sábado, 4 de fevereiro de 2012

[Livro] Destino Final - Capítulo 8: Me Tirem Daqui

Rachel batia o pé no chão, era mais um de seus tiques nervosos que não conseguia controlar. Suas mãos pálidas estavam encima da mesa marrom da sala de interrogação da delegacia e toda vez que ela lembrava disso algo lhe mandava ficar calma, pois ela não tinha culpa de nada. De vez em quando ela fitava o enorme espelho duplo a sua frente, sabendo que do outro lado tinha alguém vigiando.

Chad estava na ponta da mesa, de costas para a porta, não tirava os olhos da caneta com que brincava, ela pertencia ao detetive Norton, que tinha saído da sala há pouco tempo depois de um interrogatório bastante interessante, onde ele ficava apenas calado, olhando para os dois como se eles fossem culpados.

Do outro lado da sala, Os detetives Norton e Wilson tinham uma discussão, cada um acreditando numa versão da história.

- Eu estou dizendo – Norton quase gritava – Aconteceu mais uma morte aqui, e não qualquer uma, mas de um dos sobreviventes daquele acidente. Coincidência seria se eles tivessem continuado vivos!

- Não disse que foi coincidência! – Wilson tentava ser calmo, mas Norton estava tirando ele do sério – Só disse que culpar dois adolescentes que têm um futuro pela frente de um acidente de navio e de três assassinatos vai além de tudo o que eu acredito.

- Não disse que foram eles, só disse que eles sabem de alguma coisa ou não teriam estado na cena do crime – Norton olhou para Rachel pelo espelho, bem no momento em que ela olhou. Ele sentiu que ela estava observando ele e isso lhe rendeu um calafrio.

- Não foi um crime, foi um acidente. Alice Summers caiu de uma altura de quinze metros depois que os cabos de aço de onde ela estava se soltaram. Zac Sanders cometeu o erro de entrar em um elevador com defeito e foi esmagado. Quanto a Serena Biltz, eu não faço idéia do que aconteceu. E talvez eles saibam de alguma coisa, mas ninguém contaria nada a um detetive como você.

- Há! – Norton sentiu-se ofendido, por isso deu um leve sorriso – Se você não quer descobrir o que está acontecendo, eu quero! – Ele saiu pela porta e a bateu com força, mesmo com os gritos de Wilson que mandavam-no parar.

Na saída, Norton acabou dando de encontro com um policial e derramou seu café, mas não estava ligando, entrou na sala com fúria e jogou seus papéis na mesa, fazendo Rachel dar um pulo de susto. Chad não se moveu, apenas olhou para ele, deixando claro que nunca iria conseguir intimidá-lo.

- Você podem enganar os outros com essas carinhas de anjo, mas eu sei que vocês estão escondendo alguma coisa. Eu quero saber o que aconteceu naquele navio e porque os sobreviventes estão morrendo.

- Então somos dois – Respondeu Chad, ele realmente estava provocando.

- Ah, então... Vocês vão dizer que não sabem?

- Não podemos fazer nada...

- Chad... – Rachel percebeu o que ele estava fazendo e chamou seu nome num tom suplicante e ao mesmo tempo de repreensão.

- E por que vocês estão com cara de culpados? – Norton olhou para os dois, um de cada vez, eles realmente pareciam culpados, ou que estavam escondendo alguma coisa – Se vocês querem que eu acredite que não sabem de nada, acho melhor desistirem, porque eu sei que vocês sabem e só vão sair daqui depois que eu souber. Então, quem vai ser o primeiro?

- A gente não sabe de nada – Respondeu Rachel, quase alterada.

- Você não pode nos manter aqui – Chad olhou nos olhos dele, estava farto daquilo.

- Eu posso fazer o que eu quiser! – Gritou Norton próximo ao rosto de Chad, que quase deu um pulo, mas tentou disfarçar.

Do outro lado da sala, Wilson apenas observava, queria ver até onde iriam chegar com o método de Norton, que ele repreendia sempre.

Chad engoliu em seco, esperando pelo próximo grito de Norton, mas não aconteceu. Norton olhava nos olhos dele com uma expressão de fúria, mas estava se sentindo estranho. Era uma sensação gelada e macabra que só podia vir de dentro dos olhos azuis de Chad.

- Tudo bem – Respondeu Chad, aproximando-se mais de Norton – Mas você não vai gostar do que eu tenho a dizer.

Rachel fitou Chad, intrigada, ele iria inventar alguma coisa pra eles saírem dali? Porque até onde ela sabe, eles não faziam idéia do que estava acontecendo, a não ser que todos que saíram daquele navio estavam morrendo, um por um.

Norton se afastou de Chad e suspirou, estava mais calmo. Colocou as duas mãos sobre a mesa e olhou pro garoto, esperando uma resposta.

- Fale.

- Nós não fizemos nada. Nem no navio, nem com Alice, Serena ou Zac, mas nós sentimos.

- Você viu eles morrendo igual como viu no navio?

- Não, não vi, mas eu senti... – Chad olhou pra caneta na mesa, parecia tremer com um vento que nem estava ali – E ela também sentiu...

Norton olhou para Rachel rapidamente, tempo o suficiente para ele perceber que ela engoliu em seco.

- Eu acho... Eu acho que não deveríamos ter saído daquele navio – Chad olhou para Norton, que ainda estava sério.

- Você está dizendo que todos vocês mereciam morrer?

- Não, nós não merecíamos, mas deveríamos... A visão que eu tive foi muito real, eu sonho até hoje com isso, todas as noites, procurando algum detalhe que eu perdi e só o que eu consigo pensar é que todos morreriam ali da mesma forma que eu vi se tivessem ficado... – Chad abaixou a cabeça, lembrando das cenas de sua visão – Alice foi a primeira... Depois Serena... Depois Zac... – Cada nome que ia falando era uma lembrança, e era tão real que parecia que ele estava realmente os vendo morrendo em sua visão e como morreram na vida real.

- O que você está dizendo?

- O que eu estou dizendo... – Chad repetiu, antes de olhar novamente para Norton – Estou dizendo que eles estão morrendo exatamente na ordem em que deveriam ter morrido...

- Meu Deus... – Sussurrou Rachel para si mesma, não sabia daquela teoria, mas tudo pareceu fazer sentido depois de saber dela.

- Você está brincando, certo? – Disse Norton, incrédulo, mas estava longe de estar sorrindo.

- Parece que eu estou brincando?

- Senhor Barclay, o senhor usa drogas?

- Há! – Chad sorriu, debochando – Pode pensar o que quiser, não vai ser eu quem vai juntar os restos do próximo corpo mesmo...

- Moleque! – Norton partiu pra cima dele, fazendo Wilson correr da outra sala rapidamente para apartar a briga.

Rachel levantou-se da cadeira e ela caiu no chão. Quase deu um grito, mas se segurou. Norton estava puxando Chad pela camisa, o garoto apenas o empurrava para tentar se livrar, mas era fraco demais, assim como todos disseram sua vida inteira.

Wilson abriu a porta antes que Norton agredisse Chad. Ele agarrou o detetive, que gritava coisas ofensivas.

- Vocês podem ir – Disse Wilson, sua voz saiu com falhas já que estava tentando conter Norton nos seus braços.

Chad não disse nada, apenas saiu, furioso. Rachel foi atrás dele, correndo, estava tentando alcançá-lo. Mas Chad estava realmente furioso, não com Norton ou outra pessoa, mas sim com o que estava acontecendo. Fazia muito sentido a teoria que criara quando ele e Rachel estavam sozinhos e sem dizer uma só palavra. Se aquela era realmente a resposta, mais pessoas iriam morrer, incluindo ele. E mesmo assim, várias outras respostas precisavam ser respondidas, como por exemplo, por que sempre que alguém vai morrer ele e Rachel sentem alguma coisa? Por que ele e Rachel tiveram a visão do navio explodindo?

Era tanta raiva que ele mal conseguiu se conter, deu um soco na parede e feriu seus punhos. Rachel chegou bem na hora e tocou em seu ombro, uma péssima idéia, já que ele se virou e gritou com ela.

- O que você quer?

- Chad, eu... Você está bem? – Ela tentou ser gentil.

- Não, eu não estou bem! Por que todo mundo tem que morrer perto de mim? – A delegacia inteira parou para ouvir seus gritos.

- Chad, não é assim!

- Só... Me deixa em paz... – Chad se retirou, deixando Rachel com as palavras na ponta da língua.

Ela observou ele saindo, assim como todos ali. Segurou na alça da bolsa marrom e deu um suspiro, aquilo também era demais pra ela, não conseguia mais suportar tudo aquilo, mas sabia que não chegava nem perto do que Chad estava sentindo. A morte de seu pai destruiu sua vida em todos os sentidos, era demais pra ele ter que lidar com visões de acidentes macabros e a morte de pessoas ao seu redor. Mas Rachel sabia que ele não poderia se isolar, ele sempre ficou sozinho, só precisava de alguém ao seu lado para conversar, alguém que não dissesse que ele era louco depois de desabafar.

Foi isso que fez Rachel sair correndo da delegacia atrás dele. Ela olhou para os dois lados, gritando seu nome. Ele estava correndo pela calçada do lado direito que foi para onde ela correu, gritando seu nome novamente. Mas ele não iria parar, estava ouvindo seus gritos, mas queria sumir dali para ninguém vê-lo chorar. Ele precisava ser forte não apenas perto de sua mãe, mas perto de qualquer pessoa ou as pessoas veriam que ele é mais fraco do que imaginavam.

- Chad! – Gritou ela, assim que segurou ele pelo braço.

- Me deixa! – Gritou ele, mas não tinha forças para se libertar de Rachel. Enxugou as lágrimas e virou o rosto.

- Deixe eu te ajudar...

- Ninguém pode me ajudar...

- Hey, eu estava lá também... Eu vi... Eu senti... Chad, olha pra mim.

- Não – Quanto mais Rachel tentava, mais ele virava o rosto.

- Chad, olha pra mim. – Ela virou o rosto dele com o dedo indicador da mão esquerda, as lágrimas ainda caíam, seus olhos azuis estavam extremamente vermelhos – Você pode contar comigo, você sabe...

Chad não disse nada, apenas tentou prender as lágrimas, sabia que aquele era apenas o começo de uma crise de choro. Rachel percebeu que só conseguiria algo dele quando se acalmasse, e o único jeito de demonstrar que se importava foi um abraço bem apertado. Ela segurou suas mãos pelas costas dele e ele abaixou a cabeça na dela, sentindo-se estranhamente protegido.

--

Chad abriu os olhos, estava sentindo calafrios. Logo os últimos acontecimentos foram jogados na sua mente, fazendo-o saber exatamente onde estava. Ele estava na casa de Rachel, na cama de Rachel, lembrou-se que dormiu ali preocupado que os pais dela chegassem do jantar romântico e pegassem um garoto ali, isso iria causar muitos problemas a pobre garota.

Ele olhou pra si mesmo, ainda deitado, só pra checar se ainda estava de roupa, ele sempre teve medo dessas situações por este motivo. Levantou e esfregou os olhos, nem sabia a hora, mas estava tudo bem, sua mãe nunca se preocupava com a hora, porque sempre perdia a dela.

Quando ouviu o barulho de um liquidificador, andou até a cozinha, seus passos faziam barulho no piso de madeira.

Rachel estava na pia, segurando a tampa do liquidificador para que o suco de maracujá que estava fazendo não chegasse ao teto. Chad parou e se escorou na parede, estava olhando para ela, que ainda não tinha notado sua presença.

De repente, o liquidificador parou. Rachel apertou alguns botões, mas ele não voltou a funcionar, parecia estar com algum problema.

- Droga – Reclamou ela assim que tirou sua tampa.

Meteu a mão lá dentro, devagar, queria ver se algo tinha feito suas pequenas hélices pararem.

- Cuidado – Disse Chad e o liquidificador ligou automaticamente.

Rachel deu um pulo, seu coração bateu forte, se ele não tivesse dito nada ela provavelmente estaria sem os dedos.

- Isso é perigoso – Continuou ele, também achando aquilo estranho.

- Você me assustou.

- Acho que salvei seus dedos.

- É... – Rachel riu e olhou para a mão, mais aliviada – Salvou mesmo...

- Obrigado por ter me trazido pra cá, espero que seus pais não fiquem chateados.

- Bom, eu não conto se você não contar.

Chad assentiu devagar, com um sorriso no rosto, ela mais uma vez estava fazendo ele se sentir bem mesmo que a vida tenha lhe dado todos os motivos para não se sentir assim. Eles trocaram um olhar tímido, que era exatamente o mesmo, mas viraram pro lado quando a situação tinha ficado constrangedora para ambos.

- Droga – Rachel lembrou do liquidificador ligado e correu para puxar o fio da tomada.

- Está pronto?

- Se com pronto você quer dizer “essa garota acabou de tentar fazer um suco”, então...

Chad abaixou a cabeça, o momento estava ótimo, não queria falar das coisas que eles estavam vivendo, mas sentia que devia.

- Sobre o que eu falei na delegacia... – Chad olhou para ela, que voltou sua atenção para ele, mas suas mãos colocavam o suco do liquidificador em dois copos – Acho que precisamos conversar.

- Eu sei – Respondeu Rachel – Preciso mostrar uma coisa pra você.

Chad ficou intrigado, mas não disse nada. Quando Rachel passou por ele para pegar o que iria mostrar, ele andou até o sofá, já com seu copo de suco nas mãos.

Chad ficou ainda mais intrigado quando Rachel chegou com uma papelada enorme e despejou no chão a sua frente, era muita coisa, mas era o necessário. Ele olhou para a pilha de papéis e para Rachel, confuso.

- O que significa isso? – Perguntou, torcendo para ela não dizer que eles precisavam achar alguma coisa no meio daquilo.

- Você é fã de Anna Trents, você vai gostar dessa mini busca. E antes que você fale alguma coisa sobre esse monte de lixo, a internet não ajudou.

Depois de ouvir o que ela dissera, Chad não achou má idéia mexer naqueles papeis, talvez tivesse alguma coisa ali que ajudasse a explicar o que estava acontecendo. Eles afastaram a mesa da sala e sentaram no chão, assim facilitaria as coisas. Só que a busca decepcionou, pelo menos nos primeiros minutos, aqueles papeis velhos não diziam quase nada.

- Rachel, onde você achou tudo isso? – Perguntou Chad, segurando duas folhas nas mãos. Na da direita estava uma foto de Anna Trents vestida de líder de torcida e a outra folha era sua certidão de nascimento.

- Na biblioteca. Pedi tudo o que tinha sobre Anna Trents – Rachel tomou um gole de seu suco e deixou o copo ao lado.

- Não estou achando nada. Acho que não precisamos saber sobre sua vida no colegial.

- Encontrei uma entrevista, espera – Rachel focou-se na folha em sua mão.

- Uma entrevista? Por que você não disse nada?

- Porque eu estou lendo... Ah... - Rachel suspirou e estendeu a folha para Chad – Nada aqui também, pode ler.

- Não, obrigado. Vou continuar procurando...

Rachel meteu a mão na pilha de papeis e puxou algumas folhas do meio, com cuidado para as folhas de cima não caírem. Ela olhou para a primeira folha que pegou, outra entrevista, Anna Trents era uma líder de torcida bastante famosa, as pessoas vivam fazendo entrevistas com ela.

- Mais uma entrevista com a garota mais popular do colégio, que saco. O que ela fez no colegial de tão importante pra ser tão entrevistada? Não creio que as pessoas vão ligar para a opinião de uma líder de torcida. Mas eram os anos 50, talvez faça algum sentido...

Chad parou de procurar nas folhas que tinha nas mãos e suspirou. Ele fitou o tapete vermelho da sala, estava pensando. Rachel percebeu que ele mudara de repente e olhou para ele, que voltou a procurar papeis na pilha novamente, mas não estava com o mesmo pique de antes.

- O que foi?

- É que você me lembra ela... –Chad mexeu em algumas folhas, tentando não parecer distraído.

- Quem?

- Alice... Ela estava sempre por perto. Se ela estivesse viva provavelmente estaria aqui nos dizendo que devemos seguir em frente ao invés de acreditar em coisas sobrenaturais... Ou ela continuaria me ignorando, como nos últimos meses...

Rachel engoliu em seco. Olhou pro tapete, a tristeza de Chad era comovente e ela estava prestes a piorar tudo com o que sabia. E ele parecia tão inocente, nem imaginava que ela já havia falado com Scott e que ele tinha deixado a verdade escapar. Mas o que Rachel podia fazer? Esconder a verdade dele pra sempre ou dar as respostas que ele queria por uma pessoa tão importante ter se afastado dele?

- Ela gostava de você... Sabia?

- Claro, ela era minha melhor amiga... – Chad deu um ar de risos, não tinha entendido.

Rachel não disse mais nada, queria que Chad entendesse tudo pelo seu olhar. O sorriso sem graça dele foi desaparecendo quando as coisas foram começando a fazer sentido. Então era verdade? Ela estava apaixonada por ele e usou o acidente pra se afastar, pois tinha medo de dizer a verdade. E morreu sem ter essa oportunidade.

- Scott me contou – Disse Rachel – Por favor, não fique com raiva por eu só ter contado agora...

- Não estou com raiva, só preciso... Processar...

- Chad, eu sinto muito...

- Vamos continuar procurando... – Chad lhe deu um corte, não queria mais falar sobre aquilo.

Só de pensar que sua melhor amiga morreu sem poder dizer o que sentia era doloroso demais, mas este nem era o pior. O pior era ter a certeza de que magoaria Alice se ela tivesse dito o que sentia. Isso formou um ciclo de culpa dentro de Chad que ele queria esquecer, antes que chorasse de novo na frente de Rachel e ela o expulsasse de sua casa por ser tão covarde.

Eles continuaram procurando as coisas pelos papeis durante mais meia hora, já estavam ficando cansados. Não tinham encontrado nada, mas pelo menos a tensão sobre a conversa de Alice havia baixado.

Só que outra coisa perturbava Chad. Quanto mais ele se aprofundava naquilo, mais triste ficava. Ele sentia que estava prestes a morrer e que não poderia aproveitar sua vida. Isso acabou lhe rendendo um ar de risos cheio de depressão, o que chamou a atenção de Rachel.

- Você ta legal?

- Claro, é só... É essa coisa que está acontecendo, sabe? Eu só achei que eu tinha muito mais coisa pra viver...

- Como o que?

- Ah, queria nadar de novo, sair do país, participar de um trote da faculdade, sexo...

Rachel não disse nada, apenas continuou ouvindo, parecia um discurso, mas era a coisa mais sincera que alguém já havia lhe dito.

- Tem tanta, tanta coisa que eu queria fazer... Tanta coisa que eu deixei de fazer, pensando que tinha tempo... É essa sensação de que preciso partir sem ter vivido bastante...

- Você não sabe se vai morrer... – Rachel olhou bem nos olhos dele, que tirou a atenção dos papeis que mexia para olhar nos olhos dela – Eu estou aqui com você procurando provas de que sua teoria está certa, mas... No fundo... Bem no fundo, ainda quero ver que ninguém mais vai morrer, que nossa visão foi o tipo de coisa que só acontece uma vez e por acaso e que nós dois somos loucos... Quero que os anos passem, olhar pra trás e rir quando lembrar que eu e Chad Barclay pensávamos que a morte estava nos perseguindo. Eu quero uma resposta, mas também quero que seja tudo coincidência...

- E eu quero viver... Demorei muito tempo pra perceber isso, mas não quero viver só eu... Não vai valer nada ficar aqui enquanto todos vocês se vão...

Rachel engoliu em seco assim que Chad olhou pra baixo, envergonhado. Ela sentia a mesma coisa que ele, a única diferença era sua esperança de tudo aquilo melhorar. Mas os olhos dele a torturavam, por que precisavam ser tão tristes? Por que ele precisava se odiar tanto e achar que era o fim? Será que ele não percebe o que ela sente por ele ou vai se fazer de desentendido como fazia com Alice?

Rachel sabia que era errado, mas sentia pena dele. Não deveria sentir isso por alguém tão querido, mas doía vê-lo daquele jeito, criando uma necessidade de protegê-lo, como se fosse sua guardiã, como se ele fosse tão frágil a ponto de quebrar com qualquer coisa. Mas ele não era fraco, estava longe disso, ele só estava arrasado porque tinha sido forte por um longo tempo.

- Eu acho... Eu acho que vou beijar você... – Sussurrou Rachel, fazendo Chad olhar pra ela e engolir em seco.

Ele estava nervoso, mas também sentia aquela vontade, só que o medo de decepcionar era muito maior.

- Eu acho que eu não sou bom nisso...

- Não importa... – Rachel se aproximou devagar do rosto dele, deixando o garoto paralisado no lugar onde estava, mal sabia o que fazer.

Ela fechou os olhos e encostou devagar seus lábios nos dele. Chad fechou os olhos e esperou o beijo continuar de acordo com a vontade de Rachel, mas o inesperado aconteceu. Ela acabou derrubando seu copo de suco com a perna e ele manchou o tapete.

- Droga! – Ela reclamou.

- Eu pego o guardanapo – Chad se levantou do chão com os copos nas mãos e correu pra cozinha.

Ele puxou o guardanapo de cima das facas que estavam na pia e deixou os copos na mesma. Caminhou na direção da sala, mas parou quando ouviu o liquidificador ligar. Ele deu meia volta e olhou pra ele, intrigado, assim como Rachel, que também ouvira o barulho.

Devagar ele caminhou na direção do liquidificador e desligou, mas olhou para ele por alguns segundos, pensando em como um aparelho poderia ter ligado sozinho. Deu meia volta e depois dois passos, até ouvir o triturador do ralo começar a girar. Ele olhou pra pia, já com medo. Se aproximou dela devagar e de longe olhou para dentro do ralo, ele podia ver aquilo girando.

Sem perceber, uma fumaça de frio saiu de sua boca e ele olhou pra porta da cozinha. Gritou o nome de Rachel bem alto, sabia o que aquilo significava.

--

- Hey, aqui é o Chad, se você está ouvindo isso quer dizer que não pude atender, deixe sua mensagem – Disse a caixa postal de Chad, fazendo Jill revirar os olhos.

Tudo parecia estar dando errado para ela naquele dia. Primeiro o clima, parecia que ia chover desde que combinara de jantar com Scott. Depois a demora, ela estava na frente da fábrica de seu pai, encostada no carro vermelho dele, esperando Scott terminar a discussão entre pai e filho para os dois saírem dali o mais rápido possível.

Apesar de tudo, Jill se sentia preocupada. Não era pra tanto, ligou para casa de Chad e quem atendeu foi sua mãe bêbada dizendo que ele estava novamente na delegacia porque só vive aprontando. Faltou pouco para Jill chamá-la de bêbada inútil e mandá-la parar de culpar seu filho pela morte do marido, mas não fez isso, pelo menos saciou sua vontade de acabar com o estresse treinando respostas para a senhora Barclay, percebendo assim que realmente tinha muita coisa a dizer.

- Hey Chad, é a Jill – Ela falou baixo, podia ouvir o barulho dos grilos do meio do mato – Liga pra mim, estou preocupada, sua mãe disse que você estava na delegacia de novo. Apenas... Me diga que você está bem e que ninguém mais se machucou, ok? Tchau.

Jill guardou o celular no bolso e cruzou os braços, fitando a enorme estrada deserta à sua frente. Encima de uma placa de desvio havia um corvo, que de cinco em cinco segundos fazia um barulho agudo parecido com um grito. E não demorou muito para outro corvo pousar exatamente onde o primeiro estava, este também começou a gritar. Jill fez cara de nojo, achava aquele animal macabro demais.

Ela olhou para trás e pôde ver Scott brigando com seu pai no segundo andar, pela enorme janela de vidro da sala dele. Seu pai parecia estar bastante nervoso, gritava com o filho e lançava folhas de papel pro lado. Mas Scott também não ficava atrás, mesmo de longe, Jill podia ver que ele estava vermelho de tanto gritar, parecia que ia explodir. E não era pra tanto, seu pai era ausente o suficiente para ele se sentir só, mas se achava no direito de querer comandar a vida do filho, como se sempre tivesse estado lá.

- Scott... – Sussurrou Jill para si mesma e andou na direção da fábrica, queria tirar Scott dali antes que acontecesse uma tragédia.

- Não, Scott! – Gritou seu pai, lá encima – Você não pode desistir da faculdade por causa de um simples hobbie!

- Você está dizendo que não posso decidir o que fazer com a minha vida? – Scott girou o anel em seu dedo, sempre fazia isso quando estava nervoso.

- Você é meu filho, eu sei o que é melhor pra você.

- Não, você sabe o que é melhor pra você e Delilah. Não vou ouvir sermão do cara que tem um caso com a secretária.

O senhor Linderman parou. Colocou a mão direta no rosto e enxugou o suor com um suspiro, estava se segurando para não dar uma lição no filho ali mesmo.

- Eu não quero mais brigar, Larry – Disse Scott, numa voz calma, nem sabia quando tinha sido a ultima vez que o chamara de pai.

- Sai da minha sala – Larry nem olhou para Scott, apenas apontou para a porta e tentou organizar os papeis bagunçados que estavam encima da mesa.

- Scott – Chamou Jill, na porta, logo percebeu que o clima estava pesado, mas eles dois tinham parado de gritar – Nós não vamos?

- É, acho que terminamos aqui – Scott sorriu e saiu, puxando Jill pela mão.

Os passos de Scott eram rápidos, ele tinha confiança em andar daquele jeito pela passarela de ferro, uma confiança que Jill não possuía. Ela olhava pro piso, eram cheios de buracos redondos, podia ver as madeiras serrando embaixo de onde estavam.

- Scott, para – Pediu ela.

- O que foi? – Ele olhou pra ela, fingindo ser forte.

Jill olhou novamente para baixo, aquele barulho das serras cortando as madeiras estava deixando ela louca.

- Eu pensei que a gente já tinha conversado sobre isso... Você e seu pai, isso não pode continuar.

- Eu sei... – Ele assentiu devagar – Não sei o que acontece quando fico perto dele, sinto vontade de berrar pra sempre...

Jill olhou pra cima e viu alguns cabos de aço movendo bujões enormes pelo ar, isso lhe dava um frio na barriga, mas era apenas porque ela achava aquele lugar muito perigoso.

- Você disse que a essa hora eles fechariam a fábrica... – Jill não tirava os olhos dos bujões.

- Estão quase, só faltam algumas madeiras – Ele percebeu seu olhar, ela estava com medo – Você por acaso está com medo desse lugar? – Seu sorrio era malicioso.

- Eu? Não – Jill engoliu em seco, não sabia mentir.

- Relaxa, nada acontece aqui, a não ser... – Scott foi até o parapeito do corredor de metal e fingiu que ia se jogar.

- Scott! – Gritou Jill, com medo.

- Calma amor – Ele fez de novo, mas dessa vez fingiu que iria cair – Opa!

Jill estava ficando desesperada, e se aquela brincadeira desse errado e ele caísse ali? Logo embaixo estava a enorme máquina de cortar madeira, ele morreria em instantes.

Dentro de uma cabine, o maquinista assistia tudo sorrindo. Ele odiava Scott por ser filho de seu patrão, estava rindo da sua idiotice. Seu gato preto Mastruz assistia tudo de cima do armário verde.

- Crianças... – Ele tomou um gole de café.

- Scott, para com isso! – Ela puxou ele pela camisa.

- Você é tão medrosa! – Ele gargalhou – Não vai acontecer nada... – Ele fingiu que ia cair de novo e Jill tomou mais um susto – Viu? Não vai acontecer nada.

No momento em que ele acabara de falar, o gato preto pulou no colo do maquinista e no susto ele acabou movendo uma alavanca. Dois bujões que estavam suspensos no ar deram de encontro, fazendo um deles cair no corredor de metal onde estavam Scott e Jill. O impacto tirou o sorrisinho de Scott imediatamente.

O corredor onde eles estavam caiu pro lado, fazendo Jill cair no chão perto da máquina de serra. Ela bateu a cabeça na ponta da máquina e ficou desmaiada no chão, sangrando, em meio a tanta poeira. Já Scott, conseguiu se segurar no corrimão amarelo. Ele olhou pra baixo, se soltasse, cairia encima de uma tora de madeira que o levaria direto pra serra.

Quando o maquinista percebeu o que tinha acontecido, acionou o alarme de incêndio, enquanto o senhor Linderman corria pra ajudar o filho. Ele se segurou no corrimão do corredor e devagar andou até o filho, que gritava por socorro.

- Pai! – Gritou Scott, quando o viu se aproximando – Me tira daqui!

- Alguém ajude! – Gritou o senhor Linderman, estava com medo de dar mais um passo e cair.

Mas Scott era seu filho, ele preferia morrer em seu lugar. Se aproximou e estendeu a mão para ele, deixando Scott se segurar apenas com a direita. Eles esticaram o braço o máximo que conseguiram, mas só tocaram nos dedos.

- Parem as máquinas! – Ordenou Larry – Parem!

 Scott olhou pro lado quando ouviu um barulho estridente. O corrimão onde estava segurando estava prestes a se soltar, sua ponta havia sido quebrada. Quando ele deu um ultimo grito, o corrimão se soltou. Ele caiu de costas dentro da máquina de cortar madeira enquanto seu pai assistia, desesperado. As pernas de Scott acabaram dando de encontro com a parte de ferro e quebrando, ele gritou com a imensa dor.

Ele estava encima da tora de madeira que andava na direção da serra, sem capacidade pra andar. Ele conseguia ver seus ossos pra fora, se fizesse qualquer movimento sentiria uma dor terrível.

- Eu não consigo sair! – Ele gritou.

- Parem as máquinas! – Gritou Larry, desesperado.

- Eu não consigo sair! – Scott gritou de novo, olhando pra serra, que estava cada vez mais perto.

Ele já estava soado, a roupa toda suja e o rosto cheio de poeira por causa da máquina. Ele sentia que ia morrer, mas não estava preparado, não quando tinha uma vida inteira pela frente ao lado de Jill.

Ele colocou seu corpo pra fora da máquina pelo buraco de ferro estreito na vertical por onde entrou e viu Jill sangrando no chão.

- Me ajudem! – Ele gritou de novo, dessa vez, lágrimas saíram dos olhos de seu pai.

Scott olhou pra frente e viu que em poucos segundos a enorme serra o trituraria. Era o fim. Ele deu um ultimo grito, antes da serra simplesmente parar. Ele nem acreditou que ela tinha parado, suas pernas quebradas estavam há menos de dez centímetros de serem serradas.

- Meu Deus! – Ele estava aliviado, mas ainda podia sentir a tensão, só não sabia como aquela serra tinha parado.

Quando ouviu gritarem por seu nome, ele olhou pro lado, era Chad. Ele estava correndo na direção da máquina, e não estava sozinho. Rachel estava perto da alavanca que parou a serra, olhando para ele muito assustada. Então, foi assim que ele foi salvo.

Mas foi só Chad se aproximar um pouco mais que um dos cabos de aço se rompeu e um enorme bujão caiu encima de Scott, esmagando-o. Chad caiu no chão e foi atingido pelo sangue do amigo, que morrera instantaneamente.

O coração de Chad acelerou, apesar de tudo parecer ter acabado. Não havia mais desespero, nem gritos, mas seu melhor amigo tinha acabado de morrer na sua frente de uma maneira brutal, sem ter a chance de ser salvo.

- Não! – Ele gritou e correu para onde estava os restos do corpo de Scott.

Rachel correu na direção dele e o segurou, apesar dele ser bem forte. Aos prantos, Chad tentava se aproximar dos restos de Scott, querendo que de alguma forma o tempo voltasse e ele pudesse impedir aquela tragédia.

- Não! Não! – Ele gritava mais, o maquinista tinha acabado de descer até lá e ficou chocado.

No chão, Jill abriu os olhos bem devagar, estava voltando a consciência pouco a pouco. Ela viu Chad no chão sendo agarrado por Rachel, chorando perto de alguém completamente esmagado que ela não sabia quem era.

Ela olhou pro chão sujo ao seu lado, o anel dourado de Scott estava bem perto de seu rosto, todo ensangüentado, perto de seu braço que saíra do corpo. Foi só assim que ela percebeu o que tinha acontecido e logo deu um grito de dor e pavor, que não conseguia nem de longe fazê-la se sentir melhor.

Compartilhe
  • Share to Facebook
  • Share to Twitter
  • Share to Google+
  • Share to Stumble Upon
  • Share to Evernote
  • Share to Blogger
  • Share to Email
  • Share to Yahoo Messenger
  • More...
Comentários
7 Comentários

Comentário(s)

7 comentários:

  1. Eu pensei que o capitulo ia so ser eles procurando alguma coisa
    depois lembrei do titulo quando amostra Scott na fabrica muito bom você conseguiu enganar direitinho
    muito bom seu quase salvamento ansiosissimo pelo proximo capitulo

    não Naomi é a proxima ela não pode morrer se ela morrer eu dezisto dessa historia brincadeira está de paraabéns

    ResponderExcluir
  2. lol ameei tava doiiida praa veer' *-* ansiosa para dia 11 lol *-* bjãooo e abraços'

    ResponderExcluir
  3. Amei esse capitulo.Super ancioso.Lindissimo o beijo do Chad com a Rachel

    ResponderExcluir
  4. Adorei,pobre Scott não merecia morrer desse jeito.Gostei do beijo da Rachel com o Chad espero que eles fiquem juntos.Ansiosa para o próximo capitulo,esperando A Punhalada 2.

    ResponderExcluir
  5. Scott era tão legal! =/ É a vida em Destino final kkk... Adorei o capítulo o/

    ResponderExcluir
  6. simplesmente adorei o cap. mt bem trabalhando focando principalmente nos sentimentos dos personagens e nao ficando somente na carnificina q geralmente esse genero tem fama. poxa sera q n temcomo vc deixar o chad e a rachel vivos no final, eu sei q e quase impossivel ms eu os simplesmente amo.
    by: junio sombra

    ResponderExcluir