso escolheu o outro corredor.

Subiu as escadas brancas no final, olhando pra trás, seu salto direito quebrou quando estava chegando no andar de cima. Ela o chutou pelos buracos entre os degraus e continuou a subir. Estava em outro corredor branco, idêntico ao do andar de baixo, e a única coisa que via além de inúmeras portas era uma janela de vidro no fim, de onde ela podia ver os carros alegóricos.

Seus olhos brilharam com a vista, era lá que tinha ajuda, ela poderia sobreviver a aquele ataque se pelo menos conseguisse chamar a atenção de alguém do lado de fora. Porém, seu rosto já mostrava traços de que tinha sido difícil chegar ali. Ela tinha suor escorrendo pelo rosto, o batom estava borrado, o rímel quase escorrendo junto com as lágrimas.

Mas, ela estava longe de desistir. Mancando por estar apenas com um salto, ela correu até a janela e olhou pra baixo. O policial Bill estava bebendo café perto de seu carro, observando o desfile.

- Hey! – Ela gritou, batendo na janela – Socorro!

Ela continuou a gritar enquanto batia na janela, sem saber que ninguém poderia ouvi-la por causa da musica alta. Ninguém estava prestando atenção para aquela janela, parecia um beco com tijolos expostos onde ninguém iria. Havia uma enorme lixeira embaixo da escada preta de incêndio, que Megan só conseguiria chegar se quebrasse o vidro da janela da próxima sala.

- Merda! – Ela gritou, tentando controlar o choro.

Tirou o salto que lhe restou e quebrou a janela. Agora seus gritos não estavam tão abafados, Bill olhou pros lados, pensando ter ouvido alguma coisa. Megan, então, jogou seu salto na direção dele. O policial foi acertado na nuca e finalmente olhou pra trás. Sua expressão de contentamento ao assistir o desfile mudou completamente quando viu Megan histérica gritando por ajuda.

Megan olhou pra trás quando ouviu um barulho estranho vindo das escadas. Fungou e tentou controlar a respiração, se o assassino ainda estivesse ali, subiria por aquelas escadas, ou havia outro jeito?

Quando o mesmo barulho se repetiu, ela correu pela porta da direita. Olhou ao redor, estava numa sala onde havia inúmeras cadeiras e um quadro magnético no fundo. Parecia ser o local onde davam palestras, ou algumas aulas, poderia ser o local perfeito pra se esconder se não tivesse tantas portas de acesso. Fora a que Megan passou, havia mais duas no fim da sala, no lado direito e esquerdo da enorme tela branca.

Ao caminhar pela sala, ela acabou tropeçando em algumas cadeiras e as empurrou pro lado. Olhou pra porta pela qual entrou, estaria segura se entrasse por todas as portas que pudesse, e então era só se esconder e esperar alguém procurá-la. Ela nunca sairia do esconderijo, mesmo que o assassino desaparecesse, estava lembrando dos filmes de terror que já tinha assistido pra fazer exatamente o contrário, e assim, sobreviver, mesmo quando estava sendo difícil pensar em algo que não fosse correr.

Ela correu pela porta vermelha da esquerda e chegou a outro corredor, aquilo parecia não ter fim, aquele prédio era enorme. Ela forçou as portas do corredor, mas apenas a ultima abriu, aquela que lhe levou a outra sala parecida com a anterior, porém, com muito mais cadeiras e com escadas que levavam pro lugar onde havia um grande telão. Parecia um cinema, até as cadeiras eram revestidas por um couro vermelho.

Ao prestar atenção pra perto do telão, notou que o policial Bill estava lá, com a arma nas mãos. Ainda não tinha visto Megan, estava procurando-a, ou qualquer pista que lhe indicasse onde ela e o assassino estavam.

- Bill! – Ela gritou, o mais alto que pôde.

Bill olhou pra ela com a arma apontada. Quando percebeu que não tinha perigo, abaixou a arma devagar. Viu que ela estava bem, estava viva, era só tirá-la dali e salvar o dia. Era exatamente o que Megan estava pensando, até sorriu quando percebeu que a ajuda estava perto e não seria assassinada. Correu na direção dele, segurando o vestido pra não esbarrar no chão, e parou assim que a figura de ghostface surgiu nas sombras por trás do policial.

- Não! – Ela gritou.

Bill olhou pra trás, mas não a tempo. Recebeu uma facada nas costas a gritou. Abaixou os braços e sem querer, apertou o gatilho. A bala seguiu na direção de Megan, mas acertou a parede, ela caiu no chão com o susto. Bill teve a garganta cortada e a segurou, o sangue escorria por suas mãos e de sua boca só saiam grunhidos estranhos. Ele caiu, assim que não teve mais forças pra ficar em pé, encima da mesa de madeira em frente ao telão.

O assassino correu na direção de, já tinha perdido tempo demais tentando matá-la. Ela correu pelo corredor onde estava, pra abrir todas aquelas portas que já tinha tentado abrir.

- Não me mate! Não me mate! – Ela gritou, correndo de uma porta pra outra, girando as maçanetas freneticamente.

O assassino tentou esfaqueá-la, mas ela desviou e correu pra porta do outro lado. Não podia aceitar que iria morrer.

 – Eu não sou a Buffy! Eu não sou a Buffy! Eu nem sou loira! Eu sou a Miss! Eu sou a Miss Branca! Sai daqui! – Ela gritou.

O assassino conseguiu alcançá-la, sabia que seria uma morte fácil. bateu o rosto dela na parede, fazendo um ferimento nos lábios, mas essa era a ultima preocupação de Megan no momento. Ela pôde sentir o momento em que a faca atravessou sua pele pelas costas. E a dor era tão grande, que ela não teve forças pra gritar, sentiu-se inútil naquele momento. Era o fim.

Por pura sorte, Aaron apareceu no exato momento em que ela  receberia a segunda e derradeira facada. Ele estava com uma arma na mão, e não pensou duas vezes em disparar contra o assassino.

- Megan! – Ele gritou, antes de disparar.

O assassino correu, deixando Megan sangrando no chão. Aaron disparou novamente, mas não conseguiu acertar. O assassino dobrou no corredor e desapareceu, como sempre fazia. Aaron teria ido atrás dele, se Megan não estivesse no chão, sangrando, precisando urgentemente de atendimento médico. Ele correu até ela, atrás dele, vinham dois policiais, com suas armas preparadas pra qualquer disparo necessário.

- Ele foi pelas escadas! – Disse Aaron, o policial correu pra lá.

Aaron se abaixou, olhou nos olhos de Megan, ela estava perdendo muito sangue.

- AI Meu Deus, meu Deus! Você vai ficar bem – Aaron segurou na mão dela e apertou.

- Você me salvou... – A voz de Megan saiu cheia de falhas, ela não conseguia respirar e parecia estar sonolenta.

- Deus, não morra! Não morra, você não pode me deixar, você não pode fazer isso comigo...

- O que está acontecendo? – Perguntou o delegado, tinha acabado de chegar ao corredor – Eu ouvi um disparo! – Ele olhou para Megan no chão, viu o que tinha acontecido – Vou chamar uma ambulância.

- Eu faço isso – Disse o outro policial, saindo correndo, no exato momento em que outro policial apareceu.

- Senhor, O Oficial Bill está morto – Disse o policial, era a primeira vez que havia saído da delegacia – Viemos o mais rápido que pudemos quando ele chamou reforços... Eu sinto muito...

O delegado abaixou a cabeça e deu um suspiro. Olhou pra trás, o filho ainda estava ao lado de Megan.

Aaron apertou mais ainda a mão da namorada, uma lágrima caiu de seus olhos, ela não podia morrer ali, daquele jeito, era injusto, era revoltante.

- Eu vou matar o desgraçado que fez isso com você... Nem que seja a ultima coisa que eu faça na vida.

Nesta Quinta...
Amanda: Me desculpe por ter desconfiado de você.
Aaron: Parece que de repente tudo está desmoronando e eu não posso fazer nada pra impedir...
Amanda: Eu sinto muito.
QUEM
Repórter: A jovem Megan Bower que sobreviveu aos crimes de Brandon Rush e Sarah Richards no ano passado foi esfaqueada dentro do teatro principal da cidade [...]
Kyle: Amanda?
Amanda: Me tira daqui.
Kyle: Pra onde você quer ir?
Amanda: Qualquer lugar.
QUEM QUER
Kyle: A gente sai daqui, vai viver nossa vida em outro lugar.Vem comigo?
Amanda: Não é fácil fugir disso tudo.
QUEM QUER MATÁ-LA?
Amanda: Alô, delegado? O que aconteceu?
Delegado: Saia daí imediatamente! Ele é o assassino!
Amanda: Sai daqui! É você!
A Punhalada 2, dia 24 de Maio
11- O Irmão Pródigo
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Comentário(s)

6 comentários:

  1. Acho que o trailer meio que entregou que é o Kyle

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  2. Não posso acreditar que a Megan morreu,isso é muito injusto =/,a cena dela com o Aaron foi muito linda.Então o Matty é mesmo filho do Brandon,é uma pena pobre criança,estava pensando será que o assassino é uma das irmãs do Brandon?,por que se elas nunca foram encontradas é possível que uma delas esteja viva(ou as duas),elas podem estar revezando nas mortes(ou estou viajando na Hellman's rsrs).Será que o delegado está falando do Kyle?,vou ter que esperar até quinta que vem.Até la pessoal.

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  3. NÃO A MEGAN NÃO!
    PELO AMOR DE DEUS NÃO A MATEM!
    TOMARA QUE SEJA IGUAL A GALE EM PANICO 4!
    SERÁ QUE O KYLE É O GHOSTFACE?

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  4. Se matar a Megan eu mato o João Lindley. É sério

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  5. Meu Deus eu não acredito nisso Megan não morreu mentira não tem como serio se você matar ela essa historia vai ser uma bosta

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  6. Acho que o Brandon tem um irmão gemeo e é ele no video,esse irmão foi abandonado como o Brandon e separado dele,como os assassinatos ganharam notoriedade,ele descobriu suas origens e resolveu seguir o ''legado do irmão'' e matar assim Amanda então ele se une a Chloe que quer desesperadamente ser famosa e o centro das atenções em New Britain e começam o novo massacre

    eu acertei? viajei? querem me matar por revelar o final do filme? kkkkkkkkkkk

    é so minha teoria.

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