domingo, 8 de janeiro de 2012

[Livro] Destino Final - Capítulo 4: Morte no Gelo

- Quando uma árvore é cortada, ela renasce em outro lugar. E todos nós merecemos ir para o lugar onde as árvores vivem em paz – Disse um professor, estava fazendo um discurso para homenagear aqueles que morreram na tragédia do navio Perry180.

Atrás dele havia um telão, colocado ali no cemitério para passar fotos das vítimas da tragédia. A frente dele, várias pessoas assistiam o discurso, completamente concentradas em suas palavras. Lá estavam os familiares das vítimas, que choravam sem parar, junto das pessoas que simpatizavam pela causa e os sobreviventes, que foram ali agradecer a Deus por ainda terem o privilégio de continuar respirando.

Chad estava na terceira fileira de cadeiras, talvez ele fosse o único que não estava prestando atenção no discurso do professor, ele estava mais preocupado em decidir se foi ou não uma boa idéia estar ali. Havia se passado dois meses desde aquele terrível dia, mas ele não se sentia bem, não teve uma melhora, e ele ainda podia sentir aquela sensação gelada junto dele todos os dias. É claro que não era tão forte quanto naquele dia, mas ele podia sentir algo estranho.

Rachel não estava entre as pessoas sentadas, estava mais afastada do local, escorada numa árvore ao lado de sua prima Naomi que já havia reclamado várias vezes sobre elas terem que ficar tão afastadas de tudo, mas no fundo entendia o que a prima sentia. As duas podiam ouvir o discurso do professor, mas Rachel, ao contrário de Chad, estava prestando atenção nas palavras daquele homem simples e educado.

- Muita gente não entende a morte... – Continuou o professor – Ela é dolorosa e definitiva, mas quando ela está chegando, as pessoas conseguem ver a paz. Param de lutar contra elas mesmas e se entregam a luz, que é o único consolo de seus entes queridos. Eles querem que aqueles que se foram, tenham paz.

Chad, assim que ouviu o barulho do vento, olhou para as árvores. Elas se mexiam demais e muitas folhas caiam no chão. Ele não sabia porque, mas achava que deveria prestar atenção nisso. Quando olhou para trás viu Serena na ultima fileira, sendo fotografada por vários paparazzi, e ele achou que aquele choro dela estava mais do que fingido. Sua roupa preta também era extravagante e ela havia exagerado no batom vermelho. Ainda tinha um véu preto sobre o rosto, que havia colocado para trás para poder limpar suas lágrimas com elegância, como a verdadeira estrela de cinema que ela não era.

Chad olhou para o outro lado e viu o policial Zac em pé atrás da multidão. Ele estava de farda ao lado de mais dois policiais, com certeza estavam em serviço. Mas Chad achou inútil colocar três policiais ali, numa homenagem a pessoas mortas, ninguém se atreveria a fazer nenhuma baixaria ou iniciar uma briga, mas talvez Zac estivesse ali mais por causa de seu amigo que morrera no acidente.

Chad olhou para os outros lados, mas não viu nenhum de seus amigos, eles realmente não tinham conseguido comparecer. Chad não os culpava, esses eventos sempre são chatos e a competição de Jill começava em poucas horas. Mas Alice deveria estar ali, se pelo menos conseguisse olhar pra cara do amigo novamente. Ele lembrou como sentiu falta dela nestes dois meses, mas também não a culpava por ter se afastado dele.

Quando ele olhou novamente para frente, o professor estava encerrando seu discurso. Ele estava descendo do pequeno palco colocado ali enquanto as pessoas estavam começando a levantar de seus lugares para aplaudir. Ele só fez o mesmo porque não queria ser o único a ter ficado de fora dos aplausos, mas não estava com a mínima vontade de estar ali, foi quando percebeu que não precisava. Ele pediu licença para as pessoas ao seu lado e passou por elas, não iria agüentar ouvir o discurso da mulher que estava começando a subir no palco.

Ele tirou o celular do bolso e discou o numero de Scott. Colocou o celular na orelha e fitou o horizonte fazendo careta, o sol estava batendo em seu rosto. Após três toques, Scott atendeu. Ele estava chegando no estádio onde Jill iria competir, tinha acabado de estacionar seu carro, com Alice do lado.

- Fala Chad, e aí, beleza? Desculpa não poder ter ido cara, se eu perdesse a competição, Jill iria me matar.

- Eu entendo. Não se preocupe. Isso aqui é uma chatice.

- Esse tipo de coisa sempre é...

Alice fez alguns sinais para Scott, queria saber o que Chad estava falando, mas Scott parecia meio nervoso. Sabia que eles estavam afastados e odiava aquela situação.

- Alice está com você? – Perguntou Chad, quando percebeu que Scott não estava falando normalmente ao celular, ele sempre fazia aquilo quando Alice estava por perto.

- Alice? – Repetiu Scott, nervoso, Alice começou a dar mais sinais a ele que indicavam que ele deveria negar – Não, não falo com ela há dias...

- Hum – Chad sabia que ele estava mentindo, Scott sempre fora um péssimo mentiroso, mas decidiu não comentar nada – Certo. Deseje boa sorte a Jill por mim.

- Ela não precisa, hoje é o dia dela – Scott sorriu, sentindo orgulho da namorada.

- Tudo bem – Chad também sorriu, mas um pouco triste – Se cuida.

- Você também.

Scott desligou primeiro, estava torcendo pelo fim daquela chamada. Ele jogou o celular no banco e Alice suspirou.

- Você é uma pessoa terrível, Alice Summers.

- Você não entende... – Ela olhou pela janela do carro.

- Ele é seu amigo e está passando por um momento difícil... – Scott tirou a chave do carro e guardou no bolso, mas não saiu.

- Também é difícil pra mim... – Ela olhou para ele – Não espero que você entenda.

- A única coisa que eu entendo é que você é egoísta e acabou deixando seus motivos ocultos atrapalharem uma amizade de infância. Acredite, eu entendo perfeitamente – Scott saiu do carro.

Alice deu um ar de risos, estava ofendida, não sabia que Scott tinha se tornado inteligente ao seu nível. Ela abriu a porta do carro, já de mal humor e o seguiu para o estádio, já sentindo o frio daquele esporte que para ela era estranhíssimo.

No cemitério, Chad ainda estava com seu celular nas mãos, vendo fotos dele junto de seus amigos, estava sentindo saudades. Ele parou na foto de Alice, sua (ex) melhor amiga, e desistiu de continuar vendo as outras fotos, não era do tipo que se torturava. Assim que guardou o celular no bolso, ele ouviu chamarem seu nome. Quando olhou para trás, sentiu um frio na barriga, era Rachel, que o fez lembrar daquele frio na barriga que sentia quando falava com alguma garota além de fazê-lo acreditar que ela era a única pessoa com quem tinha algo em comum.

- Oi – Ela disse e esperou uma resposta dele.

As bochechas de Chad ficaram imediatamente vermelhas, ele achava que não conseguia nem dizer oi sem lembrar que ela era a garota que possivelmente teve a mesma visão que ele, mas era exatamente por isso que ela estava ali, falando com ele.

- Ei... – Ele sussurrou, colocando as mãos no bolso do paletó preto.

- Eu acho... – Ela balançou a cabeça, achava que estava falando besteira – Eu acho que se passou muito tempo desde aquele dia, mas ainda não tive a oportunidade de falar com você...

- Eu não quero ser chato e nem grosso, mas não quero falar... Disso... – Ele deu uma breve olhada ao redor, demonstrando a ela que queria evitar falar do acidente ou de seus derivados.

- Você não... Se pergunta o que aconteceu?

- Acho que estou mais para aquele tipo de pessoa que acha que se ignorar um problema, ele vai sumir... – Ele deu um ar de risos e abaixou a cabeça, estava se achando ridículo.

- Ou alguém que evita algum assunto porque é doloroso demais...

Chad olhou para ela, intrigado. Ele não podia deixar de achar que aquela garota com quem nunca falou lhe trazia uma sensação boa, como se ele não fosse o único no mundo.

- Rachel! – Gritou Naomi lá atrás, ainda estava parada perto da árvore.

Rachel olhou para ela e percebeu que precisavam ir embora ou pelo seu rosto de tédio, ela teria uma crise existencial. Chad também olhou para Naomi, lembrou o quanto a achava engraçada.

- Tenho que ir... – Disse Rachel, quase sorrindo.

- Ela não é nada sutil, não é?

- Ela prometeu não beber no café da manhã por quatro meses se eu ficasse bem – Rachel olhou para ela novamente – Bom, digamos que ela costuma ter algumas crises de abstinência...

Chad olhou para Naomi e a viu batendo seu tamanco preto na árvore ao seu lado, parecia estar retirando cocô de cachorro dele, pela cara de nojo que fazia. Rachel olhou novamente para Chad e deu um meio sorriso tímido, que foi o mesmo que ele fez.

- Bom, a gente se vê – Ela disse – Se cuida.

- Você também...

Rachel deu meia volta e andou na direção de Naomi. Chad a observou indo embora, percebeu que aquele foi o primeiro momento em meses que ele realmente se sentiu bem, e o mais estranho é que não aconteceu nada demais.

- O que aconteceu com seu salto? – Perguntou Rachel.

- Lama. Você sabe quanto eu paguei por eles?

Chad sorriu. Não podia ouvir o que Naomi estava dizendo, mas ela era campeã em fazer qualquer um dar gargalhadas com suas expressões faciais. Rachel olhou mais uma vez para Chad e sorriu, antes de sair dali com Naomi.

--

- Amor, vai dar tudo certo – Scott estava tentando fazer Jill relaxar ou o seu nervosismo iria atrapalhá-la na competição.

O coração de Jill parecia que iria sair pela boca. Eles estavam numa sala ao lado da grande pista de gelo e toda vez que ela olhava para lá, algo lhe dizia que ela não iria conseguir. Ela sentia que nada fazia sentido, nem mesmo sua roupa. Ela usava um coque que prendia todo seu cabelo e um vestido brilhante preto e branco, que mostrava a dualidade que seria sua dança, mas para ela, as outras garotas estavam bem mais bonitas.

- Eu não sei se sou tão boa, amor...

- Claro que você é – Ele segurou no rosto dela com as duas mãos – Você é minha namorada por um motivo, porque você é a única pessoa que consegue ser boa em tudo. Agora sente lá, espere a sua vez e tenha confiança.

Alice, que estava sentada num banco marrom perto deles, olhava aquela cena com nojo. Nunca tinha visto um casal tão meloso quanto aquele e ultimamente não estava tendo paciência para aquele tipo de coisa, mas não podia ser rabugenta com os únicos amigos que lhe restaram.

- Você vai conseguir, Jill – Disse Alice, Scott e Jill voltaram sua atenção para ela – Você é a melhor patinadora dessa porcaria de cidade, se não ganhar, eu dou um jeito e destruir a vida dos juízes.

Jill sorriu, as palavras de Scott e Alice realmente estavam ajudando.

- Eu te amo – Disse Scott, que não deu tempo para ela dizer o mesmo com o beijo que lhe deu – Agora vai lá.

Jill sorriu e correu para o banco de espera. Scott assistiu ela desaparecer de sua vista e depois olhou para Alice, que estava sem expressão alguma no rosto.

- Você é legal quando quer – Ele disse.

- Eu sei, só falta você descobrir a maneira de me fazer querer – Ela se levantou e andou na direção da escada de ferro.

Ela olhou para cima e viu o grande corredor de ferro segurado por cabos de aço que ficava encima da platéia. De lá eles podiam ver melhor e com privacidade, sem aquele monte de gente gritando e empurrando. Scott subiu bem atrás dela, segurando no corrimão. Os dois ficaram bem no meio da passarela de metal, de onde podiam ter uma perfeita visão de Jill, que estava sentada no banco de espera colocando seus sapatos de patinação.

Alice se escorou no parapeito e olhou pra baixo, um homem num carrinho de pipoca estava passando perto da vidraça que dividia a platéia da pista de gelo. Ela nunca tinha tido medo de altura, mas naquela noite, parecia diferente.

- Não sei como ela consegue se equilibrar nisso – Disse ela – Uma vez tentei fazer isso, e só o que consegui foi uma cicatriz eterna no joelho.

Scott riu, nunca tinha se interessado em saber o motivo daquela cicatriz no joelho de Alice.

- Espero que ela vença, sabe... – Scott olhou pra ela lá embaixo, todo orgulhoso e esperançoso – Ela merece, a gente passou por muita coisa nesses últimos meses...

- Tipo o que? – Alice olhou pra ele, curiosa.

- Eu não queria que ela escolhesse a patinação no meu lugar e ela ficaria infeliz se largasse seus sonhos por mim. Sem falar a nossa quase morte. Deus, eu lembro daquele dia todos os dias.

Jill, lá embaixo, olhou para eles e acenou. Scott acenou de volta e sorriu. Ela já estava preparada para competir, finalmente, depois de dois meses de espera e algumas brigas com o namorado.

No andar debaixo, bem onde ficam as máquinas de resfriamento que mantêm a pista intacta, uma delas parecia ter encontrado algum problema. Um técnico estava consertando, mas ao seu ver, não era nada que prejudicasse os patinadores. Era perigoso, mas ele estava quase entrando numa das máquinas, mas não tinha mais medo daquilo, era a profissão que exercia há dez anos. Naquele momento, ele estava mexendo em alguns fios, e cortou um verde. Aconteceu um curto e saíram faíscas. O homem reclamou, mas achou que não era nada demais. Só que surtiu efeito na outra máquina que começou a fazer a temperatura cair, sem ele perceber.

Lá encima, Jill se preparava para entrar na pista. Seu parceiro estava ao seu lado e parecia bastante calmo para aquela situação. Ela sentia frio, de dois em dois minutos esfregava suas mãos umas nas outras e expirava nelas.

- Você está nervosa? – Perguntou Allen, seu parceiro.

- E como estou...

- Relaxa, eu vou guiar você, tente não cair e quebrar uma costela, apenas.

Jill gargalhou. Deu um soco de amigo no ombro de Allen, já estava começando a se sentir mais leve.

--

Chad abriu a porta de sua casa e num grito avisou a sua mãe que tinha chego. Ele já havia tirado seu paletó preto, estava com ele encima do ombro, segurando-o apenas com o dedo.

Ele despejou as chaves no porta-chaves e chegou até a sala, sua mãe estava dormindo no sofá. Na mesinha ao lado dela havia um cinzeiro, com dois cigarros ainda acesos. Ele suspirou, mas já tinha se acostumado com o fato dela não ter mais salvação.

Ele andou até seu quarto e a primeira coisa que fez foi tirar a gravata. Estava bastante apertada, ele sentiu-se aliviado. Logo depois tirou a camisa social branca e jogou encima da cama, não estava com paciência para ser o filho perfeito de novo e dobrá-la. Ele tirou a calça social e os sapatos logo depois e foi direto ao guarda roupa tirar roupas leves para passar o dia. Ele pegou a primeira peça de roupa que viu e se vestiu. Foi pra sala assim que lembrou que deveria ouvir os recados.

Havia dois recados na secretária eletrônica. O primeiro era de sua tia Marnnie, ligou novamente para perguntar se ele estava bem. Ele parou o recado na metade e pulou para o outro, que também era de sua tia Marnnie, que continuou o falatório que não terminou no primeiro recado. Ele não agüentou, apagou os dois recados e correu pra cozinha, estava morrendo de fome.

Abriu a geladeira e tirou de lá o sanduiche e o suco que preparara de manhã, mas o sanduiche estava congelado. Colocou os dois encima do balcão central da cozinha e foi até o armário pega talheres, mas parou de procurar quando ouviu um barulho estranho. Eram estalos, que no começo pareceram vir de lugar nenhum, mas depois ele percebeu que vinham da geladeira. Olhou para ela de um jeito estranho, ela nunca havia feito esse barulho. Andou até ela devagar e a abriu, percebeu que o barulho vinha do congelador. Ele olhou para lá, estava esfumaçando de tão gelado, mas os estalos estavam acontecendo porque a geladeira misteriosamente desligou sozinha e iniciou seu descongelamento.

Chad achou estranho, mais estranho ainda era o agouro que aquilo estava lhe dando. Ele enfiou a mão no congelador pra ver se conseguia tirar uma pedra de gelo e sentiu aquela dor em seus dedos. Mas quando foi retirar sua mão, percebeu que seus dedos estavam grudados. Ele fez força para se soltar e conseguiu, mas ficou ferido, deixando gotas de sangue caírem no assoalho. Ele estava assustado, aquilo nunca tinha acontecido. Segurou a mão ferida com a outra mão e notou o estrago, sua pele havia ficado no congelador.

Fechou a geladeira com um chute, estava revoltado. Andou até a sala, sem se preocupar se estava fazendo algum tipo de barulho que acordaria sua mãe. Passou pela mesinha do corredor para entrar no banheiro e acabou derrubando um porta retrato no chão. Ele não ligou, estava mais preocupado em cuidar de seu ferimento. Mas foi só entrar no banheiro que sentiu um ar gelado. O vento bateu por entre suas pernas e ele olhou para a janela do banheiro, mas estava fechada. Ele começou a sentir muito frio, como se alguns graus da temperatura tivessem abaixado de repente. Olhou para suas mãos brancas, o sangue se destacava nelas. Foi aí que ele suspirou e percebeu que de sua boca saiu uma fumaça agourenta, aquilo, de alguma forma, parecia ser bastante estranho.

Ele olhou para o porta retratos que caiu e andou até ele. Quando o juntou do chão e olhou para a foto, percebeu que o vidro tinha quebrado no meio da foto de Jill e Alice nas montanhas. Ele saiu correndo imediatamente para procurar seu celular, tudo aquilo tinha que significar alguma coisa.

--

Scott começou a gritar quando o locutor anunciou a entrada de Allen e Jill na pista, eles iriam fazer a dança do cisne. O publico estava batendo palmas e isso encantou Jill. Ela entrou na pista com Allen e logo sentiu que o gelo estava diferente. Ela olhou para Allen, desconfiada, pois não era apenas o gelo, tinha algo errado que ela não conseguia explicar.

- Tem alguma coisa errada... – Ela disse.

- O que?

- Nada... Estava só pensando alto... – Ela balançou a cabeça, sabia que aquela sensação estranha era por causa do seu nervosismo.

Os dois ficaram na posição inicial, que desde já dava um toque de luxuria e sensualidade na dança.

- É isso aí, Jill! – Gritava Scott, lá de cima!

- Vai Jill! – Gritava Alice, enquanto assoviava com a ajuda de sua mão.

Ela olhou para o enorme placar e viu a pontuação, nenhuma das outras que se apresentaram tinham conseguido uma boa nota, e ela estava positiva para com Jill, já que o tema de sua dança é muito bonito.

O que Alice não conseguia ver era que os cabos de aço que sustentavam tudo pareciam não estar seguros na parte de cima. O peso era enorme, e eles eram antigos, Scott percebeu alguns estalos, mas preferiu focar apenas em Jill.

Quando a musica começou a tocar, Allen segurou Jill no alto e girou junto dela, e desde já começaram a ser aplaudidos. Depois começaram a patinar um do lado do outro, tentando atuar assim como patinavam. Jill ainda estava com aquela sensação na cabeça e estava com um medo infundado de perder o equilíbrio, mas não era nada que uma concentração não resolvesse.

A máquina lá debaixo continuava diminuindo a temperatura, o gelo estava derretendo. E os cabos de aço pareciam moles, estavam fazendo cada vez mais estalos.

--

Rachel estava dentro do carro quando viu seu celular tocar. Ela olhou no visor e era um numero desconhecido, preferiu recusar a ligação e prestar atenção na estrada. Ela já estava quase chegando em casa, faltavam poucos metros. Saiu do carro assim que estacionou, seu celular tocou de novo, mas ela não ligou, estava vendo algo estranho. Enquanto seu celular tocava em sua mão, ela se perguntava se os pingos brancos que estava vendo cair do céu era realmente neve, porque era impossível naquela época do ano.

Com cautela, Rachel se aproximou das poucas bolinhas brancas que caiam do céu e tentou tocá-las, sem perceber que seu celular ainda tocava. Ela sentiu um ar gelado subir por seu corpo e suspirou, aquela fumaça tinha acabado de sair de sua boca. A ultima vez que sentira algo parecido foi bem antes de entrar no navio Perry180.

Finalmente ela atendeu o celular, e respondeu com uma voz fria.

- Rachel? – Perguntou Chad, do outro lado da linha.

- Estou aqui... – Rachel olhou para cima de novo, mas não havia mais neve.

- Preciso falar com você. Sei que vai parecer estranho, mas... Estou com uma sensação estranha.

Rachel engoliu em seco, sabia exatamente do que ele estava falando.
 
--

Mais uma salva de palmas foi dada para Jill e Allen pela platéia. As acrobacias dela eram perfeitas e os dois tinham química. Scott continuava gritando lá encima, tinha certeza que aquela era a melhor dança da noite.

- Sabe, Scott... – Começou Alice, parecia um discurso – Você tem razão, eu sou uma má pessoa...

- O que? – Ele olhou pra ela rapidamente, mas não conseguia tirar os olhos de Jill por muito tempo.

- E eu sou uma idiota... Precisei usar a primeira coisa que apareceu para eu me afastar do meu melhor amigo antes que ele me diga que só gosta de mim como amiga...

- O que? – Agora sim Scott estava interessado no assunto.

- Não quero me machucar...

- Alice, eu... – Scott tinha ficado sem palavras, ele queria dar atenção a amiga, mas queria continuar vendo Jill dançar no gelo.

O gelo da pista estava derretendo cada vez mais e o placar já tinha começado a balançar. Na platéia, uma garotinha já estava percebendo o movimento estranho do enorme placar e ficou olhando. Jill e Allen continuavam a patinar, estavam na parte onde aproveitavam a pista inteira para a dança.

Lá de cima, Alice que estava certa de que queria contar tudo a Scott começou a perceber que tinha alguma coisa errada com o placar. Ela olhou para Jill na pista e ficou preocupada, estava juntando as peças.

- Ai meu Deus! – Ela gritou, bem na hora em que Jill pulara.

Os cabos de aço se soltaram e o placar desabou na direção onde Jill estava. Ela olhou pra cima e num movimento rápido desviou-se do placar, que imediatamente furou o chão. Ela caiu pro lado e o chão de gelo furo. A água em que ela se encontrava estava tão gelada que ela gritou de dor.

- Jill! – Gritou Scott.

Os próximos cabos de aço se arrebentaram e a enorme placa de ferro desabou, bateu no corredor de metal onde Alice e Scott estavam. A batida foi tão intensa que o corredor desabou para o lado esquerdo. Apenas Scott conseguiu se segurar no corrimão, mas Alice caiu lá de cima de costas no vidro que separava a pista da platéia.

Os gritos começaram quando as pessoas perceberam o corpo de Alice encima do vidro. Scott olhou pra baixo e ficou horrorizado, nunca tinha sentido tanto medo na sua vida e sabia que se não se segurasse firme, também iria cair. Ele olhou para Jill no meio da pista, que estava sendo retirada de dentro da poça de gelo por alguns homens que trabalhavam lá.

As pessoas começaram a correr, mas Scott ainda se sentia paralisado. O vidro atravessava o corpo de Alice completamente e era de longe a coisa mais horrível que ele vira na vida.

--

Rachel parou o carro assim que viu Chad sentado no banco da praça. Ele estava com as mesmas roupas de sempre, só que dessa vez usava o capuz da camisa na cabeça. Ela andou até ele, com as mãos no casaco. Quando ele a viu, abaixou o capuz imediatamente.

- Obrigado por vir – Ele disse.

- Não tem problema – Ela sentou-se ao lado dele e compartilhou da mesma vista.

Algumas crianças brincavam no parque à frente deles, famílias se divertiam por ali, era uma vista completamente normal. Eles ficaram sentados ali, sem falar nada, um esperando o outro abrir a boca para aquele encontro não ser completamente monótono. E Chad sabia exatamente o que falar, já estava com coragem o suficiente.

- Quando eu tinha sete anos eu velejava com meu pai... – Chad começou a falar, tinha aquela história pronta na cabeça desde quando se entendeu por gente e Rachel começou a prestar atenção – Ele era apaixonado pelo mar, sabe, nunca tinha visto alguém tão encantado com isso... Ele me ensinou tudo o que eu sei hoje, ele era meu herói, ele só tinha um problema com bebida, que começou a se tornar grave depois das brigas com a minha mãe... Uma vez fomos velejar e ele estava bêbado. Era dia de tempestade e eu não fiquei com medo porque ele estava ali comigo pra me proteger. Ele estava tão, tão bêbado, que caiu na água e se afogou. Eu fiquei dois dias dentro daquele barco sem rumo, chorando, sem saber como voltar pra casa e eu não entendia a morte... Eu pensei que a qualquer hora meu pai se cansaria de brincar comigo e sairia da água pra me levar de volta, mas isso não aconteceu. Algumas pessoas me acharam depois disso, eles só não sabiam que eu iria ter desejado não ter sido salvo...

- Eu sinto muito... – Rachel engoliu em seco, estava pasmada com a história, prestou atenção em cada detalhe e não deixou de se imaginar naquela situação.

Chad falava com o olhar perdido, lembrando de todas aquelas cenas, eram as coisas mais nítidas em sua cabeça.

- Quando eu estava naquele barco eu senti solidão, dor, medo, tudo junto e eu sabia distinguir perfeitamente apesar da idade – Ele olhou para ela – Em toda minha vida eu só senti isso duas vezes. Quando eu estava naquele barco sem meu pai e quando eu vi o navio explodir antes de acontecer. E hoje... Hoje, eu senti exatamente a mesma coisa que eu senti naquele dia. Aquela sensação gelada, aquela sensação de que vai acontecer alguma coisa ruim... Eu não consigo controlar.

- Você viu alguma coisa?

- Não, mas eu senti... E eu não sei o que está acontecendo...

- Bom... – Rachel olhou pra baixo, estava escolhendo as palavras certas. Depois olhou para ele, decidida – Então acho que nós dois somos loucos...

- Você... Também...? – Chad nem conseguiu continuar a pergunta.

- Quando você me ligou eu senti que alguma coisa iria acontecer... Como naquele dia... Eu só não sei se devemos buscar respostas porque eu não agüento mais que minha vida gire em torno deste acidente. Eu quero ser...

- Normal. – Completou Chad.

- E segura...

- Acho que foi um erro eu ter falado com você, me desculpe – Chad se levantou, Rachel fez o mesmo.

- Eu entendo você...

- Não, você não entende. A gente pode ter sentido a mesma coisa, mas eu quero respostas e você quer libertação. Sou eu quem entende você, eu só... – Ele olhou pro lado e suspirou, depois olhou para ela novamente com a voz mais calma – Pensei que você queria saber porque isso aconteceu com a gente...

- Você não pode me culpar por simplesmente querer que isso vá embora e seguir a minha vida, que talvez eu nem tivesse mais o direito de vivê-la...

- Eu vi, Rachel... Quando você e eu despencamos do casco do navio e fomos consumidos pelo fogo. E eu acho que você também viu...

Rachel engoliu em seco, ela lembrava perfeitamente daquela cena como se estivesse acontecendo naquele exato momento. Ela ainda conseguia sentir a sensação de sua pele estar sendo queimada e isso quase a fez engasgar.

- Eu vi... – Ela sussurrou, desde já se arrependendo por ter compartilhado aquilo com Chad.

O celular de Chad tocou. Ele e Rachel ficaram se fitando por alguns segundos, mas logo depois ele atendeu. Ela olhou pro lado, só para não fazê-lo pensar que estava escutando a conversa dele, mas depois de algumas palavras, percebeu que ele parecia estar em choque. Logo ficou preocupada, afinal, que notícia o faria fazer aquela cara de morte?

Quando desligou o celular, ele o colocou de volta no bolso e olhou para Rachel novamente.

- O que aconteceu? – Ela perguntou, curiosa.

- Alice está morta. 

CAPÍTULO 5: Coisas Quentes
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Comentários
13 Comentários

Comentário(s)

13 comentários:

  1. nossa, quase achei que jill iria morrer igual a candice de premonição 5!

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  2. no caso serena será a proxima! ela foi triturada no navio,talvez um ventilador caia em cima dela,sei lá,eu comecei a escrever um livro chamado ''DESTINO 180'' que conta a história de um grupo de estudantes que vão à um passeio de ônibus um caminhão cheio de toras e pneus tomba e destroi ônibus,na história aparece também uma sobrevivente, chamada HELENA que morre no final devido ao envolvimento,luciana é a personagem principal,bernardo,júlia,isabella,igor,edu,léo,roger,joana,shantal,heloisa,rodrigo,camila,july,marcela,raquel e daniel seguem a história.

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  3. Pq a Alice ? Podia ter morrido a jill logo quando ela fala pq se afastou de chad ela morre ...destino cruel ...hahahahahahahaha . . . Otima Historia . Mal consigo esperar até dia 14 .

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  4. Próximo a morrer será Serena:a mais bitch.Espero anciosamente o próximo capítulo

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  5. Caramba, agente fica na espectativa é jill ou alice que vai morrer, quando eu vi o titulo, pensei é a jill, vc enganou direitinho, muito melhor que nos filmes. Parabens

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  6. En choque tudo levando a crer que quem morreria seria a Jill,mas a Alice?Aprovado...Pra que manter drama romântico em uma história de terror?

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  7. Ótimo capitulo,tbm achei que seria a Jill que morreria,mais vc pulou o óbvio e foi logo na Alice gostei muito.Quem acha que o Chad e a Rachel vão formar um casal manda um \o nos comments.Esperando o próximo sábado :D!!

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  8. como será que serena vai morrer? o titulo é ''coisas quentes'' na visão ela morre triturada pelo motor do navio. mais uma vez vc deixa um ar de mistério no ar!

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  9. depois de serena, será ZAC ele morreu com uma pancada na cabeça, logo depois SCOTT morreu com o choque na água, depois NAOMI morre com a cabeça partida, JILL morre carbonizada, ela está meio JANET né? os protagonistas RACHEL e CHAD morrem logo depois, talvez a morte de serena se interligue com a morte de scott ou a de jill? né

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  10. Ah, não! A Alice! Preferia que fosse a Jill. Mas tá valendo. Muito boa sua história...

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  11. ainda bem que foi a Alice, não é que eu não goste da Alice é que eu prefiro a Jill muito bom

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  12. Diego pq a Alice e não a Jill, porque na preminição a primeira a morrer é a Alice não a Jill' você concerteza nunca assistiu os filmes de premonição'

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  13. Porra João, kkk , eu gostava da Alice, eu imaginava ela como a MEg de supernatural! besteira! kk

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